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De cada vez que o observador tocar nestas paragens encontrará o Gigante como tendo mudado de posição, porque as quedas lhe parecerão muito modificadas para mais ou para menos, algumas torrentes novas, e algumas suprimidas!! Igualmente como a Cachoeira se despenha por entre rochedos, qualquer mudança de posição para a observar, muda inteiramente a vista, ora encobrindo, ora descobrindo a queda das águas.

Para vos descrever bem o modo porque se observa a Cachoeira, imaginai uma colossal figura de homem, sentado com os joelhos e braços levantados, e o Rio de S. Francisco caindo- lhe com toda sua força sobre as costas, porém ao qual não podeis ver sem estar trepado em um dos braços ou em outra qualquer parte que lhe fique ao nível, ou a cavalheiro sobre a cabeça. Parece arrebentar de debaixo dos pés, como a formosa cascata de Tívoli junto a Roma.

É um espetáculo assombroso!! Os penhascos sobre que nos firmamos – eu e minha senhora – pareciam fugir-nos de sob os pés, e quererem seguir a velocidade das correntezas!

Um mugir surdo e continuado, como os preparos para um terremoto, serve de acompanhamento à música estrondosa dos variados e diversos sons produzidos pelos choques das águas!! Quer elas venham correndo velocíssimas, ou saltando por cima das cristas das montanhas; quer indo em grandes massas de encontro a elas, e delas retrocedendo; caindo de borbotão nos abismos, e deles se erguendo em úmida poeira, quer torcendo-se nas vascas do desespero, ou levantando-se em espumantes escarcéus; quer estourando como uma bomba; quer chegando-se aos vaivéns, (1) e brandamente crescendo, ou recuando rapidamente, e com irresistível força; quer caindo em espadanas, ou em flocos de espuma alvíssima, como arminhos, é um espetáculo assombroso e admirável. Observamo-la ao raiar do dia, e ao clarão da Lua: quando observamo-la aos primeiros raios matutinos; as águas por eles abrilhantadas; as nuvens de úmido pó, sobre que se estampavam muitas íris; os dourados vapores da aurora; o brando vento da manhã; as alvas névoas que se iam desfazendo ao erguer do Sol, e representando no Céu, antes de se esvaecerem, diferentes fantasmagorias; o quieto balançar dos ramos; os cantos matinais das aves; o esvoaçar dos papagaios, ararúnas e grandes aves brancas, como um cisne de encontros pretos, que buscavam beber as águas; as calvas cabeças dos Montes pardos, ou esverdinhadas pelo limo, mas agora dourados pelo alvorecer; as árvores e arbustos enfezados por um perpétuo inverno, mas agora praticadas como revérberos de luz: tudo faz o complexo do belo e maravilhoso!!

O lutar das águas feridas pelo sol é semelhante a esses jogos hidráulicos coloridos que observamos nessa Corte, executados em 1839 por Mr. Leroux.

193 Se deixamos de contemplar este quadro e volvermos as vistas para os abismos fumegantes, a alma estremece, como à borda d’uma cratera. Não se elevam aos céus as provas ardentes, nem se derramam torrentes de incendida lava, como do Vesúvio ou do Orizaba; é porém um arremedo dos rufos anunciadores da próxima explosão, e os turbilhões da úmida fumaça sobem além de sua altura. Não há vivente que n’eles precipitado não sucumba!! Consta que o peixe que chega a endireitar carreira pela impetuosidade, aparece morto no rio debaixo, e muitos casos se tem dado semelhantes! Vista com clarão da Lua é um quadro lúgubre e medonho, que aperta o coração! A Lua fere de leve um ou outro cimo dos pedregosos montes; não reflete nos bosques nem nas águas que ficam assombreadas nas cavidades dos rochedos; e o ronco continuado e gemente; o fracasso das águas, seus estouros pela sua impulsão; e seus recuos, como ondas em pianos inclinados, e escarpados pedregulhos, fazem-na semelhante a uma grande e populosa Cidade assaltada nas trevas, da qual arruínam, e derrocam os edifícios e os templos, e seus habitantes surpreendidos levantam em confusão aos céus os lamentos de sua inesperada desgraça.

Três sentimentos tomam o observador ao chegar-se para a Cachoeira, o de medo – o de respeito – e o de prazer, em quanto se trepam estes rochedos desconversáveis, só o medo d’um desastre irreparável nos encoraja, e nos faz superá-los; depois de firmados os pés – o respeito – a vista dessas maravilhas nos força a exclamar com B. Rousseau – Grand Dieu!

Oh! que tes oeuvres sont belles! E é só depois de entrar o sangue em sua circulação normal

que aparece um prazer insaciável! A altura da grande queda foi calculada cm 362 palmos – pelo meu amigo e muito hábil Engenheiro o Sr. Fernando Halfeld. É um erro pensar-se que as águas da Cachoeira caem sobre o álveo do Rio de baixo: elas vão de cachoeira em cachoeira até o lugar – Piranhas – onde principia a ser navegável com mais franqueza para as canoas abertas.

São as Cachoeiras as seguintes, designando-vos as mais notáveis – Forquilha –Veados – Ventura – Vaivém – Três Irmãos de cima – Três Irmãos de baixo – Boa Vista – Garganta. Na garganta corre todo o Rio em largura de 85 palmos!! e os rochedos marginais dão talhados de 700 a 800 pés de altura!! São as belezas horríveis que só expressam bem o – terriblement

pretty – dos Ingleses!

Encantado – Salgado – Riacho fundo – Lamarão – Topo – Ouro fino – Veado – Canindé Velho – e Canindé. São estas – 17 – Cachoeiras verdadeiros degraus do alto trono onde se assentou o Gigante, de quem vos tenho por tantas vezes falado com o nome – Paulo Afonso!!

194 Uma das melhores vistas é a que observam as pessoas que sobem a chamada furna – e a vista N. 24 – é dali tomada. Muitas grutas apresentam rochedos deste lugar – Sombrias, arejadas, arruadas de cristalinas areias e banhadas das frígidas Linfas; são perfeitas habitações de Fabulosas Náiades. Muito foi para notar-se que no mês de Novembro, apogeu do calor destes Sertões, de maneira tal que das 9 horas do dia por diante os rochedos da cachoeira se tornam como o ferro em brasa, pensando encontrar em cada poço uma termal, as águas estivessem frias como um sorvete, e tão saborosas que as bebíamos por prazer!!

(1) As águas que nas beiradas se avançam impelidas, porém que para seguirem à força da corrente recuam apressadamente e com violência.

Excerto da carta do Dr. José Vieira Carvalho e Silva ao Barão de Capanema em 1854. Texto publicado por Araújo Porto-Alegre na Revista do IHGB em 1859. In SILVA, José Vieira de Carvalho. “Viagem às cachoeiras de Paulo Afonso”. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, t. 22, 1.-4. trim. 1859.

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