4. Methodology
4.1. Data
De mãos dadas, em círculo, percorremos uma trajetória nos espaços da escola, passando pelo pátio escolar no horário do intervalo entre as aulas. Caminhamos, paramos, silenciamos por diversas vezes até chegarmos novamente à sala 32.49. Ao final do segundo semestre, os alunos expressaram o desejo na realização de uma ação que fosse compartilhada com a comunidade escolar. Não seria, portanto, uma cena teatral realizada no auditório da E.A., ou ainda, o “resultado” de um processo de criação teatral. Deste modo, sublinhamos a coletividade, ou seja, a realização de uma ação que demonstrasse a importância das relações entre os jogadores. Assim, a discussão sobre “o que” fazer, pautados no “acordo de grupo”, constituiu-se como princípio gerador da ação teatral.
No sistema de Viola Spolin, o acordo de grupo é uma das pilastras:
Acordo de grupo não é conformismo com a tirania da maioria nem é a obediência cega a um líder. Pelo acordo de grupo os jogadores tem liberdade de escolha, que permite alternativas. Diferenças e similaridades são respeitadas. Ninguém é ridicularizado ao dar uma sugestão. Ninguém assume a decisão. Deferência de um pelo outro é exercida entre os jogadores. Todos têm o direito de participar na medida de sua capacidade. Todos recebem e assumem livremente responsabilidades por sua parte no todo. (SPOLIN, 2001, p.41)
Assim, a questão desafiadora de nossa ação consistia em manter o foco na própria ação, isto é, concentrar-se na caminhada em círculo, mantendo as mãos dadas e o ponto zero, isto é, manter a neutralidade para que pudessem sustentar a ação proposta, a saber: a solidificação nas relações de confiança entre os participantes, gerada a partir da convivência do grupo, em deslocamento pelos espaços da escola.
O ator em cena atua sempre em sua própria pessoa […] O objetivo do ator é transmitir suas idéias e sentimentos usando suas próprias emoções, sensações, instintos, sua experiência pessoal de vida, mostrando seus próprios traços, sempre os mais íntimos e secretos, sem ocultar nada. (JANUZELLI, 1986, p.12)
A ênfase no pertencimento estava no centro de nossas atenções. O fato de se colocarem em uma situação de “exposição” para a comunidade escolar exigia a noção de coletividade, de pertencimento. Sobre as questões de pertencimento e identidade, Bauman afirma:
Tornamo-nos conscientes de que o ‘pertencimento’ e a ‘identidade’ não têm a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e revogáveis, e de que as decisões que o próprio indivíduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age – e a determinação de se manter firme a tudo isso – são fatores cruciais tanto para o ‘pertencimento’ quanto para a ‘identidade’. (BAUMAN, 2005, p.17).
Sob tal perspectiva, os acordos trabalhados nos jogos corroboraram no percurso de um caminho traçado pelos jogadores dentro do espaço da escola. De mãos dadas, em círculo, percorremos uma trajetória nos espaços da escola, passando pelo pátio escolar no horário do intervalo entre as aulas. Caminhamos, paramos, silenciamos por diversas vezes até chegarmos novamente à sala 32.
A ação pautou-se, acima de tudo, pela noção de pertencimento, de coletividade e foi com esse comprometimento que aconteceram as gestualidades simbólicas dos jogadores, no espaço “cotidiano” da escola. Parafraseando Caballero (2010), seria essa uma prática cidadã? Uma situação criada nas fendas dos interstícios de uma determinada trama social, desenrolando-se em uma prática social, em um locus, que não é o das artes nem tampouco da realidade pura e, sim, do espaço cotidiano da escola – potencializado pelos jogadores?
As práticas cidadãs, conforme elucidação de Caballero (2010), situam-se em um campo expandido, em entrecruzamentos de formas artísticas, de posicionamentos éticos e políticos, para além do teatro, em uma revisão que passa pelas questões dos espaços, das dramaturgias em discursos oriundos da vida, dos imaginários das comunidades, implicando diretamente nas receptividades. Esses eventos criam espaços de encontros à margem de espaços institucionalizados, produzindo novas significações nos discursos cênicos e, acima de tudo, nos pertencimentos.
