A ocupação dos espaços urbanos, por vias de circulação e áreas de estacionamento, se tornou mais intensa a partir do uso crescente do veículo individual motorizado. Hoje em dia o espaço residencial também sofre uma redução proporcional, devido à necessidade de guarda dos veículos particulares. Toda essa demanda por espaços, é oriunda de dois fatores característicos de ambientes urbanos: a expansão urbana, que impõe distâncias cada vez maiores a serem cumpridas; e a preferência por veículos individuais motorizados, em alguns
casos pela inadequação de oferta de transporte público, em outros pela sensação de liberdade e diferenciação social que esse tipo de transporte proporciona.
Vasconcellos (2005) considera que a necessidade de espaço é um dos maiores problemas do transporte urbano. A sociedade procura garantir esses espaços através da criação de vias de circulação e locais de estacionamento.
O primeiro problema relacionado a isso é que a área reservada pode ser muito grande, reduzindo o espaço para construções, para o convívio social, e ampliando a área urbana consolidada, aumentando portanto os custos gerais para a sociedade. O efeito é tanto maior quanto mais dedicada aos automóveis for a sociedade, uma vez que haverá maior necessidade de garantir espaço para circular e estacionar. Por outro lado, o sistema de vias e o tráfego que nele é organizado podem afetar muito a qualidade de vida das pessoas, prejudicando suas relações diárias e destruindo o patrimônio histórico e arquitetônico (VASCONCELLOS, 2005).
Os investimentos em vias públicas e áreas de estacionamento não podem ser traduzidos como grandes benefícios para a população em geral. A grande maioria da população das cidades dos países em desenvolvimento, os menos abastados, ao utilizarem, na melhor hipótese, o transporte público para se deslocarem, ocupam espaços bem menores do que aqueles que se deslocam em veículos privados.
O Gráfico 9, foi elaborado com base nos resultados do estudo do IPEA e ANTP para redução das deseconomias urbanas. Todas as dez capitais brasileiras pesquisadas apresentaram a grande porcentagem de suas vias ocupadas por automóveis, em comparação com as áreas ocupadas por ônibus.
77 23 91 9 87 13 79 21 88 12 79 21 69 31 84 16 74 26 88 12 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 Belo Horizonte
Brasília Campinas Curitiba João Pessoa Juiz de Fora Porto Alegre Recife Rio de Janeiro São Paulo Automóveis Ônibus
GRÁFICO 9 – Percentual de vias ocupadas, cidades selecionadas Fonte: IPEA & ANTP, 1998
A capital do país foi a que mais se destacou com os automóveis ocupando 91% de área das vias urbanas, enquanto que a melhor situação foi a de Porto Alegre, com os automóveis ocupando 61% dos espaços livres à circulação. Esse último percentual, apesar de ser o menor de todos, ainda é consideravelmente alto.
Para demonstrar que um sistema automotivo, para o transporte de pessoas, não é viável, a partir das ilustrações das imagens 26, 27, 28, e 29, Robert (2005), dá a seguinte lição:
A experiência, a seguir detalhada, mostra formas diferentes que possibilitam o transporte de 35 pessoas, e conclui que, a diversidade de padrões de viagens é a única solução viável, para o transporte de passageiros (ROBERT, 2005):
A Imagem 29 representa uma situação de congestionamento do tráfego, formada pelo transporte de apenas 35 pessoas. Teoricamente, o automóvel tem capacidade para transportar quatro ou cinco pessoas, mas na verdade, sua a taxa média de ocupação não passa de 1,2 pessoas por veículo. Cada automóvel ocupa cerca de 10 m2, quando parado, mas essa área é bem maior quando ele se movimenta;
A Imagem 30 mostra os 35 condutores da imagem anterior, sem suas viaturas e o espaço consumido por esses automóveis na imagem anterior é mantido;
IMAGENS 29 e 30 – Congestionamento de automóveis e condutores sem os automóveis. Fonte: Robert, 2005.
A Imagem 31 simula um ônibus invisível e ilustra o consumo do espaço pelas pessoas da Imagem 30, utilizando um ônibus ao invés dos automóveis;
Por fim, na Imagem 32, as pessoas das imagens anteriores estão todas no ônibus e nos espaços que sobram, outros usuários aparecem – pedestres, ciclistas, automóveis etc. O número total de pessoas em transporte passa de cinqüenta, mas agora o tráfego escoa com fluidez, ao contrario da situação da primeira imagem, mostrando um congestionamento de tráfego com o transporte de apenas 35 pessoas.
IMAGENS 31 e 32 – Um ônibus invisível e o tráfego com fluidez Fonte: Robert, 2005
Portanto, os gestores urbanos devem ter a consciência de que a via é um bem público, e como tal, deve servir a maioria dos contribuintes e não a minoria, como ocorre atualmente. Ao destinar recursos para o aumento de capacidade das vias públicas, que logo são preenchidas por automóveis, uma grande parcela da população fica sem ter como gozar dos benefícios desses investimentos.
Para Vasconcellos (2005), a grande maioria dos automóveis, ocupam espaços permanecem estacionados entre 20 e 22 horas por dia, ocupando, dessa forma, espaços públicos e, na grande maioria dos casos, sem pagar um só centavo a mais por essa ocupação. É na verdade, um espaço público sendo ocupado por um veículo de propriedade privada.
Outrossim, para permitir a circulação e o estacionamento de veículos, a abertura e pavimentação de vias urbanas é constante, e em certos casos, chega a ameaçar a segurança alimentar das futuras gerações, por atingir áreas antes cultiváveis. Para Brown (2001), essa pavimentação vem ocorrendo, principalmente, nos países industrializados, onde circulam 80% dos 520 milhões de automóveis mundiais. Mas hoje, essa agressão ambiental também ocorre, cada vez mais, nos países em desenvolvimento, com problema de fome. Para a construção de
rodovias e estacionamento, milhões hectares de terras agrícolas foram pavimentadas. Nos Estados Unidos, cada veículo necessita em média sete centésimos de hectares de área pavimentada para circular e estacionar. Só para ter idéia das conseqüências dessa necessidade, Brown dá o seguinte exemplo: uma área equivalente a de um campo de futebol é asfaltada para cada cinco automóveis introduzidos na frota desse país.
A Imagem 33 ilustra a situação em um estacionamento nos Estados Unidos, onde segundo Brown (2001) não existe estacionamento livre, mesmo com tanta área disponibilizada para tal finalidade.
IMAGEM 33 – Estacionamento de veículos nos EUA. Fonte: Brown, 2001.
Os Estados Unidos possui 6,3 milhões de quilômetros de estradas pavimentadas e uma frota de 214 milhões de veículos motorizados. Portanto, para permitir a circulação e o estacionamento desses, a área pavimentada é de cerca de 16 milhões de hectares, aproximando-se dos 21 milhões de hectares de cultivo de trigo norte-americano em 2000. Brown ainda adverte que o resultado desse conflito, em países como a China e a Índia, que abrigam 38% da população mundial, pode representar um risco a segurança alimentícia mundial.