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KAPITTEL 5: EMPIRISKE FUNN

5.4 I NTERESSENTER

Estudar os jovens pelo viés da mídia requer antes de tudo observar as variáveis sociológicas que perpassam o seu contexto social. O nosso ponto de partida para o empreendimento que pretendemos construir foi conhecer os jovens do locus desta pesquisa através das mais diversificadas dimensões, por intermédio dos espaços sociais que ocupam, por meio de suas redes de sociabilidades, de suas relações com a família, com os amigos, na escola, além da própria estrutura do assentamento e do MST. Acreditamos que esse caminho ofereceu significativos subsídios para compreendermos como esses constroem suas identidades culturais a partir da interface com a mídia.

Os momentos de diálogos intrínsecos que estabelecemos com nossos interlocutores durante a pesquisa de campo resultaram em posicionamentos que aqui estão reproduzidos através das manifestações individuais de cada um desses sujeitos.

Considerando o quadro de heterogeneidade que se cria em relação aos jovens pesquisados necessário se faz delinear o perfil de cada um deles.O grupo de 42 jovens que compõe o universo desta pesquisa apresenta as seguintes características: 21 são do gênero masculino e 21 do feminino32. Integram uma faixa etária entre 14 e 28 anos. O grau de escolaridade varia da 1ª série do ensino fundamental ao 1º do ensino médio. 24 desses jovens no momento não estão estudando. 28 são solteiros, sendo 18 rapazes e 10 moças . 21 deles são procedentes da cidade de Campina Grande; quatro de João Pessoa; 12 migraram de outros espaços rurais, e os demais (05) vieram de cidades circunvizinhas. Quanto ao grau de militância junto ao Movimento, a maioria em número de 30, se assumem integrantes do MST.

Como meio de preservar as posições individuais de cada pesquisado os identificaremos por nomes fictícios , entretanto manteremos inalterado o perfil dos mesmos.

