6.1 Summary of Thesis
6.1.3 Further Reputation Management Research
Muitas crianças que crescem no mundo ocidental, no início do século XXI, não têm liberdade para explorar o ambiente urbano e buscar excitação (Woolley, 2006). O receio dos pais é um dos motivos porque as crianças não têm autorização/liberdade para usar os espaços abertos. Os medos sociais são representados por receios a estranhos, a drogas, a molestações e até a animais (ex. cães). Os receios no espaço próximo são dominados pelos incómodos do tráfego automóvel, gerando sentimentos de insegurança e falta de facilidade nas experiências de jogo das crianças. Muitos destes medos são desproporcionados à realidade (ex. os medos de rapto e assassínio por estranhos) e são muitas vezes alimentados pelos “media” (Woolley, 2006). As transformações urbanas e a construção de
imaginários de segurança que os pais têm na educação dos filhos, também não permitem às crianças o uso do tempo de uma forma verdadeiramente livre – espontâneo; isso pode constatar-se pela a análise das rotinas de vida das crianças – a gestão do tempo escolar e o tempo adicional, passado em actividades organizadas ou institucionalizadas (Neto, 1997; 2001). A imagem da infância, como tempo de vulnerabilidade, dependência e incompetência, tem tido influência na reprodução das identidades na vida pública. As crianças descrevem sentimentos de vulnerabilidade na vida pública, no que diz respeito a pessoas e espaços desconhecidos. Aprendem a desconfiar do perigo e dos estranhos. Essa aprendizagem tende a reforçar a dicotomia público/privado em relação ao risco – porque os estranhos são aqueles que vagueiam pelos parques, que conduzem automóveis nas ruas onde as crianças brincam e que esperam nas portas das escolas. Os estranhos, por definição, ocupam o espaço público e não o privado (Harden, 2000). Como resultado destes receios parentais, em relação à insegurança dos filhos (Blakely, 1994), a vida das crianças tornou-se mais estruturada e controlada. No mundo ocidental, incluindo os E.U.A. e muitos outros países da Europa, a infância tornou-se “estandardizada”. A inf}ncia encontra pouco espaço e tempo na cidade contemporânea (Francis & Lorenzo, 2002). O’Brien (2003) identifica uma relação entre o aumento de espaços tipificados para as crianças nos centros urbanos, o desenvolvimento da insegurança e a ansiedade dos pais, para o impedimento das crianças poderem participar activamente na organização e fruição do espaço.
Mas, para Rissotto & Tonucci (2002) é a ansiedade e o medo dos pais que gera o medo nos filhos, restringindo a sua liberdade de movimentos; as restrições da autonomia devem-se mais aos medos dos pais que à inabilidade real das próprias crianças (Tonucci, 2007)47.
A origem dos medos nas crianças, pode advir também, da percepção dos perigos anunciados pelos
“media”; esses perigos parecem estar ocultos no ambiente urbano, soltando-se a qualquer momento
(Blakely, 1994). As crianças partilham com os pais a ideia do mundo exterior, como um lugar de risco e perigo, tendo por vezes, uma forte ambivalência de perspectivas sobre a segurança do espaço da sua cidade.
O medo das crianças, tal como acontece com os pais, está associado ao risco do tráfego automóvel, ao risco de drogas ou ao medo de encontros com crianças mais velhas na rua. Em contraste, a estrutura física da casa, funciona como refúgio interior que protege e refugia a criança do exterior. A casa pode tornar-se o paraíso onde os pais asseguram aos filhos o regresso. Eles podem ter a certeza que estão seguros e protegidos, com conforto e carinho, salvaguardando a sua saúde e bem-estar. No entanto,
47 ver em Tonucci, F. (2007). Let’s Go To School On Our Own. A Proposal For Autonomy. Institute Of Psychology – CNR. Consultado em
esta imagem pode ser falsa, quando, o risco do mundo exterior é reconhecido como exagerado e a casa se revela, por vezes, como o primeiro contexto de abuso da criança (Christensen & O’Brien, 2003).
