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O precário conhecimento acerca dos mecanismos de funcionamento das linguagens institucionalmente não- escolares, bem como, evidentemente, as carências estruturais da escola brasileira, que, em muitos casos, impossibilitam tanto a superação de défict conceitual como a própria modernização física das salas de aula, terminam por afastar os agentes educadores do campo das comunicações (CITELLI, 2000, p. 23).

Identificar os elementos que dificultam e favorecem o funcionamento do Programa TV Escola, requer considerar dois níveis de dificuldades: as da própria escola e as oriundas do sistema educacional. Vasconcelos (1999, p. 12) explica que “não são duas realidades justapostas, mas pelo contrário, duas dimensões do único processo de ação humana. É preciso, pois, que fique clara a dialeticidade entre estas esferas”. Os profissionais da escola não se sentem preparados para lidar com outras linguagens, e o sistema de ensino não assegura as condições para essa preparação.

Os elementos que condicionam a real situação do funcionamento do Programa TV Escola estão relacionados aos seguintes aspectos: infra-estrutura, formação dos professores, recursos financeiros, qualidade dos programas e contexto político atual de desvalorização do trabalho do professor.

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A falta de infra-estrutura do TV Escola foi apontada pelos entrevistados como uma das principais causas que dificultam o funcionamento do mesmo. Dentro desse aspecto pudemos diagnosticar diversos elementos que confirmam o exposto:

a) Os aparelhos estão desgastados pelo tempo de utilização e a escola não consegue realizar a gravação diária dos programas:

a qualidade das gravações está totalmente comprometida. (...) o nosso equipamento é obsoleto, é antigo, é velho, já está ultrapassado, não temos recursos para comprar fitas. Nós recebemos esse Kit só que quando acabou as fitas fomos tentando adquirir outras. (...) uma fita de qualidade custa em torno de cinco a seis reais. (...) gravar uma fita por dia com seis horas de gravação perde-se a qualidade, então tu tens que gravar duas horas, duas horas e meia (...). Nós teríamos que ter em média uma fita por dia, isso significa cinco reais por dia e nós não temos (responsável da

escola D).

A escola afirma que a saída para esse problema seria a substituição dos equipamentos velhos por novos, porém, não dispõe de recursos financeiros para realizar a troca.

b) A escola não possui espaços e nem equipamentos suficientes para o uso do TV Escola. Podemos verificar tal fato na seguinte fala:

Nossa maior dificuldade é que nós temos só um vídeo e são 300 alunos e quinze professores. Às vezes um professor quer que eu grave um programa, mas outro professor está usando o vídeo em sala de aula. Temos só um vídeo para duas funções. Nós precisamos de um vídeo somente para a gravação dos programas

(responsável da escola A).

c) A falta de segurança para os equipamentos. A chegada dos recursos tecnológicos tem colocado a escola pública no alvo de ladrões. Não há nenhuma segurança contra o roubo dos aparelhos. A SEI e a empresa seguradora das escolas alegam não terem o compromisso de repor o equipamento roubado. Esse desabafo foi feito pela diretora da escola B:

No início do ano o nosso aparelho receptor foi roubado, foi feito um boletim de ocorrência pra que a empresa seguradora ressarcisse a escola e eles se negaram. O aparelho fica fora na rua, em área que não é protegida pelo sensor, então eles se negaram. O que eu fiz foi pedir ajuda pra secretaria de inovação. A resposta que a gente obteve é de que foi apenas um aparelho por escola, então a gente não vai receber outro aparelho.

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contrário, sofre as ações de fungos. A fita mofada danifica o videocassete. Sendo assim, a solução seria um armário com instalações adequadas para manter as fitas sem umidade ou dispor de uma assistência técnica que possibilite a limpeza e a conservação dos equipamentos. Essa dificuldade é relatada pela diretora da escola C: “Não temos materiais adequados para conservação das fitas. A gente sabe que tem que ter um armário especial com lâmpada”. A responsável da escola D reafirma as dificuldades de conservação:

Temos um local que nós mandamos construir, é uma estufa onde nós mantemos essas fitas aquecidas.Aquela que a gente não consegue manter está danificada (...) custa de quatro a cinco reais para limpar uma fita, tu acaba protelando e esse material acaba se perdendo. Nós temos hoje, em média, umas vinte fitas que irão ser jogadas fora. A gente lamenta porque foi todo um trabalho feito e que está sendo jogado fora. Nós não temos condições nem ninguém que faça isso.