NOME GÊNERO IDADE ESCOLARIDADE ESTADO CIVIL PROCEDÊNCIA MILITANTE

ALBERTO

M 22 3ª SÉRIE (PAROU) CASADO CAMPINA

GRANDE NÃO

AMÉLIA

F 15 6ª SÉRIE SOLTEIRA ZONA RURAL SIM

ANTONIO

M 23 8ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO JOÃO PESSOA SIM

48 ANGELINA

F 25 ANALFABETA CASADA CAMPINA

GRANDE SIM

ANA

F 21 8ª SÉRIE SOLTEIRA JOÃO PESSOA NÃO

ARTUR

M 16 8ª SÉRIE SOLTEIRO CAMPINA

GRANDE SIM

CARLA

F 17 NÃO ESTUDA CASADA ZONA RURAL SIM

CORINA

F 27 4ª SÉRIE (PAROU) CASADA

C/FILHOS SÃO PAULO NÃO

DÉCIO

M 15 4ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO CAMPINA

GRANDE SIM

ELBA

F 18 8ª SÉRIE SOLTEIRA JOÃO PESSOA NÃO

EUNICE

F 22 5ª SÉRIE (PAROU) CASADA CAMPINA

GRANDE SIM

FÁTIMA

F 26 6ª SÉRIE (PAROU) CASADA

C/FILHOS

CAMPINA

GRANDE SIM

FERNANDO

M 17 7ª SÉRIE SOLTEIRO CAMPINA

GRANDE SIM

FRED M 17 7ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO CAMPINA

GRANDE SIM

GETÚLIO

M 23 5ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO QUEIMADAS NÃO

GILBERTO

M 21 6ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO ZONA RURAL SIM

IDA

F 19 7ª SÉRIE (PAROU) CASADA ZONA RURAL SIM

IGOR

M 23 4ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO ZONA RURAL SIM

JANDYRA

F 28 5ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRA

C/FILHOS

CAMPINA

GRANDE SIM

JEAN

M 26 4ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO JOÃO PESSOA SIM

JOAQUIM

M 16 ANALFABETO SOLTEIRO CAMPINA

GRANDE NÃO

JOHN

M 15 5ª SÉRIE SOLTEIRO CAMPINA

GRANDE SIM

JOMAR

M 18 7ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO ZONA RURAL SIM

JOEL

M 15 3ª SÉRIE SOLTEIRO CAMPINA

GRANDE SIM

JOVELINO

M 20 5ª SÉRIE (PAROU) CASADO

C/FILHOS ZONA RURAL NÃO

JUCELIA

F 27 1ª SÉRIE CASADA CAMPINA

GRANDE NÃO

JUSSARA

F 16 8ª SÉRIE SOLTEIRA ZONA RURAL NÃO

KÁTIA

F 18 5ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRA CAMPINA

GRANDE SIM

LUCINARA

49 MARIA DO CARMO F 25 2º ANO MÉDIO (PAROU) CASADA CAMPINA GRANDE NÃO MARIA VITÓRIA

F 14 1º MÉDIO SOLTEIRA CAMPINA

GRANDE SIM

RAQUEL

F 14 6ª SÉRIE SOLTEIRA CAMPINA

GRANDE SIM

REGINA

F 14 4ª SÉRIE SOLTEIRA CAMPINA

GRANDE SIM

ROBERTO

M 25 1ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO CAMPINA

GRANDE SIM

ROSALVA

F 20 7ª SÉRIE (PAROU) CASADA

C/FILHOS ZONA RURAL NÃO

ROSE

F 22 1ª SÉRIE (PAROU) CASADA

C/FILHOS

CAMPINA

GRANDE SIM

RUTH

F 25 1º ANO MÉDIO

(PAROU) SEPARADA MASSARANDUBA

EX- MILITANTE SIMÃO

M 20 5ª SÉRIE (PAROU) CASADO ZONA RURAL SIM

TIBÉRIO

M 17 4ª SÉRIE SOLTEIRO CAMPINA

GRANDE SIM

WALTER

M 18 SUPLETIVO SOLTEIRO LAGOA SECA SIM

WALDENIO

M 14 8ª SÉRIE SOLTEIRO ZONA RURAL SIM

WILSON

M 20 4ª SÉRIE SOLTEIRO LAGOA SECA SIM

Quadro I- os sujeitos da pesquisa

Tomando como referência as faixas etárias estabelecidas pelo IBGE, dividimos o grupo pesquisado em três cortes etários33 .Os jovens que estão entre as faixas de idade de 14 a 18 anos; os de 19 a 24 e 25 a 29 anos. É prudente salientar que esse corte etário34 não se estabelece levando-se em consideração as relações entre idade biológica, pois nossa perspectiva vislumbra compreender esses sujeitos tanto nas suas singularidades como no processo coletivo, identificando-o dentro de uma relação de idade social.E aqui nos associamos à Bourdieu ( 1983) quando alerta que “Utilizar o termo juventude para falar dos jovens como se fosse uma unidade social, um grupo constituído, dotado de interesses comuns e relacionar esses interesses a unidade definida biologicamente, é uma manipulação evidente e um formidável abuso de linguagem “ (BOURDIEU, 1983, p.144).

33 A OIJ (Organização Ibero Americana de Juventude) adota a faixa etária de 15 a 29 anos. Outros órgãos como

a OMS (Organização Mundial de Saúde) e a UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas) estabelecem o limite correspondente entre 10 e 24 anos . Para o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) a faixa etária relacionada é de 14 a 24 anos. O governo, através de suas políticas públicas, ampliou a etapa cronológica referente até os 29 anos, fato decorrente das pressões dos movimentos sociais do campo. Os dados do IBGE devem ser redefinidos a partir de três faixas etárias consideradas juventude: de 15 a 18 anos; de 19 a 24 anos e 25 a 29 anos.(NOVAES, 2006).

50 Assim, a composição dos 42 jovens pesquisados foram organizados nos seguintes grupos:

Grupo I- 14-18 ( 20 jovens) Grupo II - 19-24 ( 13 jovens) Grupo III- 25-29 ( 09 jovens)

GRUPO I - 4-18 ( 20 jovens)

Os que compõem esse grupo, num total de 20 jovens, 09 são do gênero feminino e 11 do masculino.13 estão estudando, embora perceba-se que muitos deles estão fora do nível de escolaridade compatível a sua idade, inclusive cursando o supletivo. Ainda desse quadro 06 pararam de estudar e um é analfabeto. Entre as moças apenas duas são casadas enquanto os rapazes todos são solteiros. 13 desses vieram da zona urbana, sendo 12 de áreas periféricas de Campina Grande e 1 de Lagoa Seca, o restante da zona rural (06). Quanto ao grau de militância apenas três jovens negam sua identidade junto ao MST.

