1 INNLEDNING
1.6 M ETODE
Ao realizar esse breve levantamento histórico objetivando expor as relações de gênero incrustadas no desenvolvimento da área de enfermagem, baseamo-nos em algumas autoras e, mais especificamente, nas leituras de Vera Regina Waldow, Dagmar Meyer e Alcione Souza.
Apoiamo-nos em Scott ao acreditar que a história figura não apenas como o registro das mudanças da organização social dos sexos, mas também como participante da produção do saber sobre a diferença sexual. Desta forma, partiu- se do “princípio de que as representações históricas do passado ajudam a construir o gênero no presente. Analisar como isto ocorre requer atenção às suposições, às práticas e à retórica da disciplina, a coisas tão estabelecidas ou tão fora da prática usual que comumente não são objeto de atenção” do(a) enfermeiro(a)(23).
O olhar de gênero na análise histórica da enfermagem pode oferecer subsídios para a transformação da enfermagem atual, a partir da consideração de como ela foi formada e como e porque ainda mantém certos elementos do passado em sua prática atual.
Ao abordar as relações de gênero na área da enfermagem, não se pode desconsiderar a formação histórica dessa profissão, pois sabemos que continua sendo uma profissão predominantemente feminina, ainda que o número de homens em seu quadro profissional tenha aumentado, a profissão, por vezes, é encarada como simples trabalho de mulher. Esse fato é reflexo da própria história da profissão, pois ao selecionar alunas para cursar enfermagem, Florence Nightingale afastou os homens que se interessavam pela prática do cuidar, o que também pode caracterizar em uma possível divisão sexual do trabalho na enfermagem. A partir de então, muitas escolas passaram a instituir o sexo feminino como obrigatório para inserção na enfermagem (22).
Segundo Meyer, uma leitura da história da enfermagem na perspectiva do gênero fundamenta-se na concepção de que há diferentes construções do masculino e do feminino na mesma sociedade e no mesmo contexto histórico, que se delineiam pelo cruzamento dos diferentes modelos, ideais, imagens que têm as diferentes classes, etnias e religiões sobre a mulher e sobre homem e também. Percebe-se que os gêneros se constroem diferentemente no mesmo contexto social, porém em momentos históricos diferentes. E é por isto que, nesta análise, não só as continuidades, mas também as contradições, os conflitos e as rupturas são consideradas como instâncias necessárias ao processo de reprodução(24).
A primeira fase, enfermagem moderna, cuja fundadora foi Florence Nightingale, teve início na segunda metade do século XIX, na Inglaterra vitoriana (1837-1901). Em 1860, ocorre a criação da primeira escola de formação de enfermeiras, no Hospital St. Thomas. Seu trabalho foi sistematizado através do ensino ministrado por enfermeiras e organizado principalmente dentro do espaço institucional hospitalar (25).
Essa sistematização do ensino difundiu-se ao Brasil somente na década de 20. Em 1923 foi criada a primeira escola de enfermagem conhecida como Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), norteada pelos moldes das enfermeiras norte-americanas. Em 1926, passa a chamar-se Escola Ana Néri.
Quando Florence Nightingale abriu sua primeira escola de enfermagem, uma instituição independente, mantida pela Fundação Nightingale, “sua escola serviu de modelo para a enfermagem em vários países do mundo”. O modelo nightingaleano adotou o espírito religioso que sempre norteou tanto as práticas de cuidado quanto as atividades específicas de enfermagem, de tratamento e de cura da medicina (8).
Segundo Meyer, o contexto sócio-histórico em que essa institucionalização ocorreu caracteriza-se pela Inglaterra vitoriana, século XIX, uma sociedade marcadamente patriarcal e capitalista, no auge da oposição ao trabalho feminino e, também, quando se iniciam os movimentos de resistência das mulheres(24).
A primeira fase engloba os períodos da enfermagem pré-profissional chamados de “modelo religioso” e “período obscuro da enfermagem” que antecedem a criação da enfermagem profissional moderna. Ideais de fraternidade, serviço, caridade e auto-sacrifício pregados pelo cristianismo são manifestados nessas principiantes práticas de enfermagem.
Com a Reforma da Igreja, as religiosas são expulsas das instituições. Os hospitais e instituições de abrigo a doentes, velhos, pobres e incapacitados passam a ser atendidos por pessoas marginalizadas pela sociedade, como prostitutas e bêbados(as) (8).
Segundo Waldow, é interessante notar como o corpo e o toque são, com o passar do tempo, encarados. Houve época em que o cuidar não se dedicava ao corpo, pois esse era fonte de impureza e de fornicação. Ao ser permitido tocá-lo, limpando e tratando feridas, por exemplo, era, por parte da cuidadora ou cuidador, uma espécie de sacrifício por meio do qual poderia obter a salvação da alma. Com o capitalismo, o corpo é encarado em função da sua produtividade – força de trabalho (8).
