6.5 B IOLOGISK MANGFOLD
6.5.1 Naturtyper
Ao historicizar sobre o pensamento feminino presente nas doutrinas cristãs, parece ser um tanto contraditório essa visão idealizada da maternidade como presente de Deus. É como se esse fosse o único argumento católico suficientemente capaz de justificar e desculpar o ato pecaminoso do prazer sexual feminino. Maria Bernadete Ramos ao escrever sobre o feminino e o masculino na cultura da nação, cita Plínio Salgado – chefe da Integralista Brasileira, ao afirmar que “a mulher, na sua plenitude biológica, realizar-se-ia na maternidade” (RAMOS, 2002, p.41). “A maternidade é a coisa mais linda do mundo, é a realização plena da mulher”, escreve uma das professoras. Uma coisa é certa: a maternidade se constitui com sentimentos contraditórios, assim como é a sua história.
Esmeralda tem sete filhos, um deles é adotivo, tem 63 anos de idade, é divorciada e teve três maridos. Sua situação econômica não é das mais privilegiadas; seus filhos dizem “não entendo o que a mãe quer, na terceira idade, estudando, isso é coisa de guria nova”. Mas ela não desiste, mesmo quando tudo parece conspirar contra. Em um de seus relatos, no primeiro dia de aula de um novo semestre, contou na sala de aula que era quase um milagre ela estar ali, matriculada. Não tinha dinheiro para pagar a matrícula e a mensalidade daquele semestre que iniciava, seus filhos não se sensibilizaram com a falta de dinheiro e ela já estava tentando acostumar-se com a idéia de desistir de mais esse sonho – o de se tornar pedagoga – foi quando apareceu na sua conta bancária exatamente o valor da matrícula e o dinheiro referente a mensalidade lhe foi entregue pessoalmente por um ex- aluno, hoje “homem feito”. Esse aluno contou a ela que na Associação de Pais e Mestres de
uma antiga escola que Esmeralda havia trabalhado ficaram sabendo da sua dificuldade, se reuniram e cada um deu o que podia, juntando o valor da matrícula. Um relato emocionado e emocionante, ela finalizou dizendo que até aquele dia nenhum de seus filhos lhe havia perguntado se ela estava ou não matriculada ou como conseguiu o dinheiro. A indiferença retratando o respeito que se tem pelos sonhos das outras pessoas.
Esmeralda tem um “histórico” familiar bastante peculiar, além de seus sete filhos, cuida de um irmão dependente de álcool e de um neto esquizofrênico; já apanhou e já bateu em seus maridos, pois não admite que alguém lhe diga por onde andar. Esta mulher carrega o sonho de se tornar pedagoga, é dona de uma alegria contagiante e de um espírito de solidariedade imensurável. Esmeralda é uma daquelas mulheres que levanta a poeira e segue a diante e que elegeu alguns de seus sonhos para ser o seu limite. Diz ela que não conta com o apóio dos filhos ou parente algum para continuar sua formação acadêmica, mas que ela é assim, “obstinada”, e que desistir é uma palavra que passa longe do seu vocabulário.
Ao serem indagadas se havia cobranças familiares devido ao seu afastamento do lar para estudarem e trabalharem fora de casa, as “queixas” mais citadas foram
Tadinhos dos teus filhos, eles ficam sem te ver a semana toda e agora o sábado também (Silvia, 42 anos).
Temos pouco tempo para passarmos juntos, estamos adiando as diversões, são tantas cobranças que às vezes parece que vou ficar maluca (Carla, 31 anos).
Existem cobranças, alguns filhos acham que eu não devia estudar mais. Devia ficar em casa, me engajar em grupos de idosos, minha índole, porém, não foi feita para isso. Os dois filhos que estão em casa, às vezes, reclamam: ‘também a mãe não pára em casa ou a mãe só pensa nela, não tem mais tempo pra gente’(Esmeralda, 63 anos).
Muitas cobranças, ‘essa mulher sempre fazendo trabalho, não pára em casa’; as limpezas da casa que eu não dou conta (Angela, 38 anos).
Meu marido alega que é uma besteira após certa idade voltar a estudar. Por que acha que estou deixando o dever de esposa de lado por causa do estudo. (Lia, 55 anos).
A falta de tempo para eles e o cansaço que demonstro em muitos dias, isso os deixam preocupados (Glades, 43 anos).
