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TIDLIGFASEN

2.5 
 N ORSK
AREALPLANLEGGING

Esta pesquisa permitiu desvelar elementos importantes das representações sociais dos(as) estudantes de enfermagem acerca do(a) cliente para compreender as construções sociais sobre os objetos sociais (clientes) e a apropriação que faz o sujeito (estudantes) destas construções, ao utilizar como lente a categoria gênero. O referencial teórico-metodológico adotado, as teorias de gênero e as teorias das representações, forneceu elementos para destrinchar o objeto investigado e norteou o trabalho para atingir os objetivos da presente pesquisa.

A discussão de cada elemento periférico de forma separada tornou-se complexa, pois uma representação revela traços de outras representações, o que expressa a característica dinâmica das representações sociais.

Partindo da consideração de que o gênero é mais do que o lugar onde as subjetividades sexuadas são produzidas, percebeu-se que houve uma articulação entre as categorias corpo, gênero e sexualidade expressa nas narrativas dos(as) estudantes, o que revela um eixo de estudos que pode ser aprofundado na área da saúde. Nesta perspectiva, segundo Oliveira, a articulação entre essas categorias revela campos que se expressam como lócus de sujeitos e por onde atravessam todas as relações de poder e dominação. Essa possibilidade permite mostrar as metalinguagens do corpo e da sexualidade, embutidas nas relações de gênero(145).

Para Meyer, enquanto discurso que implementa e constrói significados para as diferenças sexuais, por meio de processos de diferenciação conflituosos e hierarquizados, gênero é a instância onde e por meio da qual os seres humanos aprendem a se converter em e a se reconhecer como homens e mulheres, nos diferentes contextos históricos, culturais e sociais. A diferença sexual, referida a um corpo físico, portanto natural, assume um estatuto de fixidez e universalidade, que oculta as clivagens, reagrupamentos e ressignificações produzidas na

dinâmica de relações de poder e resistência, específicas e particulares, que constroem e reconstroem o sujeito sexuado(21).

No tocante ao ensino da temática corpo, gênero e sexualidade na graduação em enfermagem, percebe-se que fica por conta de determinada disciplina para ministrá-lo, porém essa dimensão humana está presente em todas as áreas, embora as pessoas possam se negar a percebê-la.

Os resultados apresentam representações das categorias masculino e feminino como homogêneas. Porém, essa representação se torna limitada ao expor as práticas de cuidado que os(as) estudantes vivenciam em seus estágios e na relação entre o(a) cliente. A polaridade masculino-feminino revela uma divisão binária que é considerada uma forma limitada da visão do mundo, a partir de duas posições. Assim, o padrão de ver o mundo pode ser caracterizado pelas seguintes posições: homem, branco, de classe média, heterossexual. Porém, a sociedade é múltipla por meio da variedade das intersecções das diversas categorias.

Ao conhecer o objeto a partir da categoria gênero, acabou por questionar o que é permitido ou proibido na prática da enfermagem pelas representações dos(as) estudantes. Nessa perspectiva, o corpo do(a) cliente pode ser também culturalmente constituído pelos discursos dos(as) estudantes. Por esta razão, torna-se possível propor uma intervenção no currículo de enfermagem, no qual passarão a ser considerados, além das relações entre saúde e doença, as noções de sexualidade, gênero e orientação do desejo sexual. Questões da identidade profissional e da imagem social da profissão se cruzam com questões de gênero e com o percurso histórico, social e político.

Não foi intenção deste estudo esgotar a discussão sobre o tema focalizado, mas sim ressaltar a importância dos(as) profissionais, professores(as) e estudantes de enfermagem, como de outras áreas da saúde, sobre os atravessamentos de gênero nas práticas e discursos do cuidado em saúde.

A partir do breve levantamento bibliográfico realizado percebeu-se que é importante expandir o modo de trabalhar com a categoria gênero, não somente

aplicando-a em áreas e temas como saúde da mulher, divisão sexual do trabalho (enfermagem x medicina). Mas sim usá-la como referencial para entender como se produzem e reproduzem as práticas e os discursos da enfermagem e da saúde.

O processo de objetivação e ancoragem das representações sociais dos(as) estudantes de enfermagem sobre a relação com o(a) cliente na prática do cuidado revelou que o(a) estudante representa o(a) cliente como ser assexuado, porém ao representar as diversas situações na relação com o(a) cliente em situações constrangedoras, revelam um discurso que assemelha a enfermagem com as imagens polarizadas na dicotomia Eva/Maria, no passado, e no presente pelas imagens metafóricas de “enfermeira do funk” e seu pólo oposto, “anjo assexuado”.

Analisou-se a oposição binária masculino/feminino, representada no discurso dos(as) estudantes de enfermagem, deslocando a sua construção hierárquica, em lugar de aceitá-la como real, óbvia ou como estanque na natureza das coisas e nos discursos da saúde.

Este estudo, ao conhecer como se expressam e se desenvolvem as relações de gênero nas narrativas dos(as) estudantes de enfermagem a partir de suas representações sobre a relação com a(o) cliente no universo do cuidado, fornece conhecimento para transcender a oposição binária sem desvalorizar, ou supervalorizar, o masculino e o feminino, e a construção de relações de gênero nas quais o feminino e o masculino não fossem polarizados e hierarquizados, de modo a resultarem em desigualdades no contexto na saúde.

