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In document Fra skolegang til poengsamling (sider 49-56)

245 AGAMBEN, Giorgio, 2005, p. 65.

Em 1953, a revista O Cruzeiro, então o periódico de maior circulação no país, um sucesso de vendas desde a década de 1920, publica uma matéria com o ex-modernista, Plínio Salgado. Autor do manifesto modernista Pau-Brasil (1929) e ex-líder do movimento integralista, Salgado era conhecido por seu nacionalismo arrebatado.

Para compor a matéria, uma foto de Salgado com uma lupa, que devolve um olho gigante a fitar o leitor de volta. ―O olho desencarnado, suspenso no espaço, parece indicar que a visão do líder integralista continuava pairando sobre a política brasileira‖.247 Dali a apenas alguns anos, o nacionalismo assumiria uma importância estratégica nos rumos do país, assumindo praticamente ares de um projeto estatal, mesmo que, para isso, ele tivesse que ser destituído de seu potencial mais subversivo.

Nesse período, Juscelino Kubitschek assume a presidência do país (1955-1960) com a seguinte propaganda estatal: ―o país avançaria 50 anos em 5‖. Para isso, uma grande abertura de capitais internacionais foi autorizada e empresas automobilísticas, como a Volkswagen, se instalam na região da Grande São Paulo. No centro das contradições que atravessavam o País, Kubitschek, apesar da abertura de capital, mantinha em seu discurso o ímpeto nacionalista que fazia dele um legítimo herdeiro de Getúlio Vargas, encontrando, a partir de então, intenso eco em grupos de debates de intelectuais, estudantes e parlamentares, tomando de assalto também a sociedade civil.

Assim, seduzida pelo desenvolvimento célere da indústria e pelo afã nacionalista das palavras de Kubitschek e das organizações ligadas à sociedade civil, a nação, aos poucos, imergia no sonho desenvolvimentista. Esse se baseava, principalmente, na ―convicção de que, para ser cosmopolita, o Brasil precisava ser, antes de tudo, nacionalista‖.248

Diante dos olhos da população circulavam imagens da publicidade que vendiam um futuro arrojado em um Brasil de primeiro mundo. Em consonância, as palavras do presidente compõem a imagem de um país que estava pronto a se tornar desenvolvido e assumir internacionalmente um papel econômico de destaque. O progresso econômico e social se torna uma demanda incontornável e aquele seria o momento de sua implantação, com ao menos um grande diferencial em relação ao período varguista. No período em questão, o nacionalismo deixa

247COSTA, Helouise. op. cit., p. 153-173, p. 164. A imagem original de Salgado está em O Cruzeiro, 15 de ago,

1953. Aqui nos baseamos apenas na descrição presente no trabalho da pesquisadora (COSTA, Helouise, idem).

248 DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. Nacionalismo como projeto de nação: a Frente Parlamentar Nacionalista

(1956-1964). In: FERREIRA, Jorge & REIS, Daniel Aarão. Nacionalismo e reformismo radical (1945-1964). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 357-376, p. 363.

de ser uma manifestação dirigida pelo estado para se espalhar por vários setores sociais. Nesse movimento, o período desenvolvimentista deixou marcas indeléveis na imagem que as classes artísticas e intelectuais desejam compor a respeito de suas próprias instituições no Brasil.

No pensamento cinematográfico, tal demanda se converteria na crença em um progressismo econômico materializada, entre outras coisas, no ideal de que um maior número de filmes, fatalmente resultaria também em um número maior de filmes de qualidade, resolvendo o problema qualitativo do cinema no Brasil. ―A qualidade virá através da quantidade, como veio em outros países‖249. Sintomático desse estado de ânimo, talvez, seja a constatação de que nas críticas de cinema articulava-se um pensamento voltado para o desejo e ansiedade concentrado no sonho de dar o salto qualitativo, que finalmente garantiria a maioridade de nossa produção cinematográfica.

Na construção de uma história do cinema brasileiro causal, progressista e linear, em que, apesar das diferentes acepções, se narrava a lenta, mas definitiva, libertação de um cinema precário para um cinema solidamente constituído, ―a avaliação de cada filme nacional tornava-se uma avaliação do cinema nacional. Estava-se sempre à espera de um filme redentor, que apontasse para um vetor de progresso da cinematografia local‖.250

O novo filme bem-sucedido, de acordo com as expectativas, poderia ser a porta para a renovação de uma era, tamanha era a ansiedade por um progresso rápido e por todas as suas benesses. Os textos se apressavam em observar tendências e esboçar linhas gerais de progresso e desenvolvimento, adivinhando trajetórias evolutivas a partir de pistas esparsas. Os resultados em tarefa tão arriscada nem sempre eram bem-sucedidos.

