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F RILUFTSLIV OG FERDSEL

In document RÁKKOČEARRO VINDPARK (sider 44-48)

Indiscutivelmente somos hoje, homens e mulheres, resultado de tudo aquilo que vivemos e do que não vivemos, somos também resultado de uma história inventada e escrita, discursos que teimaram em querer legitimar e prescrever posturas de gênero. Ao voltar no tempo é possível encontrar muitos escritos que indicam como foram se constituindo os papéis femininos e masculinos; todavia todos os documentos referentes a essas questões foram historicamente definidos e escritos por homens, parece que no decorrer da história as mulheres foram inventadas a partir de um discurso masculino.

Discurso este que atravessou séculos determinando e definindo condutas, posturas e até mesmo pensamentos. Foram muitas as representações criadas a fim de enquadrar as

mulheres num espaço definido e num papel destinado a elas. No entanto, Michèle Crampe- Casnabet ao escrever sobre a mulher no pensamento filosófico do século XVIII afirma que a representação é algo inventado por um outro e “significa o que está no espírito”; lembra ainda que esta representação pode ser adequada à realidade da coisa ou da pessoa representada ou pode deformá-la, confundindo-a, com uma coisa imaginária, fantasmagórica. (CRAMPE-CASNABET, 1991, p. 369) A autora compreende que se o discurso iluminista se dirige a todos os homens não deveria excluir as mulheres. Contudo, suas análises mostram que as mulheres são representadas quase que unanimemente como um ser fisicamente inferior e dotadas para serem mães e esposas.

As representações se tornaram tão fortes que, mesmo querendo negá-las, as mulheres, muitas vezes, repetem essas mesmas invenções por meio de seus discursos e de suas práticas. Ao serem indagadas sobre o que significa ser mulher, dez das treze mulheres associaram as mulheres a um ser divino especialmente criado por Deus. Algumas das respostas redigidas foram: “Um ser especial criado por Deus para embelezar o mundo e dar um sentido maior a vida”. “É o dom mais precioso que Deus colocou no mundo, pois a mulher apesar de toda a ciência é o ser que pode trazer vida ao mundo”. A questão religiosa aparece com intensidade nas respostas, a mulher idealizada a partir da visão cristã, como se estivesse acima do bem e do mal pelo simples fato de ser mulher . Afinal de contas 76,94% das que responderam à pesquisa são mulheres católicas e revelam nas suas respostas um pouco daquilo que aprenderam com os princípios dessa religião.

Vale ressaltar o pensamento de Maria Bernadete Ramos ao escrever o artigo “O mito de Adão e Eva revisitado: acerca do masculino e do feminino na cultura da nação”, onde trata das imagens femininas e masculinas que interferiram e determinaram a

construção cultural da nação. A autora utiliza a categoria de gênero para analisar os papéis que deveriam ser assumidos e naturalizados por homens e mulheres nas décadas de 1930 e 1940 do século XX, momento em que um reforçado discurso sobre mulheres tentava reduzi-las às funções do lar, educadoras e formadoras dos futuros cidadãos, “as genitoras dos filhos da Nação”. Nas respostas redigidas é possível perceber os resquícios daquelas décadas, continuidades que se mantém. A passagem bíblica que Maria Bernadete Ramos apresenta em seu artigo e que ora transcrevo aqui, associada a algumas das respostas dadas, permitem perceber essas continuidades.

Deus fizera o homem e a mulher diferentes na essência, quando à sua imagem e semelhança, nasceu Adão e, da sua costela, Eva. Para Adão teria dito: ‘tu tirarás dela (da terra) o sustento com muitas fadigas todos os dias da tua vida...’ E à mulher: ‘em dor parirás teus filhos, e estarás sob o poder do teu marido, e ele te dominará’. (RAMOS, 2002. p.42)

Outras respostas evidenciam os papéis historicamente destinados às mulheres: “Ser amiga, responsável. Sincera, ser mãe, educadora”. “É ter e dar a vida. É ser a pessoa que está sempre preocupada com os filhos, com seu bem estar, fazer tudo com amor, mesmo que seja na corrida”. “É algo verdadeiro sempre”. “Alguém muito especial”. “É ser mãe, amiga, companheira e ser um ser especial”.

