O casamento dos pais de Fátima é percebido por ela de forma negativa. “Eles são casados, porém não vivem bem. Eles conversam pouco, o diálogo nem sempre é favorável para os dois e há muitas discussões e trocas de ofensas”. Ela ressalta o quanto não possui um bom exemplo do casamento dos pais e observa que o medo de casar e o adiamento da decisão pelo casamento, poderiam ter sido consequências desse fato. “Então eu casei com o propósito de fazer tudo diferente”, ela revela.
Essa concepção da esposa está baseada, conforme ela diz, na forma impositiva que os pais, enquanto cônjuges, lidavam um com o outro. “O que eu percebi no casamento dos meus pais é que cada um queria impor o seu jeito”, ela conta. A crença de Fátima, entretanto, é “que pra um
casamento dar certo não é o meu jeito nem o jeito dele, é o nosso jeito”. Do mesmo modo, ela pontua que “gostaria de fazer diferente em termos de comunicação, respeito, compreensão”. Assim, ela afirma caminhar na oposição ao que viu no casamento dos pais e busca junto ao marido um “novo jeito” de ser casal. “Então a gente tá construindo junto esse novo jeito. Então acho que é isso, eu aprendi a fazer diferente”.
A tentativa de Fátima de fazer diferente do modelo aprendido com os pais, trouxe a ela muitas dificuldades no início do casamento. Segundo conta, “foi bem difícil, porque eu me via na minha mãe, inclusive isso fez com que eu até buscasse terapia, porque alguns comportamentos meus eu me via na minha mãe e falei… não é isso que eu quero pra mim. Minha mãe é uma pessoa e eu sou outra e eu vou fazer diferente. E até hoje eu gasto energia com isso de querer fazer diferente”.
Sobre a forma como seus pais administravam os papéis e responsabilidades no casamento, Fátima explana: “em relação a filhos, a responsabilidade maior era da minha mãe, então existia uma cobrança do meu pai quando algo não acontecia da forma como deveria… do meu pai em relação a minha mãe, questão de educação, nota na escola”. A mãe de Fátima assumia o papel da educação dos/as filhos/as. Quanto às demais tarefas, segundo ela, eram divididas entre seus pais: “mas em relação aos cuidados de filho mesmo… de dá o que comer, de botar pra dormir, isso aí era muito dividido… meu pai sempre gostou muito da cozinha, então louça pra ele não podia ficar nenhum copo na pia, então ele sempre foi muito assim da cozinha tá limpa e minha mãe mais a casa, então era meio dividido ali mesmo os afazeres da casa”.
Os pais de Fátima, ao longo da vida, trabalharam fora de casa. Em algumas épocas, segundo ela conta, eles dispunham de “uma assistente para ajudar nos afazeres domésticos”. Era a mãe dela, no entanto, quem coordenava as atividades da casa, bem como da assistente. Os/as filhos/as também eram chamados para ajudar: “Então a gente fazia algumas coisas de casa, era dividido, lavava, limpava as coisas… então aprendi desde pequena, meu irmão inclusive até cozinhava, então a
gente foi ensinado assim”. Fátima percebe os pais como muito tradicionais, especialmente o pai, “meu pai carrega muita coisa assim da questão tradicional mesmo”.
Fátima também expõe a questão do manejo da questão financeira no casamento de seus pais: “Sempre foi muito dividido, né? Então meu pai tinha o dinheiro dele e minha mãe o dinheiro dela e até hoje é assim”. Fátima e Geraldo afirmam possuir contas separadas e não conjunta, o que traz uma ideia de separação das rendas. O relato de ambos, todavia, é o de fazer “tudo junto”, incluindo a questão financeira do casal.
Geraldo, sobre o casamento dos pais, aborda a “comunhão” que havia entre eles. Sobre esse ponto ele diz, “Eu nunca visualizei no casamento do meu pai divisão do que era da minha mãe, do que era do meu pai, sempre foi tudo junto”. Ele expressa que essa foi a maior contribuição que seus pais deram pra ele. Geraldo compara essa questão com o casamento dos pais da esposa: “Porque, assim, foi um estilo muito diferente do dela (esposa), que o pai tinha o dinheiro do pai, a mãe tinha o dinheiro da mãe, né? E no meu, esse estilo de vida familiar sempre foi muito compartilhado, essa parte financeira era junto, né? Então eu acho que essa foi a contribuição que minha mãe e meu pai, no meu ponto de vista, deram pro… casamento… que eu peguei como educação dos dois, né?”. Ambos os pais de Geraldo trabalharam fora “a vida inteira”, como ele conta. Segundo ele, apesar disso, a divisão de tarefas domésticas e familiares não existia. “Não tinha divisão de tarefas, vou dizer assim, não tinha divisão de nada, né. Era tudo…. que quem cuidava mais dos filhos era minha mãe pelo fato do meu pai sempre ter sido focado no trabalho, né. É… minha mãe.. porque sobrava pra ela essa função”.
A família de Geraldo usufruía de uma assistente para as tarefas domésticas e para o cuidado dos filhos. “Na minha casa, sempre teve. Sempre teve uma secretária, uma empregada. Sempre uma pessoa ajudando porque minha mãe e meu pai trabalhavam fora, ambos, a diferença de idade entre eu e minha irmã era muito pequena, então a necessidade do meu pai e da minha mãe trabalhar fez
com que eles tivessem essa pessoa contratada cuidando da gente no período que eles tavam fora, né?”. O esposo afirma ser a mãe quem coordenava o trabalho da assistente.
Geraldo descreve ainda os pontos que gostaria de fazer diferente do casamento dos pais. Ele percebe seus pais como “não sendo muito íntimos”. Segundo observa, os pais “não promoveram um instinto familiar”. Isso porque, na visão de Geraldo, “meu pai sempre focou muito na vida profissional e ele sempre destinou muito tempo pra isso e quem criou a família foi minha mãe”. Ele destaca também a falta de amizade e diálogo que havia entre os membros da família e entre o casal de pais.