A partir de alguns dos dados dos estudos anteriores que foram por nós apresentados faremos uma análise com relação ao conceito de carreira que deles se pode inferir, já que nenhum dos três estudos tinha este objetivo.
Com relação ao estudo de Covre (1991) realizado com estudantes no ano de 1976, temos de considerar esta como a época das organizações piramidais, com muitos níveis hierárquicos, exemplos típicos das organizações anteriores às reestruturações. Temos dados da pesquisa de Covre (1991) que podem dar uma idéia do que estes alunos pensavam sobre carreira na época. Apesar de Covre (1991) ter entrevistado tanto alunos da graduação quanto do CEAG, apresentaremos nesta seção os dados relacionados somente aos alunos da graduação já que esta foi a população por nós estudada.
Ao serem questionados sobre a influência das disciplinas para sua formação profissional, os respondentes tinham quatro opções:
1. Conhecimento de técnicas e processos de trabalho. 2. Habilitação para análise de problemas da empresa.
4. Compreensão da realidade social total e seu relacionamento com a empresa.
A maioria dos alunos da graduação (84,3% diurno, 78,4% noturno) escolheu a opção dois (Habilitação para análise de problemas da empresa). Podemos dizer que a organização aparece nesta resposta como o foco do estudante, sua preocupação principal.
Em outra questão, que versava sobre o que se deveria visar, no Brasil, em um curso de Administração, diante das seguintes opções:
1. Formar técnicos especializados para áreas públicas e privadas. 2. Formar técnicos com um treinamento válido para qualquer área. 3. Formar técnicos que melhor atendam às indicações das empresas.
4. Elevar a qualidade profissional: desenvolver o espírito criativo do indivíduo.
5. Formar técnicos que melhor atendam à realidade da sociedade brasileira.
A maioria dos alunos da graduação (61,4% diurno, 41,2% noturno) escolheu a opção dois (Formar técnicos com um treinamento válido para qualquer área). No entanto, é preciso pontuar que 37,3% dos alunos do período noturno optou pela resposta três. Replicamos estas duas questões em nosso questionário para comparar os dados de Covre (1991) com aqueles coletados por nós, pois consideramos importante saber o que a população por nós investigada entende como sendo a finalidade de sua formação.
Depois de analisar os dados, Covre (1991) interessada na visão e na posição social dos administradores, faz uma análise subjetiva do conjunto de respostas que obteve e cria tipos de administradores, conforme já foi descrito. O tipo de administrador, que corresponde à maioria dos casos analisados no trabalho, é denominado como “Administrador em Ascensão”.
“(...) Administrador em ascensão – preocupado em atender à empresa e subir junto com ela (que permeia quase todos os tipos de administradores) (COVRE, 1991, p. 145)”.
É neste ponto do trabalho de Covre (1991) que podemos perceber a idéia de carreira vinculada da época. Nos dados coletados observou-se que os administradores viam a necessidade de se aprimorar para responder aos desafios
específicos das empresas para conseqüentemente subirem em sua hierarquia. Comparando estes resultados, obtidos por meio de dados empíricos, com o modelo de carreira apresentado pela bibliografia da mesma época, podemos “atrevidamente” dizer que o conceito de carreira que fazia parte do universo reificado foi absorvido pelo senso comum de um grupo específico, os alunos de graduação da EAESP-FGV no ano de 1976.
Uma outra análise interessante que foi possível realizar a partir de uma comparação do trabalho de Covre (1991) com o de Ferreira (2002), diz respeito ao perfil da população investigada, são dados de cunho mais demográfico, portanto não diretamente ligados às representações sociais de carreira. Inicialmente temos dados sobre o perfil dos alunos quanto ao gênero, é interessante notar a diferença da participação de homens e mulheres na graduação. Comparando os dados de Covre (1991) com aqueles coletados por Ferreira (2002), vemos que em 25 anos a presença feminina mais que dobrou, mas não chega ainda a ser igual à percentagem masculina.
Tabela 1: Distribuição de gênero dos alunos entrevistados.
ORIGEM DOS DADOS MASCULINO FEMININO
COVRE, 1991. 85,4% 14,6%
FERREIRA, 2002. 61% 39%
Fonte: Covre (1991) e Ferreira (2002)
Outros dados interessantes que nos permitem fazer comparações, apesar dos autores terem utilizado categorias diferentes de análise, diz respeito à faixa etária dos alunos entrevistados na graduação.
Tabela 2: Distribuição dos alunos entrevistados segundo idade.