Há também aquelas respostas que representam a tentativa de romper com alguns paradigmas, de tentar negar para suas vidas papéis vividos por suas mães: “Ser mulher é lutar por seus direitos, é fazer valer suas vontades, é ser independente, é ter sua vida profissional”. “É a luta pelos ideais de ser mulher e ser reconhecida e respeitada como ser humano”. “Significa ser prática, ser forte, ser mãe e ser profissional”. Parece relevante

observar que nessas respostas a imagem da mulher vem associada à luta, a maternidade aparece não mais com a moldura da doação, do amor angelical. Encontrei também como resposta ao que é ser mulher

Para mim foi ser obediente, submissa, casar e obedecer ao marido. Hoje penso que ser mulher é buscar sua realização, colocar em prática seu projeto de vida e acima de tudo ser feliz. O que eu posso dizer? Eu gosto de ser mulher, pensar, amar, agir como mulher. Eu acho que ser mulher é ser forte e enfrentar as dificuldades de frente. É não seguir por atalhos, é lutar e procurar guardar um sorriso nos lábios é chorar as escondidas, lavar o rosto e seguir em frente. Ser mulher não é e nunca vai ser o sexo frágil. (Esmeralda, 63 anos de idade).

Percebe-se no relato de Esmeralda uma ruptura no seu pensamento sobre ser mulher e, muito provavelmente, nas suas ações; considerando o que ela conta, certamente essa nova forma de ver e viver não aconteceu sem rebeldia e sem resistências. Segundo seus relatos, ela vem mudando suas condições de vida, vem exercendo seus direitos e enfrentando o poder masculino, mesmo que seja nas pequenas coisas do cotidiano. No entanto, em seu relato as mulheres aparecem associadas a seres fortes e corajosos ao mesmo tempo em que devem “guardar um sorriso nos lábios, chorar às escondidas”. Sorrir sempre, uma característica feminina? Para ser forte, corajosa não pode chorar? Por isso “chorar às escondidas”? Chorar faz parte do universo feminino, do sexo frágil? Homem é forte e por isso não chora? São muitas as perguntas, muito mais do que as possíveis respostas, o que pode indicar que respostas universais não são mais viáveis para explicar e compreender relações construídas por sujeitos históricos, com identidades e subjetividades próprias.

A mesma pergunta: O que significa ser mulher? feita a um homem, obtive como resposta: “É administrar ser mãe, esposa e profissional”26. Uma resposta previsível? Uma resposta que exige alguma análise? Parece tão óbvia, mas, se historicizada, é possível perceber a dificuldade de encontrar deslocamentos/descontinuidades nos discursos masculinos acerca dos papéis femininos; mesmo o profissional aparecendo, os papéis de mãe e esposa são ainda muito fortes e estão presentes no pensamento de homens e mulheres. Mulheres são, antes e acima de tudo, mães.

A resposta de Antônio, outro marido foi: “Ser mulher é ser mãe”. Assustei-me com a resposta assim, tão enfática. Indaguei, então: “Só isso?” E obtive como resposta: “Isso resume tudo”.27 Como ouvir essa resposta e não associar a figura feminina a um grande ventre humano responsável pela humanidade.

Antonio demonstrou espanto quando revelei certo incômodo ao ouvir sua resposta. “Como só mãe? Mãe é tudo”, ele repetia incrédulo. Para ele a maternidade é o maior elogio dado a uma mulher, “uma verdadeira bênção”. Uma “benção” que pode custar muito caro, pois coroando a mulher com a maternidade afasta os homens dos pequenos e grandes detalhes que vão, pouco a pouco, compondo a paternidade e o cotidiano familiar. Longe de “pequenas responsabilidades”, de gerenciar conflitos, de impor ou negociar limites, recai sobre as mulheres a função de criar, “de educar” os filhos; a eles cabe sustentar a família. Quando aparecem os problemas, geralmente a culpa recai sobre as mães, afinal de contas

26

Essa resposta foi dada por Carlos, 52 anos de idade, casado com Ângela, 38 anos. Carlos é bancário e, segundo Ângela, é “um homem do século XXI, embora volta e meia tenha suas recaídas e aí, então, se mostra possessivo e com atitudes autoritárias, ou pelo menos tenta ter essas atitudes, o que nem sempre consegue”. Ainda segundo Ângela, nem sempre consegue por que ela não permite mais. “Enfrento ele, questiono, argumento. Não aceito passivamente nenhum tipo de imposição, mas sei que ele não concorda com o que eu penso”.

