Este novo capítulo intitula-se Exercício de Pressão (destinado a fortalecer
músculos fracos). Neste breve capítulo, Sá Pereira chama a atenção do leitor para a
“falta de firmeza nos dedos”, outro tipo de impedimento físico96 que dificulta o
96 Breithaupt em sua obra The Natural Piano Technique (2º. Vol. , tradução inglesa de 1909) faz uso constante
do vocábulo “impedimento”e cremos que seu uso, também de forma constante no tratado de Sá Pereira tem sua origem no conhecimento do trabalho do pedagogo alemão.
desenvolvimento pianístico do aluno e que, segundo cita, seria proveniente de um “fraco desenvolvimento muscular”. De acordo com o autor este “defeito é relativamente fácil de curar-se, e qualquer bom professor de ginástica saberá indicar exercícios apropriados, com ou sem uso de halteres” (SÁ PEREIRA, 1964, p.32). Através dessa afirmação, entende-se que este impedimento, na visão de Sá Pereira, pode ser trabalho e sanado com exercícios fora do piano. Entretanto, o autor não preconiza o uso de nenhuma ginástica preparatória específica e aplica seus exercícios diretamente no teclado.
Ele parte do princípio da inércia, trabalhado nos exercícios anteriores e acrescenta um exercício de pressão que consiste na contração momentânea dos flexores seguida de relaxamento. Este exercício apresenta as seguintes instruções:
Encontrando-se pois a tecla carregada a fundo e o braço relaxado (pulso abaixo do nível das teclas), vá agora aos poucos, sem desligar o dedo, levantando o pulso até que a mão se coloque a prumo sobre a tecla afundada. Acrescente então uma forte pressão ativa e, a seguir, vá novamente baixando a mão, conservando porém a pressão do dedo sobre a tecla. Quando chegar à posição da qual tinha partido, continue ainda durante um momento a exercer pressão e depois, por um ato de vontade relaxe bruscamente todos os músculos contraídos, entrando novamente em estado de completa passividade. Nesse momento, o pulso, que estava contraído cede e desce, flexível, abaixo do nível da tecla. Esta continua afundada, mas agora carregada apenas com o peso do braço inerte, sem pressão! Faça durante algum tempo diariamente este exercício, com cada dedo separadamente, dedicando especial atenção ao 4º. e 5º. dedos, por serem os mais fracos. Estes exercícios podem melhorar consideravelmente a forma física da mão. (SÁ PEREIRA, 1964, p.33) [grifos do autor].
Apesar de simples, a explicação deste exercício não é tão clara. Sá Pereira não se refere, em nenhum momento, à posição da mão, se mais plana ou mais curva. Não chega a mencionar que posição as articulações devem tomar e nada diz sobre a mão com arcada formada. Neste trecho do tratado, fazem falta exemplos fotográficos e um texto mais detalhado. O fortalecimento dos flexores dos dedos está em direta relação com a “firmeza dos dedos” e, por conseguinte, com o equilíbrio das articulações. Essa firmeza, principalmente na região das articulações media e distal, é imprescindível na manutenção da arcada da mão e no suporte do peso do braço.
O emprego de exercícios para o fortalecimento dos dedos é um assunto que gera discussões. Reginald Gerig (1990, p.233) relata que, à parte as variadas máquinas e teclados mudos inventados com essa finalidade, exercícios para o
fortalecimento dos dedos já existem desde o início do século XIX. Embora Steinhausen e Breithaupt fossem contra exercícios para desenvolver “extraordinário poder muscular ou uma exagerada ‘soltura’ ou ‘flexibilidade’ (GERIG, 1990, p.355), muitos teóricos de renome se mostraram a favor de tal prática, notadamente Otto Ortmann e József Gát que incluiu em seu trabalho The Technique of piano playing (1965) um grande número de exercícios de ginástica. Ortmann em sua obra The
Physiological mechanics of piano technique (ORTMANN, 1981, p.289) menciona que
o pianista que apresenta os pequenos músculos dos dedos e mãos desenvolvidos levam vantagem sobre os demais. Se um músculo maior deve ser acionado no lugar de um menor por falta de força e resistência, o aluno se depara com uma massa corpórea maior e portanto de movimento mais lento além de um grande problema de inércia. Ortmann enfatiza que “os exercícios de ginástica para os pequenos músculos dos dedos, mãos e antebraços, com o propósito de fortalecer sua força e resistência absolutas, é portanto, do ponto de vista mecânico, intensamente desejável para a técnica pianistica” (Idem, p.289). Embora muitos autores refiram-se a um trabalho de fortalecimento digital, divergem no que diz respeito a como esse trabalho deve ser aplicado.
