A presente Zona de Sentido discute as formas de cuidado e proteção que são identificados pelas mães/cuidadoras na rotina familiar e como os comportamentos que são nomeados, por elas, como cuidado e proteção são transmitidos entre as gerações. A princípio, discutimos o conceito de cuidado e proteção, visando dar suporte às discussões aqui propostas.
Os seres humanos nascem com a necessidade de serem cuidados e protegidos, pois nascem indefesos e incapazes de exercer o auto-cuidado, sendo a família o primeiro ambiente em que o cuidado e a proteção são exercidos. Assim, é na família que se aprende o que é cuidar e proteger, numa construção transmitida através das gerações. Ou seja, o sujeito aprende e desenvolve habilidades relacionadas ao cuidado e à proteção por meio do modelo que lhe foi apresentando quando era cuidado e protegido na infância e na adolescência. Gabatz, et al. (2010) confirmam a influência que as heranças culturais e sociais exercem na construção da concepção de cuidado e proteção, e acrescentam que, além do contexto social e cultural, cada família desenvolve um conjunto de heranças e legados a serem transmitidos aos seus descendentes.
A palavra cuidado vem do latim cogitātu e, de acordo com o Dicionário Aurélio (2000), significa “prestar atenção, desvelo, zelo, ter responsabilidade com outro”. Segundo Leonardo Boff (2005), a palavra cuidado tem dois significados básicos que estão diretamente ligados e são complementares. O primeiro é marcado por uma atitude de desvelo e atenção com o outro, enquanto o segundo significado se expressa por meio da preocupação e da inquietação pelo outro, uma vez que quem cuida sente-se responsável pelo bem estar do sujeito cuidado, em decorrência do envolvimento emocional que liga os envolvidos. O autor
acrescenta que o ato de cuidar requer acolhimento, respeito, promoção de sossego a quem é cuidado. Quando não há a implicação desses significados na vida do sujeito, surge o descuidado. A palavra Proteção tambem vem do latim protectio, e significa amparar, abrigar, dedicar. A proteção é uma ação ou resultado de proteger, é amparar, preservar do mal, defender e cuidar de alguém considerado mais frágil (AURÉLIO, 2000).
Para a discussão desta Zona de Sentido, foi elaborada uma definição de cuidado e proteção baseada em documentos oficiais sobre o tema, como o Estatuto da Crianca e do Adolescente – ECA (Brasil, 1990), a Convenção de Direitos da Criança (1990), o documento intitulado: Linha de Cuidado para a Atenção Integral à Saúde de Crianças, Adolescentes e suas Famílias em Situação de Violência: orientações para gestores e profissionais de saúde (BRASIL, 2010), Campanha de Prevenção à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes – Cartilha Educativa (BRASIL, 2010). Assim, foi definido como cuidado e proteção: 1) Cuidado é uma ação que vai desde a atenção básica com saúde, alimentação, educação, até os aspectos financeiros; 2) Proteção é também uma ação que tem como objetivo evitar e impedir que as crinças e adolescentes entrem em perigo ou sejam submetidos a situaçoes de risco. Importante ressaltar que estas ações são complementares e favorecem o desenvolvimento de cada membro da família e das relações estabelecidas de forma satisfatória entre eles. Deste modo, buscaremos discutir como as famílias da pesquisa, mais especificamente as mães, conseguem executar estas ações definidas como cuidado e proteção.
