imagem de um “bairro étnico”. A diversidade de comunidades imigrantes e populações deslocadas será uma das razões para a existência de numerosas associações culturais e cívicas e de uma intensa sociabilidade local. A Quinta da Esperança é mais pobre do que o Bairro Novo em equipamentos, comércio e transportes de ligação à envolvente e, apesar de serem mais novos, os edifícios e o espaço público encontram-‐se mais degradados. Um dos problemas maiores do bairro são os episódios recorrentes de violência e a insegurança da população. As consequências destes conflitos, rixas, desacatos, são frequentemente graves e justificam a intervenção ostensiva das forças especiais de polícia e a cobertura noticiosa de jornais e televisões que se encarregam de tornar o bairro hiper-‐visível e o projetam para lugares de destaque nos rankings da perigosidade urbana.
3. Entrevistas e etnografia em contextos contemporâneos
A minha experiência dos contextos urbanos da pobreza indicava-‐me os bairros sociais como unidades de observação adequadas para o tópico da mobilidade, mas deixava-‐me também de sobreaviso para um obstáculo que teria de voltar a enfrentar durante o trabalho de campo. Refiro-‐me à privatização dos modos de vida, um processo julgado por vezes exclusivo das classes médias e altas, mas que pode surgir em grupos de condição social mais baixa, se circunstâncias, como aquelas que resultam dos realojamentos, assim o ditarem. Tive oportunidade de defender em trabalho anterior (Rodrigues, 1997) que a mudança de condição residencial provocada pelos realojamentos trás consigo a tendência para um maior isolamento das famílias e para um confinamento do quotidiano aos espaços domésticos. Este efeito é generalizado nas populações realojadas e manifesta-‐se através de uma ética, consensual e muito difundida, que preconiza a reserva e o evitamento relacional e condena a sociabilidade de rua e a presença imotivada nos espaços públicos. Mas, de todos os moradores, são exatamente as famílias em mobilidade as que mais se submetem à observação deste código e fazem da privatização e do controle sobre
aquilo que os outros possam conhecer da sua vida um aspecto fundamental de demarcação social e autonomização dos seus projetos.
Este empenhamento em estratégias de privatização que dependem da construção de uma barreira relativamente ao espaço social de residência, ao afastar os meus potenciais interlocutores da esfera pública local também os tornava menos acessíveis e expostos à minha curiosidade como investigador. Mesmo com os sujeitos que puderam ser conquistados e desenvolveram uma atitude aberta e colaborativa, nalguns casos cúmplice, em relação à investigação e ao que ela lhes exigia, houve sempre restrições que foi preciso respeitar e com as quais tive de aprender a lidar. Pela sua natureza, o tema da mobilidade toca domínios muito privados da identidade das pessoas e das suas aspirações, que podem suscitar no investigador o desejo de saber mais e de se aproximar de áreas que sabe serem reservadas na vida dos sujeitos e protegidas de olhares estranhos, mesmo quando estes são conduzidos pelo interesse científico. Essas fronteiras socialmente constituídas inviabilizam uma observação e um conhecimento direto e interior de espaços que o investigador não tem maneira de franquear e de momentos e processos a que não pode assistir.
A privatização dos modos de vida não é o único obstáculo que espera um antropólogo pronto a pôr em prática as suas tradicionais estratégias participativas de envolvimento e observação duma comunidade residencial e dos seus membros. Os moradores nos bairros públicos que estão em condições plenas de inserção nas relações sociais partilham com todos os outros cidadãos um estilo de vida urbano caracterizado pela multiplicação dos domínios de atividade e, consequentemente, pela repartição dos indivíduos por várias existências, de natureza profissional, familiar, cultural, religiosa e política. Os processos que conduziram até aqui, a estes estados de individualização e heterogeneidade, estão associados à modernidade, ao capitalismo e à industrialização (Simmel, 1987; Schutz, 1979; Dumont, 1977, 1992) e representam para uma antropologia das sociedades contemporâneas um desafio metodológico. Para aqueles que, tal como eu, precisam de captar modos de vida que resultam da articulação de diversos papéis, em diferentes domínios, descontínuos e apartados uns dos outros, como abranger estas existências pulverizadas e dispersas com um método
de observação direta e intensiva, mais apropriado para analisar realidades socioculturais de pequena escala, homogéneas e concentradas no espaço?
Para muitos investigadores a solução tem passado por fazer da entrevista em profundidade a base para o trabalho de campo. O acréscimo entretanto registado na utilização etnográfica das técnicas de entrevista está ligado a desenvolvimentos mais amplos dentro da antropologia e à configuração de novos objetos de trabalho. Segundo Ortner, ainda que a entrevista não ofereça a mesma riqueza e variedade de dados da observação-‐participante, ela permite corresponder a duas preocupações crescentes: uma, com a história e durações temporais maiores do que as tradicionalmente acompanhadas pelo trabalho etnográfico e, duas, com a dimensão espacial e a necessidade de abranger e transitar entre escalas regionais, nacionais e globais, menos presentes em abordagens antropológicas anteriores (2003: 15).