De volta ao Brasil em 1956, após um período de mais oito anos em Paris, Paulo Emílio Salles Gomes clamaria pela lucidez, nesse quadro de diagnósticos realizados na explosão do momento e reivindicava que a nova situação pós-crise dos estúdios de cinema exigia procedimentos diferentes: ―Ficou provado que um único estudo econômico objetivo é mais útil e eficaz do que cem denúncias vagas ao imperialismo‖.251

249 VIANY, Alex (apud AUTRAN, Arthur). O pensamento industrial cinematográfico brasileiro. São Paulo:

Hucitec, 2013, p. 40.

250 LUCAS, Meize Regina. Por amor ao cinema: história, crônica e memória na invenção de um certo olhar. Revista

Projeto História, São Paulo, n. 43, p. 227-248, dez. 2011, p. 233.

251 GOMES, Paulo Emílio Salles. Novos Horizontes. Suplemento literário do Estado de São Paulo, São Paulo, p. 05,

Com esse intuito de tornar prática e funcional uma discussão firmemente ancorada no sonho e na esperança, nos primeiros anos do governo Kubitschek são criadas as comissões para o estudo da prática cinematográfica. O prefeito de São Paulo, Juvenal Lino de Mattos, é responsável pela primeira dessas iniciativas, a Comissão Municipal de Cinema (CMC). Depois, elas se tornariam estaduais, ainda em 1955, até a criação de uma Comissão Federal de Cinema em 1956.

Dois membros oriundos da Vera Cruz, lideram as atividades das comissões, o ex- iluminador Jacques Deheinzelin e o ex-publicitário da empresa Augusto Cavalheiro Lima. Logo no início do relatório, os autores constatam o momento ímpar que a comunidade cinematográfica vivenciava ―apesar de todas as dificuldades financeiras. […]. Podemos afirmar que jamais, como hoje, existiu entre nós tanta consciência de todos aqueles aspectos que informam o planejamento, a realização e a exploração de um filme‖.252

Lima e Deheinzelin diagnosticam que a crise dos estúdios vinha de três principais fatores: 1) O baixo preço do ingresso (tabelado pelo governo federal desde 1948253); 2) Deficiência na distribuição e consequente deficiência na fiscalização; 3) A concorrência estrangeira, com alarde para a presença desleal do cinema americano e comparações com medidas de proteção realizadas em outros países, como México e Itália. O relatório entregue à municipalidade estava em sintonia com aquele que dali a alguns meses seria enviado ao presidente da república.

Em ambos, enfatizava-se o papel da indústria cinematográfica como de ―relevante interesse nacional‖.254 Dentre as conclusões, tomadas por otimismo no progresso, em sintonia com a atmosfera do período, estavam: ―Cinema é problema de governo‖, mas o impacto disso sobre a prática cinematográfica só viria a demonstrar seus efeitos ―depois de tomarem corpo na consciência do país: o cinema brasileiro só existirá se o povo e os seus representantes sentirem a sua necessidade‖.255

Com conclusões que remetem a um binômio corpo-mente, a comissão sutentava que, no momento em que a necessidade visceral de um cinema brasileiro, advinda de uma etapa lógica e imprescindível da indústria nacional viesse, finalmente, à tona, o cinema de verdade encontraria,

252 DEHEINZELIN, Jacques e LIMA, Cavalheiro. Relatório da Comissão Municipal de Cinema (apresentado ao

prefeito Jânio Quadros). In: TAMBELLINI, Flávio. Coluna de cinema. Diário da Noite, São Paulo, p. 15, 4 fev. 1956.

253 Cf. SIMIS, Anita. Estado e cinema no Brasil. 2. ed. São Paulo: Annablume/FAPESP/Itaú Cultural, 2008. 254 DEHEINZELIN, Jacques e LIMA, Cavalheiro. Relatório da Comissão Municipal de Cinema. op. cit.

255 DEHEINZELIN, Jacques e LIMA, Cavalheiro. Relatório da comissão federal (apud RAMOS, José Mario Ortiz).

no Brasil, sua manifestação. Quando a necessidade interna se impusesse à consciência materializada na necessidade inevitável de investimentos em cinema, por parte do estado brasileiro, de modo automático, os sintomas – provavelmente, filmes de qualidade – teriam suas manifestações somáticas.

