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Det var ikke mulig å sammenstille resultatene fra enkeltstudiene i meta-analyser, på grunn av at data var oppgitt på en måte som ikke tillot meta-analyser, det var ulik

A hipótese deste estudo sugere o cruzamento entre história, comunicação e dança, a partir da ideia de cartografia de corpomídias da cultura. Mas, para que se construa esta concepção de cartografia, não basta adentrarmos o campo da história e suas transformações epistemológicas capazes de abrigar novas formulações historiográficas. É preciso compreender quais tipos de narrativa histórica uma cartografia pode traçar.

Conhecida como o estudo e a prática de fazer mapas, a cartografia nos remete à possibilidade de representação de espaços em mídia plana. No entanto, este seria um aporte simplista do que pode um mapa. Para o antropólogo cognitivista Edwin Hutchins (1996), os mapas seriam a conciliação entre o que se vê no mundo e a representação desse mundo. Com função de responder à pergunta “onde estou?”, o mapa possibilitaria a representação de posições no espaço, através de correspondências entre fatores do ambiente e fatores de representação desse ambiente (HUTCHINS, 1996, 12-13).

Em sua publicação Cognition in the wild (Cognição Natural), Hutchins (1996)166 desenvolveu a hipótese de que cultura e cognição são indissociáveis e interdependentes. Ao

166 Apesar da tradução literal ser “Cognição em estado selvagem”, preferimos adotar “cognição natural”, para

que não se entenda a condição de selvagem como estado anterior à cultura. Na introdução de seu livro, Hutchins explica que a “cognição natural” não é uma referência a Lévi-Strauss com seu “pensamento selvagem” (“penseé sauvage”), tampouco a Jack Goody (1997), com sua noção de mente domesticada. Ao contrário disso, sua

comparar a cognição a uma navegação em alto mar, percebeu que se trata de um processo socialmente distribuído e não individual. “A frase ‘cognição natural’ se refere à cognição humana em seu habitat natural – isto é, à atividade humana cultural constituída naturalmente” (HUTCHINS,1996, XIII)167.

Ao observar os sistemas de navegação, Hutchins constatou que interações complexas entre humanos e não-humanos assemelham-se à produção e difusão de conhecimentos:

Os mesmos processos que constituem a conduta da atividade e produzem mudanças nos praticantes individuais da navegação também produzem mudanças nos aspectos conceituais, materiais e sociais do sistema [...] A microgênese dos elementos culturais que criam o sistema de navegação é visível nos detalhes da prática corrente (HUTCHINS, 1996, p.374).168

Assim, à luz da metáfora da navegação, Hutchins descreve a ancoragem material da cognição através da relação de mão dupla entre corpo e outras mídias: “A condução da atividade procede pela operação de sistemas funcionais que trazem os meios representacionais em coordenação uns com os outros” (ibidem, p. 372)169. Como num sistema de navegação, a atividade individual gera meios representacionais dentro e fora do corpo, de modo que “cada meio interage com um ambiente operacional constituído por outro meio” (ibidem, p.373)170. Logo, essa perspectiva entende que a cultura é um processo cognitivo e a cognição, um processo cultural. Nesse sentido, cria pontes com a Teoria Corpomídia:

Cultura não é nenhuma coleção de coisas, mesmo que concreta ou abstrata. Em vez disso, é um processo. É um processo humano cognitivo que emerge tanto dentro, quanto fora da mente da pessoa” (HUTCHINS, 1996, p. 354).171

A idéia de cultura aqui adotada é a de um sistema aberto, apto a contaminar o corpo e a ser por ele contaminado e não a influenciá-lo ou ser a causa de mudanças visualmente perceptíveis nele (KATZ & GREINER, 2001, p. 73).

intenção é propor uma ecologia do pensamento, na qual a cognição humana interage com o ambiente (HUTCHINS, 1996, p. XIII).

167 “The phrase cognition in the wild refers to human cognition in its natural habitat - that is, to naturally

occurring culturally constituted human activity” (HUTCHINS, 1996, p. XIII).

