Kapittel 4 Metode
4.1. Kritisk realisme som vitskapsteoretisk utgangspunkt
O a-priori teologal humano, que neste aspecto significa a presença do mistério da Trindade na existência humana abre a ela a possibilidade de uma experiência radical de vida, de modo que, atento à própria existência, a pessoa pode perceber os vestígios de Deus. Então, fazer a experiência radical de ser pessoa é fazer a experiência daquela realidade que a Trindade significa: do mistério absoluto sem origem (Pai) que se autocomunica (Filho), mas que não perde sua unidade fundamental porque retorna completamente ao mistério de sua origem (Espírito Santo)559.
Deus entra dentro da pequenez da história, dando-se a Si mesmo de tal forma que o humano guarda dentro de sua existência um tesouro que é muito maior que ele mesmo. É na aceitação e vivência do Deus Trindade que se desvela o mistério, não só de Jesus Cristo, mas, também, do humano mesmo, pois, “se há um símbolo real deste augusto mistério, então este será a própria
dinâmica vital do ser humano”560.
Criado à imagem e semelhança de Deus, o ser humano sinaliza essa realidade em seu próprio dinamismo existencial. Fundamentado na idéia de que a melhor forma de expressar a significação humana não são os conceitos, mas as imagens e os símbolos, Mistério de Deus Uno e Trino e mistério humano encontram ressonância nas imagens analógicas de Santo Agostinho, as quais se referem a uma unidade vital que se expressa em três concretizações radicais561. Primeiramente, a pessoa sente-se a si mesma como um mistério, uma realidade que nenhuma categoria racional da própria pessoa consegue explicar. Em seguida, como o mistério humano experimentado comporta uma verdade própria, a pessoa corre em busca da compreensão dessa verdade; é próprio dela expressar-se inteligentemente. Finalmente, o mistério portador da verdade busca comunicar-se para fora e estabelecer uma relação de amor. A vida humana, portanto, é uma unidade dinâmica portadora de mistério, verdade e amor que, ao mesmo tempo idênticas, são categorias existenciais distintas entre si.
A analogia agostiniana apropriada por Leonardo Boff se explica na medida que se entende que tais manifestações são figuras de uma Realidade maior, da qual provêm: o Deus ao mesmo tempo Uno e Trino. O mistério
558 Jean-Marie HENNAUX, “L'Esprit et le féminin: la mariologie de Leonardo Boff”, Nouvelle Revue
Théologique, tome 196/6: 895.
559 Experimentar a Deus hoje. In FREI BETTO & outros, Experimentar Deus hoje, p. 179. 560 A Trindade e a sociedade, p. 135.
561A Trindade, livros IX-XV; cf. tb. A. VAN DEN BERG, A SS. Trindade e a existência humana, in
humano representa o Pai, mistério abissal, sem origem do qual tudo procede. Enquanto mistério humano que busca a intelecção e a inteligência, que se comunica e que busca se fazer compreender, ele representa o Filho, o Lógos de Deus Pai. Enquanto mistério que necessita do amor para sobreviver, que busca e que se entrega em amor que unifica e amalgama o mistério e a verdade, ele representa o Espírito Santo. Um único mistério, portanto, que dinamiza um estar-em-si, sair-de-si e retornar-a-si, e envolve os seres humanos e a todo o cosmos562.
No entanto, por nenhuma imagem Deus pode ser atingido plenamente. Mas esse recurso analógico se faz necessário -a analogia é a linguagem da teologia!- para se referir à imensidão infinita do divino. Porém, são meios e expressões de um tempo e de um contexto, por isso, carregadas de elementos culturais que devem ser necessariamente relativizados e revistos, para não esclerosarem ou virem a fechar o mistério que em si mesmo é infinitamente aberto.
A fixação em imagens inapropriadas de Deus tem sido, inclusive, a causa de conflitos entre povos e religiões. Hoje se afirma que a paz mundial só será possível quando as religiões souberem cultivar a paz entre si apesar de suas diferenças. Mas, mesmo entre cristãos, o tema Deus pode ser motivo de desentendimentos; a teologia se questiona sobre o fato de tão diferentes tendências lerem a mesma Bíblia, as mesmas Escrituras, e de apresentarem compreensões tão distintas de Deus, tais como a de um Deus de resignação e a de um Deus de libertação563.
Assim, há cristãos que pensam o mistério de Deus a partir de uma imagem que convém a uma sociedade machista, que reforça o paternalismo, ofusca a liberdade e mata a criatividade é a de um Pai Todo-Poderoso, Juiz supremo e absoluto. É a religião da supremacia isolada de Deus Pai564, em que o Filho e o Espírito são rebaixados. Uma espécie de arianismo pós-moderno. Consequentemente, os homens não são “filhos”, mas servos submissos. A ordem estabelecida a partir daí é domesticadora e mitos são criados para reforçar essa ideologia. Uma moral mágica deriva também dessa imagem de Deus, e os significados dos acontecimentos históricos não têm importância significativa para a ética cristã. A pessoa, o diálogo histórico co-responsável, a liberdade criativa... pouco dizem, pois tudo já está previsto no plano de salvação de Deus.
