4. Methodology
4.2. Variables and model specification
4.2.2. Model specification and expectations when examining emissions
Bertolt Brecht (Augsburg, 10 de Fevereiro de 1898 – Berlim, 14 de Agosto de 1956), foi um dos dramaturgos mais evidenciados da História do Teatro. Fundamentou o teatro épico, circunscrito na concepção marxista, acreditando que o teatro deveria colocar o espectador em uma relação crítica e transformadora. O espectador não deve se identificar com o personagem como no teatro aristotélico; ao contrário, deve ser colocado diante dos fatos para que exerça sua criticidade “Trata-se, como ele [Brecht] o disse, de levar o espectador a considerar os acontecimentos com um olho clínico e crítico” (DORT, 1980, p.211).
O texto Terror e misérias no Terceiro Reich foi escrito entre 1935 e 1938, no momento em que Brecht encontrava-se exilado na Dinamarca. O texto integra vinte e seis quadros/cenas que descrevem o terror instaurado pelo nazismo na Alemanha. O texto foi escrito a partir de notícias de jornal, cartas de amigos e de outros meios de comunicação. Os quadros-cenas apresentam as comunidades judaicas, as casas de operários, os trabalhadores socialistas, a juventude hitlerista e os campos de concentração. Nesse universo, Brecht conclama a consciência e criticidade sobre as atrocidades de uma sociedade mergulhada no terror.
Visando atingir aspectos específicos da dialética brechtiana em aprendizagens teatrais, escolhemos alguns quadros-cenas de Terror e misérias no Terceiro Reich. Ressaltamos, ainda, o desejo dos alunos pelo tema do nazismo que, naquele momento, integrava os conteúdos da área de ciências humanas.
Deste modo, o interesse, aliado a um sentimento de incredulidade sobre o nazismo, foi o mote gerador para a experimentação e, ao mesmo tempo, uma possibilidade de colocar os alunos em uma situação de aprendizagem brechtiana, isto é, como atuantes e observadores críticos.
Em sua tese de doutorado, intitulada A peça didática de Bertolt Brecht: um jogo de aprendizagem, Ingrid Koudela (1988) examina, sobretudo, a teoria e a prática das peças de aprendizagem em suas relações com jogos. Sobre o seu encontro com Brecht, Koudela afirma que:
[…] eu acho que fui ligada ao Brecht (a importância de Brecht no teatro moderno e no contemporâneo) desde o curso do ensino médio. Tínhamos a professora de Literatura que trabalhava as questões do teatro dramático e do teatro épico. Foi a primeira vez que eu vi aquele quadro (Teatro Dramático e Teatro Épico) […] quando eu fui fazer o meu doutorado eu quis saber o que estava acontecendo com o
Brecht na Alemanha. Fui ao Instituto Goethe e descobri que tinha um autor que falava sobre a peça didática. Escrevi para este autor – Reiner Steinweg – e ele me mandou o livro dele50. (informação verbal).51
As teorias sobre as peças didáticas trazidas por Koudela são campo fértil para pesquisadores e enfatizam o caráter de uma pedagogia dialética de ensino-aprendizagem, possibilitando examinar a realidade social ao assegurar o seu caráter político; constituindo-se, portanto, em uma metodologia de aprendizagem que se expande no âmbito da Pedagogia Teatral.
A pedagogia brechtiana se constitui como uma pedagogia ou educação política, na medida em que adere a um projeto histórico-filosófico e a uma teoria social. Por outro lado, o autor Brecht recebe estímulos práticos e teóricos na forma de realização de sua pedagogia – ou seja, do teatro, do campo dialógico-estético. (KOUDELA, 1992, p.12)
O termo Lehrstück (peça didática) e sua equivalência em inglês Learning Play, esquadrinhada pelo próprio Brecht, evidencia a relação com o “jogo” – Theaterpiel– pois as peças didáticas são, geralmente, recebidas como áridas e, portanto, o equívoco dessa acepção desconsidera o seu caráter lúdico. “O conceito e os textos oferecidos por Brecht constituem material para elucidar questões fundamentais de aprendizagem através do jogo teatral.” (KOUDELA, 1991, p.XXII).