A Comissão Municipal de Cinema apresenta uma importância vital, a fim de compor o quadro de diagnóstico dos problemas do cinema naquele período. Entretanto, podemos supor que o aspecto técnico e a análise das estatísticas em relação à Vera Cruz e aos outros estúdios tiveram um alcance limitado, tanto em relação a tramitação do projeto do INC, proposto por Cavalcanti, emperrado pela burocracia e que só seria implantado mais de dez anos depois, quanto no terreno das paixões ideológicas dos homens de cinema.

Essa expressão ―homens de cinema‖ já começara a ser usada no contexto dos Congressos de Cinema. Ela agregava, técnicos, cineastas e críticos de cinema, assim como interessados na arte cinematográfica em geral, desde que trabalhassem no projeto de transformação em um bloco coeso e homogêneo daqueles preocupados com o desenvolvimento do cinema brasileiro. Ao invés de uma atuação ―isolada e desordenada‖ desses membros, em uma perspectiva em que sempre as atitudes mais individualistas eram inócuas e até mesmo negativas, todos deveriam agir em ―benefício do ideal comum‖ que lutaria contra as forças estrangeiras e contra ―os inimigos do cinema nacional‖. 256

No entanto, José Mário Ortiz Ramos chama a atenção de que, no momento político do país a partir de Kubitscheck, o desenvolvimentismo, inaugura um novo momento do nacionalismo, em que o teor mais propriamente político e agressivo esmaece, adquirindo um tom mais conciliador.257 Para José Ortiz, isso se dá, principalmente, para evitar quaisquer choques diretos em relação aos investidores estrangeiros, que poderiam interpretar os ataques ao imperialismo como sinais de um Brasil como um lugar perigoso para investimentos.

Essa perspectiva faz-se útil para nós uma vez que possibilita nuances políticas e culturais que irão além das dicotomias mais óbvias. Observar o modo como as idéias sobre a nação passaram a circular em esferas mais amplas pode ser um terreno prolífico para estudar os conflitos do período em sua necessária diversidade e descontinuidade. Nesse ínterim, observaremos como as consequências desse ideário político atuaram diante da prática

256 VIANY, Alex. O cinema nacional. Fundamentos, São Paulo, n. 05 (28), p. 03-04, jun 1952. 257 RAMOS, José Mário Ortiz, 1983.

cinematográfica e das artes e cultura no período, colaborando não para um quadro estático, mas para arquitetar um painel em constante transformação.

Em paralelo aos diagnósticos técnicos das comissões de cinema, o governo federal desenvolvia um projeto de arregimentação de intelectuais, que teria grandes consequências junto à esquerda nacionalista. Trata-se do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, o ISEB, que demonstrou um elevado poder de circulação nos meios intelectuais e, simultaneamente, habilidade de articulação junto ao poder estatal, estabelecendo um vínculo poderoso entre cultura, intelectualidade e política, sendo de inegável centralidade no quadro das manifestações culturais de então.

O ISEB foi fundado durante o rápido governo Café Filho (1955), e o presidente Kubitschek, ao assumir a direção do país, intensifica o estímulo ao órgão, subordinado ao Ministério de Educação e Cultura, almejando agregar a intelectualidade brasileira em torno do projeto nacional-desenvolvimentista com ―autonomia administrativa e plena liberdade de pequisa, de opinião e cátedra‖258.

O grupo fundador do ISEB, que comportava nomes como Hélio Jaguaribe, Alberto Guerreiro Ramos e Roland Corbisier, já promovia reuniões periódicas em uma casa em Itatiaia, antes mesmo do apanágio estatal. A finalidade desses encontros, estrategicamente localizados a meio caminho entre São Paulo e do Rio de Janeiro, uma vez que havia intelectuais de ambas as capitais participando do grupo, já era o debate e a proposição de rumos que o país deveria seguir para alimentar o progresso econômico e social.

Os isebianos alimentavam e, ao mesmo tempo, constituíam o mais evidente sintoma de uma nova concepção de intelectual brasileiro, não mais apenas potencialmente atuante em seus diagnósticos sobre os rumos do país, mas que buscava um papel de centralidade junto às esferas de decisão política. Na ocasião de sua fundação, o ISEB era tributário das discussões antes realizadas no Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política (Ibesp), em São Paulo, que, em 1953, já se tornara o primeiro fruto institucional das reuniões mensais de Itatiaia. O grupo do Ibesp, organizado em torno da revista Cadernos de Nosso Tempo (1953-1956), articulou-se junto ao ministro da Educação e Cultura, Cândido Motta Filho, e viabilizaram a criação do ISEB, almejando ―a compreensão crítica da realidade brasileira e a elaboração de instrumentos teóricos

