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Myndighetens intensjoner og virkeligheten

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O último período do pensamento de Heidegger inicia-se com os escritos posteriores à

Introdução à metafísica até a entrevista póstuma. Neles, sobretudo na Contribuição à questão do ser e em Tempo e ser, temos os derradeiros liames do seu pensamento. A perspectiva

ontológica do pensamento heideggeriano soa mais como distorção do pensamento ontológico que propriamente uma aproximação do ser esquecido pela tradição. “Eu chamarei poético esse

tipo de ontologia, assombrado pela dissipação da Presença e a perda da origem” (BADIOU, 1988, p. 16). Iniciemos nossa leitura pelo poético Caminho do campo no qual Heidegger (1969, p. 68) faz notar kantianamente a beleza dos céus acima do homem e a profundidade que arrasta ao fundamental:

...abrir-se à amplidão dos céus, mas também deitar raízes na obscuridade da terra; que tudo o que é verdadeiro e autêntico somente chega à maturidade se o homem for simultaneamente ambas as coisas: disponível ao apelo do mais alto céu e abrigado pela proteção da terra que oculta e produz.

As belas palavras de Heidegger não se dão ao acaso, mais que um filósofo sugerem a linguagem de um “padre astuto” que se diferencia, sobretudo em virtude do seu “estilo professoral, patétito e profético...” (BADIOU, 1997, p. 33 e 30). Na sequência, ele cita o velho Mestre Eckhart fazendo coro à necessidade de abertura a uma nova linguagem (GREISCH, 1994, p. 117)12, pois “é naquilo que sua linguagem não diz que Deus é verdadeiramente Deus” (HEIDEGGER, 1999b, p. 69). Conforme mencionamos acima, as entrelinhas do texto são mais evidentes que as linhas. Mas isso ainda não é o suficiente. A interpretação proposta por Aubenque (2012) ganha força quando o autor convida à mudança da linguagem metafísica clássica. “A pergunta pelo ser do ser morre se ela não abandona a

linguagem da metafísica, porque a representação metafísica impede que se pense a pergunta pelo ser do ser” (HEIDEGGER, 1969, p. 38). Doravante, a linguagem heideggeriana se

reconfigura justamente na exclusão do conceito nuclear do seu pensamento: o ser.

De acordo com isto, o pensamento precursor somente pode ainda escrever,

nesta esfera, o “ser” da seguinte maneira: o ser. O riscar cruciforme procura primeiramente repelir apenas o inextirpável costume de representar “o ser” como

algo independente, para afirmá-lo como algo que, de vez em quando, se opõe ao homem. De acordo com essa representação surge a aparência de que o homem está excluído do “ser”. Entretanto, o homem não apenas está excluído, isto é, não apenas

está incluído no “ser”, mas o “ser”, necessitando do ser humano, está condenado a

abandonar a aparência do para si, sendo, por isso também, de natureza bem diferente daquela que quisera aceitar a representação de um conteúdo que abarca a relação sujeito-objeto. (HEIDEGGER, 1969, pp. 44-45)

A primeira caracterização aponta a superação da objetivação do ser tão presente na tradição ocidental, além de reafirmar a co-habitação do homem e do ser. Este não repugna nem exclui aquele. Ao contrário, o homem também só se encontra no ser, pois o homem é a lembrança do ser (HEIDEGGER, 1969, p. 45). Do ser cuja essência verbal permanece

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Greisch apresenta a grande influência que teve o heremita da Floresta Negra Abraham a Santa Clara sobre o pensamento de Heidegger. Some-se a isso a herança hebraica subjacente aos seus escritos vastamente estudada por Marlène ZARADER (1999).

irredutível à relação objetual. Aquele que se oculta não para se furtar no mistério, mas esconde-se para além da entificação do ser esperando ser desvelado através de uma busca adequada (HEIDEGGER, 1969, p. 50). A busca de Heidegger atinge um patamar “desesperado” nos escritos posteriores. “Nós devemos, pois abandonar a palavra: o „Ser‟, fonte de isolamento e de cisão, também decididamente esse nome: „o homem‟” (HEIDEGGER, 1968, p. 229). Com essa afirmação, se antes Heidegger aproximou-se da linguagem mística ou poética, conforme Aubenque (2012) e Badiou (1988) indicaram, agora margeia o ser como um “título vazio”, conforme disse na Introdução à metafísica.

Mesmo mediante esse anúncio da necessidade de abandonar os termos ser e homem, o filósofo da Floresta Negra ainda retorna ao tema da co-habitação entre ser e homem. E mais, o homem como memória do ser. “O homem é em seu ser a Memória do Ser, mas do Ser. O que quer dizer: o ser do homem é da obediência desse que, na bifurcação em cruz do Ser, emprega o pensamento sobre o requerimento de um mais inicial apelo” (HEIDEGGER, 1968, p. 233). A busca do pensamento mais original reverterá finalmente no destino da metafísica que constitui a sua transcendência propriamente dita. Uma transcendência que impossibilita pensar o ser como ser do ente e como não-ser ou nada. Pois essa transcendência aponta para o ser através de suas determinações genuínas, isto é, da physis e do logos (HEIDEGGER, 1968, pp. 235 e 245).

