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A relação entre o espaço e as actividades de jogo é cada vez mais complexa. As ruas e as praças próximas das casas, são diferentes dos jardins, dos pátios ou quintais privados, porque encorajam ao alargamento do número de pares, criam a possibilidade de realizar diferentes jogos, permitindo à criança ganhar familiaridade com o ambiente; as actividades desenvolvidas pelas crianças no meio onde vivem são influenciadas também pela natureza do próprio lugar. Por isso, o ambiente deve ser rico e estimulante para oferecer à criança diferentes oportunidades de interacção e apropriação; isso significa dar acesso livre aos diferentes espaços da cidade (Tonucci & Rissotto, 1998; Hart, 2004). Nos últimos anos, muitas cidades criaram parques públicos; no entanto, esses espaços localizam-se longe das zonas habitacionais e as crianças para se deslocarem para lá, têm de ser acompanhadas pelos pais. Os urbanistas e planeadores das cidades organizam os espaços e os lugares de jogo de acordo com as necessidades da comunidade adulta. É importante compreender como as crianças apreciam os espaços e os lugares para brincarem, tendo em conta o balanço entre a agenda dos adultos e as prioridades das crianças. Uma das causas daquilo que se chama “desaparecimento” da inf}ncia é o impacto da tecnologia e também a mudança da natureza dos lugares de jogo (Burke, 2005).

Uma investigação feita em Roma (Prezza et al., 2000) mostrou que os espaços próximos podiam tornar-se espaços muito importantes para crianças e jovens, por viverem ali experiências de autonomia e, por encontrarem outras crianças e figuras adultas, diferentes dos seus pais. O estudo referenciou o pátio, como o lugar mais frequentado pelas crianças, como espaço para brincar, em comparação com parques e espaços privados, havendo uma correlação positiva entre autonomia de movimento e a possibilidade de usar esses espaços. Para estes autores, o jogo livre ou brincadeira em espaços exteriores e interiores, está intimamente associado à independência de mobilidade.

Num estudo de caso “Play in Focus”, a investigadora (Burke, 2005) enquadrou um projecto amplo de avaliação das oportunidades de jogo formal e informal, realizado em East Leeds, Yorkshire, na Inglaterra. O estudo pretendeu analisar, com detalhe, a experiência de jogo das crianças de escolas primárias, em termos de espaço, lugares e materiais preferidos. A autora desenvolveu uma nova abordagem metodológica: dar às crianças todas as possibilidades de recolherem os dados da investigação autonomamente. A investigação foi desenvolvida numa amostra de dois grupos de crianças, da região de Leeds (Inglaterra), com idades entre os 7 e os 11 anos; foram fornecidos instrumentos de trabalho após instruções de manipulação; utilizaram câmaras fotográficas para elaborar diários de imagens, onde documentavam os espaços e lugares que frequentavam durante uma semana – sem alterarem a sua rotina. Este compromisso estava completamente nas mãos das crianças, como elemento de grande confiança e responsabilidade, gerando à partida, uma discussão

sobre o seu papel no processo de investigação. As crianças deveriam comportar-se como detectives, procurando descobrir a chave da sua própria actividade. Esta investigação, feita pelas próprias crianças que aceitaram as regras, como investigadores, expondo as suas experiências, em discussões e interpretações dos diários visuais, materializando o conhecimento e a compreensão que têm do seu espaço próximo. Este projecto fez parte de um grande esforço para identificar e documentar as oportunidades de jogo das crianças, em determinadas zonas, obrigando urbanistas e políticos a analisarem as necessidades das crianças e os lugares do jogo.