258 ABREU, Alzira Alves de. Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). In: FERREIRA, Jorge & REIS,

Daniel Aarão. Nacionalismo e reformismo radical (1945-1964). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 409- 432, p. 411.

adequados, que permitam interpretar o desenvolvimento nacional e possibilitem o seu incentivo e promoção‖.259

A iniciativa de Kubistchek em elevar a importância do Instituto, como salientou o pesquisador Daniel Pécaut, era ousada e original. Agregar capital intelectual ao governo através da arregimentação direta de intelectuais mostrava-se inovador até mesmo em relação ao primeiro governo de Vargas, que, apesar da cooptação de escritores e artistas, deixou os escritores e artistas em cargos subsidiários e sem acesso direto às discussões do poder. Pelo contrário, Kubistchek chegou a comparecer pessoalmente às reuniões de abertura dos cursos do ISEB, o que demonstra a importância do instituto para o governo federal. O Instituto ―conferia uma importante legitimação‖ ao governo Kubitschek, ―enquanto lugar de constituição de uma opinião pública‖. 260

No entanto, faz-se necessário enfatizar, desde o príncipio, isso não significava o endosso de uma política nacionalista à esquerda, por parte de Kubitschek. Os próprios isebianos possuíam uma formação demasiado heterogênea para sustentar essa conclusão. Em um sentido diferente, o governo Kubitschek e sua vertente desenvolvimentista endossavam um nacionalismo destituído de seu fator político mais contestatório. E, principalmente, os discursos nacionalistas seriam apropriados pela ala governista desde que não contrariassem os interesses dos investidores internacionais, base da política econômica do governo. Contraditoriamente, ―os avatares‖ da ideologia desenvolvimentista, os isebianos de nacionalismo mais inflamado e ardorosamente contrários à invasão do país pelos capitais externos, ―caminharam em um sentido oposto ao do Estado brasileiro‖.261

As formações dos componentes do ISEB variavam e seus históricos pessoais também. Em geral, possuíam formação jurídica e/ou bacharelesca. Alguns vinham do comunismo, como o coronel e historiador Nelson Werneck de Sodré e outros tinham feito parte da Associação Brasileira Integralista (AIB), como o pesquisador Roland Corbisier e o jurista Miguel Reale, lembrando que, nesse período, a herança do integralismo ainda se ligava ferrenhamente à rejeição ao comunismo262. Portanto, mostra-se impossível devido a suas trajetórias pessoais, situadas em

259 MOTTA FILHO, Candido. Exposição de motivos n. 627 (apud ABREU, Alzira Alves de). op. cit., p. 416

(Originalmente de 13 de Julho de 1955).

260 PÉCAUT, Daniel. Os intelectuais e a política no Brasil: Entre o povo e a nação. Trad. Maria Júlia Goldwasser.

São Paulo: Ática, 1990, p. 138.

261 ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e Identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 46-47. 262 ABREU, Alzira Alves de. op. cit., p. 412.

referenciais relacionados a arcos ideológicos tão diversos, dizer que as posições dentro do Instituto eram homogeneamente à esquerda ou à direita.

Os pesquisadores voltados para a trajetória do ISEB, entre os quais se destaca Caio Navarro Toledo,263 dividem a história do Instituto em três fases: 1) 1955-1958, publicação dos primeiros trabalhos e das primeiras diretrizes; 2) 1958-1960, marcada pela briga de dois componentes Alberto Guerreiro Ramos e Hélio Jaguaribe, que resulta no fato de que ambos terminam por deixar o ISEB, cuja direção passa para Roland Corbisier; e, principalmente, 3) 1960-1964, quando sob a direção de Álvaro Vieira Pinto, o ISEB atravessa sua fase mais atuante, principalmente junto aos movimentos de esquerda.

De maior importância para nossa discussão, a segunda e a terceira fases receberão nossa atenção, uma vez que são as mais centradas na discussão sobre o nacionalismo. A partir da direção de Roland Corbisier, a ênfase dos trabalhos do ISEB recái diretamente sobre a temática do nacional, o que é sintomático sobre o momento que o país vivia. Contagiado pelo entusiasmo desenvolvimentista, o nacionalismo se tornava elemento de fácil circulação nos discursos intelectuais do período, alimentando um vocabulário comum e acionando debates inflamados quase de maneira espontânea. Financiado pelo governo, o Instituto da Rua das Palmeiras publicava títulos como ―O Nacionalismo na atualidade brasileira‖ em 1958, de Hélio Jaguaribe, ou ―O problema nacional do Brasil‖ em 1960, de Alberto Guerreiro Ramos.