NOME GÊNERO IDADE ESCOLARIDADE ESTADO CIVIL PROCEDÊNCIA MILITANTE

AMÉLIA F 15 6ª SÉRIE SOLTEIRA ZONA RURAL SIM

ARTUR M 16 8ª SÉRIE SOLTEIRO CAMPINA GRANDE SIM

CARLA F 17 NÃO ESTUDA CASADA ZONA RURAL SIM

DÉCIO M 15 4ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO CAMPINA GRANDE SIM

ELBA F 18 8ª SÉRIE SOLTEIRA JOÃO PESSOA NÃO

FERNANDO M 17 7ª SÉRIE SOLTEIRO CAMPINA GRANDE SIM

FRED M 17 7ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO CAMPINA GRANDE SIM

JOAQUIM M 16 ANALFABETO SOLTEIRO CAMPINA GRANDE NÃO

JOHN M 15 5ª SÉRIE SOLTEIRO CAMPINA GRANDE SIM

JOMAR M 18 7ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO ZONA RURAL SIM

JOEL M 15 3ª SÉRIE SOLTEIRO CAMPINA GRANDE SIM

JUSSARA F 16 8ª SÉRIE SOLTEIRA ZONA RURAL NÃO

KÁTIA F 18 5ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRA CAMPINA GRANDE SIM

LUCINARA F 15 7ª SÉRIE (PAROU) CASADA ZONA RURAL SIM

MARIA VITÓRIA F 14 1º MÉDIO SOLTEIRA CAMPINA GRANDE SIM

RAQUEL F 14 6ª SÉRIE SOLTEIRA CAMPINA GRANDE SIM

REGINA F 14 4ª SÉRIE SOLTEIRA CAMPINA GRANDE SIM

TIBÉRIO M 17 4ª SÉRIE SOLTEIRO CAMPINA GRANDE SIM

URBANO M 18 SUPLETIVO SOLTEIRO LAGOA SECA SIM

WALTER M 14 8ª SÉRIE SOLTEIRO ZONA RURAL SIM

Quadro II- Por faixa etária 14-18

51 Grupo II - 19-24 ( 13 jovens)

Nesse grupo 05 são do gênero feminino e 8 do masculino .Nesta faixa de idade há um grande índice de evasão escolar, apenas dois jovens estão estudando, mas também fora do nível escolar. Podemos observar que a maioria é casada perfazendo um total de 07( 03 rapazes e 04 moças).O que pressupomos ser esta uma das causas para a desistência escolar. 03 dos casados têm filhos.Neste grupo 06 são oriundos da zona rural , 03 de Campina Grande e os demais de cidades circunvizinhas .Com relação ao nível de militância 8 (5 rapazes e 3 moças) deles se assumem MST;

NOME GÊNERO IDADE ESCOLARIDADE ESTADO CIVIL PROCEDÊNCIA MILITANTE

ANTONIO M 23 8ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO JOÃO PESSOA SIM

ANA F 21 8ªSÉRIE SOLTEIRA JOÃO PESSOA NÃO

EUNICE F 22 5ª SÉRIE (PAROU) CASADA CAMPINA GRANDE SIM

GETÚLIO M 23 5ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO QUEIMADAS NÃO

GILBERTO M 21 6ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO ZONA RURAL SIM

IDA F 19 7ª SÉRIE (PAROU) CASADA ZONA RURAL SIM

IGOR M 23 4ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO ZONA RURAL SIM

JOVELINO M 20 5ª SÉRIE (PAROU) CASADO C/FILHOS ZONA RURAL NÃO

ALBERTO M 22 3ª SÉRIE (PAROU) CASADO CAMPINA GRANDE NÃO

ROSALVA F 20 7ª SÉRIE (PAROU) CASADA C/FILHOS ZONA RURAL NÃO

ROSE F 22 1ª SÉRIE (PAROU) CASADA C/FILHOS CAMPINA GRANDE SIM

SIMÃO M 20 5ª SÉRIE (PAROU) CASADO ZONA RURAL SIM

WILSON M 20 4ª SÉRIE SOLTEIRO LAGOA SECA SIM

Quadro III- Faixa etária 19-24

Grupo III- 25-29 ( 09 jovens)

. O terceiro grupo compõe a faixa etária de 25 a 29 anos. 02 são do gênero masculino, e 07 do feminino, sendo 05 casadas, 1 separada com filhos e 1 solteira com filhos. Percebemos que nesta faixa o índice de casamento está majoritariamente entre as moças. Quanto ao grau de escolaridade, apenas uma jovem está estudando, mas na 1ª série do ensino fundamental. Acentua-se, portanto o índice de desistência escolar nesta faixa etária. Dois aspectos podem ser considerados: o primeiro está relacionado à condição civil com filhos e o segundo aspecto é que este grupo assume atividades no âmbito do trabalho com mais responsabilidade que os demais. Desses jovens pesquisados apenas 1 é oriundo da zona rural, os demais igualmente migraram da periferia da zona urbana, tanto de Campina Grande(06) assim como de cidades circunvizinhas. O nível de militância desses é diversificado, 05 entre os 09 se assumem militantes, 04 rechaçam o Movimento sendo uma considerada ex- militante.

