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1.4 Background Information

1.4.4 Higher Education in Norway and the USA

No contexto das práticas educativas, é importante deter a formação do estereotipo sexual, ou seja, a diferenciação feita pelos pais na interacção com as crianças do sexo feminino, relativamente às do sexo masculino, gerando diferenças no comportamento em geral e no comportamento motor em particular (Lopes, 1992), com consequências no alargamento exploratório do espaço e no desenvolvimento consolidado da independência de mobilidade. Diversos estudos indicam que o género predispõe a mobilidade real, mostrando que as crianças do sexo masculino são mais activas que as do sexo feminino, fruindo de maior autonomia e liberdade para percorrerem o espaço envolvente e brincarem mais em espaços abertos (e.g. Hillman & Adams, 1992; Blakely, 1994; Malpique, 1995; Heurlin-Norinder, 1996; Serrano, 1996; Neto, 1997; Arez, 1999; Granville et al., 2002; Korpela et al., 2002; Moreno, 2002; Rissoto & Tonucci, 2002; O’Brien, 2003, Kytta, 2004). Parece existir, de facto, um arquétipo relacionado com o sexo. No cenário dos espaços exteriores as raparigas são aparentemente invisíveis, como se o uso da rua fosse moralmente um tabu. Os estudos sobre o uso dos espaços tendem a sugerir que as raparigas gravitam apenas no espaço doméstico (no seu quarto ou no quarto das amigas), nas lojas de centros comerciais, etc... (Matthews et al, 2000).

Blakely (1994) no estudo sobre a concepção que os pais têm dos perigos nas alterações do envolvimento, relacionados com as actividades dos seus filhos de 9-11 anos de idade, verificou existirem atitudes parentais claramente diferenciadoras do género. Os pais que integravam a amostra pertenciam a duas comunidades multiétnicas em Nova York. A amostra era constituída por 16 mães Hispânicas e 16 mães não Hispânicas, 5 pais Hispânicos e 5 pais não Hispânicos, representantes de diversos tipos de família. Muitos pais (particularmente pais e mães Hispânicos) acham que os lugares seguros para os filhos brincarem é dentro de casa. As raparigas Hispânicas são mais protegidas e têm

o acesso mais limitado à rua, sem acompanhamento de um adulto. Os rapazes Hispânicos têm mais permissão. Nos rapazes, os limites de movimento são superiores às raparigas. As raparigas gastam mais tempo no interior e vão acompanhadas aos lugares sob vigilância de adultos (Blakely, 1994).

Rapazes e raparigas Hispânicos têm mais regras a cumprir quando brincam fora, comparados com crianças não Hispânicas; são mais observadas enquanto brincam e contactam menos com outros. Na utilização da bicicleta (mais de 80% possuem bicicleta) os rapazes de todos os estratos étnicos têm autorização para andarem no passeio à volta do quarteirão; as raparigas apenas são autorizadas a andarem metade da distância e raramente brincam no exterior, apenas andam de bicicleta em situações familiares. De facto, parece que a relação entre brincar em casa e no exterior é diferente entre sexos. Existe um maior predomínio de utilização de espaços exteriores e de forma mais activa pelo sexo masculino (Neto, 1997).

Hillman & Adams (1992) no estudo longitudinal que realizaram em cinco escolas de zonas diferentes da Inglaterra, com crianças dos 7 aos 11 anos de idade, encontraram algumas diferenças bem marcadas entre os dois sexos, nomeadamente, quanto à independência de mobilidade, às atitudes dos pais e ao tipo de viagem que os filhos podem realizar. As raparigas são menos autorizadas que os rapazes a atravessarem as ruas, irem a actividades de lazer sozinhas, virem da escola, andarem de bicicleta nas ruas, andarem de autocarro e sairem depois de escurecer; contudo, parece não se importarem tanto com as restrições como os rapazes. De uma forma geral, os rapazes têm mais independência de mobilidade que as raparigas. Isto pode ser visto, em relação a cada uma das variáveis analisadas, incluindo a posse de bicicleta e o seu uso na rua; por exemplo, um em três rapazes, são autorizados a andar de bicicleta na rua e, apenas, uma em nove raparigas, o pode fazer. Em relação a atravessar as ruas sozinhas, duas em cinco raparigas o fazem, enquanto que, três em cinco rapazes afirmam poder fazê-lo.