Segundo Ortmann (ORTMANN, 1981, p.225) é partindo de uma posição alongada e não de uma posição curvada que se aprende a fortalecer a última articulação. Esta afirmação também explica a indicação de Breithaupt para trabalhar as articulações e a arcada, que parte da posição da mão alongada sobre a mesa até que esta se sustente nas pontas dos dedos, em ligeiro arco (BREITHAUPT, 1909, p.12)97. Richerme (1996, p.241), em seus exercícios para o fortalecimento dos
flexores dos dedos, também concorda que este tipo de exercício seja iniciado em posição plana para depois ser aplicado na posição curvada de dedos. Assim como Breithaupt, preconiza que o trabalho se realize, primeiramente, fora do instrumento, e após ser dominado, aplicado no piano. Richerme também adverte que “os únicos músculos que às vezes podem ser solicitados com força e resistência máximas na execução são os flexores dos dedos (em sequências de acordes rápidos ou oitavas de grande intensidade)”(RICHERME, 1996, p.240). Em vista dessa afirmação, aponta que quanto mais fortalecido está o músculo, mais ele trabalha próximo a um estado de relaxamento.
Da forma como este exercício de pressão para fortalecimento de músculos fracos é proposto por Sá Pereira, a contração muscular é grande e se o dedo está fragilizado, não está preparado para suportar todo esse peso e essa pressão. O equilíbrio da arcada e das articulações deveria primeiramente ser trabalhado sem pressão, fora do piano e, se possível, com o antebraço apoiado. Com a mão e o antebraço sobre uma mesa (cotovelo apoiado) em uma posição confortável, o aluno pode trabalhar o levantamento da arcada da mão e seu equilíbrio. Partindo de uma posição plana, o 5º dedo é flexionado e com a ajuda da outra mão, que mantém a última articulação apoiada, sem deixá-la “quebrar”, imprime-se uma leve pressão na ponta do dedo que faz levantar a base do dedo. Essa posição é mantida por alguns segundos e depois o dedo volta ao seu estado inicial, de relaxamento. Como o antebraço está apoiado, a pressão que o dedo suporta é pequena e suficiente para trabalhar a musculatura da mão e o seu fortalecimento sem o risco de sobrecarregá- la. O trabalho é depois aplicado do anular ao indicador.
Quanto ao fortalecimento muscular per se, alguns autores divergem quanto à necessidade de um treinamento muscular para desenvolver uma musculatura mais forte. Corroborando as palavras ditas por Steinhausen em 1905, Gyorgy Sandor em 1981, defende a idéia de que atletas precisam de força e resistência muscular, além da coordenação, mas que os pianistas só precisam saber coordenar os músculos. Conforme cita:
não desenvolvemos músculos fortes; ao contrário, aprendemos a ativar aqueles que já são fortes e a usá-los em colaboração com os mais fracos para ajudá-los. Usar músculos mais fortes para ajudar os mais fracos é a essência da coordenação, e este tipo de habilidade deve ser colocado a serviço da arte. Por mais tentador que possa parecer para alguns, a música e seu estudo não precisam ser encarados como uma atividade atlética. (SANDOR, 1981, p.3)98
Sandor adverte que, apesar dos muitos méritos que os exercícios de dedos podem apresentar, é sempre recomendável ter cautela pois muitos deles abusam dos músculos do antebraço. Richerme também recomenda cautela na execução de
98 No original: We do not build strong muscles; instead we learn to activate the ones that are already strong and
to use them in collaboration with the weaker ones is the essence of coordination, and this kind of skill is what we must put in the service of art. Tempting as it may be for some, music and practicing need not be regarded as athletic activity.
exercícios de pressão e para o fortalecimento dos flexores pois podem ser causa de tendinites ou tenossinovites99 quando feitos de forma incorreta ou em excesso.
Outro ponto que deve ser observado com atenção, e que pode relacionar-se ao que dizem Sandor e Richerme, refere-se à dinâmica. Sá Pereira não diz em que nível de dinâmica o exercício deve ser executado, restringindo-se a mencionar que a aplicação da pressão deve ser “forte e ativa”. Porém, como o ataque é proveniente da queda livre do braço, pressupõe-se que a dinâmica resultante seja, no mínimo,
fortissimo. Autores como Breithaupt em seu exercício para o posicionamento da
arcada (BREITHAUPT, 1907, p.12), Leschetizky em seus exercícios para o pulso e dedos (BRÉE, 1905, p.4-5), Cortot em sua ginástica quotidiana do teclado (CORTOT, 1928, p.5) e Richerme em seus exercícios para os flexores dos dedos (RICHERME, 1996, p.243) sempre mencionam que o aluno deve iniciar o trabalho de dedos na dinâmica piano.