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NOME GÊNERO IDADE ESCOLARIDADE ESTADO CIVIL PROCEDÊNCIA MILITANTE

ANGELINA

F 25 ANALFABETA CASADA CAMPINA

GRANDE SIM

CORINA

F 27 4ª SÉRIE

(PAROU)

CASADA

C/FILHOS SÃO PAULO NÃO

FÁTIMA F 26 6ª SÉRIE (PAROU) CASADA C/FILHOS CAMPINA GRANDE SIM JANDYRA F 28 5ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRA C/FILHOS CAMPINA GRANDE SIM JEAN M 26 4ª SÉRIE

( PAROU) SOLTEIRO JOÃO PESSOA SIM

JUCÉLIA

F 27 1ª SÉRIE CASADA CAMPINA

GRANDE NÃO MARIA DO CARMO F 25 2º ANO MÉDIO (PAROU) CASADA CAMPINA GRANDE NÃO ROBERTO M 25 1ª SÉRIE (PAROU) SOLTEIRO CAMPINA GRANDE SIM RUTH F 25 1º ANO MÉDIO

(PAROU) SEPARADA MASSARANDUBA

EX- MILITANTE Quadro IV- Faixa etária 25-29

As especificidades dos sujeitos desta pesquisa merecem ser melhor elucidadas já que a sua posição social é marcada não apenas pela condição de jovem rural, mas também por morar em um assentamento do MST. Assim, situaremos esta abordagem tentando perceber qual a relação desses sujeitos junto ao movimento social. Antes, porém, julgamos necessário apresentar um enfoque, mesmo que breve sobre a gênese da formação do MST, sobretudo na Paraíba, estabelecendo assim a discussão dentro de um contexto espacial. É o que verificaremos nas páginas que se seguem.

O início dos anos 80 é marcado pelo surgimento de vários movimentos sociais, dentre eles, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra- MST. A História do MST é gerada a partir de movimentos rurais35 que se organizavam (década de 70) principalmente no sul e sudeste do país, com ocupações isoladas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, além de São Paulo e Mato Grosso do Sul, com o objetivo de pressionar o governo para a implantação de uma modificação nas políticas empreendidas no meio rural. Tais processos de organização contaram com o apoio da Igreja Católica, através da CPT- Comissão Pastoral da Terra e outras entidades.

Dessa articulação criou-se uma coordenação regional na qual promoveu um Encontro Nacional (1984) realizado na cidade de Cascavel- Pr. A CPT foi a entidade encarregada de

35 A origem do MST no Brasil , dentre outros fatores, advém das experiências de lutas empreendidas pelos

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intermediar os contatos e montar a infraestrutura que contou com a participação de camponeses integrantes da luta .36

O evento teve como principal objetivo criar uma aliança entre os trabalhadores brasileiros e da América Latina que se identificavam com a causa em busca de terra; com a reforma agrária e mudanças gerais na sociedade.

É dessa maneira que nasce o MST, movimento autônomo que defende a bandeira de luta de uma sociedade “sem exploradores nem explorados”. Configura-se como um Movimento que se pauta através de três características: de caráter popular, caráter sindical e caráter político.

O Movimento idealiza-se através de metas diferenciadas com uma estrutura interna calcada em um conjunto de ideais. Nesses seus 25 anos de existência construiu sua legitimidade que é traduzida pela sua capacidade de mobilização e de organização. Hoje é um Movimento legitimado pelas suas relações políticas, que se traduzem com certa credibilidade junto ao seu público de assentamentos, dos militantes e de entidades sociais engajadas.

Na Paraíba, o Movimento nasce em 1984 em meio a muitas dificuldades tendo em vista ter sido organizado sem o apoio de entidades representativas, a exemplo da CPT. De acordo com a coordenadora do MST na Paraíba, Dilei Araújo ,em alguns lugares o Movimento contou com a força e apoio da igreja, mas no caso da Paraíba não, o Movimento caminhou sozinho, o que representou um entrave para suas ações de expansão.( Entrevista realizada em 23 de Agosto de 2007).