Kytta (1995) no trabalho que realizou sobre os efeitos do urbanismo na liberdade das crianças e nas

affordances que elas percepcionam no seu envolvimento (realizado em três contextos distintos:

cidade, pequena cidade rural e aldeia), em crianças de oito anos de idade, verificou que as raparigas realizavam um número mais elevado de deslocações diárias; na cidade e na aldeia, as crianças do sexo feminino realizam mais trajectos com amigos e os rapazes saem mais frequentemente sozinhos. Concluíram que os rapazes, globalmente, gozam de maior liberdade fora de casa.

Numa investigação realizada por Rissoto & Tonucci (2002) que incluiu a avaliação da variável género na representação do itinerário para casa e no conhecimento do envolvimento numa área residencial dos subúrbios da cidade de Roma, é sugerido que as crianças com maior liberdade de movimento têm um conhecimento mais completo e detalhado do contexto, no qual o itinerário casa-escola estão

situados; foram encontradas diferenças significativas, em crianças que vão a pé, sozinhas ou acompanhadas, e aquelas que fazem o percurso de carro. Na utilização deste método verificaram-se diferenças de género: os rapazes têm mais oportunidades de brincar no exterior com os amigos, apresentando melhor capacidade de representação que as raparigas. Para os autores, estes resultados denotam diferenças na relação de género associadas ao limite de exploração espacial e às características do mapa cognitivo.

Nos trabalhos referenciados em O’Brien et al. (2000) e O’Brien (2003) efectuados na área urbana da cidade de Londres e subúrbios, com crianças entre 10 e 14 anos, os autores constataram que as raparigas e as crianças pertencentes a comunidades de minoria étnica, têm um uso do espaço mais restringido. As que possuíam valores mais baixos, eram raparigas Asiáticas, mais velhas, em que só 37% podiam brincar sozinhas na vizinhança, em contraste com os rapazes Asiáticos, em que cerca de 92% estavam autorizados a brincarem nos espaços envolventes. No mesmo estudo, os autores referem os resultados sobre a frequência e modos de utilização dos parques, verificando que os parques ainda têm muito valor como espaço de jogo e brincadeira, principalmente para as crianças que não têm acesso a outros espaços abertos (ex. jardins, pátios, quintais, etc.). As crianças vêem nos parques a possibilidade de espaços livres, oportunidade para encontrarem amigos e jogarem; para os rapazes, os parques têm um apelo particular, usando-os muitas vezes para jogar futebol. As crianças do sexo feminino não frequentam tanto o parque como os rapazes – ex. Das crianças residentes no centro da cidade, apenas 35 % das raparigas utilizaram o parque, enquanto que cerca de 56% dos rapazes o fizeram. Normalmente, as raparigas percepcionam os parques como inseguros ou monótonos, talvez por isso, os dados sugerem que, quando as raparigas usam os parques, participam num maior número de actividades que os rapazes (e.g. O’Brien et al, 2000; O’Brien, 2003).

Outros estudos realizados, demonstram a inexistência de diferenças assinaláveis, quando são abordadas as variáveis de género, quer na relação de percursos realizados ou na utilização do espaço envolvente.

Por exemplo, no estudo de Matthews et al. (2000) sobre três zonas da Grã-Bretanha, utilizando três grupos etários (10-11, 13-14, 15-16 classes de idade) em crianças de ambos os sexos, verificaram que apenas 18% dos rapazes nunca usaram a rua, comparados com 34% das raparigas que nunca o fizeram. Já 40% das raparigas usavam regularmente a rua como lugar de encontro; cerca de 47% dos rapazes o faziam. Os resultados assinalam que as ruas são um importante cenário social para alguns grupos de crianças, sugerindo que não são exclusivos dos rapazes. A principal actividade referida pelas raparigas, é falar com as amigas (46%) enquanto que os rapazes utilizam a rua como cenário de desportos informais, o futebol, o skate, ou os patins (50%).

