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A presente zona de sentido discute como as famílias participantes articulam as regras, os papéis e a hierarquia para o estabelecimento do cuidado e da proteção de suas crianças e adolescentes. A capacidade de adaptação às regras, aos papéis e à hierarquia familiar sinaliza

os padrões de interações e relações dos membros dentro desse contexto. Autores como Andolfi (1981), Minuchin (1982), Minuchin e Fishman (1990), Minuchin, Lee e Simon (2008) ressaltam que são as regras familiares que definem os papéis, a hierarquia e as funções de cada membro no sistema familiar. Complementando, Andolfi (1981), Minuchin (1982) e Miermont et al. (1994) defendem que as relações familiares são estabelecidas por intermédio das regras, comumente transmitidas inconscientemente, que determinam o que é permitido e o que não é permitido. São as regras que determinam as fronteiras familiares, que podem oscilar entre dois extremos: da rigidez e da difusão; ou serem permeáveis o suficiente para permitir a preservação dos limites familiares e da autonomia de cada um, ao mesmo tempo em que possibilitam relações de intimidade e dependência entre os membros da família.

Cada família tem a sua forma de articular suas regras, papéis e a hierarquia familiar na tentativa de estabelecer o cuidado e a proteção para com suas crianças e adolescentes. Na família de Bianca, Angélica se coloca no papel de mãe da neta, como pode ser observado na seguinte afirmação:

[...] a Bianca é minha desde quando estava na barriga da mãe [...] Gente, a Bianca é minha vida [...] eu cuido da menina desde quando ela nasceu. Oh céus! Não dá não, prá ficar longe dessa menina [...]. (Angélica, avó de Bianca)

Além disso, quanto aos cuidados e proteção, ela conta que, quando Bianca nasceu, assumiu todas as responsabilidades porque “sentia” que a filha não seria competente pra prestar os cuidados, a proteção e toda assistência que a neta necessitasse, mesmo tendo consciência de que esse comportamento privaria a filha de assumir o seu papel de mãe:

[...] quando Bianca nasceu, tomei ela pra mim, como se fosse minha filha [...] Fiz isso consciente, pois pensava que Jussara não cuidaria dela direito por ser muito nova [...]. (Angélica, avó de Bianca)

Durante os atendimentos, Angélica desqualificava a todo o momento sua filha no que diz respeito ao seu papel de mãe, reforçando sua competência em cuidar e proteger Bianca, ao mesmo tempo em que apontava a incompetência da filha:

[...] a mãe dela (da Bianca) é muito irresponsável, ela não tem responsabilidade nem com ela e nem com a filha. Eu é quem assumo a responsabilidade da filha todinha [...]. (Angélica, avó de Bianca)

Infelizmente, não foi possível identificar como Jussara lidava com as percepções que sua mãe tinha com relação ao seu comportamento, pois ela não participou dos atendimentos, mesmo sendo convidada insistentemente.

Na visão sistêmica, a família designa a cada um de seus membros papéis específicos, que são complementados por papéis desempenhados por outros membros da família (MIERMONT et al., 1994). Na família de Bianca, as falas da avó levam a considerar a existência de uma dificuldade de Jussara em crescer e assumir responsabilidades e papéis de adulta e mãe, sendo que Angélica complementa este papel em razão da sua impossibilidade de ver a filha crescer e justifica seus comportamentos afirmando que

[...] Jussara não cuida nem protege Bianca como filha, mas como irmã é alguém que ama muito. Apesar da criança a chamar de mãe, quem assume esse papel na prática sou eu [...] (Angélica, avó de Bianca)

No caso da família da Roberta, a avó também é vista como competente e eficiente ao exercer o cuidado e a proteção, e a mãe da criança é destituída do seu papel de mãe, conforme relata Karina, mãe de Roberta:

[...] quando eu tive minha filha eu estava na casa da minha mãe. Desde ela pequeninha minha mãe cuidava [...] Eu fui uma má mãe [...] eu sempre digo que a Roberta gosta mais dela do que de mim [...] O que eu acho legal na minha mãe é a eficiência, ela educa mais [...]. (Karina, mãe de Roberta).