Os resultados do estudo associam-se a outros mais vastos. As crianças têm um conhecimento íntimo do seu espaço próximo e das oportunidades formais e informais para brincarem nele. Num total de 639 fotografias produzidas, cerca de 70% representavam espaços abertos e 30% espaços fechados. Os espaços abertos foram os mais fotografados, seguidos de perto pelos recreios escolares. Os espaços abertos servem para a expansão do movimento, para encontros e conversas com os amigos. As crianças que produziram mais imagens dos espaços de recreio escolar, foram aquelas que tinham acesso para brincar nessas áreas – tendo sido essas áreas concebidas a pensar na promoção do jogo e nas crianças. Os espaços de jogo formais não surgiram frequentemente nos diários fotográficos das crianças, surgindo apenas em 3% de todas as fotografias. Os parques de skate, rampas e superfícies duras, espaços abertos e campos de ténis, tiveram mais acolhimento nas sugestões fotográficas. A relva é um outro elemento marcante, identificado através das brincadeiras e das lutas, onde reconhecem e associam características próprias como os cheiros e a estética. Também as árvores e os arbustos têm importância; os materiais naturais suportam a imaginação. Mas este estudo (Burke, 2005) contribuiu também, para alargar a dimensão da documentação, sobre a dimensão doméstica do jogo, tornando evidente a importância dos interiores das casas e áreas próximas, como jardins e pátios de família e amigos. Quando se perguntava às crianças para escolherem uma fotografia e falarem sobre ela, escolhiam do interior de casa. O sentido de privacidade que esses espaços fornecem (ex. quartos, armários, automóveis, etc.) parece ser importante para a criança, desenvolvendo nelas, quando brincam, um sentido de identidade.

Este trabalho teve três tipos de implicações: (1) mostrou que as crianças, mesmo pequenas, são capazes de assumir regras de investigação e informar-se sobre as suas próprias vidas e dos seus pares. Sob determinadas circunstâncias, onde a investigação da actividade imediata se torna clara, a criança esforça-se para o desafio, tornando-se um elemento de mudança; (2) métodos de investigação visual, em particular o uso de desenhos e jornais fotográficos, podem ajudar as crianças a detalhar os significados das suas experiências e a explicar os limites das escolhas que fazem todos os dias onde jogam (brincam); (3) este projecto pode apresentar um retrato da infância urbana do século XXI.

Apesar das enormes barreiras postas pelo ambiente construído, as crianças brincam, como o faziam as gerações passadas na Inglaterra e como o fazem as suas contemporâneas, em todo o Globo. Este estudo desafiou a opinião pública, as vozes dos pais, avós, professores e outros adultos, sobre as condições da moderna inf}ncia, na express~o “as crianças j| n~o brincam” – sendo o desafio, para a comunidade de planeadores de espaços, a olharem como crianças, as oportunidades de jogo e brincadeira. A preocupação e ansiedade dos pais acerca dos jogos de ecrã e a utilização de computadores é importante, tornando-se por isso, necessário, rever as tendências e o impacto da natureza e da qualidade do jogo livre. A redução do tempo de jogo, as actividades livres na escola e as restrições do espaço envolvente à escola e residência devem estar presentes na mente dos adultos, quando considerado o significado do jogo livre na infância moderna (Burke, 2005).

A cidade tradicional, em que os espaços não estavam especificamente adaptados às crianças, oferecia em si mesma, uma área de jogo própria, definida e protegida; um espaço arranjado, de tal forma que, a criança brincava acomodada no mundo adulto. Não havia espaços projectados especialmente para as crianças e, por essa razão, eram percebidos em si mesmos, como mistério e variedade, onde abundavam os estímulos e as surpresas. A cidade moderna incrementou o aparecimento de caixas de areia e cercas fechadas, adequadas apenas às crianças, com funções específicas para as crianças estarem sozinhas. Nas caixas de areia das cidades nada acontece de novo, é tudo previsível, a percepção do espaço é imediata e termina muito depressa, a segurança é garantida através de uma separação clara de dentro e fora (Bozzo, 199529 citado por Tonucci & Rissotto, 1998; Hart, 2004).

Parece que as crianças foram excluídas da cidade e a sua integração apenas é permitida em certos contextos especificamente projectados para elas (Germanos, 199530 citado por Rissotto & Tonucci,

1999).

Este é um dos aspectos paradoxais da regulação da brincadeira na criança contemporânea, esta elaboração de áreas focalizadas na população infantil, localizadas nos centros urbanos e expressas em teatros especializados, museus, espaços aventura – “indoor”, parques de lazer e quintas pedagógicas, tudo constituído a pensar na criança (O’Brien, 2003). Seria importante que a criança não estivesse separada do adulto; que os terrenos de jogo estivessem integrados em vastos espaços verdes, de preferência junto das escolas, englobando estruturas desportivas para adultos, em conjunto com parques de jogo, recreio e aventura para as crianças (Neto, 1995).