Outros cristãos desvinculam Deus dos conflitos humanos e da união transcendental com o Pai: a religião só do Filho565, tido como “Chefe e Mestre”, muito comum em ambientes cristãos aburguesantes de alguns movimentos de espiritualidade... Presta-se muito aos interesses da classe dominante, que
562 A Trindade e a sociedade, pp. 135-136; cf.tb. Euler R. WESTPHAL, O pensamento trinitário em
Leonardo Boff: comunhão e criação, in Estudos Teológicos na 48, ano. 2, 2008: 43; cf. tb. Rudolf von SINNER, A Santíssima Trindade é a melhor comunidade: Trindade, Igreja e sociedade civil, in Estudos Teológicos, ano 48. n. 2, 2008: 64.
563 Homem: satã ou anjo bom?, p. 66. 564 A Trindade e a sociedade, p. 26. 565 Ibid., pp. 26-27.
tenta impor um Deus conforme seus interesses e visão. Assim, figuras carismáticas assumem a liderança e a militância em nome dos demais, justificam-se a situação e a ordem estabelecida, que não deve ser questionada.
E por fim, há cristãos que pensam Deus a partir de uma vivência religiosa só do Espírito566, com conseqüências que fazem uma antropologia em que os seres humanos são indivíduos privatizados, e a espiritualidade mero espiritualismo alheio às estruturas que possam coletivizar as responsabilidades do processo. Ao Deus privatizado se transferem sonhos e frustrações, desejos e utopias... Individualismos espirituais e sociais decorrem dessa fisionomia de Deus na história da humanidade.
Tais imagens distorcidas mostram como a transcendentalidade humana pode ser, inclusive, manipulada por sistemas inescrupulosos de poder. Tais ideologias sabem integrar os elementos e as categorias do cristianismo e articulá-los de modo a se tornarem seus instrumentos de manuseio em seu proveito567. O teólogo conclama o cristão a tomar consciência e a denunciar que “a sistemática violência do sagrado das pessoas danifica o caminho para o
sagrado na interioridade humana”568.
Daí a necessidade, teológica e antropológica, do resgate da face trinitária do Deus de Jesus Cristo, pois, “uma sociedade que se deixa inspirar
pela comunhão trinitária não pode tolerar as classes, as dominações a partir de um poder (econômico, sexual ou ideológico) que submete e marginaliza os demais diferentes”569. Atenta a essa urgência, a teologia contemporânea trabalha a doutrina da Trindade em articulação com as realidades sociais humanas e cósmicas. Trindade e libertação são duas realidades que se consideram mutuamente. É nessa compreensão da libertação inspirada na comunhão trinitária, que se encontra uma fundamentação teológica para a verdadeira libertação cristã, humana e cósmica.
A libertação, processo nunca acabado e vai resultando da vivência religiosa trinitária, é mediada pela opção pelos pobres, cujo sentido deve ser alargado, devendo “incluir também uma opção pelos seres e espécies mais
ameaçados, a começar pelos humanos pobres, pelas culturas em extinção...”,
na experiência de uma “democracia ecológico-social-cósmica”570. 5.1- A Trindade, protótipo da comunidade antropocósmica
A abordagem trinitária clássica tem sido feita fundamentalmente em perspectiva ou metafísica, quando parte do conceito de substância (natureza, essência) para falar da identidade de Deus. No entanto, como o humanismo aflora da imagem que se tem de Deus, a Trindade não pode ser entendida
566 A Trindade e a sociedade, p. 27.
567 Experimentar a Deus hoje. In FREI BETTO & outros, Experimentar Deus hoje, p. 148. 568 Ecologia, mundialização e espiritualidade,p. 168.
569 A Trindade e a sociedade, p. 189.
como uma realidade longínqua e abstrata, mas como “a suprema expressão da
experiência que todos fazemos do amor e da comunhão humanas”571.
Assim, “a Trindade é o nosso verdadeiro programa social”572, o melhor modelo de Igreja e de sociedade humana. Por isso, a tendência atual da teologia trinitária é pensar Deus Uno e Trino a partir das relações comunitárias e sociais. Em primeiro lugar, porque o entrelaçamento das Pessoas no amor e na comunhão salva com mais propriedade a unidade dos divinos Três que a exatidão metafísica. Depois, porque a pessoa humana está de tal modo intrincada e comprometida num emaranhado de relações, de funções e de instituições, constituindo assim comunidade social e política, que é impossível, antropologicamente falando, pensá-la puramente em si mesma ou numa simples e superficial referência a tais relações.
A realidade trinitária, de perfeita comunhão e interpenetração,
pericórese, está no âmago de toda a criação. “Somos uma só vida e comunhão realizadas distintamente, sendo unos e múltiplos em analogia com o mistério do Deus tri-uno”573. Toda a história e toda a criação são vocacionadas a participar do mistério trinitário, e o fazem na medida em que procuram nessa sociedade divina os critérios e os valores básicos de sua existência e acontecimento.