ORIGEM DOS DADOS 20 A 22 23 A 25 26 A 28 29 A 31 32 A 34 35 A 37 > DE 37 COVRE 24,6% 46,7% 18% 5,8% 4,1% - 0,8% FERREIRA 20 a 23 > de 23 92% 8% Fonte: Covre (1991) e Ferreira (2002)
No ano de 1976 os alunos entre 20 e 25 anos correspondiam a 71,3% do grupo investigado na pesquisa de Covre (1991). Já no ano de 2001, 92% dos alunos pesquisados da graduação tinha até 23 anos. Outro dado que nos chama a atenção é que os alunos de graduação com idade acima de 26 anos correspondiam a 28,7% da amostra de Covre (1991). Tanto Ferreira (2002) quanto Covre (1991) entrevistaram alunos de graduação dos últimos semestres. Covre (1991) estudou alunos da graduação dos últimos semestres por ter como objetivo entrevistar estudantes que ao menos tivessem iniciado seu estágio, semelhança importante para que possamos comparar o que foi coletado nesta pesquisa de Covre (1991) com o que encontramos, já que a população que aplicamos os questionários foi de alunos do último ano da graduação. Covre (1991) também trabalha com uma classe do 4º período para ter uma pequena representação dos primeiros semestres.
Com relação ao trabalho de Tonelli (1996) também foi possível fazer algumas análises a partir de algumas respostas ao questionário. É claro que não pretendemos com isso, comprovar aquilo que apresentamos ao longo do nosso trabalho, mas como aqui temos as “falas” dos entrevistados, podemos inferir sobre características que podem indicar uma determinada representação social de carreira.
Na pergunta de número dois; qual o significado do trabalho que você realiza atualmente? Tonelli obteve algumas respostas que podem ilustrar o que consideramos como novo modelo de carreira.
- “Atualmente sou estagiário e busco conhecimento e vivências em rotinas de trabalho”.
É possível perceber a idéia da aprendizagem nesta fala.
- “Significa muito para mim, quer dizer, o meu trabalho acredito vem ajudando a companhia e a companhia também vem me ajudando no meu desenvolvimento profissional e pessoal”.
- “Para mim significa independência financeira e a possibilidade de aprender e ganhar experiência, tornando-me um profissional eclético
para posteriormente ser bem sucedido na montagem de um negócio próprio”.
Nas duas respostas acima podemos perceber a idéia da aprendizagem de um modo ainda mais detalhado, isto é, no sentido de que o que é aprendido está relacionado à carreira do indivíduo e não somente à necessidade da organização como pudemos notar no trabalho de Covre (1991).
- “É um trabalho bem mais interessante do que o que realizava anteriormente e representa a aproximação maior dos objetivos de carreira que tenho atualmente”.
Nesta reposta é possível notar um indício de planejamento de carreira realizado pelo próprio indivíduo.
Na questão três: Tem orgulho deste trabalho? Por quê? Encontramos tanto uma resposta que corrobora com a teoria as carreiras sem fronteiras quanto outra que ainda fala em ascensão hierárquica, característica típica das carreiras vinculadas.
- “(...) Surge agora a vontade de experimentar coisas novas. Creio que no começo, aprendia 10 coisas novas por dia e agora aprendo uma coisa nova por mês.”
Nesta resposta vemos que o aluno avalia o valor de seu trabalho pelo quanto aprende com ele.
- “Sim, a área é interessantíssima e representa uma grande oportunidade de desenvolvimento profissional e ascensão”.
Já aqui aparece o desejo de ascender, o que não significa que essa ascensão seja necessariamente em uma mesma organização, mas de qualquer modo, a palavra é bastante característica do modelo das carreiras vinculadas.
Quando questionados sobre as dificuldades técnicas de seu trabalho, estas parecem não existir para os alunos pesquisados. Ponto interessante a ser
comparado com o trabalho de Covre (1991), no qual a maior preocupação era a habilidade técnica, podemos dizer que isso demonstra uma transformação de conceitos individuais geradas pelas mudanças de contexto.
Na questão de número dez apareceram respostas interessantes com relação ao que os alunos valorizam no trabalho que realizam. Para a questão: O que você mais gosta no seu trabalho? Tonelli (1996) apresentou as seguintes respostas:
o “A liberdade na tomada de decisões”.
o “A possibilidade de criar quase sem barreiras”.
o “Gosto da liberdade de opinião e ação e da autonomia de trabalho”. o “O fato de não ter um escritório e uma equipe fixos”.
o “A possibilidade de participar de grandes projetos e ter muita autonomia, pois isso me dá chance de aprender muito”.
o “A total possibilidade de fazer as coisas do meu jeito”.