Instigante observar que dos relatos acima em apenas um deles aparece certa preocupação com a mulher-sujeito; as outras queixas fazem referência aos cuidados com a casa, com as possíveis perdas emocionais dos filhos, com o não cumprimento do papel de esposa, enfim, reclames de que elas estariam deixando de dar conta de seus papéis culturais, aqueles ditos como funções delas. Mais uma vez aparece o anonimato feminino, como se ser mulher fosse ser, antes e acima de tudo, o outro ou os outros e outras. Essas falas permitem pensar que muitos (e muitas) acreditam que as mulheres nasceram para serem donas de casa, esposas e mães e que é delas a responsabilidade de manter a ordem e o equilíbrio da família, sugerem que a felicidade conjugal está nas mãos femininas.
A historiadora Carla Bassanezi, em seu artigo publicado no livro “História das Mulheres no Brasil”, mostra o quanto a maternidade é, historicamente, naturalizada como função primeira e imprescindível da mulher
Ser mãe, esposa e dona de casa era considerado o destino natural das mulheres. Na ideologia dos Anos Dourados, maternidade, casamento e dedicação ao lar faziam parte da essência feminina; sem história, sem possibilidades de contestação. A vocação prioritária para a maternidade e a vida doméstica seriam marcas da feminilidade (...) A mulher que não seguisse seus caminhos, estaria indo contra a natureza, não poderia realmente ser feliz ou fazer com que outras pessoas fossem felizes. (BASSANEZI, 2000, p. 609-610)
A autora fala dos “anos dourados”, décadas do pós segunda guerra mundial, tempo em que as mães das alunas assim as educaram, porque assim também foram educadas... Mais que isso, educaram os filhos homens para serem pais-provedores, e ter em casa uma mulher para os afazeres, condição de um bom casamento.
Muitas vezes ao falar sobre a trajetória das mulheres parece um tanto dificultoso seguir ou manter um pensamento de tempo histórico linear, afinal de contas considerando a história oficial foram muitos os séculos em que as mulheres ocuparam papéis quase invisíveis. Talvez por isso a tentativa de tecer comentários buscando explicitar práticas masculinas e femininas semelhantes, apesar da distância secular que as separam.
Por isso parece ser possível afirmar que esses discursos não são recentes; segundo constatou Michele Crampe-Casnabet, sobre o pensamento para as mulheres, no século XVIII “a mulher é um objeto de representação constituído por um outro sujeito, diferente do seu, que se coloca no seu lugar, o sujeito masculino”. (CRAMPE-CASBANET, 1991, p.369) Nesse sentido, o pensamento iluminista consagrou-se como discurso do homem, racional, maior, colocando as mulheres como menores... Paradoxal para um pensamento que pregava a igualdade de direitos.
Apesar dos discursos e dos inúmeros mecanismos utilizados para que as mulheres assim se percebessem, parece não ser possível afirmar que tudo acontecia conforme o desejado por aqueles que criaram esses códigos sociais. Mesmo assim a intenção era de naturalizar a mulher como propriedade do marido, no entanto “muito provavelmente, a subordinação feminina não depende senão de convenções civis estabelecidas, sem o parecer das mulheres, pelo sexo masculino”. (Idem, ibidem, p. 378)
A partir dos escritos de Michele Crampe-Casbanet sobre a mulher no pensamento filosófico do século XVII, pode-se perceber que o estatuto moral, intelectual, social e político das mulheres parte do pressuposto de que elas são, naturalmente, mais frágeis e justificam essa fragilidade pela constituição fisiológica feminina; para o pensamento masculino as perdas de sangue enfraquecem as mulheres e as deixam mais suscetíveis a contraírem doenças. Há também a maternidade e a amamentação que contribuem para o enfraquecimento físico e emocional das mulheres. Além disso, o pensamento iluminista ainda revela a inferioridade da sexualidade feminina e organiza o discurso baseado na idéia de que a mulher é um homem mal formado, ou seja, “a vagina é um pênis que está eterna e precariamente por nascer; o ventre é um saco escrotal atrofiado e daí por diante”. (SPINK, 1994, p.96)
Os discursos masculinos buscam na natureza humana diferenças que justifiquem a supremacia de um sexo sobre o outro; diferenças anatômicas são intencionalmente utilizadas e reinventadas para o surgimento e consolidação de práticas sociais discriminatórias, provocando desigualdades imensuráveis. Nesses discursos diferenças equivalem-se a desigualdades e, dessa forma, vão configurando-se como representações sociais.