A partir da análise do eixo temático “A falta de preparo: a lacuna no ensino” percebeu-se que o modelo de ensino atual é baseado no tecnicismo e não nas humanidades na assistência. Formam-se técnicos em uma demanda voltada para o mercado de trabalho e não para transformar o mercado, a partir da formação de profissionais com senso crítico e reflexivo.

Pelas representações dos(as) estudantes de enfermagem percebeu-se que as situações que eles(as) vivenciam se caracterizam em dificuldades que se

inserem em todas as disciplinas, o que corrobora com a perspectiva de que o gênero é transversal a todas as disciplinas e campos sociais.

Nessa perspectiva, torna-se necessário que o corpo docente identifique o gênero como um valor, reconhecendo e explorando seus significados, e concorde em proporcionar um ambiente de ensino que os aborde. Para estudantes de enfermagem implementarem práticas e comportamentos não sexistas e que abordem a dimensão da categoria gênero, é necessário que os mesmos tenham espaço e apoio para experienciar esta forma de olhar no ambiente educacional e nos campos de estágio. É preciso oportunizar o desenvolvimento do pensamento crítico em um ambiente de confiança e respeito. Nesta perspectiva, não podemos nos esquecer do preparo dos docentes que constitui mais um campo de estudo(8).

Segundo Waldow, na primeira fase do programa curricular, estudantes deveriam receber informações acerca do cuidado humano, trabalhando percepções, experiências e definições, e, acrescento, complementando com o estudo de categorias como gênero, classe, etnia, geração (8).

Percebemos que essa falta de preparo em lidar com categorias socialmente construídas por parte dos(as) estudantes, professores(as) e profissionais da saúde é reflexo da carência de discussões formais, inseridas no conteúdo da grade curricular, sobre temas como gênero, sexualidade, etnia e classe social, na graduação, considerando esta como alicerce teórico e prático para o desenvolvimento da profissão. Assim, a partir das discussões realizadas em 1996 no workshop “Gênero e saúde no ensino de pós-graduação e graduação”, promovida pela Associação Brasileira de pós-graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO) e apoiada pela Organização Panamericana da Saúde pode- se estabelecer como alguns dos problemas prioritários a ausência ou limitada incorporação da perspectiva de gênero no ensino, particularmente na graduação, e uma ausência de sensibilização ou resistência da maioria dos docentes, embora o relatório não as especifique (146).

Segundo Coelho há de considerar na atualidade os seguintes desafios da enfermagem: 1) ampliar a consciência de gênero, buscando o empoderamento a de quem cuida e de quem é cuidado, bem como o conseqüente fortalecimento da

arte e da ciência do cuidar; 2) ampliar a participação dos profissionais em espaços políticos e a parceria com outros campos do saber, buscando construir, coletivamente, instrumentos para o controle social das políticas públicas de saúde; 3) investir na qualidade da relação profissional-usuárias(os) dos serviços de saúde, compreendendo os sujeitos do cuidado em sua multidimensionalidade, buscando superar o paradigma biologicista da ciência moderna que individualiza e fragmenta seres humanos (83).

Assim, nos limites deste trabalho, numa perspectiva onde as representações não são capazes de transformar a realidade das práticas e do modelo de ensino atual, uma postura transformadora que se objetive em novas práticas, mesmo que pontuais e não articuladas, pode representar um forte propulsor para a transformação das representações não apenas em seus elementos periféricos, mas principalmente em como se constitui a relação estudante-cliente.

A partir do presente estudo surgiram as seguintes questões: como estudantes de enfermagem deveriam aprender sobre gênero? Como docentes de enfermagem deveriam proceder para atuar com uma consciência de gênero socializando-o para uma prática de cuidado humano? Que tipo de estratégias seriam mais apropriadas para um ensino em saúde voltado para categorias como corpo, gênero e sexualidade, classe, etnia e geração? Essas questões podem servir de problemas de para futuros estudos que se somarão a outras pesquisas para que juntos possam contribuir para a diminuição da desigualdade de gênero.

A partir dessas questões e pela árvore máxima apresentada na página 70, percebe-se a necessidade de trabalhar concomitantemente com as categorias corpo, gênero e sexualidade. Essa interface propicia o enriquecimento de discussões acadêmicas e pode ser compreendia, no âmbito deste estudo, como campo de conhecimento da saúde e da enfermagem como uma prática de relações, na qual o(a) profissional de saúde está inserido(a) em um contexto historicamente determinado. Em tal contexto, trabalha-se com representações simbólicas, para muito além de corpos estáticos, fragmentados, assexuados e desprovidos de gênero.

No que tange aos limites de alcance deste estudo, certamente contribuirá com o enriquecimento do assunto junto aos grupos de estudos “Corporalidade e Promoção da Saúde” e “Sociologia da Educação”, além de fornecer subsídios para implementar a temática “relações de gênero” junto à disciplina curricular “Psicologia Aplicada à Saúde” ministrada a estudantes do curso de graduação em Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo. Pretende, também, a sensibilização da discussão de práticas de ensino que contemplem a temática “relações de gênero nas práticas do cuidado de enfermagem”.









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