A escola, como podemos perceber, é uma das instituições que mais se adequaram à lógica da disciplina e à estética do controle. Não é por acaso que a ideia de panóptico, segundo o próprio Foucault, pode ter surgido do irmão de Bentham, que visitou a Escola Militar.
Parece que um dos primeiros modelos dessa visibilidade isolante foi colocado em prática nos dormitórios da escola militar de Paris, em 1751. Cada aluno devia dispor de uma cela envidraçada, onde ele podia ser visto durante a noite sem ter nenhum contato com seus colegas, nem mesmo com os seus empregados. Existia além disso um mecanismo muito complicado que tinha como único objetivo evitar que o cabeleireiro tocasse fisicamente o pensionista quando fosse penteá-lo: a cabeça do aluno passava por um tipo de lucarna, o corpo ficando do outro lado de divisão de vidro que permitia ver tudo o que se passava. (FOUCAULT, 1979, p. 210).
Para Foucault, a Escola Militar de Paris é apenas mais uma metáfora. Não quero dizer com isso que ela não existiu, ou que não tenha sido um exemplo de panoptismo; a Escola Militar de Paris existiu e, com certeza, controlou a vida de muitos jovens, mas a
vigilância que o irmão de Bentham viu é apenas um exemplo que remete a outros exemplos, inclusive as escolas de Tabuleiro do Norte, Fortaleza e Russas. Não é por acaso que podemos encontrar na escola as representações do general e do ―soldadinho de papel‖, do psicólogo e do louco, do delegado e do criminoso, do chefe e do operário, do médico e do doente. São categorias que estão dentro do panóptico.
Não se trata de uma divisão binária e maniqueísta. Não estou escrevendo, com exclusividade, de quem manda ou de quem obedece, a política do panóptico é bem mais ampla; entre um e outro há diversas pessoas que também fiscalizam e que são fiscalizadas, que participam como personagens na rede de vigilância. Não existe personagem principal, por mais que alguns se apresentem como tal; não existe protagonista ou antagonista, não existem atores oficiais ou atores secundários; o drama é vivido por todos e a hierarquia (provisória) é alimentada por ações e por olhares que ajudam a manter o controle. A interlocutora Linda vivenciou dentro da escola e apresentou um caso40 de extremo policiamento:
Na escola... Um professor que eu tinha, viu? Ele não aceitava a maneira que a gente falava mais fino, a gente bater com as meninas [bater com as mãos para cumprimentar], tudo incomodava ele. Aí ele se reuniu com o conselho da escola [ele era presidente] e disse que queria acabar com isso e queria chamar os pais daqueles meninos que eram meio afeminados. Aí chegou até a me ameaçar, de que se eu não mudasse ele ia chamar minha mãe. E eu com muito medo porque eu não era tão assumida ainda, só lá fora, porque dentro de casa ainda não era, tive que mudar em uma semana, né? Pra ver se ele saía do meu pé e não ameaçava de chamar a minha mãe. Alguns colegas meus foram chamados, os pais, e foi aquela revolução. Uma maneira, assim, super o ó [negativa] da mãe descobrir, numa mesa de professores, diretores, foi uma coisa muito constrangedora! Alguns de meus colegas chegaram a ser espancados pelos pais em casa. (Linda).
Como vemos, pode até existir um poder que aparentemente é absoluto, que domina ou que tenta dominar a partir de um centro, que se localiza em uma torre ou em um ―pavilhão octogonal‖, como o poder do diretor ou do presidente do Conselho Escolar, que quer governar sozinho, ou do rei da França, que fez um zoológico para demonstrar seu poder. Mas essa arquitetura é política, material e simbólica, como a metáfora que vemos a seguir:
40 Conhecia este caso, pois o primeiro aluno que foi espancado me procurou na 10ª CREDE e solicitou ajuda,
pois não queria que seus amigos que faziam parte ―da lista‖ passassem pela mesma situação constrangedora. No momento, fiquei decepcionada pelo fato de ter ocorrido em uma escola que eu acompanhava, mas aliviada por poder intervir diretamente. Assim, munida da Constituição Federal e do Estatuto da Criança e do Adolescente, fui à escola e solicitei uma reunião com os gestores e os professores. Após estudos, ficou esclarecido que o ocorrido foi um ―equívoco‖ e que falta orientação a gestores e professores acerca do assunto. Este foi um dos acontecimentos que me motivou a fundar e a assumir a presidência da ARDH em 2009, no município de Russas.
No centro, um pavilhão octogonal que, no primeiro andar, só comportava uma peça, o salão do rei; todos os lados se abriam com largas janelas, sobre sete jaulas (o oitavo lado estava reservado para a entrada), onde estava encerrado diversas espécies de animais. Na época de Bentham, esse zoológico desaparecera. Mas, encontramos no programa do panóptico a preocupação análoga da observação individualizante, da caracterização e da classificação, da organização analítica da espécie. O panóptico é um zoológico real; o animal é substituído pelo homem (e pelas mulheres), a distribuição individual pelo agrupamento específico e o rei pela maquinaria de um poder furtivo. (FOUCAULT, 1987, p. 179).