Em suas falas, as mães descrevem como cuidado e proteção atitudes relacionadas à educação, diálogo, orientação, estar presente em todos os lugares, ter bom relacionamento, ensinar o que é certo e errado, dar limite e se atentar a saúde e alimentação dos filhos. No entanto, na prática, elas colocam que estas são tarefas difíceis de serem concretizadas e que muitas vezes se sentem impotentes e sobrecarregadas, corroborando o perfil descrito por Perrone e Nannini (1997), que descrevem estas mães como esgotadas, sempre com trabalhos externos à família, com atitudes ambivalentes, dificuldades de romper vínculos que colocam a criança em perigo, ausentes, e com uma diminuição da percepção do que ocorre com a criança. Os aspectos apresentados acima estão ilustrados nas falas das mães durante os atendimentos:
[...] educar é uma forma de proteger [...] porque você conversando e falando o que está acontecendo lá fora [...] isso daí é um jeito de você
proteger sua filha, seu filho, neto, sei lá, quem quer que seja [...]. (Angélica, avó da Bianca)
[...] ai! proteção [...] proteção é muito DIFÍCIL [...] às vezes você se sente uma super mulher, mas não é nada disso [...]. (Angélica, avó da Bianca)
[...] às vezes você quer proteger e levar a criança, trazer e buscar e ao menos tempo [...] no meu caso, eu tenho três filhos, eu não posso estar em três lugares ao mesmo [...] proteger é muito DIFÍCIL [...] então é com orientação, educação, conversando sobre tudo mesmo [...] eu acho que seria esse o caminho [...]. (Luisa, mãe do Arthur)
[...] cuidar? [...] cuidar é quase parecido com proteger, então é estar presente, dar bons exemplos [...] é participar das atividades escolares [...]. (Karina, mãe da Roberta)
A questão de ser exemplo para os filhos também aparece como uma forma de cuidado e educação:
[...] o cuidado é preparar para a vida [...] a sua educação (do filho) é espelhada em você. Se você grita, ele grita [...]. (Raquel, mãe da Clarissa)
Por outro lado, nos chamou a atenção as cuidadoras e protetoras de duas famílias, Angélica e Karina, que compreendem que cuidar e proteger relaciona-se a uma perspectiva de isolar a criança ou adolescente do convívio social conforme exemplificado nas falas a seguir:
[...] porque hoje em dia, a única coisa, a única proteção que você pode fazer pelas crianças é você pegar e esconder ou internar num lugar [...]. (Angélica, avó da Bianca)
[...] é guardar [...] guardar [...]. (Karina, mãe da Roberta)
Buscando compreender os comportamentos que Karina definiu como de cuidado e proteção, retomamos a história da família de seu pai, em que seu avô é descrito como nervoso, agressivo e rígido:
[...] meu pai fala que sofreu muito [...] meu avô era nervoso, os meninos com 15 anos tinham que trabalhar, se não chegasse em casa com dinheiro, dormiam fora [...] na calçada [...]. (Karina, mãe da Roberta)
Karina relatou que seu pai não era agressivo com ela e com seus irmãos no período da sua infância e adolescência. Ao contrário, relatou que teve pais protetores e cuidadores. No entanto, em outro momento, fica claro que a proteção exercida pelo pai se assemelhava mais com autoritarismo, pois, segundo ela, seu pai parecia um coronel devido sua rigidez. Assim, compreendemos que a rigidez se perpetuou, transmutada em super-proteção, justificando o seu entendimento de cuidado e proteção como “guardar” sua filha. Poderíamos sugerir que o que foi transmitido em termos de comportamentos de cuidado e proteção foram o rigor e a necessidade de manter os filhos o mais dependentes possível, quase uma „prisão‟.
[...] a primeira vez que eu fui pegar um ônibus eu tinha 21 anos [...] Geralmente, meus pais eram muito em cima, protetor né [...] pra você ver, eles ficam com aquela proteção em cima da gente [...]. (Karina, mãe da Roberta)
A mãe, por sua vez, era quem exercia efetivamente o cuidado e a proteção, além de ser a pessoa que dava carinho, atenção e, muitas vezes, deixava os filhos terem comportamentos sem o conhecimento do pai:
[...] quem mais protegia mesmo era minha mãe [...] ela cuidava mais [...] ela era mais carinhosa [...] ela era mais paciente e conversava mais [...]. (Karina, mãe da Roberta)
Angélica, avó de Bianca, teve dificuldades para falar das formas como era cuidada e protegida na infância e adolescência, pois, de acordo com ela, há muitas coisas que machucam ao serem relembradas. Mas, do que ela conseguiu falar, percebeu-se que o cuidado e a proteção na sua família não eram exercidos pela mãe ou pelo pai, sendo os seus irmãos que cuidavam e protegiam uns aos outros. Com sua mãe, teve uma relação distante e com o pai houve uma aproximação somente na juventude.
A transmissão geracional consiste na repetição de padrões familiares de uma geração para outra, que fazem parte da história familiar, e que, geralmente, são perpetuados de forma
inconsciente. Esses padrões incluem legados, valores, crenças segredos, ritos e mitos (BOWEN, 1976, 1991; BOSZORMENYI-NAGY; SPARK, 1973; FALCKE; WAGNER, 2005; PENSO; COSTA; RIBEIRO, 2008; BUCHER, 2008). No que diz respeito à violência sexual, Costa, Penso e Almeida (2007), Penso e Neves (2008), em seus estudos, discutem a existência de uma dinâmica transgeracional na qual ações abusivas tanto com seus filhos como no período da infância e/ou adolescência ficam evidentes.