Assumindo a posição de ascendência, a avó impede que Karina assuma suas responsabilidades e papéis diante da filha, reforçando a competência da avó e a inabilidade de Karina em seu papel de mãe. Durante os atendimentos, perceptível que Karina não estava mais se sentindo confortável com a posição e o papel que assumiu perante a filha, porém percebia-se que ela ainda tinha dificuldade de assumir todas as responsabilidades com Roberta necessitando da supervisão de sua mãe. Sendo assim, quando questionada sobre como exercia o cuidado e proteção, Karina afirmou que se tornou mais presente:

[...] agora de uns dias pra cá me tornando presente [...] agora eu busco minha filha; quando eu não posso [...] ou é eu ou é minha mãe [...] minha mãe me ajuda [...] eu cuido da minha filha [...] agora eu cuido[...]. (Karina, mãe de Roberta)

Percorrendo um pouco a história familiar de Karina, verifica-se que quando seus pais eram casados tinham regras rígidas exercidas unicamente pelo pai e obedecidas por todos. O aspecto interessante dessa família é que as regras não eram restritas às crianças, mas também eram impostas à esposa. Karina relatou que, na infância, ela, seus irmãos e sua mãe eram impedidos de assistirem à televisão, porque seu pai se sentia incomodado. Além disso, em várias ocasiões, seu pai chegava à sala e desligava a televisão:

[...] meu pai também não deixava a gente ver televisão [...] se quisesse podia até ver só televisão, mas era no mute pra o meu pai não escutar [...]. (Karina, mãe de Roberta)

[...] isso já aconteceu várias vezes, da gente estar na sala, eu, minha mãe, minha irmã vendo um cd ele ia lá e dormir, dormir, tá na hora de dormir, vou desligar a televisão agora, aí ia lá e “pá” e desligava a televisão [...]”. (Karina, mãe de Roberta)

Na família da Karina, existia pouca ou quase nenhuma negociação e, como consequência, os filhos e a mãe tinham apenas duas opções: 1) obedecer ou 2) fazer escondido (mentiam). Quando escolhiam a segunda opção tinham o apoio da mãe, tendo em vista que as regras impostas pelo pai eram rígidas.

[...] quando a gente queria alguma coisa, queria comprar uma blusinha, um sapato, ai a gente tinha que pedir pra minha mãe e ai minha mãe pegava e dava e meu pai não podia saber [...] agora se fosse pra sair, comprar um sapato bonito, uma bolsa e roupa a gente pedia pra minha mãe e ela dava escondido [...] a gente quando queria ir pro salão com minha mãe a gente ia escondida com ela, porque meu pai não deixava a gente ir pro salão, porque ele achava que era demais gastar dinheiro com salão [...]. (Karina, mãe de Roberta)

Com o nascimento da neta Roberta, a avó, Vanessa, assumiu uma posição de ascendência sobre os filhos e também sobre a neta, ou seja, os colocou no mesmo nível hierárquico e de papéis, o que pode inibir uma reação de Karina para assumir seu papel de mãe. Uma hipótese que se pode levantar é que, para a avó assumir o papel de ascendência sobre os filhos e até mesmo sobre a neta, foi necessária a separação. Foi como se Karina estivesse dando a Vanessa a oportunidade de ser mãe.

Pensando no nível de subsistemas, as situações descritas acima podem se compreendidas da seguinte maneira: percebe-se que nessa família o subsistema conjugal é inexistente, pelo menos no que diz respeito às regras, papéis e hierarquia, pois há um pai que parece formar um subsistema sozinho e, por ter atitudes severas com os membros da família, estabelece fronteiras rígidas. Contribuindo com esse padrão, percebe-se que a esposa não tinha forças para contrapor-se, pois ela não estava no mesmo nível hierárquico que o esposo. Talvez seja por isso que ela, a todo tempo, fazia aliança com os filhos buscando defendê-los do pai. Minuchin (1982) e Miermont et al. (1994) destacam que as fronteiras muito rígidas dificultam a comunicação, negociação e as funções de proteção da família. Além disso, o segundo autor aponta que o prolongamento dessa forma de relação pode formar um subsistema emaranhado em que há uma forte aliança entre mãe e filho com consequente exclusão do pai. Em complemento, Minuchin (1982) enfatiza que as fronteiras rígidas isolam a família de outros sistemas, favorecem o distanciamento físico e emocional dos membros da família e conduzem à falta de comunicação.

De acordo com Minuchin (1982) e Miermont et al. (1994), para um funcionamento familiar saudável, é necessário o estabelecimento de fronteiras nítidas e permeáveis que permitam que os componentes se apropriem de seus papéis e funções. Ainda, as fronteiras devem ser flexíveis, visando à adaptação dos integrantes da família e promovendo espaço para o distanciamento e para a aproximação dos membros da família sempre que acharem necessário. No decorrer dos atendimentos e com as informações coletadas, notou-se que apenas a família de Arthur consegue administrar as fronteiras de forma saudável e proveitosa. Esta família conseguiu estabelecer fronteiras nítidas e permeáveis entre os subsistemas, atribuindo ao subsistema parental a função de cuidado e proteção. Por exemplo, durante um dos atendimentos a mãe foi questionada sobre como as regras da família eram definidas, ao que afirmou que o casal conversava até chegar a um acordo, demonstrando que as decisões eram tomadas pelo subsistema parental e os filhos cumpriam. Nessa família, a mãe coloca regras claras e saudáveis e só aciona o pai quando acontece alguma coisa mais séria. Para Minuchin (1992), a família funcionará de forma adequada, quando o subsistema parental for capaz de assumir suas funções de decisão e orientação frente aos filhos. Normalmente Luisa e Fábio conversam sobre tudo o que acontece com os filhos para decidirem juntos que medidas adotarem:

[...] a gente conversa muito [...] porque a gente conversa tudo [...] eu é que comando sozinha quando ele não está em casa [...]. (Luisa, mãe do Arthur)

A família de Arthur segue o modelo patriarcal, com papéis definidos, no qual o pai é o provedor e a mãe, a cuidadora. Pode-se pensar que nesse aspecto há certa rigidez porque os papéis são polarizados e, conforme Minuchin (1982) defende, é importante que os pais consigam desempenhar diferentes papéis em diferentes situações. No entanto, é importante ponderar que essa rigidez possa resultar das condições financeiras e situacionais que a família vivenciava no momento da pesquisa.

Analisando as informações acessadas, notamos um pormenor nas falas de Luisa no que diz respeito ao aspecto geracional sobre a colocação das regras. Luisa conta que, quando se trata de colocar regras, faz diferente de sua mãe, pois ela não se coloca à frente do marido ou em uma hierarquia superior, mas sim ao seu lado. Conforme relato de Luisa, sua mãe era a “cabeça” de casa, era ela quem impunha as regras no contexto familiar e quem resolvia todos os problemas, o que seu pai acatava:

[...] minha mãe era a mais cabeça, mais razão, mais coronel [...] mais tudo [...] minha mãe impunha as regras [...] ela comunicava pro meu pai e meu pai sempre {silêncio} meu pai só ficava na concordância [...] minha mãe sempre foi aquele braço forte de dentro de casa [...] era ela que mandava nele [...] ainda hoje [...]. (Luisa, mãe do Arthur)

Barcellos (2005) ressalta que em famílias com histórico de violência as fronteiras e as funções não são protetivas, o que coloca os membros da família em situação de risco. Na família de Clarissa, parece ser uma das mais vulneráveis e com suas crianças e adolescentes em maior risco psicossocial, as regras são confusas e os papéis totalmente indefinidos, fazendo com que a mãe exerça cobranças inadequadas em relação aos filhos, entre elas a exigência de trabalho. Percebe-se que na família há muita cobrança e ninguém que exerça o papel de protetor e cuidador.

[...] toda criança tem que trabalhar não importa a idade, a minha mãe me ensinou isso, a gente pequeninho [...] lá em casa se você quer alguma coisa tem que ajudar, porque senão eu não ajudo [...]. (Raquel, mãe da Clarissa)

Ademais, na família da Clarissa as fronteiras externas, que definem quem entra e quem sai da família, protegendo seus membros de interferências externas, são extremamente

confusas e abertas. No entanto, há uma rigidez nas fronteiras internas, o que impede que o sujeito seja cuidado e protegido, pois ninguém presta atenção um no outro. As famílias desligadas têm fronteiras rígidas, que dificultam a comunicação, impedem que as funções protetoras da família sejam exercidas e seus membros têm um entendimento distorcido do que seja independência e autonomia, além de desenvolverem relações distantes entre os membros da família (MINUCHIN, 1982; MIERMONT et al., 1994).

Neste estudo, observa-se que nas famílias de Bianca e de Roberta as regras, os padrões hierárquicos e todos os papéis importantes, tais como cuidar, proteger e decidir, estão condensados nas avós, respectivamente, Angélica e Vanessa. As avós são extremamente competentes, resolvem todos os problemas. Em contrapartida, impedem que suas filhas (mães das crianças em questão) desenvolvam suas habilidades como mães. Na família de Bianca, a avó sempre deteve o domínio da filha e da neta. No caso da família de Roberta, esta ascendência somente ocorreu após a separação dos pais de Karina. O que se torna relevante pontuar aqui é que nestas duas famílias não há um subsistema parental, nem regras claras e papéis definidos. Uma dinâmica semelhante pode ser observada na família de Clarissa, a qual se apresenta de forma caótica em referência a regras que são extremamente confusas e papéis indefinidos, deixando a adolescente em situação de vulnerabilidade extrema. Das famílias estudadas, identificou-se apenas uma, a de Arthur, que consegue ter, minimamente, regras claras e papéis definidos, favorecendo a manutenção do cuidado e da proteção.

5.3. Entre a paralisação e a aceleração do tempo: da superproteção ao abandono, da