168 “The very same processes that constitute the conduct of the activity and that produce changes in the social,

material, and conceptual aspects of the setting [...]The microgenesis of the cultural elements that make up the navigation setting is visible in the details of the ongoing practice”. (HUTCHINS, 1996, p. 374).

169 “The conduct of the activity proceeds by the operation of functional systems that bring representational media

into coordination with one another” (HUTCHINS, 1996, p.372).

170“Each medium is put to use in an operational environment constitued by other media” (HUTCHINS, 1996, p.

373).

171“Culture is not any collection of things, whether tangible or abstract. Rather, it is a process. It is a human

Sob esse entendimento de cultura e cognição, Hutchins investigou a organização das performances em equipe, mostrando como uma equipe de navegação forma um tecido conectivo flexível, que mantém a propagação de um estado representacional. Assim, definiu o mapa como um artefato representacional fundamental, cuja propriedade mais óbvia é a analogia espacial. De acordo com o autor, as posições num mapa ou numa carta correspondem com posições no espaço em larga escala. Porém, as cartas de navegação seriam mais complexas do que um mapa simples (HUTCHINS, 1996, 61- 65):

Uma carta contém uma enorme quantidade de informações – todas as locações com endereços específicos, e as relações entre todas as locações e todas as outras que estão implicitamente representadas (HUTCHINS, 1996, p.62).172

Hutchins utiliza a ideia de molduras de referência (frames of reference) para explicitar a elaboração de formas de representação do espaço real. As cartas de navegação, formuladas pela tradição ocidental de navegação, teriam como primeira moldura de referência o sistema de coordenadas da terra. Nesse tipo de carta, todas as localizações podem receber um endereço absoluto em um sistema de coordenadas global, pois direção, posição e distância se definem a partir de uma estrutura única e universal (ibidem, 61- 65).

Contudo, o procedimento de fixar posições, por meio de molduras de referências, não é exclusividade da forma ocidental de navegação. A navegação não–instrumental do Pacífico, por exemplo, partia de padrões estelares para traçar relações representacionais com o espaço real. Esses padrões, também conhecidos como constelação linear (linear constellation), são um conjunto de estrelas que seguem o mesmo padrão. Quando uma estrela da constelação linear parece ir muito acima da linha do horizonte para servir de indicação de direção, outra logo pegará seu lugar, de modo que usar a constelação linear é uma forma de representar artificialmente o campo de movimento das estrelas, através de uma referência de estrutura fixa (ibidem, p. 68).

Com isso, pode-se constatar que, independentemente de seguirem um padrão ocidental de navegação ou emergirem de outras práticas, o processo representacional de mapear um espaço sempre parte de uma moldura de referência. Seja pelo mapa ocidental, organizado por coordenadas ou pelo arranjo das estrelas no céu – ou, ainda, pelo movimento das ondas no

172 “A chart contains an enormous amount of information - every location on it has a specifiable address, and the

mar, como faziam alguns navegadores do Pacífico – o mapeamento depende, inevitavelmente, da construção de uma moldura de referência.

Até aqui, poderíamos dizer que estamos no campo dos estudos de navegação marítima e que isso nada tem a ver com dança, comunicação e história. Porém, Hutchins propõe que se compreenda a dimensão do mapa de navegação como uma possiblidade de fricção entre realidade e representação que atravessa temporalidades e gera camadas.

Em suas asserções, fica claro que a relação mapa-realidade está suportada por um paradoxo: aquilo que se toma por evidência, nas posições fixadas pelos mapas ao longo do tempo, é um acordo firmado sobre imprevisibilidades e erros. Os mapas feitos, refeitos, transformados e acumulados, fixaram pontos e se impuseram sobre a realidade. No caso da navegação, instrumentos como o compasso magnético são capazes de identificar a defasagem entre o espaço real e a sua representação, embora não consigam interromper esta defasagem:

Se o cartógrafo usa um compasso magnético para fazer uma carta, e o navegador usa um compasso magnético para determinar trajetos, e se os dois compassos mostram os mesmos erros nos mesmos lugares, por que alguém se importaria e como alguém poderia perceber que as cartas puseram territórios em lugares errados? (HUTCHINS, 1996, p. 106)173

Trazendo este paradoxo para nossa empreitada historiográfica, em que propusemos tratar arquivos, testemunhos e repertórios como mapas, não teríamos de assumir que tais índices disponíveis a nós, no campo dança, são meras molduras de referência? Sua contingência jamais constituiu coordenadas a serem instituídas como oficialidades históricas, mas, devido às formas empregadas pelas historiografias da dança até aqui, acabamos por aceitar um único mapa, com hemisférios, coordenadas e posições claras: o mapa da História da Dança, escrito assim, com iniciais maiúsculas.