Em seu trabalho monográfico intitulado: “Origens do MST na Paraíba” (2008) a pesquisadora e militante do MST, Dilei Araújo, alerta para o fato de que concretamente as forças que apoiaram a primeira ocupação do MST na Paraíba foram o Sindicato dos trabalhadores de Lagoa Grande, Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural, o Partido dos Trabalhadores (PT) e indiretamente a Central Única dos Trabalhadores (CUT), além de simpatizantes da reforma agrária e do próprio MST.

A primeira ocupação de terra ocorreu em 07 de abril de 1989, na Fazenda Sapucaia, localizada no município de Bananeiras, na região do Brejo Paraibano. De acordo com Dilei Araújo, o Movimento só conseguiu de fato se efetivar no estado a partir da conquista do assentamento “1º de Março”, localizado entre os municípios de Pitimbú e Alhandra.

36 No início o Movimento encontrou muitas dificuldades para se estruturar: primeiro pela organização do

latifúndio, depois pela falta de esclarecimento das pessoas junto às bases sociais que integravam o movimento.Só a partir das primeiras ocupações é que as pessoas vão se mobilizando, transfigurando-se em forças políticas.

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Um fato marcante para a história do MST na Paraíba foi em 1987 quando integrou uma marcha que se realizava concomitantemente em todos os estados brasileiros. A marcha durante 60 dias, percorreu de Cajazeiras a João Pessoa, com uma participação de aproximadamente 150 militantes. O objetivo era visitar todas as cidades, fazendo um levantamento dos principais problemas de cada uma delas e que medidas poderiam ser adotadas. A perspectiva maior foi reconhecer a realidade do estado e identificar onde existiam terras e sem-terra. Relata Dilei que em todos os debates que foram organizados nessas localidades a grande questão foi a da reforma agrária. Essa marcha, na realidade, foi a alavancada para a consolidação do Movimento no estado que, até então, só se exercia na região do litoral e da várzea.

Em termos de metas internas, o MST se diferencia de outros movimentos pela sua organização que se estrutura através de um conjunto de normas que se pautam através dos seguintes princípios: da direção coletiva, da divisão de tarefas, da disciplina, do estudo, além do princípio do vínculo com as massas. A definição desses princípios serve como fio condutor para a ação do MST, tornando-se um método de ação, instrumento utilizado para avaliar a atuação dos militantes e a condução do Movimento, tanto a nível nacional como nos estados (DILEI ARAUJO, 2008)

A estrutura organizativa do MST varia de acordo com a realidade de cada estado. Ela se dá pela representatividade alcançada, numa divisão por regionais constituídas por seus núcleos de base, coordenações dos assentamentos e acampamentos.

Hoje, o MST na Paraíba compõem-se com 49 acampamentos com 2.111 famílias e 51 assentamentos com 2.542 famílias assentadas 37. O estado da Paraíba conta atualmente com 9 regionais ( brigadas) que se distribuem entre: Litoral; Várzea ( Brigada João Pedro Teixeira), Vale do Paraíba (Brigada Almir Muniz); Brejo, (Brigada Margarida Alves); Borborema (Brigada Quebra Quilos38); Curimataú (Brigada Caiteis); Cariri (Brigada Zé Marculino); Sertão (Brigada Patativa do Asssaré), e Vale do Piancó (Brigada Juazeiro).

O assentamento José Antonio Eufrosino, locus da nossa pesquisa, localiza-se na

37 Dados fornecidos pela Secretaria Estadual do MST na Paraíba, 2008. Ver anexo III

38 O nome Quebra Quilos é uma homenagem a um movimento que ocorreu em 1874 em Campina Grande contra

uma lei que estabelecia impostos através do sistema métrico decimal que acompanhava a expansão do sistema capitalista vigente. O movimento desenvolveu-se inicialmente na feira de Fagundes no distrito de Campina Grande quando feirantes se rebelaram contra a instituição de um imposto cobrado sobre qualquer mercadoria expostas em pátios de feiras. O movimento rapidamente se propagou por vários municípios paraibanos, sendo muito forte nas cidades de Campina Grande e Areia estendendo-se para os Estados vizinhos, Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte. Pesquisa na web: (http://www.google.com.br/search?hl=pt- q= acesso em 07 de abril de 2009=)

55 regional Borborema39 que integra a Brigada Quebra Quilos, com 3 acampamentos e 2 assentamentos. Os acampamentos estão localizados nos Municípios de Campina Grande denominados de Pequeno Richard com 30 famílias; e outros dois em Boqueirão; Barrocas com 20 famílias e Trincheiras com 50 famílias, perfazendo um total de 100 famílias acampadas. Já os assentamentos estão distribuídos entre o José Antonio Eufrosino- Campina Grande com 100 famílias e Dorcelina Folador, localizado na cidade de Cubati, integrando um contingente de 27 famílias.