Nas peças didáticas, o texto é adotado como pré-texto, sem, contudo, estabelecer ou fixar verdades. Assim, os jogadores têm liberdade para exercitar tanto a identificação quanto o questionamento do próprio texto, sem fixarem uma mensagem totalizante, já que a matéria dramatúrgica, ao ser jogada, possibilita a busca de significados e associações. Isto quer dizer que, nas peças didáticas, Brecht utiliza dois instrumentos: o “modelo de ação e o estranhamento” (KOUDELA, 1999, p.17), assegurando o caráter das peças de aprendizagem, compartilhando democraticamente a matéria textual e possibilitando o exercício crítico – em oposição à identificação do modelo dramático.
O modelo de ação pode ser tomado como “exercício artístico coletivo que tem por foco a investigação das relações dos homens entre os homens” ou como “texto que é objeto de imitação crítica” (Ibid., p.15). O estranhamento é a historicização, ou seja, a representação de pessoas no contexto histórico, em comportamentos transitórios, que vislumbra a construção de conhecimentos advindos do modelo de ação.
Sobre as questões de autoria nas peças didáticas, Koudela enfatiza que “O caráter épico dessa dramaturgia, que pode ser cortada com a tesoura, permite esse procedimento,
50
STEINWEG, Reiner. Das Lehrstück: Brechts Theorie einer politisch-ästhetischen Erziehung. Stutgard: Metzler, 1972.
sendo que às vezes pequenos fragmentos de algumas linhas constituem-se em modelos de ação”. (KOUDELA, 1999, p.19)
A não valorização da ilusão perfeita possibilita o desencadeamento da criticidade e estabelece uma das questões evidenciadas na estética brechtiana (que nos parece extremamente contemporânea): a recusa da imutabilidade da essência humana. Tudo está em transformação, justamente porque a condição humana está atrelada aos fatores sócio- históricos. O homem é, portanto, um ser histórico, transformável, em mutação constante.
O que fica evidenciado na estética brechtiana é o modo como se mostra pela “noção de Verfremdungseffekt (efeito de distanciação, de afastamento ou de estranheza) […] Brecht não opõe o actor à personagem, nem a sala ao palco. Propõe-lhe é um outro modo de compreensão, e, diremos nós, de colaboração.” (DORT, 1980, pp.210-211).
O teatro brechtiano não considera o indivíduo ou a sociedade isoladamente, mas, sim, as relações que os homens estabelecem entre si. Brecht não se interessa em reproduzir as relações humanas como no teatro aristotélico; ao contrário, ele quer “mostrar os comportamentos”. Não existe, portanto, uma maneira definitiva que desencadeie uma grande revelação, mas uma sucessão de formas, de contradições, que não param nunca de “nos revelar das mais diversas e complexas maneiras que podíamos imaginar” (Ibid., p. 209).
Embora não se insira no rol das peças didáticas, o texto Terror e misérias no Terceiro Reich pode se tomada isoladamente, pois é constituído por quadros independentes e, portanto, evidencia o caráter de experimento em aprendizagens teatrais, trabalhadas a partir dos fragmentos (quadros-cena). Além de uma visão crítica do texto, buscamos as experimentações de autoralidade no processo de criação e isso nos permitiu investigar o processo das relações humanas em um determinado contexto (campo de concentração) apresentado por Brecht (torturador do campo de concentração/torturado, torturador/comandante, médico nazista/paciente do campo de concentração etc.). Tomamos, portanto, fragmentos isolados de Terror e misérias no Terceiro Reich e o poema Aos que vão nascer, ambos de Bertolt Brecht, trabalhados independentemente do conjunto. Assim, nos valemos de fragmentos de uma obra dramática e de um poema; priorizando, no decorrer do processo, a multiplicidade de soluções para os respectivos fragmentos em suas relações com o jogo, em uma escrita cênica coletiva demonstrada pela autonomia e liberdade dos jogadores.