Do modo como a entendo e pretendi pôr em prática, a entrevista em contexto etnográfico é uma necessidade que é preciso cuidar e tornar virtuosa. Torna-‐se indispensável sempre que as capacidades participativas e de observação de um antropólogo isolado são suplantadas pela extensão da realidade, ou quando o “aqui e agora” a que o método de observação-‐participante melhor se adequa deixa de ser suficiente. Porém, para não acabar descaracterizada, a prática etnográfica não pode ficar reduzida a um conjunto de entrevistas mais longas e menos estruturadas do que é típico nas formas de inquérito. De forma a evitar esse risco, Ortner sugere dois tipos de precauções metodológicas: que os dados produzidos pelas entrevistas se aproximem o mais possível, na densidade de pormenores e no tom experiencial e vivido, das descrições etnográficas, e que as informações e pontos de vista obtidos através de entrevista continuem a ser articulados, entre outras fontes, com documentos, registos históricos ou conteúdos da cultura mediática. (2003: 15).
Todas as 28 entrevistas que realizei no âmbito desta investigação foram feitas com indivíduos e famílias que já conhecia, que conheciam o meu trabalho e com os quais tinha havido pelo menos um contacto anterior, depois de iniciar a minha estadia nos seus bairros. Em função desse grau de conhecimento prévio, as entrevistas resultam muito diversas, seja na forma e na maneira de colocar as perguntas, seja no
conteúdo das trocas verbais e na duração das mesmas. Com as pessoas com quem já existia uma relação duradoura, vários contactos e oportunidades de conversação vertidas em entradas e anotações no caderno de campo, as entrevistas tendem a ser mais breves e dirigidas a tópicos específicos em relação aos quais não tinha registado as posições dos sujeitos. Estas entrevistas não seguem nenhum padrão, nem têm estrutura; decorrem num ambiente de conversação livre, com entrevistador e entrevistado a saírem frequentemente dos seus papéis e a explorarem interesses comuns, como fariam fora desse contexto mais formal.
A par com este lote, existe um outro de entrevistas semiestruturadas típicas, dirigidas a pessoas em relação às quais não havia depoimentos recolhidos. Neste caso, a condução das entrevistas assume características mais sistemáticas, com uma lista memorizada de perguntas abertas que vão sendo introduzidas, omitidas ou ajustadas, consoante as avaliações instantâneas do entrevistador. À medida que o conjunto de entrevistas realizadas e o conhecimento do terreno iam aumentando, foram surgindo novos tópicos e questões suplementares que deram entrada nestes “guiões”. As divagações e a introdução de temas e subtemas particulares por parte dos entrevistados foi incentivada e aproveitada para reformular as entrevistas posteriores. Numa boa parte dos casos, estas entrevistas foram gravadas em várias sessões e são significativamente mais longas do que as do primeiro tipo, informais e focalizadas: umas têm em média três horas de duração, podendo prolongar-‐se até quatro e cinco horas, ao passo que as outras não ultrapassam geralmente uma hora e meia de gravação. Aconteceu em meia dúzia de casos que, devido à presença de familiares nas habitações, de colegas nos locais de trabalho, de clientes e amigos em lojas, as entrevistas individuais se converteram em entrevistas colectivas (ao marido e à mulher; a pais e a filhos), ou foram temporariamente interrompidas por debates espontâneos a propósito dos temas que estavam a ser inquiridos.
Logo ao início da primeira fase de entrevistas, na Quinta da Esperança, ensaiei uma pequena experiência de “elicitação visual” (Collier, 1986) utilizando imagens no processo de entrevista. Embora soubesse antecipadamente que não tinha condições para desenvolver todo o inquérito etnográfico com base neste dispositivo, resolvi
desafiar um dos primeiros sujeitos escolhidos para um projeto especial de entrevista. A ideia foi apresentada e proposto ao entrevistado que refletisse durante uns dias sobre a realização de um pequeno filme que o teria a ele como tema e através do qual se pudesse mostrar aos outros o que ele era como pessoa. Teria de encontrar situações, lugares ou outras pessoas que tivessem um significado particular na sua vida e que pudessem dar pistas ou ilustrar visualmente as respostas para duas perguntas: “quem sou eu” e “como me tornei no que sou hoje”. Depois de escolhidos os temas e captadas as imagens, etnógrafo e entrevistado visionaram as gravações e conversaram sobre os conteúdos e a sua transformação num conjunto de imagens editadas. Todos os encontros entre os dois foram igualmente filmados e alguns excertos aproveitados na montagem final.
O primeiro dia de entrevista verbal, propriamente dita, começou com o visionamento do filme editado e as primeiras perguntas arrancaram aproveitando o conteúdo de algumas das sequências filmadas. O objectivo na utilização deste tipo de instrumento visual não é tanto o filme em si, mas o processo de reflexão e autoanálise provocados pela sua produção. Dois tipos de resultados fazem a diferença entre esta e as entrevistas normais em profundidade que realizei posteriormente: a rapidez com que consegui identificar os nódulos da identidade do sujeito, uma vez que o processo desencadeia uma síntese analítica que tipicamente só surge no final, quando o entrevistador se debruça sobre as transcrições, e uma qualidade de informação, de sentimentos e memórias expressas, que nem sempre se alcançam com o esquema habitual de perguntas e respostas. Dois tipos de requisitos devem estar garantidos para tornar esta forma de trabalho viável: uma rara cumplicidade e atitude colaborativa da parte dos sujeitos e, pelo menos, o quádruplo do tempo para produzir cada entrevista.
