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Também podemos entender a idéia de variação como um fenômeno indeterminado a partir da noção de ‘ruído de desenvolvimento’, discutida por Lewontin (1998/2002). Nesse sentido, a variação não é explicada por fatores genéticos nem ambientais, mas por interações aleatórias que acontecem no interior das células em nível molecular. Examinemos um exemplo de Lewontin para elucidar esse tipo de variação. A Drosophila possui um grupo de cerdas sensoriais sob as asas, cuja principal função é detectar o movimento do inseto pelo ar. Esses pêlos sensoriais são compostos por três tipos de células: um que é responsável pela formação da cerda, outro pela base a partir da qual a cerda crescerá, e um terceiro que forma a célula nervosa que comunicará o movimento da cerda com o sistema nervoso central. Na média, essas cerdas crescem em igual número nos lados direito e esquerdo da mosca, de sorte que, como espécie, a Drosophila pode ser considerada simétrica.

Entretanto, é comum encontrar indivíduos com um número desigual de cerdas em cada lado. Uma mosca pode apresentar seis cerdas do lado direito e oito do lado esquerdo, ou ainda, nove do lado direito e cinco do lado esquerdo (LEWONTIN, 1998/2002, p. 42). Como explicar essa variação na distribuição das cerdas no corpo da Drosophila? Primeiramente, não podemos atribuir tais diferenças aos genes, já que as células dos lados esquerdo e direito da mosca têm os mesmos genes. Tampouco podemos dizer que o ambiente (temperatura, umidade) foi sensivelmente diferente em cada um dos lados de um inseto de dimensões tão ínfimas (dois milímetros de comprimento por um de largura). Tendo em vista esse quadro, Lewontin conclui: “portanto, a variação não é conseqüência nem da variação genética nem da ambiental. É um ruído do desenvolvimento, resultante de eventos aleatórios no interior das células, no nível das interações moleculares” (p. 43). Nesse sentido, Lewontin inclui, ao lado da interação entre ambiente e gene, os processos aleatórios como responsáveis pela constituição do organismo.

No contexto dessa discussão, podemos captar o sentido de ‘indeterminismo’ por meio da idéia de variação. No caso mencionado por Lewontin (1998/2002), a variação, entendida como ruído de desenvolvimento, é indeterminada. Isso quer dizer que não podemos prever como será, no caso da mosca, a distribuição das cerdas sensoriais sob suas asas. A

indeterminação aparece não apenas no sentido de imprevisibilidade, mas também das múltiplas possibilidades de configuração do fenômeno em tela: diante de condições genéticas e ambientais supostamente idênticas a distribuição das cerdas pode ser diferente nos lados esquerdo e direito da mosca.

Em suma, podemos dizer que o conceito de variação pode ser empregado para esclarecer a noção de indeterminismo: um fenômeno indeterminado é um fenômeno que varia.

4. Considerações finais

A análise conceitual do indeterminismo mostrou uma série de conceitos que pode ser empregada para esclarecer o sentido de ‘indeterminismo’. Tal exame teve a pretensão de nos ajudar a entender, no contexto da ciência e da filosofia da ciência, o que significa dizer que um evento indetermina outro, ou o que queremos dizer quando afirmamos que um evento é indeterminado.

Para elucidar o sentido de ‘indeterminação’ recorremos inicialmente a algumas concepções de causalidade, tais como as de ‘causalidade insuficiente’, ‘causalidade probabilística’ e ‘causalidade mecânica “fraca”’. A despeito de haver algumas diferenças entre essas acepções, esse exame já indica que indeterminismo pode ser compatível com causalidade, pelo menos com algumas concepções dela. Em suma, essa análise sugere que “um mundo indeterminista não pressupõe necessariamente um mundo não-causal” (BASTOS FILHO, 2008, p. 01). Nesse contexto, dizer que um evento indetermina outro pode significar que o primeiro estabelece inúmeros caminhos ou possibilidades de ocorrência para o segundo (causalidade insuficiente), e não um caminho exclusivo; ou ainda, que o primeiro aumenta a probabilidade de ocorrência do segundo (causalidade probabilística); ou que a partir do primeiro podemos fazer previsões probabilísticas sobre o segundo (causalidade mecânica “fraca”).

Já o exame conceitual do indeterminismo não-causal mostrou alguns conceitos usualmente empregados para expressar ‘indeterminismo’, que não recorrem à nomenclatura causal. Como exemplos dessa tendência, temos os conceitos de ‘relações funcionais’ e ‘propensão’. Desse modo, dizer que um evento indetermina outro evento pode significar que o primeiro é uma condição não-necessária e insuficiente do segundo, ou que o primeiro estabelece uma propensão para a ocorrência do segundo.

A noção de variação biológica – e, em especial, a variação entendida como um ruído do desenvolvimento – contribuiu para esclarecer outra acepção de ‘indeterminação’: dizer que um evento é indeterminado pode também significar que este é um evento que varia.

A despeito de podermos empregar diferentes conceitos para expressar ‘indeterminismo’, parece haver uma idéia geral que perpassa as noções até aqui mencionadas. Em tese, dizer que um evento indetermina outro seria o mesmo que dizer que o primeiro evento não estabelece de maneira inequívoca a ocorrência do outro evento; ou ainda, que um evento estabelece uma multiplicidade de alternativas ou caminhos futuros.

Todavia, parece ser apressado dizer que essa idéia de fixação-ambígua é exclusiva do indeterminismo, pois o exame conceitual do determinismo mostrou que há certas concepções de determinismo compatíveis com essa noção. É o caso, por exemplo, do determinismo lato de Bunge (1959/1963) que é caracterizado pela regularidade e produção genética, lembrando que a fixação não-ambígua de um evento por outro parece ser um aspecto definidor apenas do determinismo causal.

Nesse caso, parece que não encontramos na análise conceitual do indeterminismo uma expressão ou conceito capaz de expressar de maneira inequívoca a noção de indeterminismo, embora a idéia de fixação-ambígua pareça ser consistente com os conceitos usualmente empregados para expressar indeterminação. Esse quadro nos dá a impressão de que o sentido de ‘indeterminismo’ pode ser expresso por um conjunto de palavras e conceitos que mostra – como diria Wittgenstein (1953/1979, p. 39) – uma “semelhança de família”, mas que não são suficientes e necessários para captar o significado do termo. Parece haver uma disjunção de conjunções [(causalidade insuficiência) (causalidade probabilidade) (causalidade previsões probabilísticas) (relações funcionais não-causalidade) (propensão não-causalidade) (variação regularidades probabilísticas)...] que constitui uma trama aberta de combinações de conceitos que podem expressar ‘indeterminismo’.

Uma questão que foi levantada no decorrer da análise conceitual do indeterminismo é se as noções de múltiplas alternativas e probabilidade, por exemplo, não passam de um paliativo à ignorância dos determinantes dos fenômenos. A resposta a essa questão nos encaminha para uma discussão do indeterminismo ontológico, que cumpre agora investigarmos.