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KAPITTEL 4: METODE

4.8 V ALIDITET OG RELIABILITET

Não tardará e será possível afirmar que até nas regiões mais remotas da Terra há

81 A Free Software Foundation (FSF, Fundação para o Software Livre) é uma organização sem fins lucrativos, fundada em 1985 por Richard Stallman, e que se dedica a “promover a liberdade do usuário de computador e defender os direitos de todos os usuários de software livre”, eliminando restrições sobre a cópia, redistribuição, estudo e modificação de softwares. Disponível em: http://www.fsf.org/. Acesso em: 20 jan.2015.

internet82. Isso significa que um número ainda mais expressivo de pessoas realizará as suas diversas operações como parte integrante desse fluxo frenético de informações que já tomou o controle de todas as esferas sociais.

Empresas como Google e Facebook monitoram todas as atividades de seus usuários, em princípio, com o objetivo de melhorar a publicidade dirigida. Qualquer simples vestígio da nossa presença na rede pode resultar em revelações muito pessoais. Fica fácil concluir, então, que os perigos de um mundo onde os dados privados dos cidadãos são sistematicamente coletados e livremente acessados colocam as nossas liberdades civis e políticas em grave risco (ASSANGE, 2013).

Para um tipo muito particular de ciberativistas, os cypherpunks, a forma mais eficiente de proteger a individualidade e permitir as transações anônimas na rede foi escrever códigos de criptografia que inibissem o controle dos dados trafegados. Esse recurso foi capaz de delimitar espaços particulares e reservados, fora da vista dos órgãos reguladores.

Influenciados pela cultura hacker, o grupo cujo nome é uma derivação de cypher, escrita cifrada, e punk, formou-se a partir de uma lista de contatos on line que compartilhavam o ideal de, através de sistemas anônimos, devolver ao indivíduo o controle sobre a sua própria liberdade em ambientes de rede. Em 1993, os cypherpunks publicaram um manifesto no qual afirmavam que a privacidade é indispensável para que se constitua uma sociedade aberta na era eletrônica.

Imbuídos desses mesmos ideais e hasteando as mesmas bandeiras, surgiram figuras como Julian Assange e Edward Snowden publicando documentos secretos e divulgando informações que, não apenas reacenderam, mas inflamaram o debate sobre os segredos que são compartilhados e os dados que podem ser obtidos através do uso que fazemos da internet.

As possibilidades de aplicação de tecnologia em sistemas de monitoramento e vigilância aumentam a cada dia. Assange (2013) afirma que estamos diante de uma guerra invisível na qual governos e corporações vasculham a internet e a vida dos usuários, salvaguardados pela justificativa de preservação da segurança nacional. Do outro lado da

82 No primeiro semestre de 2013, a Google apresentou o “Projeto Loon” cujo objetivo é lançar milhares de balões, transportados pelo vento até altitudes duas vezes superiores às atingidas por aviões comerciais, para levar a Internet até o solo das regiões mais remotas da Terra, a velocidades semelhantes ou superiores às das atuais redes 3G. Com isso, mais de quatro milhões de pessoas sem acesso, atualmente, ficarão on line. Informações retiradas da reportagem Google Launching New Test Flight for Balloon-Based Internet, publicada na Revista Time. Disponível em: http://time.com/3589068/google-project-loon/. Acesso em: 20 jan.2015.

trincheira estão os cypherpunks, ativistas e geeks83 desenvolvendo códigos, tentando influenciar as políticas públicas e conscientizar a sociedade.

Com a explosão no volume de informações disponíveis e a facilidade de acesso, o poder das organizações não provém apenas do ativo contábil, mas do capital intelectual, da identificação, aquisição e do processamento das informações relevantes, do uso sistemático do conhecimento, da racionalização dos processos e do alinhamento das tecnologias às suas estratégias, gerando, assim, vantagens competitivas.

As organizações, agora, existem em um ambiente repleto de interrelações e constantemente mutável. Nesse contexto, informação e conhecimento constituem-se em premissas para prever, compreender e responder às mudanças. Para serem eficazes, então, as empresas e governos precisam ter seus processos decisórios e operacionais alimentados com informações relevantes, oportunas, completas e exatas, obtidas de forma eficiente e devidamente adaptadas às suas necessidades, mesmo que para obter tais dados, o método usado flerte com a amoralidade.

Os cypherpunks propõem uma transformação irruptiva, isto é, uma mudança expressiva no sistema vigente, no modo de operar, de se comunicar e de atuar na rede. De forma impetuosa e súbita, os netativistas, dos quais os cypherpunks são representantes significativos, buscam uma revolução, em especial no que envolve umbilicalmente formas práticas de apropriação social, cultural, política, econômica, de tecnologias e redes digitais.

A transformação em jogo não é qualquer, comum ou óbvia, mas passível de ser questionada e reprimida. Trata-se, de fato, de uma questão enevoada, confusa por vezes, e, geralmente, invisível aos olhos do senso comum. Como o próprio conceito de transformação sugere, esse grupo busca algo que se equaliza em âmbito histórico. Em um processo complexo, marcante e de grande vulto, no qual se conjuminam, muitas vezes, violência e dor em escala coletiva e que, por isso, nada permite que reste “liberado”, tudo arrastando para o seu cadinho de força.

Sob a égide da criptografia, os cypherpunks engendram as bases do futuro que desejam construir. Empunham a bandeira da resistência, defendem o esclarecimento da população, desejam a mobilização das massas e enxergaram nesse ambiente midiatizado espaços propícios à luta pela superação do existente e pela emancipação da espécie, abrangendo contemporaneidade e posteridade. À primeira vista de uma forma até utópica, esses paladinos da justiça exigem privacidade para os cidadãos e completa transparência para o Estado (ASSANGE,2013).

83 O termo geek é um anglicismo e uma gíria que se refere a pessoas peculiares ou excêntricas, obcecadas por tecnologia, eletrônica e games.

O fato é que, de forma liberadora e emancipadora para algumas categorias sociais, sorrateira e insidiosa para outras, uma transformação desse porte, na modalidade de um processo-acontecimento, repercutiria, vivamente, na estrutura dinâmica do social-histórico, contribuindo para uma nova relação tanto com o político, em alcance global e aberto, quanto com os valores morais de filigrana, operados, como espinha dorsal do social, no cotidiano.