A instalação do TV Escola exigiu que o especialista, entre eles o supervisor escolar escolar, assumisse a responsabilidade pelo Programa. Este profissional além de suas funções específicas, ficou com a incumbência da gestão do Programa na escola. Do ponto de vista dos gestores esse foi o primeiro equívoco da SEI, pois o Programa requer a contratação de um profissional que atue somente nessa função. O especialista em educação ficou com uma sobrecarga de tarefas, e a implementação do TV Escola não ocorreu como deveria. O responsável teve que assumir tarefas sem nenhum tipo de preparação: “a gente não teve

ninguém que pudesse nos orientar de como trabalhar com o TV Escola. Tudo o que sabemos é porque buscamos” (responsável da escola B).

A forma como foram gravados os programas, nesses últimos anos, também é conseqüência da falta de preparação dos profissionais responsáveis. Mesmo a escola que tem um acervo de fitas significativo não consegue um bom desempenho do Programa. Vejamos o que diz a responsável da escola E:

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Temos uma faixa de 700 fitas com vários programas, todos eles diferentes. A forma de organização desses programas, dos assuntos, cria uma certa dificuldade de se encontrar os assuntos que o professor quer, onde está na fita. Às vezes se gravava três, quatro, cinco programas seguidos, mas nós não temos organizados aonde estão esses programas. O nº da fita até tem, mas onde está o tema por assunto, qual o contagiro, isso não tem.

Essa escola pretende dar uma nova organização com a recatalogação de todas as fitas por assunto, e planeja divulgar, junto aos professores essa seleção referente aos conteúdos da disciplina que ele trabalha.

Do ponto de vista legal a escola pública integra o sistema de administração pública, sendo este responsável pela sua estrutura de sustentação, ou seja, os mecanismos necessários ao seu funcionamento. O TV Escola faz parte dessa estrutura e, como tal, necessita de subsídios para funcionar. De acordo com os gestores, essa lógica não corresponde à realidade da escola. O real contrapõe-se ao legal e ao ideal. “Há uma grande divulgação pelo governo

do Programa TV Escola, mas não há incrementos, fica tudo no falatório. Não tem nada de real, falta verba, isto vem dificultando bastante o nosso trabalho. Quem ouve as propagandas pensa que tudo está a mil maravilhas, mas a verdade é que enfrentamos muitas dificuldades”

(diretora da escola D).

Na avaliação dos gestores, a maior dificuldade será enfrentada a partir de 2004, com a política de descentralização da administração pública que implicará na reestruturação dos recursos financeiros. Com esse processo, segundo os gestores, a escola perde a autonomia de gerenciar e aplicar seus recursos financeiros, pois, ao invés de dinheiro a escola receberá benefícios. Isso significa que até para comprar um fita a escola dependerá da Secretaria do Desenvolvimento Regional (SDR). Essa constatação foi feita por uma das gestoras: “As fitas

que compramos no ano passado este ano não seria possível devido a reestruturação dos recursos financeiros”(diretora da escola E).

Na concepção dos gestores, uma outra dificuldade está relacionada aos programas veiculados. O excesso de reprises e os programas narrativos estão afastando alunos e

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professores do TV Escola. A responsável da escola B diz que ouve, constantemente, dos professores o seguinte comentário: “os programas são longos e cansativos, porque fica ali

uma pessoa falando, e logo dispersa a atenção de quem está assistindo. (...) os programas deveriam ser curtos e mais atrativos”.

O contexto político de desvalorização do professor está motivando um estado de desânimo e desinteresse em aprender e implementar ações educativas diferentes daquelas praticadas há anos por esses profissionais. O gestor, nas atuais circunstâncias, não dispõe de argumentos capazes de convencer o professor a modificar a sua maneira de pensar.

“Convivemos diariamente com a desmotivação desses profissionais. Por outro lado falta coordenação do Programa por parte de órgãos superiores, que acompanhe, oriente e valorize esses profissionais” (diretora da escola A).

Podemos concluir que são muitas as dificuldades para a integração do Programa TV Escola na rotina escolar. São barreiras, cujas soluções, na sua maioria, dependem do sistema, aliado a graus maiores de autonomia da escola. Seria importante que os dirigentes de cada esfera, tanto federais, estaduais e municipais, tomassem conhecimento e elaborassem estratégias para que o conjunto de problemas levantados sejam resolvidos, bem como o desempenho do próprio Programa na escola.

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6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O final de uma pesquisa desperta sentimentos de tensão e alívio, incerteza e perspectiva, e a sensação de que chegamos ao término, somado à compreensão de inacabamento, pois suscita novos interesses, indagações e inquietações.