29 ver em Bozzo, L.(1995). Il Gioco e la Cittá. Paesaggio Urbano, 2, 30-33

30 ver em Germanos, D. (1995). La Relation de L’Enfant a L’Éspace urbain: Perspectives Educatives et Culturelles. Architecture &

Diversas resoluções no }mbito da “International Association For Childrens, Right to Play – IPA” em Paris, 1969, Milão, 1975 e Malta, 1977 têm concluído que as necessidades de jogo da criança terão de ser uma prioridade no planeamento urbano, devendo ser incluídos na formação de arquitectos paisagistas, educadores, directores de reservas, animadores, autarcas, e todas as pessoas que planeiam ou se preocupam com as crianças, nomeadamente no planeamento de parques habitacionais e outras instituições de utilidade pública e social. Toda a propriedade habitacional deverá seguir a legislação que determina qual o espaço que deverá ser reservado para o jogo e actividade física das crianças e jovens (Neto, 2001).

Três vectores esclarecem a necessidade de tornar o ambiente acessível a experiências lúdicas e sociais31:

A – A área urbana total deverá ser vista como um potencial ambiente de jogo e desenvolvida adequadamente para a criança (resoluções emanadas da IPA em Milão, 1975 e Otawa, 1978);

B - A diversidade de ambientes acessíveis deverão incluir todos os aspectos da vida quotidiana da comunidade adulta e seus ambientes naturais e construídos;

C - As crianças necessitam de um ambiento diverso e expansível, perto de casa, sem a constante segurança e supervisão adulta.

Neste sentido poderão ser tomadas algumas medidas32:

1. Devem ser redimensionados novos modelos de construção das áreas residenciais, procurando, na medida do possível, definir condições para as crianças jogarem em liberdade e segurança, e assegurarem os dispositivos de acção que estimulem os parâmetros fundamentais do seu desenvolvimento motor, cognitivo e social.

11. Devem aproveitar-se as potencialidades das escolas e edifícios públicos para o desenvolvimento lúdico da comunidade. Os espaços de recreio poderiam com a intervenção de animadores, criar um melhor ambiente com mais jogos construtivos e menos tumultos. Após o período de aulas e durante as férias, os espaços de jogo deveriam ser abertos à vizinhança.

12. O planeamento de espaços de jogo para crianças é um assunto muito sério. A participação activa das crianças no planeamento, projecto e direcção do espaço urbano é uma garantia eficaz para a sua frequência, manutenção e animação quanto ao acesso e participação em grupo.

31 Neto, C. (2006). O jogo e o tempo livre nas rotinas de vida quotidiana de crianças e jovens. Consultado em 30 Janeiro 2006 através

de http://www.fmh.utl.pt/Cmotricidade/dm/textoscn/ojogoetempolivre.pdf

13. O futuro do planeamento urbano deve considerar as culturas específicas de infância e de jovens quanto ao acesso aos espaços de jogo perto das áreas residenciais ou de espaços públicos exclusivamente dedicados à recreação e tempo livres. Onde não existam espaços de jogo deveriam ser desenvolvidos espaços alternativos como corredores, estradas e baldios, após se assegurar a segurança da criança.

Temos de pensar que as crianças têm um conhecimento físico singular de certos lugares e também dos significados desses lugares para jogarem certos jogos ou adoptarem certo espaço como refúgio (ex. cabanas) ou convívio; os lugares “secretos” das crianças não são pré-fabricados. Diferentes tipos de envolvimento estimulam diferentes oportunidades para as crianças descobrirem os seus próprios lugares. As crianças raramente são autorizadas a tomarem conta de lugares públicos e, talvez seja por isso, que os esconderijos se encontram nos extremos das áreas recreativas ou em zonas de transição. Adultos e crianças perspectivam de forma diferente o envolvimento.

Há um conflito latente entre o que é planeado e organizado pelos adultos, os espaços públicos de recreação e os territórios próprios das crianças; para além dos lugares tradicionais da infância – como os baloiços, os escorregas ou as caixas de areia, as crianças referem (ex. através da fotografia) outros lugares menos convencionais que podem ser montes de terra inclinados como “verdadeiros escorregas” (Chawla & Malone, 2003). Também o significado e a importância do espaço são diferentes para as raparigas e para os rapazes. Essa diferença é provocada pelo modo como cada sexo utiliza e explora o espaço. A relação entre brincar em casa e no exterior é diferente entre sexos. Existe um maior predomínio de utilização de espaços exteriores e de forma mais activa pelo sexo masculino (Neto, 1994). Mas, independentemente do sexo distinguir opções de escolha ou tendência, as condições dos espaços exteriores (rua, zonas adjacentes a habitação, escola e existência de amigos no jogo) influenciam drasticamente o tempo e a frequência das actividades preferidas pelas crianças: jogos de corrida e perseguição, escaladas, jogos com bola, dramatizações, jogos de locomoção e jogos de descoberta (Arez, 1999).