O Assentamento José Antônio Eufrosino localiza-se na zona rural no Município de Campina Grande, no estado da Paraíba, especificamente no Agreste da Borborema, com uma área que abrange 2.990,640ha. Foi criado no ano de 2001, através de uma desapropriação realizada pelo INCRA das Fazendas Logradouro, Bonfim, Monte Alegre e Castelo.

O acesso ao assentamento ocorre a partir de dois extremos: um que se orienta pelo lado oeste da cidade, no sentido do distrito de Catolé de Boa Vista, distante a 13 km de Campina Grande, onde ficam as antigas fazendas Logradouro e Bonfim. O outro, a 20 km de Campina Grande localiza-se pela BR. 230, após o distrito de São José da Mata, que agrega as antigas fazendas Monte Alegre e Castelo.

As primeiras famílias (aproximadamente 142) que ocuparam a área vieram do vizinho assentamento Venâncio Tomé de Araújo, na localidade de Quixaba40e de outras áreas do meio rural além da periferia do meio urbano e passaram cerca de dois anos acampadas41. No dia 18 de dezembro de 2001 é fundada a associação,42 que registra o assentamento com o nome de José Antonio Eufrosino.43A partir desse período, as famílias foram cadastradas na condição de assentadas.

A organização do citado assentamento contou com a colaboração da Brigada de Formação Nacional do MST, que ali permaneceu durante quatro (4) meses, orientando as ações que deveriam ser adotadas para a estrutura do mesmo. 44

39 A Borborema cobre os municípios de Campina Grande. Boa Vista, Boqueirão, divisa com o estado de

Pernambuco.

40 Essas pessoas migraram do Brejo mais especificamente das cidades de Matinhas e Alagoa Nova.

41 O acampamento é uma estratégia utilizada pelo MST como forma de pressionar o governo para a

desapropriação da terra, constituindo-se assim como um meio de garantia futura para a efetiva estruturação do assentamento.

42 A associação é formada por 12 membros com diretoria legal, conselho fiscal e mais os sócios. Na

compreensão de Miranda (2007) é o primeiro esforço de institucionalização de regras e normas para a efetiva estruturação do assentamento.

43 Antonio Eufrosino foi o fundador dos sindicatos rurais em Campina Grande. Nascido na Serra do Monte,

esteve a frente do sindicato por aproximadamente 5 anos.

44 Este é um procedimento adotado dentro da dinâmica de organização instituído pelo Movimento. Ou seja,

56 O coletivo de setores funciona no sentido de propor orientações para a sistematização da estrutura do assentamento, elaborando ações que se constituem da seguinte maneira: monitoramento do projeto do assentamento; encaminhamento das escolhas dos lotes junto às famílias, agrupando-as por afinidades e orientando-as sobre o local de construção das casas, levando-se em consideração as questões do isolamento; processo de discussão sobre a titulação e posse da terra.

Conforme o coordenador da Brigada Quebra Quilos45, José Barbosa (Lito), a distribuição dos lotes, no período da implantação, ocorreu de forma democrática, podendo cada família escolher o local onde gostaria de se instalar. Cada família, na época, contou com uma ajuda de três (3) créditos (hoje são apenas dois) destinados à alimentação, ao fomento e à moradia.

Na realidade a reconstrução do espaço físico tanto na orientação do local para construção das moradias e seus espaços resulta num processo de construção de novas sociabilidades que se exercem entre os novos moradores. Entretanto há que se alertar que a grande inserção no Movimento é mesmo em decorrência da luta pela terra, local de moradia que, depois pode ser revestida numa sociabilidade política e, consequentemente, numa militância.

Adotados esses procedimentos, as orientações seguem-se no sentido de criação de núcleos de base que se configuram como espaços para discussões de decisões46 futuras a serem implantadas no interior do assentamento.

Mesmo contando com a orientação da Brigada de Formação Nacional cada assentamento compõe suas normas internas, que se diferenciam de acordo com a região e sua cultura. Assim, as relações de convivência entre as famílias se criam a partir de normas pré-