Os estudos realizados evidenciaram que a implementação e o funcionamento do Programa TV Escola nos estados e municípios ocorreu dentro de um processo semelhante, conforme apontam Souza (2000), Simões (2001), Duarte (2001) e Ozores (2001), a partir de pesquisas realizadas. O plano de gestão compartilhada não determinou as responsabilidades das diversas instâncias implicando em dificuldades que tornaram o funcionamento do referido Programa precário e pouco produtivo. Na escola, especificamente, a gestão do TV Escola deu-se numa perspectiva de voluntarismo. Com isso o Programa ficou “solto” e não atingiu os propósitos para os quais foi criado. As escolas pesquisadas reconhecem a importância pedagógica do TV Escola. Entretanto, ressaltam que as reais condições do ensino público não asseguram o funcionamento e a eficiência do Programa.

As dificuldades que impedem o funcionamento e a concretização dos objetivos do Programa são aquelas que desenham o retrato da educação no país: falta de recursos financeiros, desvalorização profissional e ausência de uma política de formação continuada para os professores.

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A análise do Programa TV Escola no município de Tubarão/SC e a sua contribuição à qualificação dos professores ao uso pedagógico do vídeo e da TV nas escolas públicas estaduais possibilitou constatar, a partir dos dados fornecidos pelos sujeitos desta pesquisa, a seguinte realidade em relação às questões investigadas:

a) A integração das tecnologias de vídeo e televisão no processo ensino-aprendizagem • Há resistências quanto ao uso do TV Escola, conseqüência do atual contexto dos

profissionais da educação.

• O Programa não foi incorporado como ferramenta no processo ensino-aprendizagem, pois cerca de 64% afirmam que o programa é pouco usado.

• O uso do TV escola é incipiente em relação ao uso de outros recursos tradicionais. • A escola não utiliza a linguagem audiovisual porque não foi preparada, por isso

norteia a sua prática com as linguagens convencionais.

b) A formação dos professores para o uso pedagógico do vídeo e da TV proposta pelo Programa.

• A maioria dos professores das escolas públicas não foram capacitados para o uso pedagógico do vídeo e da TV, embora o Programa tenha oferecido séries específicas com esta finalidade e oportunizado o curso de extensão universitária “TV na Escola e os Desafios de Hoje”.

• Não faz parte da cultura escolar utilizar os materiais impressos para subsidiar espaços de discussão e formação do professor, embora sejam concebidos de uma qualidade ímpar.

• A falta de formação dos professores leva a reprodução de práticas conservadoras (a videolição) com o uso do vídeo e da TV.

• Diante do contingente de professores as iniciativas de cursos não atenderam às necessidades de formação;

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c) Limites e possibilidades da efetivação dos objetivos propostos pelo Programa TV escola a partir da realidade das escolas públicas estaduais.

• O professor não se sente preparado para as experiências pedagógicas com o uso do vídeo e da TV;

• A maioria dos professores não utiliza os programas devido à qualidade técnica dos vídeos e falta de tempo para assistir e analisar os programas.

• A falta de capacitação dos professores, de uma proposta no PPP, de apoio da GEREI e de recursos financeiros foram significativamente apontados como motivos para o não funcionamento do Programa.

• O Programa TV Escola é utilizado como recurso pedagógico em sala de aula, deixando de ser um recurso na capacitação dos professores;

• Problemas com os equipamentos e falta de foram acentuados como elementos que dificultam o funcionamento do Programa.

• O acervo de vídeos das escolas é reduzido.

• A escola não consegue assumir o TV Escola dentro de um projeto maior porque não tem condições de se comprometer com o seu funcionamento.

A pesquisa realizada no município de Tubarão/SC, de maneira geral, apontou que os recursos tecnológicos quando integrados no ensino são utilizados basicamente como um suporte técnico, ou seja, há dificuldades de instaurar mediações inovadoras que qualifiquem o processo de ensino e aprendizagem. A competência do professor para utilizar pedagogicamente as tecnologias de vídeo e televisão precisaria ser priorizada, seja por meio de formação inicial ou de uma política de formação continuada que se comprometa em preencher as lacunas da formação realizada pelo professor.

O TV Escola, seria um meio de formação relevante se as escolas tivessem uma telessala, com recepção organizada e um profissional habilitado para ser responsável pelo

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Programa, que também atuasse na formação dos professores utilizando as séries veiculadas pelo mesmo.

Iniciativas como o curso “Trama do Olhar” e “TV na Escola e os Desafios de Hoje”, estendidas a um maior número de professores, podem propiciar transformações nas relações das escolas com os meios tecnológicos disponíveis atualmente.

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