A instalação do capitalismo, o Renascimento e a Reforma Protestante deram início à laicização do cuidado de enfermagem, início este que se configura como o “período obscuro e decadente da enfermagem”, assim chamado em função das agentes, mulheres socialmente marginalizadas, que então assumem a prestação desse cuidado.
Meyer parte do pressuposto de que a enfermagem profissional nasce e se desenvolve no âmbito das relações sociais de gênero e das relações sociais de classe inerentes ao capitalismo; que essas relações sociais constituem fundamentalmente relações de poder que pressupõem uma profunda articulação entre gênero e classe social, e que isso se expressa na ênfase conferida a aspectos morais, atitudinais e de caráter, em detrimento da qualificação propriamente dita(24).
A segunda fase caracteriza-se pelo “modelo vocacional e disciplinar”, introduzido por Florence Nightingale, e configura a criação da enfermagem
profissional moderna. No âmbito do capitalismo industrial, o corpo é visto como força de trabalho e para sua manutenção e reparação é necessário promover uma medicalização do hospital. Dentro deste espaço dá-se o encontro concomitante das práticas médicas e de enfermagem.
O “ideal de enfermeira” incorpora e traduz o que se esperava da mulher burguesa na Inglaterra Vitoriana, período em que se agudizou a polêmica da sexualidade da mulher e de sua inserção crescente no mercado de trabalho.
Segundo Meyer, Florence Nightingale implantou o sistema de internato no ensino de enfermagem e isso teve como objetivo principal garantir a preservação e desenvolvimento dessa “elevação moral”. As citações de Florence explicitam com clareza que a mulher/enfermeira deveria estar subordinada em primeira instância aos homens/médicos (ou autoridades)(24).
Com a institucionalização do cuidado e, mais tarde, com os primeiros hospitais que treinavam para atender os doentes, observa-se a predominância do elemento feminino até culminar com a formalização do ensino por Florence Nightingale e com a aceitação exclusiva de moças (8).
Para Waldow, vários mitos são desenvolvidos em função da identificação das práticas de cuidar com a mulher. Um aspecto refere-se especificamente à característica feminina de fecundidade e da capacidade de gerar e amamentar. Outro aspecto de influência deve-se ao fator religioso, advindo da época em que a prática era feita por religiosas, virgens e viúvas, sujeitas às regras conventuais que prescreviam condutas e comportamentos da “mulher consagrada”(8).
Outro grande mito que se desenvolve é a identificação das práticas de cuidar com a mulher-enfermeira, auxiliar de médico. Seja como atividade “inata”, “natural”, seja como “generosidade” ou “caridade”, o cuidar é uma atividade de ajuda, portanto não poderia ser remunerada. Dessa forma, a história e a cultura assim como os valores transmitidos favorecem a desvalorização econômica e o não-reconhecimento das práticas de cuidado desenvolvidas pelas mulheres (8).
Porém, Marta Júlia Lopes refere que a institucionalização do cuidado em templos, hospitais, hospícios ou asilos não foi exclusivamente feminina, pois até o século XIX “eram encontrados muitos homens nos serviços, os quais eram separados pelo sexo dos pacientes que cuidavam. Os hospitais militares e os hospitais psiquiátricos são exemplos dessa concentração masculina nos cuidados(24).
Assim, para Lopes, o começo da profissionalização coincide também com o afastamento definitivo dos homens, pois muitas escolas passam a instituir o sexo feminino como obrigatório. Assim, muitas leis e decretos para o setor, tanto no plano educacional como no assistencial, foram explícitos quanto a isto (26).
Segundo Waldow, alguns estudiosos discutem e estabelecem a associação de gênero na enfermagem. Alguns denunciam, desvelando as relações de poder, outros analisam e discutem como a categoria gênero conjuga-se com o trabalho no ambiente de saúde, revelando um jogo de forças, cheio de artimanhas e simbolismos entre o masculino e o feminino (8).
A questão do cuidado, visualizado e entendido na perspectiva de gênero, é uma questão política que enfermeiras(os) começam a conscientizar como inevitável de ser enfrentada no momento em que buscam seu reconhecimento social(8).
Como o cuidar tem sido, historicamente, associado a uma função feminina de prestação de serviço de natureza servil, de menor valor, talvez por esta razão a enfermagem tenha se desenvolvido de forma subordinada a outras profissões e como ação complementar e/ou auxiliar (8).
