O objetivo deste item é proporcionar através do referencial utilizado um breve histórico biográfico de Marcio Bahia, permeando algumas experiências musicais iniciais, os principais professores e músicos em sua aprendizagem e desenvolvimento musical, além dos diferentes contextos musicais nos quais atuou ao longo de sua carreira. Devido algumas semelhanças nos dados das entrevistas das fontes consultadas, (ABDALLA), (ALBIN), (BAHIA), (MARINHO) e (WERMELINGER), optou-se para a construção deste recorte biográfico, fazer o cruzamento destes dados através de um resumo onde serão apresentadas algumas referências literais e depoimentos do músico.
Marcio Villa Bahia nasceu no município de Niterói no estado do Rio de Janeiro no dia 18 dezembro de 1958 em um contexto familiar onde se faziam presentes referências musicais ao vivo por meio das práticas dos seus parentes. Segundo Marcio, “Meu bisavô era mestre de banda em Piraí (RJ). Alguns tios meus tocavam. Minha mãe toca violão e teclado...
Ou seja, a música sempre esteve presente na vida da família.” (BAHIA apud ABDALLA). Além desta proximidade com práticas musicais diversificadas, também encontravam-se presentes, as referencias discográficas ouvidas por seus parentes como os álbuns das orquestras de Ray Connif e de Chuck Albert, Metais em Brasa e Tijuana Brass. Seu interesse pela bateria iniciou nos primeiros anos de vida ao relatar que “ficava doido” ao ver passar na sua frente o bumbo, a caixa entre outros instrumentos das bandas marciais, no desfile do dia sete de setembro. Sua curiosidade pelo universo percussivo levou-o ainda na infância a construir uma bateria com materiais alternativos, onde dispunha a configuração destes baseado nos sets de baterias industrializadas. Desta forma simulava panelas como pratos, regador como tom-tom, balde como surdo, marmita como caixa e pedaços de cabo de vassoura como baquetas. Após continuar explorando possibilidades musicais neste instrumento, em 1973 Marcio ganhou de seu pai sua primeira bateria trazida dos Estados Unidos pelo seu tio. Esta era uma Singerland Radio King usada e muito antiga, na qual tocou suas primeiras levadas ensinadas por seu irmão mais velho Maírton que já tinha uma iniciação musical mais adiantada através das aulas de violão que fazia. Durante seu primeiro ano Marcio “tocou de ouvido” acompanhando músicas de discos de rock’n roll entre os quais encontravam-se como referência alguns álbuns dos The Beatles e em 1974 iniciou sua atuação como baterista integrando bandas de rock formadas em escolas de Niterói. Em 1975 integrou o Grupo Íris com José Maurício, Kika Lott e Mário Rui, o Grupo O Circo com Biafra, Bolinha, Eduardo Farah e Fernando Bittencourt, além dos irmãos Marise, Simiana e Humberto de Resende Pinto. Com O Circo excursionou pelo Estado do Rio de Janeiro, e participou de sua primeira gravação em disco. Neste mesmo ano iniciou em sua cidade natal suas primeiras aulas com o baterista Sergio Murilo que lhe apresentou a bossa nova, o jazz e direcionou seus estudos para as nuances e para o refinamento técnico necessário para o desenvolvimento de sua performance nestes estilos. Em 1976 ingressou na Escola de Música Villa Lobos – EMVL - dirigida então por Aílton Escobar que a princípio havia informado que o curso seria de bateria. Entre tanto o curso era de percussão sinfônica tendo entre os instrumentos lecionados nas disciplinas, a caixa clara pelo professor Edgard Nunes Rocca (Bituca), o vibrafone por José Cláudio das Neves e o tímpano por Hugo Pagni. A partir de então, Márcio integra o grupo de percussão da EMVL e chama a atenção de músicos profissionais ganhando prêmios como solista com o grupo que sempre conquistou o primeiro lugar de todos os jogos camerísticos que participou. Em 1977 foi motivado por seus professores a estagiar na Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, que tocava fundamentalmente óperas e ballets, tendo em seu repertório obras de compositores
como Tchaikovsky e Stravinsky. Um ano mais tarde foi efetivado na Sinfônica, além de ter sido convidado para integrar o grupo de percussão da Rádio MEC onde conhecera Hermeto Pascoal e Grupo na atuação da peça Rhyihtmetron de Marlos Nobre (1968), apresentada em conjunto pelos dois grupos em um concerto composto também pela Suíte Norte-Sul-Leste- Oeste e pela Suíte Paulistana ambas de Hermeto Pascoal (1979). Paralelamente as atividades com os grupos de percussão e a orquestra, Marcio tocava bateria em outros trabalhos como a Banda de Lá, ao lado de Ricardo Rente, Vítor Mansur, Eduardo, Renato, Luís Franco e Paulo Aboud. Nesta época começaram a aparecer muitos convites para atuar como baterista, dos quais a maioria foi recusado devido ao seu contrato de músico efetivo com a orquestra que o requisitava com frequência. Este distanciamento da prática da bateria, junto a especificidade de sua atuação mais voltada a músico leitor dos naipes de percussão e o pouco espaço para a improvisação oferecido pelos repertórios de concerto, motivaram Marcio a seguir outro caminho em sua atuação musical. Segundo o próprio: “Sentia falta de ser um músico criador, de explorar minha musicalidade intuitiva. A bateria iria ficar sempre mais ou menos, e eu não queria isso” (BAHIA apud MARINHO, 2000, p.19). Em dezembro de 1980 Marcio decidiu focar ainda mais na bateria e desligou-se da Orquestra do Teatro Municipal e dos grupos de percussão para formar o Swing Mania com Raimundo Luis, Mazinho Ventura, Poubel, Renato Franco e Carlos Malta. No ano posterior Marcio ingressou no Hermeto e Grupo, contexto musical ao qual foi direcionada a análise musical desta pesquisa e que marcou um importante momento no desenvolvimento de sua performance musical. Conforme o mesmo afirma: “O Hermeto foi meu grande professor de bateria, ele fez minha cabeça ritmicamente. Ele tocava para eu ver como era.” (ibidem).
Para elucidar como encontrava-se o trabalho de Hermeto e Grupo no momento do
ingresso de Marcio, será proposto uma breve revisão da trajetória musical de Hermeto com ênfase na sua produção discográfica até o ano de 1980, que documenta sua atuação com diversos músicos e instrumentos. Este item tem como finalidade abordar vivências musicais relevantes no desenvolvimento de características formadoras das concepções que apoiaram as orientações repassadas de Hermeto para Marcio conforme será comentado posteriormente.