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CHAPTER 5: DATA PRESENTATION AND ANALYSIS

5.2 Background of Informants

5.2.4 Music Preferences

Apesar das diferenças entre Libras e LP, ocorre também, entre essas duas línguas, a mescla linguística. Costa (2001) define “mescla lingüística” como uma situação em que há interferência mútua entre ambas as línguas. A situação de diglossia36 na qual se encontra o surdo é bastante complexa: a LS, pelas determinações legais, deveria ser utilizada em vários espaços públicos; os professores deveriam ser fluentes em LS; as famílias deveriam receber apoio inicial para o oferecimento de um ambiente linguístico adequado a seus filhos. Enfim, existem vários direitos, linguísticos ou não, que ainda não são efetivamente garantidos.

Sendo assim, os surdos se veem em situações nas quais necessitam usar a LP, mas não a dominam o suficiente ou usam a LS com ouvintes que também não são fluentes. Essas situações, relacionadas a outros aspectos, acabam dando margem à ocorrência de situações de mescla, tal como ocorre com o uso de pidgins. Segundo Costa (2001), um pidgin “nasce” numa situação de contato entre grupos étnicos e linguísticos radicalmente opostos, na urgência de comunicação (p. 73). Tal situação é vivenciada em sala de aula, como nos relata Bernardino (1999) em relação ao uso de pidgin por professores ouvintes com alunos surdos.

[...] tem-se um pidgin onde os itens lexicais são provenientes da língua dos surdos adultos, a LIBRAS, e de gestos naturais, muitas vezes inventados pelo próprio ouvinte. A sintaxe, muitas vezes, é emprestada da língua oral, o Português; outras vezes, não há uma estrutura gramatical adequada e, como no jargão, são utilizadas estratégias individuais de comunicação, sendo essa comunicação viabilizada pelo contexto pragmático da situação (BERNARDINO, 1999, p. 116).

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Garmadi (1983) discute a definição desse termo e o relaciona a questões sociais e políticas, existentes, por exemplo, entre grupos dominantes e dominados, que implicam, muitas vezes, na tensão presente na (co) existência dessas línguas e na definição de suas funções.

Já Goldfeld (2002) faz a seguinte diferenciação:

português sinalizado (língua artificial que utiliza o léxico da língua de sinais com a estrutura sintática do português e alguns sinais inventados, para representar estruturas gramaticais do português que não existem na língua de sinais) e o pidgin (simplificação da gramática de duas línguas em contato, no caso, o português e a língua de sinais) (GOLDFELD, 2002 p. 40).

Como se pode perceber, independentemente de a pessoa oralizar ou não, ela pode operar com a estrutura da LP e realizar um pidgin ou o português sinalizado. Em algumas situações, as pessoas acabam utilizando a mescla entre línguas por ignorarem que não há correspondência exata entre o sinal da LS e a palavra da LP, já que são línguas diferentes.

Enfim, podemos pensar nessa situação de mescla como algo inevitável que ocorreria já que as línguas estão em contato e se influenciam. Segundo Silva (2005, p.53) o uso de mesclas em contextos de educação bilíngue tem sido uma grande polêmica. De acordo com essa autora, há que se considerar que as mesclas são processos comuns em contextos bilíngues e obedecem a certos padrões sociais que, no caso dos surdos, precisam ser mais bem compreendidos. No entanto, relativamente a questões pedagógicas, Silva remete a Hamel (1989 apud SILVA, 2005) que afirma que a alternância de códigos no caso da educação bilíngue precisa obedecer a estratégias pedagógicas sistemáticas para viabilizar o processo de ensino-aprendizagem.

A mescla traz consequências bem sérias para os surdos em seu processo de escolarização, já que geralmente, por ser a Libras a língua menos valorizada (BOTELHO, 2002), são os surdos que se veem, muitas vezes, diante de situações em que não há compreensão nem aprendizagem. No processo de aprendizagem da leitura e da escrita, essa mescla também se torna um complicador. Góes (1996, p. 16) observa as relações que o surdo estabelece com as línguas e afirma que:

[…] a maioria do grupo concebia fala, escrita e sinais enquanto modalidades (oral, gráfica, gestual) de uma mesma categoria. Ou seja, os entrevistados indicavam que as possibilidades lingüísticas formam, por assim dizer, um conjunto, cujos itens lexicais são realizados pela utilização da gestualidade, da voz e do registro gráfico, além das composições combinadas.

Logo, a reflexão sobre o uso da mescla linguística pelos surdos nos possibilita compreender como esses indivíduos se relacionam com a leitura de um texto em LP sinalizando esse texto. Em determinados momentos do processo de ensino-aprendizagem da leitura e da escrita, mesmo em condições ideais – com um professor fluente em Libras, com estratégias didáticas adequadas e com o apoio de materiais visuais, é inevitável o estabelecimento da relação entre

palavras da LP e sinais da Libras. No entanto, justamente pelo fato de a Libras mediar o processo de aprendizagem da LP, o professor precisa continuamente refletir sobre os aspectos sócio-discursivos de ambas as línguas, para que se conscientize de como estabelecer essa relação entre as duas línguas de forma a não realizar no ensino da leitura uma relação sinal– palavra que impeça seus alunos de construírem novos significados para os textos lidos.