Estas respostas podem ser interpretadas como sendo indicadores de que o valor que o aluno leva em consideração ao avaliar aquilo que faz está relacionado à liberdade, à flexibilidade do trabalho; característica do modelo das carreiras sem fronteiras.
Na segunda parte do trabalho de Tonelli (1996) os temas abordados eram bastante específicos, portanto não pudemos retirar de lá “falas” que ilustrassem indicadores de modelos de carreira.
Com relação ao trabalho de Ferreira (2002), as duas questões apresentadas anteriormente e suas respostas são um material interessante para análise no âmbito das representações sociais de carreira. Falamos aqui do que os alunos pesquisados entendem como sendo seus trunfos no mercado de trabalho. Retomando, os três pontos com maior índice de resposta foram os seguintes:
o Características pessoais - 64% o Diploma de escola de 1ª linha - 49% o Cultura Geral - 23%
Em 6º lugar, com 12% das respostas, aparecem os relacionamentos pessoais como trunfo. O que nos pareceu contraditório ao modelo de carreiras sem fronteiras,
já que a teoria enfatiza a rede de relacionamentos como ponto importante na obtenção de oportunidades que contribuam significativamente para a carreira. No entanto, podemos interpretar este número de uma outra forma, isto é, os alunos pesquisados por Ferreira (2002) podem ter preterido esta opção por considera-la um sinônimo de nepotismo, isto é, de que conhecer pessoas importantes e “chaves” nas organizações não garantiria uma posição no mercado de trabalho por mérito próprio. E não como sinônimo de rede de relacionamentos que aumentaria as possibilidades de oportunidades de trabalho de acordo com o mérito de cada um.
Contudo, há outros dados que corroboram com o modelo das carreiras sem fronteiras. Não foram mencionados como trunfos o conhecimento obtido pela formação educacional, o domínio de técnicas e, além disso, 74% dos entrevistados consideraram o desempenho acadêmico como o fator que menos conta na busca de uma boa posição de trabalho. Estes dados podem nos indicar que as mudanças constantes no conhecimento necessário tanto aos indivíduos quanto às organizações faz o conhecimento em si ser pouco valorizado como trunfo.
Diante destes trabalhos, principalmente dos mais recentes encontramos algumas indicações de contradição, isto é, apesar de muitas características do modelo das carreiras sem fronteiras estarem presentes nos dados de pesquisa, em alguns pontos surgem indícios das carreiras vinculadas. Esta conclusão corrobora com o aspecto característico das representações sociais, isto é, de que elas não são sedimentadas e estáticas e se transformam conforme mudam os problemas com os quais o ser humano se depara.
A existência da contradição é claramente explicada por Spink (1995). Na verdade, a contradição está implícita nas representações sociais. Isso porque ao analisarmos o contexto em que as representações sociais surgem e se transformam a partir de uma perspectiva temporal, podemos encontrar três tempos: o tempo curto, cujo foco está na funcionalidade das representações sociais na vida prática, no momento das interações; o tempo vivido, que diz respeito ao processo de socialização, àqueles valores que são passados ao indivíduo a partir de sua inserção em um determinado grupo e finalmente; o tempo longo, que abrange as memórias coletivas, os conteúdos de uma cultura que vão se acumulando, o imaginário social (SPINK, 1995). Assim, a partir deste contexto é compreensível que coexistam contradições nas representações sociais porque as exigências do
momento da interação podem encontrar nas representações sociais apreendidas no tempo vivido, por exemplo, algo que não explique, que não dê sentido ou que não tenha preparado o indivíduo para a ação diante de um determinado problema com o qual ele se depara.
Deste modo, esta polimorfia muitas vezes revela a coexistência das representações arcaicas, que fazem parte do acervo das produções culturais inscritas no imaginário social, e das representações novas, fruto do encontro entre o cotidiano e a ciência (SPINK, 1993). Podemos até dizer que as carreiras vinculadas estão tão sedimentadas no imaginário coletivo, que algumas de suas características sempre surgem, apesar das pessoas saberem que o mercado de trabalho é bem diferente daquele em que a carreira vinculada fazia sentido.
Uma outra possibilidade para esta coexistência de modelos diferentes de carreira é que estes ocorram de forma simultânea, ou seja, o modelo da carreira vinculada ainda existe em certos tipos de organizações, assim como o modelo das carreiras sem fronteiras. Ou ainda, podemos considerar que os alunos pesquisados viam possibilidades diferentes de carreira dentro de uma mesma organização, porém em unidades de negócios ou projetos diferentes.