Tudo começa então, numa sincronia quase perfeita entre investigadores ingleses e norte-‐americanos, a partir da década de 1880, no âmbito daquilo que mais tarde haveria de ser agrupado e chamado o Social Survey Movement. O trabalho pioneiro pertence a Charles Booth (1969) e nele se descrevem exaustivamente, com dados estatísticos e etnográficos, as condições de vida das classes trabalhadoras londrinas e a pobreza extrema que afectava 35% dos seus membros. Alguns anos mais tarde, Benjamin S. Rowntree (2000) desenvolveu uma pesquisa semelhante para outra cidade britânica, York, apurando as fórmulas de cálculo com a introdução da noção de ‘linha de pobreza’ e distinguindo entre as suas formas ‘primárias’ e ‘secundárias’, conceitos operatórios que a partir daí passaram a ser ferramentas correntes para estudar a incidência e as características do fenómeno. Personalidades oriundas do mundo dos negócios que desenvolveram preocupações filantrópicas, Booth e Rowntree tornaram-‐se investigadores para melhorar os parcos conhecimentos que existiam à época sobre a pobreza e, com o argumento massivo dos factos e das evidências científicas, favorecer a causa reformista e levar as instituições políticas britânicas a assumir a existência de dimensões sociais no problema da pobreza e a
responsabilidade do estado na condução das intervenções destinadas a mitigar os seus efeitos.
Imediatamente a seguir, esta ideia de usar a pesquisa social para sustentar a necessidade de reformas que favorecessem as classes desfavorecidas estendeu-‐se aos EUA. No contexto americano acentuaram-‐se as ligações ao Settlement Movement e às
Settlement Houses e instituições como a Hull House de Chicago estiveram na origem
ou colaboraram nos inquéritos mais conhecidos, como The Hull House Papers (1895),
The Philadelphia Negro (1899) e a Pittsburgh Social Survey (1909-‐1914). Mesmo que
uma avaliação mais rigorosa possa encontrar sinais de amadorismo nalguns destes trabalhos, eles representaram um grande avanço em relação a uma fase anterior e pré-‐científica, em que os pobres eram vistos como os únicos responsáveis pelas suas dificuldades e a inferioridade rácica a causa de todos os problemas. Não isentando os pobres e aquilo que consideravam ser as suas deficiências morais ou culturais, os estudos americanos enfatizavam a importância do desemprego, dos baixos salários, da exploração do trabalho, da inexistência de uma regulação política dos mercados e, em termos mais gerais, a disrupção social provocada pela urbanização e industrialização capitalistas, como factores explicativos da criação da pobreza moderna. A análise decorrente destas investigações ia ao ponto de se debruçar sobre as políticas e as práticas institucionais do capital corporativo, a economia política e a história da discriminação racial ou a sobrecarga que a divisão do trabalho representava para as mulheres, nas condições criadas pelo desenvolvimento capitalista. Temos portanto um discurso crítico na origem dos estudos da pobreza, discurso esse que tomou parte num período particularmente rico da história do pensamento social americano, a Era Progressista (1890-‐1920), e que segundo O’Connor associou desde o início a análise das desigualdades – de classe social, de raça e de género, às condições e aos factores geradores de pobreza.
Com a entrada no séc. XX, o modelo liberal-‐reformista de análise da pobreza foi perdendo influência até à chegada da Grande Depressão, época em que a crise profunda das economias renovou nalguns investigadores a preocupação com as consequências do desemprego e dos baixos salários e a recuperação da perspectiva
progressista serviu de apoio às políticas do New Deal. Parte dos trabalhos conduzidos nesse período, nomeadamente os Middletown Studies dos Lynds (1959 [1929]; 1982, [1937]), e a Yankee City Series de Lloyd Warner e de Lund (1963 [1941-‐1959]), seguiam as metodologias antropológicas e dos estudos de comunidade para realçarem o papel das classes na estruturação das relações sociais e os prejuízos causados à sociedade pelos excessos do liberalismo económico. A pobreza era vista, por esta forma de antropologia social, como uma consequência da desregulação dos mercados capitalistas e uma razão para o reforço da intervenção do estado na área social, enquanto a discriminação da minoria negra era tida como uma expressão do racismo e da persistência de preconceitos formados durante a era esclavagista. Os aspectos psicológicos e culturais que atingiam os comportamentos dos pobres e os arrastavam para a perpetuação da sua condição também eram assinalados, mas mais como um argumento para demonstrar a necessidade de fazer avançar o estado para políticas de proteção social e promoção das classes desfavorecidas. Outra das obras monumentais da época, An American Dilemma de Myrdal (1995 [1944]), é bem representativa do pensamento deste período, pela maneira como procura demonstrar que o conjunto da realidade social e, muito em particular, as relações raciais, são largamente determinadas por questões de classe e pelas representações culturais a que estas desigualdades dão lugar. Desde os anos 30, porém, os problemas particulares colocados pelas situações de pobreza pareceriam menos relevantes face à ameaça universal representada pelo colapso total do sistema económico, daí que, tanto os decisores políticos, como muitos economistas e outros cientistas sociais estivessem mais interessados em identificar as medidas eficazes para estimular o crescimento e produzir a riqueza que a todos pudesse beneficiar. A ascensão do Keynesianismo vem consignar ao estado o direito de conduzir as economias e o dever de garantir um padrão mínimo de vida às populações e, deste modo, o bem-‐estar geral. A pobreza não constitui tanto um problema específico como uma questão de desenvolvimento económico, cabendo ao estado assegurar as políticas redistributivas que façam partilhar a riqueza produzida e fazer chegar uma parte da mesma aos grupos menos favorecidos.