Num estudo desenvolvido por Harden (2000) que incluia 51 crianças, de cerca de trinta famílias, em que considerava dois grupos etários – dos 9 aos 11 anos e dos 12 aos 15 anos, com igual número de rapazes e raparigas em cada grupo; tendo sido a amostra retirada de uma escola da área urbana e de quatro escolas rurais da Escócia, cujas crianças advinham de classes operárias e classe média baixa, o autor refere que, poucas crianças entrevistadas mencionaram riscos em casa. Elas especificam a sua família e a casa, como segura. Ao contrário da casa, o espaço público, é frequentemente definido em termos de risco. Neste estudo, as crianças identificaram um “local intermédio” – a esfera local – que se situa entre a esfera pública e a privada. É nesta esfera que as crianças de todas as idades tendem a gastar a maior parte do seu tempo, desenvolvendo um conhecimento e uma familiaridade com esses lugares e pessoas.
Os riscos das crianças, no cenário da esfera local, baseiam-se na proximidade de casa, na familiaridade com o conhecimento do envolvimento e das pessoas, o que contrasta com as suas atitudes em relação a esfera pública. A idealização da esfera privada, representada pela casa, tem sido uma característica central da modernidade. A casa é vista como o lugar apropriado para a criança, facilitando a sua protecção física e moral do mundo exterior. O espaço privado da casa, é um elemento importante na associação com a segurança. Mas, actualmente, o espaço físico da casa pode estar aberto à esfera pública; o mundo exterior penetra de maneira óbvia na esfera privada, através dos media: televisão,
internet – messenger, telemóveis, etc. (Harden, 2000).
Diversos estudos desenvolvidos na área da mobilidade (e.g. Hillman & Adams, 1992; Heurlin- Norender, 1996; Arez, 1999; O’Brien, 2003; Granville et al., 2004; Woolley, 2006) sugerem que a insegurança das ruas pode ser provocada pelo tráfego automóvel excessivo, sendo o principal impedimento à liberdade das crianças e sendo também, o mais apontado pelos pais, como razão para não permitirem que os seus filhos circulem livremente no envolvimento próximo da residência. O medo do tráfego automóvel força os pais a vigiarem os seus filhos para a escola ou irem com amigos restringindo-lhes a liberdade. Desta forma as crianças ficam privadas de se movimentarem livremente, de se encontrarem com outras pessoas e vivenciarem o ambiente por si próprias (Heurlin Norinder, 1996).
As conclusões do estudo longitudinal realizado por Hillman & Adams (1992) mostraram que as restrições de mobilidade, impostas pelos pais às crianças, devem-se essencialmente ao perigo do tráfego automóvel e ao medo de molestações por estranhos.
São os medos dos pais que assumem um papel importante na selecção do tipo de transporte a usar com os filhos, na deslocação para a escola. Os riscos associados ao tráfego e congestionamento automóvel identificam com frequência a segurança pessoal, como razão justificável para usar o automóvel. As ameaças advêm, principalmente, do perigo de estranhos e da percepção da inabilidade das crianças, em lidarem com o volume de tráfego, nas experiências do trajecto para a escola. É forte o medo da insegurança em relação às crianças mais pequenas; por vezes, os pais têm mais medo dos raptos, do que das drogas, do álcool, dos vídeos de terror ou da violência na televisão, dentro de sua própria casa (Granville et al., 2002). Os dados referentes aos percursos realizados de forma individual, acompanhados por amigos ou adultos, em crianças de 8 e 9 anos (Arez & Neto, 1999) são demonstrativos do sentido de protecção e segurança seguidos pelos pais, principalmente no meio urbano. Apenas uma pequena percentagem de crianças faz esses trajectos (escola, rua, etc.) com autonomia pessoal, com ligeira superioridade para as crianças do sexo masculino e do meio rural. Estes valores revelam as grandes mudanças ocorridas nas áreas urbanas quanto aos padrões de vida familiar e aos constrangimentos existentes nos quotidianos de vida diária das crianças.
Num estudo (Matthews et al, 2000) realizado em três zonas da Grã-Bretanha de diferentes suportes sociais – já referido anteriormente, em que foram realizadas observações e aplicados questionários (n=320), entrevistas semi-estruturadas a crianças e também promovidas discussões aprofundadas, em três sessões, com três grupos de idade 10-11, 13-14, 15-16 anos, os investigadores verificaram que cerca de 61% das raparigas e 39% dos rapazes referiram ter medo da rua, quando estavam sozinhos; quando estavam acompanhados com amigos, os valores baixavam para 32% nas raparigas e apenas 19% dos rapazes.