Alheio aos estritos cânones da physis e do logos, o pensamento metafísico degenera sua constituição. Nesse sentido, afirma-se que “a metafísica é uma onto-teo-logia” (HEIDEGGER, 1968, p. 288). Somente um pensamento sob o crivo da lógica do logos que pensa o ser em sentido verbal, ou seja, como physis, não se degenera em teologia. Aquilo que não se alcança pelo pensamento, a saber, o ser do ente ou o ser propriamente dito, afasta-se da filosofia. Ao ser que permanece sempre alheio ao pensar se denominou logos, hypokeímenon, substância, sujeito, entre outros. Esse que permanece alheio, longe e visado, é Deus. Por isso, “a metafísica é uma teologia, um discurso sobre Deus, porque Deus entra na filosofia” (HEIDEGGER, 1968, p. 290). Enquanto o ser que se pensa como physis permanece como aquele que “há” (il y a), como o que “se dá em um lugar” (HEIDEGGER, 1968, p. 243). Para além da physis, o ser pensado pela metafísica concilia as perspectivas da ontologia e da teologia, por isso ontoteologia. Donde se compreende como Deus entra na filosofia. O ser pensado para além da physis ecoou na tradição platônica e na ontoteologia através da “transcendência constitutiva do ser” entendido como o “para além da essência ()” (PLATON, 1949b, 509d e GREISCH, 1994, pp. 485 e 487).

No último texto publicado por Heidegger (Tempo e ser), novamente aparece a caracterização que dissemos esquemática da tradição metafísica ocidental. Numa caracterização que une Platão, Aristóteles, Kant, Hegel e Nietzsche no mesmo arco interpretativo, Heidegger acusa o esquecimento do ser proveniente dos conceitos como ideia, comunhão, enérgeia, posição, conceito absoluto e vontade de poder. Estes impedem o acesso ao “dá-se Ser” que permitiria seu desvelamento. Por isso, ele (1999c, pp. 29 e 47) chama a atenção para a necessidade de dar um “passo atrás” (Schritt zurüch), embora não se saiba até onde nem como se alcançaria esse atrás. Finalmente, Heidegger (1999c, p. 61) retoma a crítica que percorreu todo o seu pensamento:

A metafísica é esquecimento do ser, e isto é a história do ocultamento e da retirada daquele que dá ser a entrada do pensar no acontecimento apropriador equivale assim ao final dessa história da retirada. O esquecimento do ser se

“cancela” com o desvelar-se no acontecimento apropriador.

Heidegger tem todas as razões para tentar colocar-se fora da tradição do esquecimento do ser, porém “a conclusão” da sua tarefa com o tema do acontecimento apropriador não nos convence definitivamente de que ele ultrapassa a tradição criticada. Nesse sentido, não somos condescendentes com seu pensamento. As críticas de Aubenque e Badiou parecem-nos de todo pertinentes. Ademais, a grafia do ser com a marca cruciforme ou, ainda, com a forma mais primitiva com “y” (Seyn) não aponta para uma dimensão mais originária do pensamento, apenas resgata um arcaísmo linguístico alemão. O sentido e a interrogação do ser pelo Dasein que Heidegger colocou como a tarefa da ontologia fundamental nos limites da finitude, cedeu lugar ao homem como pastor do ser e à co-habitação dos dois. Finalmente, ele detectou a necessidade de assumir o ser como acontecimento apropriador, grafando-o com a marca cruciforme. Emerge também uma série de remissões à transcendência divina como certa condição de revelação de um sentido do ser. Além de uma mudança substancial na própria linguagem referente ao ser. Heidegger ainda mantém a crítica à metafísica tradicional como esquecimento do ser, uma interpretação esquemática da tradição e “distorcida” da teologia cristã em diálogo com a ontologia. Toda ela (ontologia em diálogo com a teologia) interpretada como ontoteologia.

Não obstante toda a grandeza do seu pensamento, a hipótese interpretativa que destacamos constitui-se binariamente. Por um lado, Heidegger não consegue retirar o ser do esquecimento. Com isso ele se inscreve na mesma tradição que desejou superar. Naufragou no “esquecimento do esquecimento” (PUNTEL, 2011, p. 108), por isso não superou o erro

genético da tradição ocidental. Por outro, o acontecimento apropriador (Ereignis) não constitui uma acepção originária do ser. Permanece em evidência a grafia cruciforme do ser como uma perda do sentido fundamental e consequente dissolução numa noção abstrata, imprecisa e vazia do próprio ser. Donde se pode concluir que a perspectiva final do pensamento heideggeriano sobre o ser assemelha-se mais a uma poética do vazio que propriamente à filosofia ou ao pensar originário intentado pelo filósofo. O pensamento heideggeriano foi bem caracterizado por Robert S. Gall (1987, pp. 120-121):

Tudo isso marca o pensamento de Heidegger como um pensamento poético, receptivo, devocional, atencioso - pensamento que não leva em conta o onde nós estamos, como o pensamento onto-teo-lógico faria, mas acena-nos do onde nós costumamos ainda estar para onde devemos ir, na clareira e correspondente ao ser.

A poética do vazio presente no último período do pensamento de Heidegger conduz a uma perda dolorosa. Exatamente a perda da oportunidade de se colocar de outro modo a questão do ser. Não nos resignamos ao vazio, ao mito ou à poética que condenaria o pensamento sobre o ser. Ao contrário, o fato de sermos impõe como tarefa o retorno à questão do ser, pois o prazer de ser é o “único prazer verdadeiro”. A dissolução do ser numa linguagem puramente poética, mítica ou mística significaria uma dissolução da condição fundamental do próprio pensamento e, consequentemente, um retorno a um ponto aquém da própria filosofia. À essa condição do ser, Lévinas nomeia a neutralidade e o horror ao ser. Um ser impessoal que se diz na terceira pessoa e que assombra como o horror da insônia. Cumpre- nos, então, percorrer o caminho levinasiano da crítica ao ser. Pois se o ser é neutro e vazio, a tarefa do filósofo permanece completamente à deriva do pensamento filosófico. “Sua vida se consome assim no transtorno de receios injustificados e de desejos insatisfeitos. Eles são, pois privados do único prazer verdadeiro, o prazer de ser” (HADOT, 2002, p. 34).

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