Van Der Spek & Noyon (1995), no estudo que realizaram para determinar as possíveis causas para a diminuição do número de acidentes com crianças, tiveram em conta os factores tempo e espaço, como variáveis independentes, visto a mobilidade não ser constante e variar com a idade, com o desenvolvimento da criança e outros aspectos. Segundo os autores, a influencia do sexo parece ser muito mais limitada do que a idade e a nacionalidade. As diferenças encontradas entre rapazes e raparigas são totalmente irrelevantes em termos de participação nas actividades e são marginais em termos de independência de mobilidade.

Num outro estudo realizado na região do Grande Porto, sobre o estilo de vida e actividade física habitual, coordenado por Sobral (1992), onde foram inquiridos 163 indivíduos de ambos os sexos, com idades compreendidas entre os 10 e os 15 anos, constatou-se que um elevado número de respondentes (61.3%) residem a uma distância da escola não superior a dois quilómetros e mais de metade dos respondentes (52.8%) afirmaram cobrir a pé o percurso de casa para a escola e vice- versa, não se verificando diferenças significativas nas frequências de resposta dos rapazes e das raparigas.

Estudos realizados em Portugal (e.g. Malpique, 1995; Serrano, 1996; Arez, 1999; Moreno, 2002) demonstram que as crianças do sexo masculino possuem um espaço territorial independente, ao nível do tecido urbano, que é superior ao das raparigas, revelando-se mais autónomos nos seus trajectos, a pé ou de bicicleta.

Arez (1999) desenvolveu um trabalho com crianças de 8 e 9 anos de idade onde procurou saber se as características do envolvimento (rural e urbano) e o sexo influenciavam as rotinas de vida e a independência de mobilidade das crianças. Na variável de género, verificou que as crianças do sexo feminino realizam mais trajectos diários para além do trajecto casa-escola, quando acompanhadas com adultos; a autora concluiu que o sexo da criança parece influenciar, quer o número de trajectos efectuados diariamente, quer a independência de mobilidade, assim como o tipo e quantidade de possibilidades de acções percepcionadas.

Tendo em conta alguns indicadores de mobilidade, pela relação distancia casa-escola e transporte utilizado, assim como, o tipo de espaços utilizados para jogos e brincadeiras no quotidiano das crianças, Moreno (2002) retirou algumas conclusões da análise de sexo, partindo dos dados disponíveis no estudo, em que foram analisados dois contextos distintos (rural e urbano). Assim, em relação à distância casa-escola não ocorreram diferenças significativas entre os dois sexos. No meio

rural verifica-se uma repartição nos elementos dos dois sexos, em relação à distância casa-escola14.

No transporte utilizado na deslocação para a escola, não se verificam diferenças significativas no meio rural, sendo a utilização do transporte escolar idêntica para os dois sexos; porém, os rapazes deslocam-se mais a pé para a escola e as raparigas utilizam mais o automóvel particular. No meio urbano os rapazes utilizam bastante mais o transporte público e as raparigas mais o transporte particular. Em relação aos espaços utilizados para brincadeira e jogo, verificamos que a maioria dos rapazes e das raparigas do meio rural jogam e brincam na rua (53.2% e 54.4%, respectivamente). Os rapazes frequentam mais o campo próximo da habitação e as raparigas utilizam com mais frequência o jardim, quintal ou pátio da própria residência. No meio urbano verificamos diferenças significativas nos dois sexos; os rapazes utilizam muito mais o campo próximo da habitação e os parques desportivos; as raparigas frequentam mais o jardim público (Moreno, 2002).