2. TEORETISK RAMMEVERK
2.4 I NTERNPRISING
Começamos esse tópico com uma assertiva: acreditamos que os gêneros de escrita na Antiguidade Tardia não tinham um molde fechado, sem nenhuma possibilidade de haver, em alguns testemunhos, elementos de outros gêneros imbricados dentro de um texto. Ao realizarmos o tratamento documental dos discursos selecionados de Gregório de Nissa intentaremos mostrar a inter-relação entre a miscelânea de características discursivas com o momento em que os testemunhos foram escritos; afinal, entendemos a Antiguidade Tardia (séc. III-VII d.C.) como
[...] um período da História que não é nem o fim de um mundo, nem o começo de outro, mas tudo isso ao mesmo tempo, principalmente, um período possuidor de sua própria identidade, de sua irredutível singularidade, que se deve estudar por ele próprio (CARRIÉ, 1999, p.25).
Sendo assim, conforme já apontado, tal visão, referente a essa temporalidade histórica, abarca práticas de rupturas e de continuação, possibilitando-nos encontrar na retórica um elemento de continuidade, haja vista que
[...] podemos ver nas disputas doutrinais do século IV uma série de esforços continuados para resolver estas questões – focalizando exatamente na linguagem religiosa e envolvendo, inevitavelmente, a reabertura das questões platônicas sobre a linguagem, significado e descrição. Mais recursos foram utilizados através de tropos figurativos como metáforas e símiles e com estes, os paradoxos.
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Estas características estavam arraigadas a todos os tipos formais de discursos religiosos e inerentes à linguagem cristã (CAMERON, 1994, p.170).
A partir dessas visões, acordamos que os discursos cristãos acoplaram à retórica clássica uma linguagem religiosa, adaptando e transformando-a a seus propósitos e, como assinalou Carvalho (2010, p.28), o orador tornou-se “porta-voz dos interesses do grupo social a que pertencia”. Para nós, tal grupo social configura- se em grupos cristãos, sejam eles nicenos ou arianos eunomianos.
Ainda nessa interpretação, se, do final do II século d.C. até meados do IV século da mesma era, podemos visualizar um “l’Empire romain en mutation”, como Carrié (1999) assinalou, será que não podemos entender a própria retórica, característica intrínseca ao modo de discussão dos antigos, seja na oratória ou em um texto escrito, inserida, igualmente, em um processo de mutação? Compreendemos que sim, haja vista a miscelânea de elementos de vários gêneros discursivos que encontramos nas obras de Gregório de Nissa, conforme discutimos adiante.
O que podemos inferir é que o gênero de escrita, escolhido e selecionado por determinado autor, além de apresentar características definidas, se relaciona com o contexto histórico em que ele se encontra. Em uma via de mão dupla, o tipo de veículo em que um texto escrito está inserido é influenciado e, ao mesmo tempo, influencia a sua temporalidade.
No tocante às temporalidades presentes no ofício do historiador, Rémond (2003, p.14) apresenta três tempos distintos que devem ser levados em consideração pelo historiador: as temporalidades de quem escreve, a do momento em que se escreve e, por último, a temporalidade sobre o momento, propriamente dito, que se escreve. A partir dessas informações, estendemos essas temporalidades ao texto escrito antigo. Em nosso entendimento, a primeira temporalidade diz respeito à longa duração, pois o autor leva para o seu texto tudo o que o compõe enquanto ser humano: sua memória desde seu nascimento, seu aprendizado retórico, seu pertencimento social e a paideia que circulava naquele momento; a segunda, do momento em que escrevemos, pertence à curta duração, uma vez que o momento da escrita em si é mais rápida e efêmera quando
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comparada à temporalidade anterior; e, por fim, o tempo sobre o qual escrevemos é variável pois pertence, em nosso entendimento, a média e longa duração, já que tal temporalidade está relacionada aos nossos objetivos e hipóteses ligadas aos fatos que são narrados. Portanto, a temporalidade inserida em um texto escrito representa, para nós, a inter-relação dessas três apresentadas e quaisquer tentativas de entendimento sobre a forma de escrever da Antiguidade deve perpassar a relação do texto com o seu contexto.
No que diz respeito a essa aproximação entre contexto histórico e gêneros de escrita, podemos notar que o imbricamento de tipos de textos não é passível de nota somente nos estudos concentrados na Antiguidade Tardia. A historiadora Natália Frazão José, em suas pesquisas acerca da construção da imagem do Imperador Augusto, a partir de vários testemunhos do período do Principado Romano, nos esclarece:
Existe certo nível de dificuldade em estabelecer diferenças entre gêneros na Antiguidade romana. É certo que cada gênero possui as suas especificidades. No entanto, o contato permanente entre estes e as múltiplas relações estabelecidas entre os homens dos saberes e, por sua vez, entre estes e seus públicos, permitiam trocas, apropriações, reapropriações e recriações literárias. Toda essa situação favorecia a criação de obras com marcas predominantes, mas permeadas por um, dois ou, até mesmo, mais gêneros. Esse é o caso de Veléio Patérculo (p.31-32). O estilo velleiano reflete a receptividade do autor para com vários estilos literários, demonstrando um peculiar padrão biográfico [...]. Sua obra agregaria aspectos de outros estilos, tais como a retórica, o panegírico e o breviarismo, todos presentes em Roma do século I d.C. e, na maioria das vezes, diferentes em seus cernes. Desta forma, tratar-se-ia de uma obra híbrida, com vários padrões de escrita [...] (JOSÉ, 2012, p.31).
Como podemos perceber, ao longo do processo histórico, as investigações das variadas especialidades de nossa disciplina também tem procurado relacionar o tipo de escrita ao contexto histórico. A título de exemplificação, citamos os estudos sobre o gênero biográfico apresentado por Philippe Levillain:
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[...] a biografia pode ser um empreendimento de homologação seja do conhecimento adquirido, seja das ideias prontas sobre um homem, seja das relações entre um sistema político e a coletividade (LEVILLAIN, 2003, p.175. Grifo nosso).
Logo, essa inter-relação de elementos de diferentes gêneros literários que encontramos no testemunho de Gregório de Nissa, longe de ser uma imprudência sofística, configura-se, em nossa opinião, como um reflexo do processo de mutação que o Império Romano estava vivenciando em todas as esferas da sociedade. Sejam elas políticas, econômicas, religiosas, administrativas, e/ou militares.
Consonante nessa discussão, Renan Frighetto (2009) parte dos conceitos de reformulação e readequação para analisar as mudanças que ocorrem no processo histórico. Para esse historiador da Antiguidade Tardia, ambos os conceitos
[...] partem da ideia de mudanças que são perceptíveis pela leitura das fontes históricas e a sua correlação ao contexto em que as mesmas foram produzidas. Dessa forma podemos averiguar como se deu, por exemplo, a reformulação do pensamento e das ideias políticas forjadas, num primeiro momento, no mundo clássico greco- romano e como estas foram aproveitadas pelos pensadores de períodos históricos posteriores (FRIGHETTO, 2009, p.102. Grifo do autor).
Sendo assim, a partir do exposto, por que não dizer que o próprio discurso escrito estava em mutação, readequando-se, reformulando-se, modificando e influenciando o modo de escrever dos antigos? É o que tentaremos mostrar juntamente com o Tratamento Documental dos discursos do Nisseno.