A pesquisa foi realizada na cidade de Brasília-DF em local sugerido pelos casais entrevistados. Apenas o casal 2 optou por realizar a entrevista em local público, um café. Todos os outros casais sugeriram a própria casa para a realização da pesquisa. As entrevistas ocorreram no período compreendido entre o mês de outubro do ano de 2016 a junho de 2017.
2.4. Instrumentos
A pesquisa valeu-se de três instrumentos: formulário sociodemográfico, linha do tempo da vida profissional e entrevista semiestruturada. O formulário foi aplicado inicialmente junto com a linha e, em seguida, realizada a entrevista.
2.4.1. Formulário Sociodemográfico e Linha do Tempo da Vida Profissional
No ano de 2017 estava em vigor o valor de R$ 937,00 para o salário mínimo. 5
O formulário (Anexo B) foi elaborado com o intuito de obter informações gerais sobre os cônjuges. A pesquisadora verbalizou as questões propostas e registrou as respostas no formulário. Na parte inicial, investigou-se tempo de namoro, tempo de casamento, tipo de união conjugal, idades dos cônjuges, idades com que ambos saíram da casa dos pais, grau de escolaridade, formação acadêmica e tempo de formados, cursos de pós-graduação, profissões, locais de trabalho, cargos, carga-horária dos trabalhos e as rendas atuais de cada cônjuge.
Foi dedicada uma atenção especial aos locais de trabalho, cargos e rendas, solicitando-se que ambos os cônjuges desenhassem uma linha do tempo da vida profissional. Cerveny (2000) apresenta a Linha de Tempo Familiar (LTF) como um instrumento na qual se solicita à família que desenhe uma linha horizontal e pontue as datas e fatos mais importantes da vida familiar. Segundo a autora, a linha de tempo baseia-se em estratégias adotadas pela disciplina de História com a finalidade de mostrar a ocorrência de fatos em uma sequência de tempo. É um instrumento tradicionalmente usado na clínica da terapia familiar e nessa pesquisa utilizamos como um instrumento de coleta de dados.
Foi feita uma adaptação da LTF, a qual denominamos de “Linha do Tempo da Vida Profissional” ou “Linha da Vida Profissional”. O uso desse instrumento com os casais pesquisados deveu-se ao interesse das pesquisadoras em obter uma melhor compreensão acerca do desenvolvimento e do crescimento da carreira de cada um dos cônjuges. Isso porque um de nossos objetivos de pesquisa diz respeito ao entendimento do aspecto da dupla carreira em casais de filhos/ as cangurus. Assim, buscamos confirmar o quanto, de fato, esses/as filhos/as investiram na carreira antes de casar até o momento da entrevista.
Cada cônjuge pontuou em sua própria linha as datas de todos os empregos, trabalhos, cargos, duração de tempo em cada local de trabalho e salários. A linha iniciou com o ano da graduação, quando ainda moravam com os pais, e finalizou na data da entrevista. O ano do
casamento foi também identificado na linha. Os desenhos das linhas não serão expostos nessa tese uma vez que pretendemos garantir o anonimato dos participantes.
2.4.2. Entrevista Semiestruturada
A entrevista semiestruturada foi composta por um roteiro norteador (Anexo C) com tópicos relacionados aos objetivos da pesquisa e baseados na literatura revisada sobre o tema. As perguntas foram feitas de modo a estimular o diálogo entre pesquisadora e pesquisados/as. O roteiro serviu como um guia flexível para a apreensão dos conteúdos abordados pelos casais participantes. Os temas abordados inicialmente disseram respeito à vivência na casa dos pais, ao tempo de namoro e à decisão pelo casamento. O intuito de abordar esses temas deveu-se ao nosso desejo de contextualizar a vivência canguru anterior ao casamento. Em seguida, investigou-se os temas relacionados aos objetivos propostos por esta tese: a rotina do casal, as percepções sobre o casamento e seus desafios, a carreira de ambos e a conciliação com o casamento, ao casamento dos pais e aos planos para o futuro.
A entrevista foi realizada de forma conjunta com cada casal. Foi solicitado que cada cônjuge respondesse às perguntas separadamente. Assim, obtivemos para cada pergunta/tópico a resposta das esposas e dos maridos. Nosso objetivo foi obter um relato mais completo da vivência de cada cônjuge e também identificar possíveis contradições ou complementações nas falas do casal. Acreditamos que, dessa forma, pudemos ter uma visão mais ampla da dinâmica conjugal e das percepções de cada um em relação à vivência do casal, bem como permitir uma análise das questões de gênero presentes na relação. A intenção é entender a experiência, os possíveis dilemas e/ou paradoxos presentes entre o casal acerca do fenômeno do casamento formado por filhos/as cangurus.
No diálogo com os/as entrevistados/as, foi respeitada a escolha que faziam em relação às respostas, deixando a entrevista fluir. Pretendemos, assim, abrir espaço para compreender outras
dimensões que eles poderiam acrescentar sobre a forma com que percebem e vivenciam o fenômeno investigado.
2.5. Procedimentos
Os casais participantes foram recrutados na cidade de Brasília por meio de indicações realizadas pela rede de contatos da pesquisadora. Essa rede foi informada dos critérios que os casais precisavam possuir. A seleção dos participantes foi realizada, portanto, por conveniência ou acessibilidade e um dos casais entrevistados indicou outro casal para a participação, o que configura a técnica Bola de Neve (snow ball sampling). Essa técnica, segundo Oliveira (2007), consiste em localizar pessoas por meio de indicação de seus conhecidos. Estas, por sua vez, indicam outras pessoas que se encaixam nos critérios da pesquisa.
O contato inicial com os casais indicados a participar da pesquisa foi realizado pela pesquisadora via telefone com um dos cônjuges, o qual confirmou com o/a esposo/a a participação do casal. No primeiro contato, foi confirmado o alinhamento dos casais com os critérios de seleção dos participantes. Foi também proposta uma conversa introdutória sobre a pesquisa. Na conversa, foram explicados o tema da pesquisa, os objetivos e as dimensões éticas, ou seja, o sigilo acerca das informações fornecidas, a guarda do anonimato das identidades, a finalidade do uso das informações. Foi também explicado o direito do/a entrevistado/a de desistir de participar da pesquisa em qualquer momento do processo. Após o aceite dos cônjuges, as entrevistas foram agendadas.
No dia da entrevista essas informações foram reforçadas através do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE – Anexo A), que foi lido para o casal. Ambos os cônjuges assinaram o Termo em duas vias e mantiveram uma. A pesquisadora ficou em posse da outra via. O TCLE explicitou os objetivos e os cuidados éticos da pesquisa além da autorização da gravação e utilização dos dados coletados na entrevista. As informações de contato das
pesquisadoras também constavam nesse documento para o caso de os/as entrevistados/as julgarem necessário contatar as pesquisadoras após a realização das entrevistas. Foi informada também a possibilidade de acesso a todo material que venha a ser publicado decorrente da pesquisa.
A pesquisadora sugeriu que a entrevista acontecesse na residência dos participantes ou em local público que permitisse privacidade. Nossa intenção era que o/a entrevistado/a se sentisse à vontade para escolher o local e permitisse um fluir natural das narrativas. A pesquisa iniciou com a aplicação do formulário sociodemográfico e foi seguida pela realização da entrevista. As entrevistas foram registradas em áudio com o consentimento dos/as entrevistados/as e tiveram a duração média de uma hora e 40 minutos por casal.