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são elas que passam a maior parte do tempo junto aos filhos/as, é função delas cuidar e educar as crianças, cabe aos homens o sustento da família.

O discurso psicanalítico contribuiu para colocar a mãe como personagem central das dificuldades e problemas infantis. Conforme Elisabeth Badinter, ao escrever sobre o discurso médico herdado de Freud, a figura da mãe assume papel relevante na formação do inconsciente infantil e, portanto: “Quer se queira ou não, a psicanálise levou a pensar, durante muito tempo, que uma criança afetivamente infeliz é filho ou filha de uma mãe má. Mesmo que o termo ‘má’ não tenha aqui nenhuma conotação moral”. (BADINTER, 1985, p.295) Até mesmo a psicanálise pouco falou sobre a paternidade. Seria por ser a maternidade um assunto de mulheres, sobre mulheres e para mulheres?

Foucault já falava que para enquadrar, disciplinar corpos e mentes nada melhor do que falar sobre, do que construir um discurso que controle e defina condutas e papéis. Parece ter sido assim, pois muito se falou e se fala sobre papéis femininos, especialmente a maternidade. E a paternidade? O que sabemos sobre ela, além de que cabe aos homens sustentar suas famílias? As palavras de Welzer-Lang mais uma vez podem ajudar a compreender essas relações pensadas e produzidas de forma tão paradoxal, especialmente ao afirmar a relevância sobre “descrever e compreender como a diferença é construída socialmente – sobretudo por meio da dupla definição assimétrica dos fatos sociais – para ocultar as relações sociais de sexo.” (WELZER-LANG, 2004, p. 115)

Michel Foucault ao escrever “A ordem do discurso”, afirma que “deve-se conceber o discurso como uma violência que fazemos às coisas, como uma prática que lhes impomos em todo o caso; e é nesta prática que os acontecimentos do discurso encontram o princípio

de sua regularidade”. (FOUCAULT, 2004, p.53) Regularidades que se mantém nos discursos femininos e masculinos acerca da maternidade e da paternidade e, apesar dos deslocamentos e descontinuidades, ainda é bastante determinante nas relações de homens e mulheres.

Será que se perguntado às mulheres o que é ser homem, alguma resposta traria os papéis de homem e pai assim, tão entrelaçados, como se representassem quase a mesma coisa? Na seqüência desse capítulo será analisada essa questão. Muitas vezes é essa a sensação, mulher sinônimo de mãe. Imagem refletida no espelho. Se papéis femininos e masculinos são construções sociais e culturais, como se constrói a imagem de pai? De que forma as mulheres contribuem para que a imagem paterna se materialize?

Elisabeh Badinter busca na teologia cristã subsídios que explicam e justificam a construção de papéis femininos e masculinos tão antagônicos, tão desiguais. Segundo ela

Apesar da mensagem de amor e do discurso igualitário de Cristo, a teologia cristã, em virtude de suas raízes judaicas, teve sua cota de responsabilidade no reforço e na justificação da autoridade paterna e marital, invocando constantemente dois textos carregados de conseqüências para a história da mulher. O primeiro deles é o Gênesis [...] E o segundo texto que exerceu um importante papel histórico para a condição feminina foi o de São Paulo, a Epístola

aos efésios [...]o homem e a mulher têm os mesmos direitos e os

mesmo deveres. Mas trata-se de uma igualdade entre pessoas que não são idênticas, o que não exclui uma hierarquia. (BADINTER, 1985, p.33-35)

A Igreja insere e cultua homens e mulheres como seres diferentes e desiguais e que devem viver acatando e respeitando a hierarquia de um sexo sobre o outro. Nesse cenário as

mulheres assumem a condição de inferior e devem viver o “fundamento da invalidez feminina”. Servem mesmo é para serem mães, para gerarem permitindo assim a perpetuação da espécie humana. Esses pressupostos estão inextrincavelmente tecidos no pensamento e nas atitudes de muitos homens que não conseguem enxergar as mulheres sem serem mães, como se dessa forma as tirariam da condição de pecadoras.