Segundo Neto (1994) as rotinas de jogo, na utilização de espaços de jogo ao ar livre, parecem ser influenciadas também, por factores climatéricos, épocas do ano, distância dos espaços, atitudes parentais, classe social, informação disponível e segurança dos equipamentos. Estes espaços de jogo são utilizados preferencialmente pelas crianças nos fins-de-semana e em tempo de férias escolares. Contudo, recentemente e nos grandes centros urbanos, verifica-se uma substituição dos espaços estandardizados, por espaços imprevisíveis, que permitam actividades mais ligadas ao jogo de aventura (skates, patins em linha, lançar papagaios, andar de bicicleta, etc.); este novo conceito de espaço de jogo parece estar a emergir progressivamente nas motivações dos jovens, mais próximo do

contacto com a natureza, com maior nível de risco, e menos padronizado no confronto com o meio e nas interacções sociais (Neto, 1996).

Baseado na inquirição de cerca de duas mil famílias desde 1993 – pela aplicação de questionários – a partir dos quais se constituiu uma base de dados sobre as rotinas e mudanças sociais associadas ao tempo e espaço de jogo da criança, Neto (1997) refere a indicação de algumas conclusões, no sentido das oportunidades de espaço para brincar serem cada vez mais limitadas; a densidade habitacional e de tráfego, os estilos de vida da família e a gestão do tempo das crianças, impedem que estas tenham facilidades de acesso ao espaço da rua e dos grandes espaços verdes. Os dados do estudo demonstram uma restrição no espaço habitacional e uma progressiva dificuldade da criança em fazer amigos. É a pobreza dos espaços exteriores, em termos de qualidade e acessibilidade: as ruas, os bairros e as zonas residenciais são pobres em espaços verdes e outro tipo de espaços, onde as crianças possam brincar livremente e em segurança. Os espaços públicos de jogo são uma preocupação para os pais; muitos parques são evitados pelos residentes urbanos, porque sentem pouco ou nenhum controlo sobre quem tem acesso a esses lugares, sentindo-se incapazes de controlar ou evitar os perigos (Blakely, 1994). Apesar de não existir um consenso claro nesta matéria, parece que a relação entre o lugar de residência, o espaço próximo e as brincadeiras no exterior sugerem que, determinadas condições particulares oferecem melhores oportunidades para explorar e brincar. Estudos realizados na Inglaterra indicaram uma evidência: zonas de menos densidade habitacional e andares-residência de baixa altura encorajam mais a brincadeira no exterior. As crianças que vivem em andares de altura média desenvolvem mais a brincadeira nas escadas ou dentro de casa, por razões de segurança (O’Brien et al., 2000).

Estes aspectos dos constrangimentos sociais e da organização espacial para o jogo livre ou brincadeira, está bem patente no estudo desenvolvido por Wridt (2004) que se baseou em biografias de infância – através da história de três pessoas, de gerações distintas (de 60, 30 e 13 anos) em zonas diferentes da cidade de Nova York. Com base em histórias de infância (que decorreram entre os 11- 13 anos) captaram a evolução social e espacial do jogo em Nova York, desde 1930 até à actualidade. Trata-se de uma análise baseada em autobiografias e arquivos do “New York Times” tendo sido demonstradas alterações no acesso ao espaço de jogo e recreação, reflectindo representações diferentes da infância, ao longo do tempo. Todas as actividades infantis decorrem em múltiplos sítios e sob diversas formas de supervisão.