Desta forma, para Waldow, há uma tendência em associar o cuidado exclusivamente às relações de gênero. Ou seja, interpretam o cuidado como representativo da enfermagem no sentido de “maternagem” e significando-o como “essência feminina”. Esta visão reforça o preconceito existente, demonstrando que tudo o que é ligado ao sexo feminino é menos importante (8).
Na leitura que Meyer faz da história da enfermagem nas fases subseqüentes, percebe uma tentativa de descolamento entre qualidades morais e de caráter, prescritas para o exercício da profissão, e a absoluta predominância de mulheres nessa área de atuação.
Para Meyer, as equações “boa enfermeira = boa mulher” e “enfermeira = mãe = dona de casa”, reproduzem em seus significados as relações de gênero expressas na divisão sexual do trabalho na área da saúde. Elas reforçam o argumento de que o “habitus desenvolve-se antes na mulher do que na enfermeira”. O que significa dizer que a profissão e o ensino incorporam e reelaboram a concepção de mulher idealizada pela elite dominante, associando seus elementos constitutivos às competências profissionais da enfermeira; assim, eles se transformam em conteúdos de ensino e passam a articular diferentes instâncias da formação profissional(24).
A terceira fase refere-se à “enfermagem funcional” que se desenvolveu e predominou principalmente nos EUA, no início do século XX até a década de 40. Neste período a quantidade de escolas aumentou paralelamente ao crescimento hospitalar. O foco do ensino consistia no tecnicismo sem pensamento crítico, pois o interesse maior era formar enfermeiras rápidas e eficientes no atendimento ao doente. Segundo Meyer, neste contexto, começam a desenvolver as técnicas de enfermagem e a rigidez de sua execução vinculou-se à necessidade de controle da força de trabalho, realizado pelas enfermeiras (24).
A ênfase na técnica pode ser vista pelos livros de Fundamentos de Enfermagem e os Manuais de técnicas de Enfermagem, os quais eram (e ainda são) as “bíblias” dos estudantes. Algumas escolas produziam e vendiam às alunas volumosos polígrafos com todas as técnicas essenciais que deveriam ser treinadas e executadas. A habilidade manual, a capacidade de memorização, a postura e a mecânica corporal na realização das técnicas eram aspectos imprescindíveis, além do capricho, organização e perfeição(24).
Desta forma, pode-se perceber que o processo de formação da enfermeira é o lócus dessa reprodução, porém ela também existe na prática cotidiana dos outros espaços ocupados pelas enfermeiras no seu desempenho profissional.
Meyer argumenta que na enfermagem reproduzem-se relações de poder, de gênero e de classe; que estas relações são reproduzidas através do desenvolvimento de atitudes e não de conteúdos cognitivos propriamente ditos; que existem novas instâncias das mesmas coisas, que possibilitam estabelecer a continuidade do processo de reprodução, que esta continuidade tem sido assegurada, principalmente, pela reprodução dos mesmos conteúdos sociais enquanto mudam, historicamente, as formas que a asseguram (24).
A quarta fase, que se instaurou no final da década de 40 e estendeu-se até meados dos anos 60, caracterizou-se pela preocupação em organizar os princípios científicos que norteiam a prática da enfermagem e pela ênfase na modalidade do trabalho em equipe (22).
A quinta e última fase desta trajetória, que se inicia no final da década de 60 e estende-se aos dias atuais, diz respeito à construção das “teorias de enfermagem”, processo esse também iniciado pelas enfermeiras norte- americanas. Porém Meyer, ao citar MCP de Almeida (1986), argumenta que o principal problema das “teorias de enfermagem” é que o homem de quem elas falam é de um nível de generalização muito grande, perdendo sua historicidade e concretude(24).
Em sua leitura, Meyer refere que as teorias de enfermagem pela utilização genérica de conceitos como “homem”, “família”, “comunidade”, por exemplo, não têm contribuído para o desvelamento das relações de poder, de gênero e de classe que permeiam a prática no contexto social onde ela se inscreve. Por não contemplarem e não questionarem as relações sociais que permeiam o fazer da enfermagem, as teorias têm contribuído para ocultar e/ou legitimar comportamentos e práticas que mantêm e reproduzem o caráter feminino, submisso e dependente da profissão (24).
Meyer argumenta que as relações de poder, de gênero e de classe, embora submetidas a transformações de forma e/ou conteúdo, têm-se mantido praticamente intocáveis ao longo da trajetória histórica da profissão. Argumenta ainda que a formação moral e atitudinal da enfermeira tem tido íntima relação com a manutenção e reprodução dessas relações (24).
Essas breves considerações sobre as relações de gênero na história da enfermagem expressam como múltiplos elementos ainda permanecem sendo reproduzidos pelos modelos de ensino, além da desconsideração da discussão da categoria gênero no currículo dos cursos de enfermagem e, provavelmente, em razão desta desconsideração.