A escola, em última instância, tem a geografia do zoológico do rei, mas talvez o exemplo mais adequado seja a prisão ou o hospício. Entretanto, sem desconsiderar os aspectos da escola, refazemos a pergunta de Foucault (1987, p. 199): ―devemos ainda nos admirar que a prisão (tanto dos animais como das pessoas) se pareça com as fábricas, com as escolas, com os quartéis, com os hospitais, e que todos se pareçam com as prisões?‖
A metáfora da prisão e do zoológico pode parecer imprópria, mas o próprio Foucault (1987, p. 153) escreveu sobre ―os recursos para o bom adestramento‖; ele mostra que a ―correta disciplina‖, desde o século XVII, era a ―arte do bom adestramento.‖
O zoológico do rei, citado por Foucault, era mantido por pessoas; os bichos, como diria um bom observador, não são vigias de si mesmos, são os humanos que controlam o espaço, que é artificial. Quando falamos do zoológico humano, a situação é análoga e diferente, parecida em alguns aspectos, mas incomparável em outros. A participação do preso, do doente, do aluno, do louco, do trabalhador é a base de sua própria prisão. Ele é, como dissemos anteriormente, vigia de si mesmo. O princípio do panóptico é:
[...] na periferia uma construção em anel, no centro uma torre, esta possui grandes janelas que se abrem para a parte interior do anel. A construção periférica é dividida em celas, cada uma ocupando toda a largura da construção. Estas celas têm duas janelas: uma abrindo-se para um interior, correspondendo as janelas da torre, outra dando para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de um lado a outro. Basta então colocar um vigia na torre central e em cada cela trancafiar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um estudante. Devido ao efeito de contra-luz pode-se perceber da torre, recortando-se na luminosidade, as pequenas silhuetas prisioneiras nas celas da periferia. O detento terá diante dos olhos a alta silhueta da torre central de onde é espionado, (ele) nunca deve ter certeza se está sendo observado, mas deve ter certeza de que sempre pode sê-lo. (FOUCAULT, 1979, p. 210; 1987, p. 177-178).
A vigilância, como podemos perceber, é constante, ou pelo menos deve fazer de conta que é constante, e daí vem o ―o efeito mais importante do panóptico: induzir no detento
um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder.‖ (FOUCAULT, 1987, p. 177-178). O sonho de Bentham é que o panóptico seja leve e eficiente, que seja eficaz a ponto de não precisar da violência, da força ou da truculência, que funcione através de um olhar. De ―um olhar que vigia e que cada um, sentindo-o pesar sobre si, acabará por interiorizar, a ponto de observar a si mesmo‖, em outras palavras, ―cada um‖ deveria exercer ―essa vigilância sobre e contra si mesmo.‖ (FOUCAULT, 1979, p. 218).
Não se tem neste caso uma força que seria inteiramente dada a alguém e que este alguém exerceria isoladamente, totalmente sobre os outros; é uma máquina que circunscreve todo mundo, tanto aqueles que exercem o poder quanto aqueles sobre os quais o poder se exerce... o poder não é substancialmente identificado com um indivíduo que o possuiria ou que o exerceria devido a seu nascimento (ou por causa de uma nomeação); ele torna-se uma maquinaria de que ninguém é titular. Logicamente, nesta máquina ninguém ocupa o mesmo lugar, alguns lugares são preponderantes e permitem produzir efeitos de supremacia. (FOUCAULT, 1979, p. 219). A torre, como vimos, é importante, mas não é o vigia da torre que manda ou que governa sozinho, esse aparelho arquitetural é ―uma máquina de criar e sustentar uma relação de poder independente daquele que o exerce‖. Os vigiados são cúmplices do vigia e fazem do seu espaço uma espécie de torre, são vigias de si mesmos, se encontram ―presos numa situação de poder de que eles mesmos são os portadores.‖ (FOUCAULT, 1987, p. 178).
Quando Bentham fala de seus sonhos, onde o panóptico deveria ser leve, sem grades, sem correntes, sem fechaduras pesadas, está idealizando um modelo que vai além da arquitetura e do trono (FOUCAULT, 1987, p. 179). A torre e a direção, neste caso, são uma grande estratégia política, e não uma obra de engenharia (apenas). Ele projetou, no século XVIII, ―aquilo que os médicos, os penalistas, os industriais, os educadores procuravam‖; ele descobriu ―uma tecnologia de poder própria‖ que podia, segundo ele, ―resolver os problemas de vigilância.‖ (FOUCAULT, 1979, p. 211). As disciplinas, segundo o autor, atravessaram o limiar da tecnologia:
O hospital primeiro, depois a escola, mais tarde ainda a oficina, não foram simplesmente postos em ordem pelas disciplinas; tornaram-se, graças a elas, aparelhos tais que quaisquer mecanismos de objetivação pode valer neles como instrumento de sujeição, e qualquer crescimento de poder dá neles lugar a conhecimentos possíveis; foi a partir deste laço, próprios dos sistemas tecnológicos, que se puderam formar no elemento disciplinar a medicina clínica, a psiquiatria, a psicologia da criança, a psicopedagogia, a racionalização do trabalho (FOUCAULT, 1987, p. 196).
Foi a partir dessas novas ciências que a nossa sociedade construiu uma nova forma de olhar para si mesma e para seus indivíduos. Com base nessa lógica, o Estado reorganizou suas políticas públicas ao longo do século XX. De acordo com a racionalização do tempo, do espaço e das pessoas, aprendemos a ser patrões e empregados, a ser médicos, psicólogos, enfermeiros ou pacientes, a ser professores, diretores, coordenadores ou alunos. Através da ciência e das instituições, aprendemos a ser de um jeito e não de outro. Através dessa nova disciplina, fomos moldados para entrar no molde; ―fôrmados‖, para entrar na ―fôrma‖; ou formados para entrar em forma.