O objectivo do trabalho foi analisar toda a mudança espacial que tem sido acompanhada por uma mudança social, ao nível das atitudes, dos comportamentos de vigilância parental e na forma como as actividades são supervisionadas: maneiras informais de acompanhamento, de constrangimento, de

monitorização de actividades e mais recentemente os jogos de vídeo/computador e a Internet. Os resultados preliminares, segundo a autora, sugerem que a infância do elemento mais velho, teve na rua, o espaço predominante para brincar na cidade de Nova York, em meados do século XX. As mães deixavam as crianças brincarem na rua até tarde, já noite; conheciam todos os vizinhos que olhavam pelos filhos uns dos outros. Depois, os parques foram criados para proteger as crianças; neste contexto, os parques e espaços de jogo representaram locais de emancipação, nos quais os pais (mais a mãe) podiam deixar as suas crianças brincarem sem receio. Os parques foram feitos para retirar as crianças das ruas. Pessoas adultas supervisionavam as crianças, dando mais confiança aos pais que acabavam por autorizá-las a permanecer. Portanto, há uns anos atrás, as crianças brincavam nas ruas, em actividades que não eram supervisionadas intencionalmente, moviam-se em locais próximos e familiares. Entretanto, as transformações sociais e algum discurso dos “media” têm contribuído para alastrar a percepção do medo, removendo a infância da vida de rua e também da vida da comunidade em geral. Nas últimas décadas os pais tornaram-se totalmente protectores, investindo muito tempo a monitorizar os filhos. Actualmente brincam em centros comerciais fechados, vão com amigos ouvir música a lojas e vão ao cinema. Gastam muito tempo a comunicar com os amigos, de múltiplas formas, através de mensagens na Internet – “messenger” e telemóvel; a televis~o e o computador estão sempre ligados. O dia a dia da geração actual representa em larga medida, a transformação na comercialização do jogo e brincadeira.

Verifica-se, assim, uma deslocação para espaços privados; toda a manifestação lúdica e brincadeira, incluindo os meios de comunicação tecnológicos, substituem as actividades de ar livre. A brincadeira de exterior, vai sendo gradualmente substituída por diversas actividades que se podem considerar menos criativas: ver televisão, jogar jogos de computador, visionar filmes vídeo que estão sempre à disposição; as classes médias altas vão para espaços privados, onde pagam para brincarem

“indoors” de recreaç~o. A privatizaç~o e comercialização do jogo são acompanhadas por um aumento

de tempos livres mais estruturados. Os pais com poder económico, podem dar aos filhos, tempos livres com actividades organizadas a elevado preço; os pais sem capacidade económica colocam os filhos em centros comunitários ou actividades pós-lectivas. A deterioração dos parques/jardins, juntamente com a violência nas ruas, tem levado muitos educadores e responsáveis políticos a aumentarem o tempo de programas após a escola, situando a brincadeira em espaços fechados, para protegerem as crianças dos perigos dos parques públicos. Embora muitas crianças continuem a jogar e brincar na rua, o seu número é cada vez menor (Wridt, 2004). Mas, as crianças brincam menos fora de casa pela existência de mais estímulos “indoor”: brinquedos, computadores, vídeos, clubes e actividades extracurriculares (Van Der Spek & Noyon, 1995).

A casa, particularmente o quarto e os espaços exteriores próximos, como o jardim e o pátio (quintal) apresentam às crianças oportunidades mais sofisticadas – o que não acontecia nas gerações anteriores, – levando-os a praticar menos actividade física e a correrem novos riscos associados aos predadores “online” (Burke, 2005). Além disso, cada vez mais crianças estão sós, os pais trabalham fora de casa durante a maior parte do dia, obrigando-as a terem o seu horário mais ocupado, de modo a coincidir com o dos pais. Verifica-se que a participação das crianças que têm ambos os pais a trabalhar é maior, quer nas actividades, quer no número de actividades em que estão envolvidas e o seu tempo de lazer está altamente regulado e organizado. Para além de passarem menos tempo em casa, o brincar na rua também se tornou menos importante. As crianças têm hoje mais oportunidades de conhecer outras crianças, noutros locais. Na escola elas cooperam e brincam mais intensamente; voltam a encontrar os amigos nos clubes e nas actividades extracurriculares, não conhecendo quase ninguém no seu próprio bairro (Van Der Spek & Noyon, 1995).

Num estudo sobre a brincadeira/jogo livre no exterior, realizado com estudantes graduados em Israel, Churchman (2003) compara as suas infâncias (através de memória retrospectiva) – em idades de 8-10 anos – com crianças de hoje, em idades idênticas, vivendo em lugares idênticos. Para tal, foram entrevistadas cerca de 900 crianças em diferentes envolvimentos por todo o pais. A uma