E assim vai sendo construída a imagem de que a força e a razão pertencem a natureza masculina e que resta às mulheres assumirem “o papel naturalmente natural” reservado a elas. Papel esse que Michele Crampe-Casnabet nos ajuda a entendê-lo, ao escrever que
Da inferioridade sexual e intelectual da mulher, do seu papel natural na reprodução da espécie e no cuidado dos filhos decorre naturalmente uma definição de função e papel. A mulher é essencialmente esposa e mãe [...] Este papel de criadora é inseparável do estatuto de servidão doméstica: ocupar-se do marido, dos filhos, da casa confere e impõe tantos deveres que seria cruel sobrecarregar a mulher com outras preocupações. (CRAMPE- CASNABET, 1991, p.388)
Se os filósofos deram às mulheres o lugar “naturalmente natural”, o saber médico- científico tornou “verdade” esta condição, demonstrando através das práticas cotidianas que a medicina é também uma disciplina do social. Mary Jane Spink ao escrever sobre o papel das teorias médicas na definição dos espaços possíveis de diferentes atores sociais em uma ordem social específica, assinala que
As teorias médicas, embora sejam elas também produtos de uma determinada ordem social, têm o poder de legitimar esta ordem, seja por produzirem um discurso natural sobre uma realidade que é socialmente construída, seja porque este discurso naturalista sobre o corpo se traduz em práticas disciplinares que efetivamente moldam as relações entre indivíduos e classes sociais. (SPINK,1994, p. 94)
Mary Jane Spink escreve ainda que a partir do século XVIII aparecem novas práticas de homens e mulheres viverem suas relações, esse novo modelo rompe com o velho modelo no qual as relações baseavam-se na perspectiva hierárquica como eixo organizador da vida política, econômica e cultural de homens e mulheres.
Neste período da história, surge a possibilidade das mulheres ocuparem outros espaços, inclusive, com as idéias liberais burguesas, cogita-se pensar em direitos de
cidadania às mulheres. No entanto, no século XIX começam a circular as idéias de que a natureza feminina era determinada pela sua função reprodutiva. E assim, as novas teorias médicas utilizam a fragilidade ovariana16 a fim de retomarem as já conhecidas justificativas biológicas para a definição dos papéis e funções masculinas e femininas, ou seja, as teorias médicas apresentam uma política sexual de separação das esferas públicas e privadas, confinando, mais uma vez, as mulheres à esfera privada. (SPINK, 1994)
Os direitos universais estão presentes nos discursos iluministas, no entanto as mulheres parecem não fazerem parte desse universo, revelando uma contradição entre direitos universais e exclusão feminina destes direitos. Na busca de equalizar essa situação é que surge, segundo Mary Jane Spink, a divisão dos espaços sociais. Ela diz ainda
A igualdade dos sexos passou a ser formulada em termos de equivalência e não mais em termos de similitude. A mulher reina em seu lar como o homem no mundo. Desta forma, às diferenças biológicas correspondem diferenças na esfera de atuação: a esfera privada para a mulher, a pública para o homem. (Idem, ibidem, p.101)
Assim, é possível perceber que o discurso médico contribui sobremaneira para a definição dos papéis femininos e masculinos, legitimando a natureza biológica feminina como parte fundamental na construção de políticas de desigualdade e de exclusão das mulheres diante dos interesses de um novo Estado que ora se constituía.
16
Conforme Spink, a “medicina ovariana é elaborada na segunda metade do século XIX, e se constituiu como principal fundamento da construção da mulher como ser frágil.” (SPINK, 1994, p. 99) Ainda segundo a autora, esse é o exemplo mais notório de pressupostos culturais nas teorias médicas.
No decorrer da história é possível perceber que velhos e novos modelos vão sendo modificados e reiventados; no entanto, romper com representações sociais naturalizadas através de práticas cotidianas leva tempo, por vezes séculos. Muitos dos papéis femininos e masculinos são construções de longa duração, o que, de certa forma, contribui para que ainda hoje muitos desses papéis façam parte das relações de homens e mulheres. Roger Chartier, historiador francês, ressalta que “é preciso inscrever a importância crescente das lutas de representação, cuja problemática central é o ordenamento, logo a hierarquização da própria estrutura social”. (CHARTIER, 1991, p.186)