Karsten (2005) refere no trabalho elaborado em Amesterdão (Holanda) que a heterogeneidade, a nível da rua, restringiu seriamente a vida social, o que leva muitos residentes a não considerarem o espaço, o factor mais importante, mas a insegurança social; com o aumento da diversidade entre residentes o controlo social desapareceu. A insegurança social nas ruas (molestações, existência de grupos e problemas com outras crianças) assume um papel importante nas restrições impostas à mobilidade das crianças, o que resulta numa liberdade mais tardia que no passado. Na opinião dos pais que participaram no estudo de Van Der Spek & Noyon, (1995) e por ordem de importância, os factores que geram maior perda de mobilidade nas crianças, são: a falta de segurança nas ruas, as aptidões das crianças e a insegurança social (perigo de molestações). Outros factores têm sido apontados, embora sejam bastante menos significativos como, por exemplo, o pouco tempo disponível dos pais e o incómodo ou prejuízo que os filhos possam potencialmente causar a terceiros, o facto das crianças preferirem brincar em casa, a não adequação dos espaços exteriores para as
brincadeiras e o receio das crianças serem importunadas por outros. As próprias crianças parecem ter mais medo das pessoas que do tráfego automóvel (Kitta, 2004).
O estudo desenvolvido por Blakely (1994) teve como base uma investigação exploratória, para descobrir as consequências das qualidades sócio-físicas nos pais residentes na cidade de Nova York, em diferentes estratos étnicos e raciais. O estudo pretendeu explorar a concepção que os pais têm dos perigos nas alterações do envolvimento, relacionados com as actividades dos seus filhos de 9-11 anos de idade. Os pais que integravam a amostra pertenciam a duas comunidades multietnicas em Nova York. A amostra era constituída por 16 mães Hispânicas e 16 mães não Hispânicas, 5 pais Hispânicos e 5 pais não Hispânicos, representantes de vários tipos de família. Diversas razões estiveram na base da escolha desta amostra: (1) proximidade de um grande parque público; (2) as qualidades distintas da sua residência; (3) a diversidade étnica e racial. Cerca de 37% dos residentes eram de origem Hispânica e 63 % eram não Hispânicos. Os progenitores foram todos entrevistados (ex. 32 mães e 10 pais); Globalmente, a autora concluiu que o acesso das crianças ao envolvimento depende de um sistema de negociações criança-ambiente-pais. Essas negociações dependem das concepções dos riscos do ambiente, por parte dos pais, dos conflitos de carácter, da idade e género da criança e das capacidades das crianças.
Os acidentes por tráfego automóvel estão entre as ameaças de vida das crianças nos EUA, considerando que nas áreas urbanas cerca de 1800 crianças, entre os 3 e 12 anos morreram atropeladas em 1989 (National Safety Council, 199048citado por Blakely, 1994). As crianças são mais
vulneráveis a acidentes que os adultos, devido à sua estatura, às suas capacidades e à sua natureza espontânea para a brincadeira (Blakely, 1994). Muitos dos pais entrevistados acreditam que a vida das suas comunidades urbanas afectam psicologicamente o bem-estar dos seus filhos. De acordo com os pais, a ameaça maior para os filhos, como segurança ou bem-estar, relaciona-se com as qualidades sociais do seu envolvimento: o risco de insulto físico ou moral, a exposição a comportamentos anti- sociais, a raptos, a molestações sexuais. A presença desses tipos de ameaças sociais generaliza o medo, na maioria de pais e crianças. Os pais de todos os estratos étnicos referem, em comum, os lugares que lhes causam mais medo. A maioria das crianças não são autorizadas a vaguear sozinhas nos parques infantis, apenas acompanhadas por adultos. Os passeios, defronte das casas, também são um perigo, por causa dos estranhos que passam. Muitas mães Hispânicas e não Hispânicas descrevem sentimentos de inquietação sobre os sítios onde as suas crianças brincam, com quem falam, pois temem a possibilidade de as perderem de vista em espaços públicos (Blakely, 1994).