É certo que a ação teatral se restringiu ao próprio grupo, mas mesmo que os “espectadores” não fizessem parte do grupo, o compartilhamento de uma ação “fora” do contexto escolar foi importante tanto para os jogadores, quanto para a comunidade escolar. Nesse sentido, a arte pode nos colocar em situações extracotidianas, potencializando os espaços de convivência. Caballero observa que:
[…] as fendas liminares como situações criadas pelos interstícios dos campos de realidades, a noção de espaços potenciais como corpus intermeios resulta em uma metáfora que participa dessa condição liminar, sobretudo quando surte nas reflexões sobre os fenômenos da vida social que, sem serem constituídos como formas estéticas, tornam-se extracotidianos e poéticos pelo estranhamento de linguagem que apresentam e, ainda que emergindo como gestos no plano da vida social, no âmbito da práxis política, também constituem linguagem. (CABALLERO, 2010, p.146) Assim sendo, a metáfora do Círculo de mãos reverberou fortemente nas implicações do espaço da escola criando uma outra realidade, isto é, um espaço de interstício, distinto da vida cotidiana indicando outras maneiras de ordenar a realidade.
Os espaços de interstícios ou intermeios, como os nomeia Bourriaud (2009), sugerem outras possibilidades de troca além das vigentes no sistema. E é exatamente esta a natureza da exposição da arte contemporânea no campo do comércio das representações. Ela cria espaços livres, gera durações com um ritmo contrário ao das durações que ordenam a vida cotidiana, favorecendo um intercâmbio humano das ‘zonas de comunicação’ que não são impostas.
Esses espaços de relações humanas, de interstícios ou de intermeios, são lugares possíveis de reinvenção do cotidiano buscando diferentes significações para as relações entre os sujeitos. Por esse ângulo, as espacialidades da cena contemporânea que buscam as inter-relações e proximidades, distantes, portanto, de um teatro que ainda insiste em proteger o espaço da cena apartando o espectador dos acontecimentos da cena. (BOURRIAUD, 2009, pp.22-23)
Além de trabalhar nos interstícios, o caráter autobiográfico desse acontecimento nos reporta ao pesquisador e encenador Antônio Araújo, ao elucidar a encenação performativa.
A encenação contemporânea vem estabelecendo uma forte relação com a performance, sendo contaminada e reconfigurada por ela […] o caráter autobiográfico, não-representacional e não-narrativo, de contraponto à ilusão e baseado na intensificação da presença e do momento da ação, num acontecimento compartilhado entre artistas e espectadores – traços característicos da arte performática – vão orientar as sugeridas aproximações com o campo teatral. (ARAÚJO, 2008, p.253)
Considerando, evidentemente, o âmbito escolar, ainda assim podemos perceber as aproximações com o que foi sinalizado pelo autor, principalmente no que diz respeito ao caráter autobiográfico da ação, do não-representacional configurando-se em uma prática expandida para além da cena teatral. A metáfora do Círculo de mãos circunscreveu-se em uma prática cujo material cênico foi extraído das histórias das relações dos participantes “não
mediada por instâncias ficcionais” que, na elucidação de Araújo, configura-se como elemento fundante nas articulações com a encenação contemporânea.
Sob tal ótica, consideramos que o Círculo de Mãos, além de se instaurar em espaços de interstícios, de fazer uso de histórias pessoais e recusar o texto literário configura-se, pois, em uma experiência artística expandida e disseminada; sendo que as questões éticas sobrepuseram-se às estéticas, pois a ação refletiu a vivência de pertencimento entre alunos de um grupo-sala do 1º. ano do Ensino Médio da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.
Abaixo, excerto de protocolo de aluno:
Teatro é mais do que se tornar ‘artista da globo’, é você poder ser você mesmo, no momento que quiser, sem pensar em aprovações ou rejeições, todos somos iguais, seres humanos. No teatro, somos convidados a sair da rotina, de estereótipos que o mundo nos coloca todos os dias. Andei pesquisando sobre o que era o teatro. Encontrei esta definição: ‘O teatro é uma arte em que um ator ou conjunto de atores, interpreta uma história ou atividades para o público em um determinado lugar’. Discordo, pois a gente não interpreta apenas uma história ou atividade. No último encontro percebi que o teatro pode interpretar nós mesmos e mais do que uma história qualquer, a nossa história. Antes, eu tinha um estereótipo da aula de teatro, achei que teríamos um texto para decorar, e viríamos ensaiando para fazer uma apresentação no final do ano. Mas, como faríamos isso sem ter um entrosamento? Agora posso entender o porquê de algumas peças ficarem tão superficiais, de modo que o ator não consegue transpor para a plateia os sentimentos de sua personagem, pois não há o entrosamento com os demais atores, para que a apresentação fique o mais realista possível.