Mas a história intrincada das políticas e das teorias da pobreza é muito pouco linear e, bem antes dos anos da crise, já os primeiros sinais de uma profunda mudança de paradigma se faziam anunciar. Em 1918, W.I. Thomas faz publicar The Polish
Peasant (1996), trabalho em que procede à análise dos processos culturais por que
passam estes imigrantes leste-‐europeus, de origem rural, quando procuram a América e se instalam nas suas cidades para recomeçar vida. A questão central é a da assimilação cultural, formulada como um problema que pode ser analisado exclusivamente do ponto de vista dos comportamentos imigrantes, responsabilizados pela sua incapacidade de se ajustarem à sociedade de acolhimento. As estruturas sociais e económicas do país receptor são para o autor um dado adquirido, uma pré-‐ existência que se dispensa de problematizar, como se não fosse entre elas e as populações imigrantes que os processos ocorrem e as relações de integração podem, em condições favoráveis, estabelecer-‐se.
Começa aqui, com Thomas e a primeira vaga da escola de sociologia urbana de Chicago, o afastamento da investigação social sobre a pobreza relativamente a perspectivas mais críticas e enquadradas pela visão da economia política. A Escola de Chicago adoptará uma postura distante do tipo de abordagem da era progressista, tornando a discussão sobre a integração cultural de minorias étnicas imigradas uma questão de “ecologia social”, ou seja, de organização social das cidades. A caracterização teórica e metodológica dos autores da Escola de Chicago – depois de W.I.Thomas, Robert E. Park, Ernest W. Burgess e seus discípulos -‐, é relativamente complexa mas combina, entre outras, problematizações sociopsicológicas e culturais, próximas da sociologia e da antropologia. A pobreza, bem como todas as formas de patologia e desorganização social existentes nas cidades, era vista como uma consequência colateral, inevitável, dos processos de modernização e urbanização. Aparecia largamente associada à imigração e aos desajustamentos culturais que atingiam as populações recém-‐chegadas, durante aquilo que se descrevia como um estado inicial e transitório de um processo mais longo, repartido por quatro fases: do
conflito e competição verificados à chegada, até etapas mais avançadas de acomodação e assimilação.
Outro traço que distingue a Escola de Chicago, pelo menos numa primeira geração, é a opção por um modelo objectivista de investigação, com base em construções teóricas fechadas e abordagens de tipo quasi-‐experimental, provavelmente julgadas mais seguras e apropriadas para servir intervenções no terreno sobre os fenómenos. Estas pesquisas da Escola de Chicago recebiam importantes fundos da Fundação Rockefeller para projetos que combinavam a investigação e a ação local. Fenómenos como a delinquência juvenil, depois de diagnosticados como patologias e explicados em função das falhas de controlo social e da instabilidade provocadas pelo crescimento urbano, eram objecto de tratamento em programas comunitários, nos quais os investigadores debatiam e partilhavam com as populações a responsabilidade pelas estratégias a adoptar.
Uma última marca deixada pela Escola de Chicago nas áreas dos estudos urbanos e da pobreza denuncia-‐se nessa segunda designação pela qual também é identificada: ecologia social. Dessa concepção ‘ecologista’ da vida social que caracteriza a corrente, faz parte uma visão da cidade repartida por ‘áreas naturais’, espaços que formam um mosaico com funções diversas, regulados e hierarquizados ‘naturalmente’, isto é, pelas forças do mercado e da competição fundiária. As áreas menos valorizadas acolhem necessariamente as populações mais pobres, em comunidades que se vão tornando isoladas e segregadas pelo sistema urbano. Devido aos processos de segregação externa, combinados com os processos de interação e contágio internos, os bairros onde se alojam as comunidades pobres geram ‘efeitos ambientais’ específicos sobre os comportamentos, tornando-‐os mais homogéneos e contribuindo para a reprodução de situações de pobreza e para o desenvolvimento de vários tipos de ‘patologias sociais’. A transformação das ‘áreas naturais’ em ‘regiões morais’ deve-‐se portanto, nesta perspectiva, a uma lógica quase subsocial, em que as determinantes fundamentais são, neste sentido, de natureza espacial.
A pobreza e a desorganização social são portanto, para a Escola de Chicago, produtos inseparáveis dos espaços segregados em que se alojam. A conceptualização
desta relação entre as formas de vida urbanas e os espaços habitados é feita por vários autores filiados na corrente, com vários matizes conceptuais depois do naturalismo inicial, dos quais se destaca o de Louis Wirth na sua monografia intitulada The Ghetto (1956, [1928]). Nela, Wirth estuda especificamente o caso do gueto judaico de Chicago, sugerindo no entanto que as observações relativas a esta comunidade se aplicam a todos os bairros de imigrantes recém-‐chegados à América e ainda não expostos à assimilação cultural. Produto das relações de dominação e de controlo entre a sociedade americana e as minorias étnicas que a demandam, o isolamento físico e a segregação do gueto são considerados, simultaneamente, um meio de defesa e de resistência que permite aos imigrantes gerar, numa fase inicial, a segurança e a proteção proporcionadas pela integridade das suas formas de vida originais. Esta dupla funcionalidade atribuída ao gueto será mais tarde recuperada pelas teorias da marginalidade e da etnicidade para justificar como os grupos subordinados se servem dos espaços segregados de modo a estabelecerem estratégias económicas de sobrevivência e mecanismos de resistência cultural, conferindo a estas populações uma capacidade e um protagonismo que nem sempre lhes foram reconhecidos. É neste tipo de reutilizações contemporâneas que a longevidade das ideias e das observações dos cientistas e etnógrafos de Chicago se revelam, como, por exemplo, quando os estudos dos processos de ‘gentrificação’ nos sugerem a recuperação da noção de ciclicidade aplicada à sucessão das ocupações residenciais e à evolução das áreas urbanas43, ou quando o surgimento de ‘novas formas de pobreza’ lembra a existência de um legado tipológico sobre os trabalhadores sem morada fixa que habitavam as ruas das cidades norte-‐americanas do princípio do século44. Do ponto de vista que aqui importa, o apport da Escola de Chicago deriva, em primeiro lugar, desta pertinente articulação entre os espaços urbanos, nomeadamente residenciais, e as formas de vida pobres que neles se inscrevem e desenvolvem. Há toda uma tradição
43 Robert Park e Ernest Burgess em Introduction to the Science of Sociology (1922) e em The City (1925), desenvolveram a ideia de que a estrutura urbana e o sua divisão em diferentes áreas concêntricas eram o resultado da competição territorial, processos de invasão, dominação e sucessão que iam renovando no tempo as ocupações e funções das áreas centrais do casco urbano.
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Tipologia criada por Nels Anderson e apresentada em 1923 em The Hobo. The Sociology of Homeless
de análise das dimensões espacializadas da pobreza que começa em Chicago e chega até aos nossos dias.
Mas a marca duradoura que a Escola de Chicago imprimiu nos estudos da pobreza está para além desta renovação de abordagens introduzida pela espacialização dos problemas e atinge maior profundidade pelo facto de ter contribuído para desencadear um autêntico reposicionamento teórico da especialidade nas décadas seguintes. Daí em diante, as ciências sociais foram esquecendo o papel das estruturas de desigualdade criadas pelo capitalismo industrial e passaram a procurar na desorganização social e no desajustamento entre culturas as causas para a pobreza, tornando a busca de soluções num problema circunscrito a grupos específicos e às suas dinâmicas culturais frustradas e não uma questão de alteração do conjunto dos sistemas económicos e sociais.