A maioria das sociedades considera as mães como a chave mestre do cuidado e da proteção dos membros de uma família, e dentro desses cuidados se destacam o zelo pela saúde, educação, lazer, entre outros (LIMA, 2007; GABATZ et al., 2010). Quando os responsáveis em exercer o cuidado o fazem de forma calorosa, respeitosa e afetuosa, contribuem para o desenvolvimento de potencialidades fundamentais, tais como: auto-estima, duplo sentimento de confiança – em si e no mundo –, autonomia; além de aprenderem a lidar com limites, regras e resolução de problemas. Essas ações favorecem a construção de relações saudáveis que são um fator importante de proteção (BRASIL, 2010).
Confirmando estas constatações teóricas, Luisa relatou que busca construir uma relação mais próxima e afetiva com os filhos, uma vez que, na sua infância, tinha uma relação distante com sua mãe, que costumava maltratar os filhos ignorando-os. Mas também era responsável pela imposição de regras e limites. O pai é apresentado como muito carinhoso e cuidadoso, e em todas as oportunidades dos atendimentos ela reforçava sua admiração por ele:
[...] só que eu não gostava, não gosto até hoje, que ela fazia uma coisa que eu detesto [...] ela ignorava a gente [...] A gente dizia benção mamãe, ela não respondia [...] A senhora tá bem? Eu tentava puxar papo e ela ignorava [...]”. “ela sempre foi aquele braço forte dentro de casa, ela era o coronel [...] era ela que mandava [...]”. (Luisa, mãe de Arthur)
[...] nossa! Meu pai era tremendo [...]. (Luisa, mãe de Arthur)
Essa admiração faz com que Luisa exerça o cuidado e a proteção conforme seu pai, mas não se esquece da importância da delimitação de regras, limites e responsabilidades que devem ser colocados para os filhos, assim como sua mãe fazia. Outro aspecto interessante nessa família é que Luisa também buscou a união e o carinho, como acontece na família do
seu esposo, Fabio. Deste modo, o casal busca ter com seus filhos muito diálogo, respeito e carinho, visando à construção de uma relação de confiança saudável. Portanto, Luisa é uma mãe que busca romper com a história transgeracional vivida com sua mãe, e construir uma relação diferente com seus filhos.
De Antoni e Koller (2000), Costa et al. (2007), Lima (2007) defendem que a qualidade das relações entre mães e filhos favorece o rompimento do ciclo do abuso e permite o processo de ressignificação do abuso sofrido pela criança, e que essa qualidade está baseada na “história dos vínculos estabelecidos, na intensidade, freqüência e mutualidade dos mesmos” (Lima, 2007, p. 34). Portanto, as relações entre mães e filhos devem estar permeadas pela proximidade, confiança, compromisso e proteção, pois mesmo que o abuso aconteça, famílias com boa relação afetiva entre seus membros não deixarão que este continue por muito tempo, uma vez que a mãe estará atenta às mudanças no comportamento do filho, e alerta aos sinais de abuso, e buscará o rompimento, por meio de denuncia, por exemplo.
Com relação ao que foi descrito acima, apresentamos duas famílias nas quais a qualidade das relações foi determinante para proporcionar ou não o cuidado e a proteção. Uma é a família de Arthur, na qual Luisa sempre buscou ter com os filhos um relacionamento próximo, protetor, acolhedor, com a existência de uma relação de confiança, o que favoreceu a revelação da violência sofrida por Arthur para sua mãe. Luisa, ao buscar o filho, que estava vindo da direção da padaria com o tio, percebeu uma modificação do comportamento do filho e logo tratou de conversar com a criança para compreender o que havia acontecido. Ao contrário da maioria das mães descritas na literatura (PENSO; COSTA, 2010; PENSO; COSTA; ALMEIDA, 2005), esta mãe conseguiu ser pró-ativa e observadora, percebendo rapidamente o que tinha acontecido com seu filho.
No entanto, mesmo sendo presentes e afetuosos os pais de Arthur não conseguiram evitar o abuso sexual por não imaginarem que o tio da criança pudesse ser capaz de tal brutalidade. Mas, constatado o fato, foram capazes de desenvolver estratégias de cuidado e proteção. Realizaram a denúncia, optando pela preservação dos direitos do filho, e se distanciando da convivência com os familiares, principalmente Luisa, que teve que abandonar a família ampliada na cidade onde moravam para “fugirem” para Brasília. A maioria dos membros de sua família ficou contra Luisa quando ela fez a denúncia, até mesmo sua mãe, que sempre a questiona o porquê dela ter feito isso com próprio irmão. Luisa justifica tal
atitude para a mãe dizendo que só está defendendo os direitos do filho, e que não consegue entender o porquê do irmão ter cometido tal brutalidade.