Os estudos sobre a construção das masculinidades ainda são raros; a sensação que se tem é que ser homem basta, não há necessidade de se falar sobre, de pensar ou mesmo questionar acerca de suas práticas cotidianas. Welzer-Lang já disse “eles são – não precisa falar deles”, ou seja, são seres superiores e, portanto, intocáveis. Ao questionar sobre como estudar os homens, Welzer-Lang nos diz

Podemos constatar que, também nas nossas sociedades, homens e mulheres, dominantes e dominados/as não têm as mesmas informações e o mesmo conceito sobre o sentido, as formas e as linguagens da dominação. Sem nem falar aqui das diferenças de aprendizagem social ratificadoras do paradigma de pensamento naturalista que nos faz ver os homens como superiores às mulheres, que mulher sabe o que os homens vivem entre eles? Nos clubes esportivos? Quando estão entre eles no café? A dominação é sustentada por uma justificação naturalista das diferenças, e ao mesmo tempo por uma ocultação do que vivem os dominantes. Do mesmo modo, se os homens conhecem o modo de usar da dominação, eles têm apenas uma consciência limitada do que as dominadas vivem. (WELZER-LANG,2004, p.111)

Sim, “uma consciência limitada”, pois embora tentem usar diferentes estratégias e táticas a fim de subordinar as mulheres a suas vontades e interesses, não percebem os vôos que as mulheres vêm se permitindo alcançar longe de seus olhos, do seu domínio. Percebo isso nos encontros com as mulheres professoras na universidade, tal sensação de liberdade e de autonomia, fazem-nas dar preferência aos sábados estarem o dia todo sentadas nos

bancos da universidade, lendo, estudando, produzindo, esbarrando nas suas dificuldades a estar no aconchego de seus lares. Estão construindo outros saberes e compartilhando diferentes fazeres, estão vivendo espaços de liberdade.

O quadro seguinte permite visualizar regularidades presentes nos discursos femininos e masculinos e, talvez, ir pouco além, percebendo que os deslocamentos discursivos aparecem em algumas respostas das mulheres professoras e estão ausentes nas respostas de seus parceiros. Ou seja, para os homens ainda é difícil pensar nas mulheres como seres que, apesar das diferenças biológicas, possuem condições e possibilidades iguais as suas. Talvez até pensem, porém admitir publicamente ainda incomoda muitos homens e por isso agarram-se ao discurso da maternidade. E, de acordo com o quadro 3, percebe-se que a maternidade também está muito presente no discurso feminino, diria que essa parece ser a maior e melhor estratégia utilizada pelos homens a fim de manterem as mulheres enclausuradas nesse papel, seria a arma mais eficaz a qual os homens se apropriaram para subjugarem as mulheres a serem “simplesmente mães”, “bênção maior” e assim vão naturalizando o discurso de que nada define melhor as mulheres do que a maternidade. Enquanto que tão pouco se sabe sobre a paternidade...

Quadro 3: O que significa ser mulher? Respostas obtidas pelas mulheres professoras e por seus parceiros.

Ser mulher, para mulheres está relacionado à

Entrevistadas Ser mulher, para

homens está relacionado à

Entrevistadas

Algo divino, à Deus 5 Maternidade 6

Maternidade 4 Maternidade e

profissional

4

Profissional 3 Não respondeu 3

Diferença biológica do homem

Homens e paternidade... Nas respostas que obtive ao indagar as mulheres às quais pesquiso, o que significa ser homem, essa relação quase não apareceu. Muito instigante se compararmos ao que significa ser mulher. A maternidade associada às mulheres aparece como uma ligação estreita, quase sinônimos. No entanto, apenas uma das mulheres associa a paternidade a um dos atributos que define os homens, um entre tantos outros atributos. “Ser homem antes de tudo é ser humano, companheiro, amigo, conselheiro, amante, pai responsável. Cavalheiro. Também é ser forte, o que protege e auxilia, o que corrige, se necessário com amor”. (Lucinda, 48 anos)

Nesse pensamento a paternidade aparece, mas não como papel de destaque ou de extrema relevância. Todavia, o papel de protetor é uma das tantas continuidades que se percebe nos discursos femininos e masculinos. Será que no início de todas essas construções sociais e culturais, se perguntado aos homens se queriam o papel de protetor e provedor da família, será que eles escolheriam esse papel? Às vezes parece tão cruel tanto para os homens como para as mulheres os papéis que lhes foram destinados.

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