Esse é um processo bastante complexo, e alguns pesquisadores (BERNARDINO, 1999; COSTA, 2001; CHAVES, 2002) já apontaram a mescla linguística como um processo presente na aprendizagem da leitura e da escrita por pessoas surdas: pelo fato de se estar aprendendo uma L2, e a L1 influenciar nesse processo; pelo fato de a oralidade – no caso do surdo, a LS – estar presente no processo de apropriação da escrita.

Com relação à leitura, especificamente, Chaves (2002), reportando-se ao trabalho de Costa (2001), conclui, depois da análise da leitura de um surdo que ora sinalizava ora falava:

durante a leitura se verifica a ocorrência de diversos processos, como: interferência da primeira língua; mudança; reestruturação; ou empréstimo de língua, pois verificamos que existe a possibilidade de superposição de duas línguas no momento da leitura (CHAVES, 2002, p.97).

Esse processo de mescla pode ocorrer de variadas formas no processo de leitura, desafiando- os na compreensão da construção das significações pelo surdo no trânsito entre essas duas línguas. Botelho (2002) e Lodi, Harrison e Campos (2002) também discutem as estratégias utilizadas pelos surdos na leitura, os quais, além de realizarem um sinal para cada palavra, recorriam à datilologia37 quando não conheciam um vocábulo. Outro aspecto observado nos dois trabalhos citados acima é a inserção, durante a leitura, de “sinais” para elementos que não existem em LS. Subjaz à prática do bimodalismo, a idéia de que a LS é uma língua incompleta, na qual faltam preposições, conjunções, flexões verbais, etc.38. Desconsidera-se que as relações entre os sinais são estabelecidas na língua espaço-visual através de outros elementos linguísticos como as expressões faciais, as relações no espaço39, etc.

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Datilologia refere-se à soletração manual das letras do alfabeto através de certos formatos de mão e movimentos. O alfabeto manual não é propriamente constitutivo da LS, já que serve prioritariamente aos empréstimos linguísticos entre LO e LS.

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Um dos elementos que comprovam essa questão é a invenção de sinais para as preposições como, por exemplo, o sinal da preposição “para”, o qual é bastante utilizado pelos surdos nas práticas de leitura.

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“Todavia as línguas de sinais são línguas de modalidade visuoespacial que apresentam uma riqueza de expressividade diferente das línguas orais, incorporando tais elementos [preposições e conjunções] na estrutura dos sinais através de relações espaciais, estabelecidas pelo movimento ou outros recursos lingüísticos” (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 35).

Outra questão levantada é o fato de que mesmo quando a sinalização produzida durante a leitura constrói significados absurdos, os alunos não se dão conta do que estão dizendo em sinais (BOTELHO, 2002, p.144).

Esses fatos ilustram bem a maneira pela qual os surdos (em sua maioria) têm lidado com o português escrito, refletindo as práticas educacionais a que foram submetidos e que desconsideram qualquer aproximação dialógica dos sujeitos com o texto a partir dos conhecimentos construídos na e pela língua de sinais. Dessa maneira, a relação que o surdo pode estabelecer com a língua escrita não é a da interação, a da construção de sentidos, mas sim a corretiva e representativa de uma língua que é superior à sua (LODI; HARRISON; CAMPOS, 2002, p. 43-44).

Uma das questões aventadas por Botelho para que se mantenha a prática do bimodalismo é o investimento exigido para se aprender uma língua espaço-visual, já que os ouvintes estão habituados à oralidade. No entanto, como se vê, na citação acima, estão envolvidas outras questões sociais relativas ao aprendizado de uma língua minoritária, com status diferenciado da língua oral-auditiva (LO). Nesse sentido, faz-se necessário conscientizar-se desse processo de mescla linguística no contato entre línguas, mas também refletir sobre essa mescla e as estratégias pedagógicas que possam oferecer aos surdos melhores possibilidades de aprendizagem da LP.

No caso dos participantes desta pesquisa, o que ficou evidente na análise dos eventos, é que o processo de mescla é algo inevitável, mas que precisa ser discutido em termos pedagógicos, como constatou Silva (2005). É um processo comum no contato entre falantes de diferentes línguas, no caso, a professora ouvinte, que tem como L1 a LP, e os alunos surdos, que usam a Libras como L1. No entanto, em algumas situações, observa-se que os alunos não compreendem os sentidos dos textos justamente por utilizarem essa mescla; ou, em outras situações, não compreendem a explicação da professora pelo fato de esta estar sinalizando na estrutura da LP. Outro ponto a se destacar é o uso da mescla e de formas comumente usadas pelos surdos em momentos em que os alunos não compreenderam o porquê das diferenças entre as duas línguas como ocorreu no caso da sinalização da expressão “Tudo bem com você?”, em que um aluno, mesmo depois da sinalização pelo texto pela professora, mantém o uso das duas formas: “TUDO B-E-M” (português sinalizado) e “JÓIA” (cumprimento comum em Libras). A professora havia sinalizado da forma como geralmente fazem os surdos, mas não relacionou a forma em LP e a forma em Libras. O aluno então mantém a sinalização das duas formas. Esse evento particularmente aponta a necessidade de que se relacionem claramente as duas línguas na sala de aula, associando o que está escrito ao que foi ou será sinalizado,

evidenciando também a necessidade da análise comparativa entre as línguas, o que discuto no próximo tópico.