A outra situação, em que aconteceu exatamente o contrário, foi à família de Clarissa, na qual mãe e filha se apresentaram no grupo com uma relação distante, conflituosa, cheia de mágoas, principalmente por parte de Clarissa, pois ela esperava que sua mãe lhe desse apoio quando o abuso foi revelado. Porém, o que aconteceu foi bem diferente, uma vez que a mãe optou por ajudar o companheiro alegando que ele necessitava de mais ajuda do que a filha, porque ele era alcoólatra e também porque não acreditava que o abuso tivesse ocorrido, corroborando outros estudos realizados (ARAUJO, 2002; AMAZONAS; OLIVEIRA; MELO, 2009). Sendo assim, nessa família, em que não houve espaço para o acolhimento, o diálogo e a confiança, abriram-se brechas para a ocorrência de diversos tipos de violência, pois a família colocou a adolescente em risco, desde a sua infância, conforme relatos de vários abusos aos quais a adolescente foi submetida.
Refletindo sobre as estratégias que as famílias desenvolvem para cuidar e proteger seus filhos das situações de risco e da violência dentro de casa, retomamos a fala de Karina sobre o comportamento de sua avó para cuidar e proteger seus filhos, principalmente suas filhas, do seu esposo, conforme a seguinte fala:
[...] a minha avó falava que ele {avô} era muito tarado [...] Era assim, ela tinha um {filho} e já tava grávida de novo [...] Aí ela, a minha avó fala que tinha que trancar a porta do quarto das meninas, porque ela tinha medo do meu avô [...]. (Karina, mãe de Roberta).
É possível identificar em algumas famílias a ocorrência de repetições no que diz respeito ao cuidado e proteção das crianças e adolescentes e sua exposição a situações de violência sexual, uma vez que os padrões de educação e proteção são repetidos pelos pais de acordo com os repertórios que foram aprendidos e repassados pela família de origem, como afirmam Penso, Costa e Almeida (2005), Penso e Neves (2008), Penso e Costa (2010). Complementando, Guerra e Azevedo (1993) apontam que os fatores como uma relação conjugal conflituosa, o desemprego, o uso abusivo de álcool e outras drogas tornam as famílias mais vulneráveis, permissivas e fragilizadas emocionalmente, o que favorece a repetição e a perpetuação dos abusos. Santos e Dell'aglio (2009) ressaltam que outro aspecto
envolvido na transmissão geracional do abuso sexual está relacionado à percepção que as mães têm do seu papel de mãe e da maternidade, e que mães expostas a modelos parentais desestruturados e inadequados não conseguem “desenvolver” modelos protetivos, favorecendo a continuidade de padrões de interação também inadequados.
Nas histórias relatadas por Raquel, mãe de Clarissa, fica evidente a vivência de violência, abandono e as conseqüências advindas do uso do álcool que viveu na infância e na adolescência. Raquel foi abusada sexualmente pelo seu pai, que era alcoólatra e agressivo. Sua mãe, devido à necessidade de cuidar do sustento da família, após a separação, não percebeu que sua filha era vítima de violência sexual e, assim, não conseguiu exercer de forma favorável a proteção de sua filha. Raquel contou os fatos para sua mãe somente quando se casou pela primeira vez, levando-nos a supor uma relação distante entre mãe e filha, que propiciou a manutenção do segredo sobre a violência e sua perpetuação, impedindo que Raquel fosse protegida e cuidada. No entanto, devemos levar em consideração o desamparo social e familiar que essas mães vivenciam.
Penso, Costa e Almeida (2005), Costa et al. (2005), Lima (2007) e Penso e Neves (2008) apontam que nas famílias onde há transmissão geracional do abuso sexual, os cuidadores lidam com sentimentos e sensações de dor e angústia que muitas vezes podem paralisá-los, pois eles retomam os sentimentos vivenciados quando foram vítimas e reagem como aprenderam na família de origem, não conseguindo assumir seu papel de cuidadora e protetora. Essas autoras ressaltam a importância que deve ser dada ao se deparar com famílias em que a mãe também vivenciou abuso sexual na infância ou na adolescência e a maneira como ela foi acolhida, protegida e cuidada, pois esses comportamentos influenciarão nas estratégias que essas mães utilizarão para desenvolverem a capacidade de proteção e cuidado com seus filhos. Com relação à forma como Raquel era cuidada na infância, ela relata:
[...] um cuidava do outro, eu cuidava dos meus irmãos, a minha mãe cuidava da família [...] ela trabalhava e cuidava da família [...] Na minha casa sempre teve empregada [...]. (Raquel, mãe da Clarissa)
Raquel não teve um pai protetor e cuidador, e sua mãe também não deu conta de ser protetora, pois sua maior preocupação era cuidar dos recursos financeiros para o sustento da família. No período da infância e da adolescência, Raquel não contou com a supervisão da
mãe, assim como Clarissa não conta com a supervisão, proteção e cuidado de sua mãe e/ou de outro adulto cuidador. Talvez o que Raquel tenha aprendido e queira que sua filha também aprenda é a lidar por conta própria com todos os sentimentos, medos, desconfortos e outras sensações que estão relacionadas com a violência sofrida.