Para solucionar o paradoxo que choca realidade e representação, nas cartas de navegação, Hutchins propõe um raciocínio que vai além da observação fiel dos mapas: “Para reconciliar a carta ao território, deve-se imaginar como o mundo visto da localização na superfície apareceria por uma perspectiva jamais vista (ibidem, p. 62)174. Neste caso, entende- se que é preciso navegar para se relacionar com o mapa. Apenas o ato da navegação

173 “If the cartographer uses a magnetic compass to make the chart, and the navigator uses a magnetic compass

to determine courses, and if both compasses show the same errors in the same places, why anyone care and how could anyone ever notice that the charts put the land in the whrong places?” (HUTCHINS, 1996, p.106).

174“In order to reconcile the chart to the territory, one must imagine how the world that is seen from a location

empreenderia uma perspectiva ainda não vista do espaço representado; apenas a invasão do espaço real poderia negar ou afirmar, isto é, atualizar, o espaço representado.

A relação entre as cartas de navegação e o campo teórico desta pesquisa está neste ponto nodal: as cartas são molduras de referência – aqui entendidos como o que restou dos arquivos, testemunhos e repertórios da dança – que, ao longo do tempo, sobrepuseram-se, cruzaram-se, instituíram-se ou se desfizeram em novas cartas.

A proposição de uma cartografia de corpomídias – e não de mapas oficiais — vem

justamente para anunciar uma historiografia que navega sem aderir a coordenadas intocáveis. Ao emprestar a metáfora das cartas da navegação, vislumbra-se não só o concílio de mapa e território, como sugere Hutchins, mas de cognição e cultura, história e memória e corpo e ambiente.

Se o mapa de navegação é uma representação fixa de algo que está se movendo, sua constituição é similar às tentativas de registro da dança – registro videográfico, fotográfico, testemunhos, notações, manuais e historiografias. Mas, em vez de olhar as cartas da dança como observadores passivos, em terra firme, visamos chocá-las com o espaço real, como se fôssemos viajantes em percurso. Ou seja, fazer uso de tudo o que dispomos como arquivos, testemunhos e repertórios, mas não a partir de uma leitura fiel de tudo isso e sim, do choque com a memória inscrita no presente. Portanto, trata-se de uma abordagem evolutiva da carta de navegação:

A carta de navegação é um conjunto provisório de indicações consagradas pelo uso dos caminhos e espaços aos quais ela se refere. Informações estabilizadas — mas que permanecem em processos evolutivos e vão lhes transformando — das práticas nesses caminhos e espaços. Por isso, essas informações são provisórias e só existem como indicações para economizar a necessidade de constantemente descobrir caminhos. São lógicas consagradas pelo uso, permanentemente expostas à continuidade do seu uso. Estão vivas, não são mapas de descrições perfeitas, completas, que representam todos os detalhes do seu objeto e o esgotam. Estão no uso, ou seja, são, existem pelo uso - o que significa que continuam no processo evolutivo e necessitam manter uma plasticidade no seu uso e não uma obediência (KATZ, 2012)175.

Em suma, nossa hipótese se funda nessa perspectiva evolutiva de atualização de cartas de navegação – modelos fixos que se revelam em registros, testemunhos, repertórios e arquivos de memória da dança — através da relação com o ambiente. O trabalho do

175 Reflexão da profa. Helena Katz a respeito das cartas de navegação, em contexto de orientação da presente

navegador-historiógrafo da dança, nesse contexto, é desempenhar a dupla tarefa de ler as cartas de navegação da dança e jogá-las ao mar enquanto navega.

3.5. MEMÓRIA E HISTORIOGRAFIA NO OCEANO: CARTOGRAFIAS