Matrix (2006). O termo é muito utlizado na ficção científica e na chamada subcultura das ciências da informação para referenciar qualquer ação que seja caracterizada pela invasão de um determinado sistema informático ou pela quebra de algum código ou senha protetora.
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Certamente isso reverbera o fundamento no qual se percebe que a Máquina – ou, mais precisamente, a própria tecnologia informática ou a técnica maquinística – se pretende uma sublimação, como dito, do tempo e do espaço com a finalidade de, ontologicamente, tomar o lugar de Deus. A entidade cósmica e divina não mais é necessária, pois, logo, será a Máquina a entidade onipresente – através dos cabos de fibra- ótica, linhas telefônicas, microondas e tantas outras formas de comunicação eletrônica que incitam a ubiqüidade – e, quando de seu controle sobre as estruturas físicas – como o próprio assassinato de Drake ou o acesso remoto as informações contidas no computador pessoal de Scully – terá então plena onipotência. E, como posto anteriormente em outro momento analítico, a noção de regras higienistas de vida, contemplada na própria lógica do sistema COS, permite ao maquinário reverter a realidade em conhecimento estático e eletrônico: monitoração contínua de todos os eventos. Ou seja, não só ela traça um caminho de ubiqüidade e poderio ilimitado, o sistema também busca a onisciência através do que Sfez (1996) chama de consolidação material do passado.
E esse aspecto talvez seja o mais fortemente realçado no decorrer, até então, desse episódio de Arquivo X. Não só a Máquina invade o computador de Scully atrás de informações preciosas sobre Wilczek, sobre o assassinato de Drake, mas também sobre a própria Scully e suas visões acerca dos acontecimentos que irão tomando forma. Posteriormente, quando Scully estuda as fitas das palestras do fundador da Eurisko e, através delas, chega a uma prova física que concluiria a culpa deste, vê-se também esse aspecto. As fitas guardam a voz de Wilczek e então “qualquer um pode ouvir qualquer coisa” (SFEZ, 1996, p.12). O imaginário tecnológico invade plenamente os acontecimentos que se seguem, e a cena vai para a casa do programador onde este tenta invadir o próprio COS. Tendo o acesso negado, Wilczek parte para o prédio da Eurisko seguido por Jerry Lamana que pretende prendê-lo. A Máquina, agora, aparece em pleno controle da situação. Não há – como é coerente com a proposição da noção de imaginário tecnológico – porém explicação para isso. Ora a Máquina seria, poderíamos dizer, dócil e subserviente, ora ela é que está no controle da situação. Ela serve as proposições mais “fáusticas” (RÜDIGER, 2007): não pretende de forma alguma ser, dentro do escopo do
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episódio, uma personagem messiânica ou mesmo ferramenta para a derradeira salvação ou melhoramento da humanidade. Quando Wilczek chega à sala de controle do COS, percebe-se incapaz de acessar o sistema. A Máquina, para o espanto do programador, responde-lhe em um tom sutil e até gracioso, apesar de eletrônico e frio, que o acesso e os níveis de acesso estão agora ao critério do sistema. O programa agora tem o controle não só sobre as coisas para as quais fora designado para controlar, mas até mesmo sobre sua própria programação e reprogramação. É confirmado o que poderíamos chamar de pensamento tecnológico fáustico ou simplesmente distópico. Através da idéia premente de que o mundo possa ser totalmente planificado e calculável, a Máquina emerge como paraíso perdido eletrônica e digitalmente traçado. A busca aqui parece ser a do retorno ao Éden perdido, trazido de volta à vida pelo COS. Fundam-se novas origens, recria-se, nas imagens que aparecem para Wilczek, quando ele percebe que não tem controle sobre sua criação e esta decide assassinar Lamana ao derrubar o elevador, o olho de Deus julgando os descrentes e infiéis que agora podem morrer para preservar seu novo deus – a Máquina – e o novo paraíso – o prédio da Eurisko, e, parece, logo o mundo inteiro. Referencial de produtividade, qualidade, economia de recursos e perfeição, a Máquina aparece mais mcluhaniamente do que se poderia esperar: esse novo deus eletrônico, na verdade, ainda parece carregar consigo as iniqüidades de seus criadores humanos. Demonstra medo, predação do futuro, insegurança e uma qualidade de segredo, mentira e deturpação da verdade. Não liga se Wilczek será preso pelos seus crimes. Não liga nem mesmo para os próprios crimes. Lógica do mundo calculável; investe na eliminação despretensiosa de tudo e todos que possam vir a prejudicá-la. Lamana, por exemplo, morre e tudo que a Máquina tem a dizer é “Programa Executado”. Sublima, de certo, a própria lógica do que é o pensamento tecnológico e suas repercussões mais claras, como a transformação – gradual ou repentina – de todo o corpo da sociedade humana em mero acúmulo de recursos e, quando esses recursos se exaurem, como é o caso de Drake, já não há mais utilidade para eles e são expurgados do esquema total de uso e captação de recursos. Como apontado em outro momento, “segundo [Simmel], o predomínio dos meios sobre os fins na esfera da consciência é a nota dominante da cultura tecnológica que estava vendo nascer” (RÜDIGER, 1999). A Máquina COS parece favorecer certamente esse tipo
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de consciência e ser, em sua representação na narrativa, a sublimação concreta desse aspecto do pensamento tecnológico.
Após a morte de Lamana somos confrontados com um ponto chave na história desse episódio. Mulder, convencido de que Wilczek não é o culpado, busca seu informante, Garganta Profunda. Ao se encontrarem, este revela ao agente que, de fato, o que está em jogo é muito mais do que o assassinato de um empresário importante, do que
um agente do FBI morto num acidente estranho ou do que um gênio da informática estar preso por um crime que não cometeu; já existe a perspectiva de ser oferecido à Máquina ainda mais controle sobre um poder ainda maior: espera-se que o COS possa ser transformado numa máquina militar, tanto para defesa quanto para o ataque. Aos moldes
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do computador chamado Colossus, em Colossus 198073, pretende-se exatamente a aplicação dessa dita “rede adaptativa” para fins militares, ou seja, armamento dotado de inteligência artificial.
Durante este diálogo, o personagem Garganta Profunda demonstra um conhecimento profundo sobre a pessoa de Brad Wilczek, denotando claramente que ele seria o melhor programador ocidental e que teria negado seguidas investidas dessas mesmas agências governamentais com a finalidade de utilizar seus conhecimentos (softwares) para fins militares. Levanta-se aqui uma importante questão no tocante ao pensamento tecnológico. Não há o interesse na guerra por parte do geek; seu interesse é a expansão do conhecimento, a derrubada de barreiras científicas, em suma, o desenvolvimento – e eventual salvação – da humanidade através do desenvolvimento técnico-científico. De outro lado temos Benjamin Drake, que possui interesse no pleno desenvolvimento da tecnologia para fins de enriquecimento, ou seja, em sintonia plena com a percepção de que o capitalismo alçou o desenvolvimento tecnológico em todos as áreas da vida humana e, conseqüentemente, a própria técnica deve também alçar o desenvolvimento econômico. A figura da agência governamental, mostrada através do Departamento de Defesa, se torna chave no episódio (e, conseqüentemente, também na análise), pois denota um aspecto não abordado até então de um terceiro lado desse modo de pensar envolto em tecnicismo, calculismo e automação, que seria o da militarização.