Com um pensamento intensamente marcado pela trinitariedade de Deus, Leonardo Boff entende que o paradigma ecológico ajuda a abordar melhor o mistério trinitário do Deus da revelação, pois favorece a compreensão de “um jogo de relações, um Deus ecológico”574. Sendo comunhão e relação, Ele que é o autor de tudo, do qual tudo provém, o universo e os seres humanos são chamados a essa mesma harmonia de relações e de convivência.
Assim, ao mesmo tempo que se fala da realidade humano-cósmica como vestigium Trinitatis, Deus surge como comunidade modelo para qualquer outro tipo de convivência. Então, o teólogo “desloca-se da ‘ecclesia’ e da
‘societas’ para o ‘cosmos’ e a integração ‘pericorética teoantropocósmica’”575. Um pensamento tão integrativo entre a realidades não-divina e mistério da comunhão trinitária desautoriza todo totalitarismo baseado no monoteísmo, bem como todo paternalismo fundado no monarquismo do Pai. E então já não há espaço para qualquer dominação. Através das missões do Filho e do Espírito o mistério de Deus se abre para todas as realidades históricas, e sua compreensão humana impõe a constituição de uma sociedade fraterna, o que vale tanto para a sociedade civil como para a sociedade eclesial.
571 Sentido cristão de mistério e mística. In Leonardo BOFF & FREI BETTO, Mística e espiritualidade,
p. 23.
572 Ibid., p. 29.
573 Ecologia, mundialização e espiritualidade, p. 50. 574 Ibid., p. 49.
575 Paulo A. Nogueira BATISTA, Teologia e ecologia: a mudança de paradigma de Leonardo Boff, in
Juarez GUIMARÃES (org.), Op. cit., p. 123. Cf. tb. Euler R. WESTPHAL, O pensamento trinitário de Leonardo Boff: comunhão e criação, in Estudos Teológicos ano 48,no. 2: 30.
Em todo o espaço salvífico universal da história humana transparece a luz da comunhão pericorética da Trindade. As pessoas humanas e sua história estão incluídas nessa unidade. É com esse pensamento que se pode entender as palavras da oração sacerdotal de Jesus: “Que todos sejam um como tu, Pai,
estás em mim e eu em ti, para que eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21). A unidade trinitária arrasta consigo todas as
realidades criadas, integrando-as e incluindo-as numa comunhão totalizante, que deve começar desde já, e se concretiza com o empenho de todos em superar toda forma de divisão e de ruptura (cf. Gl 3,28; Rm 10,12). Dessa forma, segundo o teólogo, o homem e todo o universo são assumidos progressivamente na comunhão pericorética trinitária a partir de Cristo e de Maria576, de forma que “só então as três Pessoas serão uma comunhão
total”577. Enquanto isso não acontece, enquanto Deus não é “tudo em todas as
coisas” (1Cor 15,28), é possível falar ainda de um “futuro da Trindade”578. As três Pessoas serão uma única comunhão total somente quando a criação estiver totalmente integrada na comunhão dos divinos Três.
Uma tal concepção da Santíssima Trindade autolimitada pela criação e aberta para o futuro recebe veementes críticas579. A idéia, dizem seus críticos, padece de panteísmo de tipo dinâmico, e se opõe diametralmente à doutrina do Sílabo anti-modernista (DS 2901) e ao Concílio Vaticano I (DS 3001, 3023 e 3024), contrastando-se vivamente com a profissão de fé do Concílio XVI de Toledo, que exclui da Trindade qualquer relação de dependência temporal (DS 569).
Consequentemente, ao reduzir a pericórese a uma noção progressiva, chegando a conceber um “universo trinitarizado” como corpo pleno da Trindade580, o teólogo incorre no erro de nivelar todas as explicações, manipulando conceitos irredutíveis com outros tão díspares, anulando articulações conceituais que constituem a única forma possível de falar nocionalmente do Mistério de Deus. Por isso, a compreensão de Boff não corresponde às Escrituras nem ao ensinamento do Magistério, transformando a
pericórese em pericorismo, através de uma concepção comunitarista universal.
Além disso, diz Sinner, é difícil operacionalizar a “crítica e inspiração” que a pericórese sugere à Igreja e à sociedade de hoje. Existe um excesso de concretude quando se formula a teologia trinitária em termos humanos: “Deus
não pode ser considerado comunhão no sentido humano, a não ser que se afirme que sejam três deuses e não apenas um...”581. Enfim, parece ser um exagero esperar da comunidade humana tamanha possibilidade de convivência e de comunhão.
576 A Trindade e a sociedade, pp. 41, 123, 144, 187, 230, 253-258. 577 Ibid., pp. 185-186, cf. pp. 14, 253, 267.
578 Ibid., pp. 185- 187. 267.
579 COMISSÃO ARQUIDIOCESANA PARA A DOUTRINA DA FE, A Arquidiocese do Rio e o livro A
Trindade e a sociedade, Atualização, no. 206: 136-138.
580 A Trindad e a sociedade, pp. 186, 267 e 278.
581 SINNER Rudolf von, Leonardo Boff: um católico protestante, in Juarez GUIMARÃES (org.), Op. cit.,