Como apresentamos acima, por ocasião do embate de ideias promovido por essas publicações, esses dois autores terminaram em uma séria discussão neste período, o que faria ambos deixarem o ISEB. O choque se deu por conta das propostas contidas na mencionada monografia de Jaguaribe, que realizou críticas à administração estatista do petróleo, defendendo a entrada de capitais privados nesse setor. Por essa razão, Jaguaribe foi atacado por Ramos, que acusou o colega de ―entreguismo‖.264

Por ironia, o olho nacionalista do anticomunista Salgado, que mencionamos no início de nossa discussão, aparentemente iria focar e repercurtir principalmente junto às esquerdas, onde o nacionalismo possui grande penetração, seja a comunista ou a petebista. E, nesse território, onde ocorre uma das mais contundentes vitórias práticas do nacionalismo, a criação da Petróbras, que

263 TOLEDO, Caio Navarro. ISEB: Fábrica de ideologias. São Paulo: Ática, 1977.

264 ABREU, Alzira Alves de. op. cit., 427. O próprio Jaguaribe conta a sua versão particular daquele

desentendimento em JAGUARIBE, Hélio. O Iseb e o desenvolvimento nacional. In: TOLEDO, Caio Navarro (Org.).

se torna um elemento ao qual não se permitia contestação. O ataque acirrado de Ramos à exploração do petróleo pelas forças cosmopolitas, proposto por Jaguaribe, demonstra esse estado de emoções.

O mal-estar em relação à questão faz com que os dois deixem o Instituto, iniciando a fase mais à esquerda do ISEB. Na ocasião, em apoio a Guerreiro Ramos e atacando diretamente Jaguaribe, o novo presidente do Instituto, Roland Corbisier afirmava, então, que a orientação predominante do ISEB, apesar de uma suposta liberdade de expressão, resultava de uma ―instransigente defesa do monopólio estatal do petróleo e da intangibilidade da Petrobrás, na forma de seu presente estatuto legal‖.265

Nesse período, conscientes do flerte do nacionalismo com as esferas mais radicais da esquerda nacional, a imprensa mais conservadora ataca o ISEB. Os jornais Diários Associados e

O Globo, e somando a seus esforços, o Conselho das Classes Produtoras no Brasil (Conclap)

denunciam o ISEB, qualificando-o como um nicho de subversivos, controlado por comunistas, perigosamente financiado pelo governo.266 Em contrapartida, o ISEB preparava uma aliança com os sindicatos, a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a Frente Parlamentar Nacionalista,267 para influir diretamente nos rumos políticos do país e não só junto à opinião pública ou próximo ao engajamento intelectual.268

Em sua terceira fase, o nacionalismo isebiano ainda se torna mais intenso. Álvaro Vieira Pinto, filósofo de formação clássica, estudioso de Platão, assume o poder no Instituto. Logo, demonstrando seu engajamento na práxis intelectual de esquerda, ele publica, em 1960, a monumental obra ―Consciência e realidade nacional‖ em dois volumes. O livro discute os passos

265 CORBISIER, Roland [1958] (apud ABREU, Alzira Alves de). op. cit., p. 426.

266 ABREU, Alzira Alves de. op. cit., p. 428. Possivelmente essas associações eram mais simpáticas àquela

corporação de intelectuais que se tornaria uma rival do ISEB declaradamente à direita, a Escola Superior de Guerra (ESG). Criada em 1949 a fim de discutir o desenvolvimento do país no contexto da Guerra fria, com óbvias filiações ao bloco ocidental e capitalista, o ESG visava principalmente o desenvolvimentismo sem ameaça a segurança nacional, visando combater, o que no diagnóstico de seus membros, era ―um dos traços peculiares ao Caráter Nacional Brasileiro, e dos mais arraigados – o individualismo‖. ARRUDA, Antônio de. A Escola Superior de

Guerra. 2. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Ed. GRD; Instituto Nacional do Livro; Fundação Nacional Pró-memória,

1983, p. xxiii.

267 De acordo com a pesquisadora Lucília Delgado, a Frente Parlamentar Nacionalista se reune pela primeira vez em

1956, sob a liderança de deputados do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e que teve importantes interlocutores no período. Além do próprio ISEB, articulavam-se em torno do grupo de deputados, entre outros, a União Nacional dos Estudantes (UNE), o Comando Geral dos Trabalhadores do Brasil, as Ligas Camponesas e o Movimento de Educação de Base (MEB). Sobre isso, ver, DELGADO, Lucília de Almeida Neves. op. cit., p. 369 e ss.

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