2. TEORETISK RAMMEVERK
2.3 D ESENTRALISERING
No ofício do historiador, a relação do antiquista com os documentos é bastante particular: um tratamento documental mostrou-se imprescindível para conseguirmos retirar e interpretar os dados dos testemunhos. Tal trato com textos antigos deve envolver uma análise da tradição dos manuscritos; da paideia do período; das redes de sociabilidade e do contexto político-cultural de sua produção; e, quando detectável, de sua circulação; ou seja, a crítica documental deve observar as características internas e externas do discurso (FUNARI, 2003, p.13).
Dentre as externas, a tipologia do documento será de primazia importância para nós, pois dentre as obras de Gregório de Nissa, sobre as quais recairão nossas análises, encontram-se vários gêneros de escrita, comuns à antiguidade. Portanto, faz-se necessário entender cada tipo de documento a fim de alcançar a interpretação que buscamos a partir das informações que retiramos do testemunho.
Com o intuito de atender a nossa hipótese, ou seja, entender o discurso Contra Eunômio de Gregório de Nissa, enquanto tática de comunicação, almejando seu fortalecimento pessoal após um momento de prisão e de exílio, selecionamos outros testemunhos de sua autoria que nos auxiliam a compreender o discurso em questão. Dessa forma, buscamos outros documentos para extrair dados que nos assessoraram a decodificar a nossa problemática. Nesse sentido, dentre a vasta produção escrita da autoria de Gregório de Nissa que chegou até nós, selecionamos os seguintes testemunhos por conterem dados específicos sobre o recorte temático e temporal pretendido e, consequentemente, retratado nessa tese: 30 cartas, sendo 28 de sua autoria e 2 missivas endereçadas a Gregório e a obra laudatória à sua irmã, Vida de Santa Macrina (VSM).
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Por meio da correspondência de Gregório pudemos construir cronologicamente a hipótese, conhecer etapas importantes de sua vida, bem como os meandros da produção e circulação do discurso Contra Eunômio. Já a obra Vida de Santa Macrina, foi escrita entre os anos de 381-383 d.C., temporalidade concomitante ao período de produção e circulação do Contra Eunômio: a partir desse fato, encontrarmos valiosas informações sobre a querela na qual esteve envolta a produção do discurso em questão. Adicionam-se a isso várias passagens autobiográficas nem que Gregório narra, ao falar da irmã, episódios importantes de sua própria trajetória.
Pelos mesmos motivos apontados acima, acrescentamos os subsídios encontrados nos testemunhos do seu irmão Basílio de Cesareia, em seu discurso Contra Eunômio e em suas cartas; nas missivas de seu amigo Gregório de Nazianzo e no discurso Apologia do próprio Eunômio de Cízico.
Logo, esses testemunhos episcopais de Gregório de Nissa, Basílio de Cesareia, Gregório de Nazianzo e Eunômio de Cízico configuram-se como documentos indiretos1 à nossa problemática central envolvendo o documento direto sobre a querela aqui analisada, o Contra Eunômio.
A relação entre o documento e o historiador e, consequentemente, a análise documental já foram muito discutidas na e pela historiografia. Em um primeiro momento, observamos uma abordagem mais tradicional e positivista, na qual somente os fatos colocados em uma ordem cronológica, em busca das origens, foram considerados históricos. De um momento historiográfico em que a fonte falava por si, o tratamento documental passou a preocupar-se com problemáticas relacionadas com a produção, circulação, influências e contexto para interpretação dos documentos.
Acreditamos que essa preocupação com outros elementos interpretativos subjacentes ao tratamento documental deve-se, também, à discussão acerca da subjetividade da e na História. Dois antiquistas brasileiros, Norberto Luiz Guarinello e Pedro Paulo Abreu Funari complementam-se ao debater a relação do historiador com
1
Metodologia confeccionada a partir do exposto na Introdução desta Tese. Ver: MAINGUENEAU, 2002; BARDIN, 2002; BRANDÃO, 2004.
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os vestígios por ele estudados, no intuito de desvincular o ofício do historiador como mero relator do passado, pois “de fato, não se deve confundir passado e relato do passado” (FUNARI, 2003, p.16. Grifos do autor). Nesse sentido, “Tais vestígios [...] não são o próprio passado, mas algo bastante diferente. Não são representativos do que aconteceu de um modo uniforme ou regular [...], são necessariamente descontínuos e desconexos” (GUARINELLO, 2003, p.43; 45).
Ora, se é o próprio historiador que deve dar sentido, continuidade e conexão à documentação por meio de sua interpretação, o sujeito passou a ter um papel primordial no fazer História. No tocante a essa compenetração do olhar do sujeito na História, Funari nos corrobora:
A aceitação da subjetividade da História deve ser ligada a dois processos da vida intelectual do século XX. Em primeiro lugar, ao influxo da Filosofia deve ser creditada a difusão da própria noção de subjetividade. Todo conhecimento, não apenas, nem especificamente, o conhecimento do passado, mas toda a compreensão resulta de sujeitos do conhecimento (FUNARI, 2003, p.17-18. Grifos nossos).
Nesse ínterim, se, em tal primeiro processo relatado por Funari, é que se apoia nossa tentativa de relacionar subjetividade aos novos elementos ligados à crítica documental; é no segundo processo apontado por esse historiador que se pontua a importância de entender as circunstâncias de produção, conteúdo e circulação do documento, como podemos verificar abaixo:
Paralelamente à filosofia, a linguística e a semiótica viriam influenciar, decisivamente, o estudo de todas as ciências, em particular as humanas. A noção de que todo conhecimento expressa- se, necessariamente, como um discurso implicou o reconhecimento da importância de sua autoria e de seu público, assim como da forma e conteúdo desse discurso (FUNARI, 2003, p.18. Grifo do autor).
Nessa tentativa de vincular História-documentos-passado-subjetividade, com a análise da documentação, é que explicamos nosso alvitre nesse capítulo, dedicado à documentação, bem como detalhamos o que entendemos como tratamento documental. A tentativa de compreender a paideia do século IV d.C. e
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compor a trajetória político-religiosa de Gregório de Nissa via documentação, incitou-nos a colher os dados (apresentados nesse capítulo) para, enfim, construirmos a trajetória político-cultural de nossa personagem (capítulo 2) e colaborar para a interpretação de nossa problemática (capítulo 3): o conflito político- religioso entre Gregório de Nissa e os Eunomianos a partir de nosso discurso alvo, Contra Eunômio, tentando vincular tal discurso ao seu contexto de produção.