Das mães que participaram da pesquisa, percebemos que a única que não conseguiu ser protetora da filha após a revelação foi à mãe de Clarissa, e ela até responsabiliza a adolescente pelos abusos, relatando que Clarissa [...] já fez pedofilia [...]. As outras mães, Karina e Luisa, e a avó, Angélica, realizaram a denúncia assim que perceberam e constaram evidências físicas e comportamentais do abuso sexual com o intuito de interromper o ciclo de violência.
O contexto familiar é o ambiente mais propício para que o cuidado e a proteção sejam exercidos. No entanto, a família também pode ser um ambiente que expõe as crianças e os adolescentes à violência e a situações de risco, por meio, por exemplo, do padrão de comunicação disponível na família (BRASIL, 2010). Esses padrões são transmitidos por intermédio das gerações e podem ser prejudiciais ou protetores para o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes.
A perspectiva transgeracional é importante porque nos permite compreender as relações familiares sem julgamento. No caso da mãe de Clarissa, ela foi uma criança que sofreu abuso, teve uma mãe que exerceu os cuidado básicos, mas não conseguiu proteger a filha do pai. Talvez esse seja o motivo pelo qual não conseguiu desenvolver habilidades e um modelo relacionado ao cuidado e a proteção. Cabe ressaltar que o descuido e a desproteção ocorre com os três filhos, conforme Clarissa relatou em um dos atendimentos, sua irmã, Bruna, também sofreu abuso perpetrado pelo padrasto, e por esse motivo foi morar na casa de sua avó.
O discurso das cuidadoras é carregado de sentimento de impotência, de culpabilização e uma sensação de desproteção a todo o momento, semelhante aos resultados encontrados por Lima (2007) em seu estudo. Percebemos que na família do Arthur esses sentimentos ficam mais evidentes, pois a própria mãe fala do medo que sente quando o telefone de sua casa toca, pois lembra que saiu “fugida” da cidade onde morava, pois estava recebendo ameaças por
parte dos conhecidos do amigo do seu irmão, que também abusou do Arthur. Angélica, avó de Bianca, acrescentou que:
[...] quando acontece as coisas, a gente tem desconfiança em todos [...] a gente aprende a não confiar mais nas pessoas, parece que todas as pessoas são iguais [...]. (Angélica, avó de Bianca)
Costa, Penso, Almeida e Ribeiro (2008) apontam que o processo judicial costuma ser demorado, o que pode levar a descrença de que alguma resolução para a questão, e também a falta de confiança nos relatos da criança. No entanto, elas concluem que as mães não perdem a esperança de que a justiça será feita, com a condenação do abusador. A avó de Bianca expressou o seu sentimento de desproteção para com as crianças e afirmou que a justiça não age como deveria para resolver a problemática em questão, o que conseqüentemente auxiliaria no cuidado e proteção da criança/adolescente:
[...] a Justiça não está fazendo nada [...]. (Angélica, avó de Bianca)
Quanto às famílias deste estudo, constatou-se que as mães de Roberta e Bianca contam e contaram com o auxilio de uma terceira pessoa da família para exercer o cuidado e a proteção, apontando para uma transmissão geracional da cultura de delegação dos cuidados com os filhos para outras mulheres da família, seja avós ou filhas mais velhas. Na família materna, Karina relatou que sua avó contava com a colaboração de Marisa para exercer os cuidados e proteção dos filhos, assim como ela necessita da ajuda e apoio de sua mãe para exercer suas funções maternas:
[...] Marisa ajudava também {no cuidado e na proteção}, na verdade minha avó não cuidava [...] era mais o meu avô [...] Minha mãe fala que meu avô cuidava bem deles [...]. (Karina, mãe da Roberta)
Com relação às mudanças que Karina fez na forma de cuidar e proteger dos seus pais, ela afirmou que, na educação de Roberta, não é tão rigorosa como a de seu pai. Relatou que não deseja repetir o modelo de seus pais sobre as formas de cuidar e proteger, mas também não consegue fazer diferente. Assim, não consegue estabelecer limites para a filha, mas reconheceu que tem algumas situações em que precisa ser mais firme, porém tem