Pese embora o facto de em todas as entrevistas ter existido uma marcação e um encontro formais, terem sido usados dispositivos electrónicos de registo e, por vezes, se recorrer a “guiões” com questões pré-‐definidas, encontro uma diferença fundamental entre a maneira como procurei manipular esta ferramenta de observação e aquilo que é mais comum fazer-‐se nas entrevistas qualitativas. Como se depreende
pela descrição fornecida, as entrevistas foram preparadas por vários meses de trabalho40, exclusivamente dedicados ao conhecimento dos lugares e à convivência com as populações, em que a primeira preocupação começou por ser a confrontação entre as minhas construções e especulações problemáticas, a percepção local sobre os problemas e os resultados das minhas primeiras observações, de modo a assentar objectivos e avançar para as fases de entrevista.
No princípio, foram fundamentais os dados e os conhecimentos e contactos pessoais e profissionais de vários atores institucionais – técnicos de gabinetes e de empresas municipais, dirigentes de ONG’s e ativistas associativos, para identificar os potenciais entrevistados e intermediar algumas apresentações. A escolha intencional dos indivíduos nunca seguiu qualquer critério probabilístico de amostragem, mas procurou-‐se garantir, através dela, a maior diversidade possível dos selecionados, em termos de idade e fase do ciclo de vida, sexo, nacionalidade e grupos étnicos, percursos profissionais, número de anos fora da pobreza e níveis de rendimento alcançados, de modo a cobrir o máximo de variantes possíveis dos estados de mobilidade e das experiências a que dão lugar. Não se colocando a questão da representatividade estatística, as entrevistas prosseguiram até se atingir a saturação da informação na maior parte dos domínios que foram objecto de inquérito. Como este patamar é sempre relativo, admite-‐se que, se tivesse sido possível ir além das 28 entrevistas, outras dimensões de análise e conclusões poderiam ter sido validadas.
Em síntese, as entrevistas tiveram lugar de destaque enquanto método de recolha e produção de informação, mas combinadas com um trabalho aturado de observação-‐participante, em moldes mais clássicos, a acompanhar e a apoiar todo o processo. A particularidade distintiva desta forma de trabalho reside precisamente aí, nessa interligação entre processos diretos e indiretos de observação, com as
40 Para ser mais exato, entre a chegada ao terreno e a gravação da primeira entrevista decorreram cinco meses. Se contabilizarmos a fase preliminar de negociação do acesso e uma fase final de pesquisa documental e estatística, a parte empírica da investigação desenrolou-‐se ao longo de mais de três anos, entre 2007 e 2010. O trabalho de terreno, propriamente dito, prolongou-‐se por dois anos e dez meses, tempo ocupado por várias estadias, geralmente alternadas, em ambos os bairros, com interrupções e paragens que nunca ultrapassaram os dois meses.
entrevistas a serem suportadas por uma constante e mais ampla pesquisa de observação participativa a que devem a sua eficácia, tanto ao nível da sua planificação inicial como dos dados de contexto imprescindíveis na análise final. Para assinalar as particularidades desta variante metodológica de trabalho de campo, alguns autores têm-‐na designado como entrevista etnográfica (Clair, 2003; Heyl, 2001; Ortner 1997, 2003).
A expressão contudo parece-‐me equívoca quanto ao que a entrevista representa para esta forma de fazer etnografia. Há de facto uma valorização maior de uma das técnicas que já integravam os procedimentos etnográficos, a entrevista, mas sem que isso dispense ou diminua o papel da observação-‐participante. Além de continuarmos a depender da nossa presença e das nossas interações para observar o conjunto da ação social, dos comportamentos quotidianos aos acontecimentos que marcam a vida dos sujeitos e das comunidades, dependemos dessas mesmas observações para sabermos o que precisamos de perguntar e, mais ainda, dependemos em absoluto dessas observações para analisar o que nos foi dito e o modo como foi dito na situação de entrevista. Esta aplicação da chamada entrevista etnográfica não é, quanto a mim, concebível a não ser num contexto de observação-‐ participante.
4. Narrativas, análise e sistematizações interpretativas
Nalgumas das operações necessárias ao tratamento e organização dos materiais das entrevistas etnográficas, os procedimentos não são diferentes dos que são empregues, dum modo geral, nas entrevistas qualitativas. É o que se passa ao nível das operações de transcrição. O meu trabalho produziu cerca de 80 horas de material gravado, cuja transcrição não pôde ser feita sem o apoio de auxiliares. Aos transcritores foram dadas instruções e parâmetros rigorosos quanto à forma de lidar com os problemas da passagem do discurso oral a escrito, no sentido de preservar ao máximo a expressão original, sem correções de sintaxe ou gramaticais, assinalando pausas e manifestações não-‐verbais. À medida que as transcrições iam sendo