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2.   Background

2.2.   Literature  review

O sociólogo Eugène Enriquez nos alerta sobre a presença de um outro “si mesmo”, considerando, portanto, que a conquista da diversidade não pode ser pautada no desempenho de papeis, impossibilitando que sejamos dotados de interioridades. Do mesmo modo, pondera sobre a importância do reconhecimento do outro como uma responsabilidade atribuída aos sujeitos.

Reconhecer no outro um semelhante significa que cada um, como acredita Levinas, recebe do rosto do outro um chamado e se sente responsável por ele. O outro lhe aparece como um fragmento da humanidade inteira, e, consequentemente, se ele se sente e se quer parte da espécie humana, não pode permanecer surdo (ou cego), ao seu desamparo, quem sabe, ou, de todo modo, à sua existência. (ENRIQUEZ, 2004, p.51) Buscando uma analogia com as questões do grupo, evidenciamos a “desconsideração” no comportamento de vários jogadores que não consideravam o chamado do outro, permanecendo em uma postura evidenciada pela arrogância e individualismo, impedindo qualquer possibilidade de aproximação.

Necessitávamos, portanto, romper com o “passado”. Spolin, ao se referir ao jogo teatral Parte do todo, afirma que se constitui no fio condutor do sistema dos jogos teatrais, exigindo um esforço mútuo entre os jogadores para que possam efetivar rupturas com o passado, conjecturando novos comportamentos em suas relações.

O jogo teatral Parte do Todo é o fio condutor do processo de Jogos Teatrais. Tornar- se ou ser parte do todo procura um corpo único, por meio do qual jogadores atuantes, jogadores na platéia e a instrução são diretamente envolvidos, dando suporte uns aos outros […] Um jogador assim apoiado por muitos é livre para jogar e muitos jogadores podem dessa forma atuar como um só. O esforço e a ruptura daí

resultante (se atingido) são compartilhados igualmente por todos como parte de um todo. (SPOLIN, 2001, p.39)

A ruptura nas relações entre os jogadores era essencial, pois poderia tirá-los de comportamentos rotineiros como o isolamento, a manipulação e a violência, na tentativa de instaurar novos modos de relacionamento – transmitidos, principalmente, pelo reconhecimento do outro.

Nesse sentido, buscávamos pistas que colaborassem com o estabelecimento da capacidade de aceitação, dirimindo comportamentos defensivos e distorcidos pela necessidade de vencer, de sobrepujar o outro. Assim, ultrapassar as condutas enfastiosas, buscando a abertura para que os alunos pudessem experienciar a confiança em si e no outro, livrando-se de críticas e de medos, foi a maneira que encontramos para trabalhar as relações de pertencimento ao grupo.

As transformações nas relações entre os jogadores ocorrem na intensificação das “trocas de energia” decorrentes da intensidade física empregada nos jogos.

Podemos mudar, ser mudados e criar mudança. Impossível de ser captada plenamente por meio das palavras, as transformações parecem surgir do movimento físico intensificado e da troca dessa energia em movimento entre os jogadores. A partir da união dessa energia no espaço entre os jogadores nasce uma nova criação – a transformação. (SPOLIN, 2001, p.46)

Outro aspecto que julgamos importante para o pertencimento reporta-se diretamente à escuta dos jogadores, podendo gerar uma cumplicidade e uma disponibilidade nos espaços de jogos, relacionando-se diretamente à capacidade de jogar (RYNGAERT, 2009). A capacidade de jogo não é a apreensão de técnicas no sentido mais tradicional e, sim, a conscientização dos jogadores, evidenciadas em exercícios específicos, mantendo o caráter de ludicidade. Diferentemente do “sistematismo”, a experiência no jogo possibilita a abertura e a escuta para as relações com o mundo, em uma conexão do interior com o exterior.

O espírito de jogo, por sua vez consiste em considerar toda nova experiência como positiva, quaisquer que sejam os riscos a que ela nos expõe. Ele é contrário ao sistematismo, já que espera soluções oriundas de experiências vividas num espaço intermediário que abrange também o campo cultural. O jogador é aquele que experimenta, multiplicando suas relações com o mundo. (Ibid., p.61)

E ainda:

Um grupo que não se conhece e não sabe nada sobre as atividades que o esperam, naturalmente tem a necessidade de ganhar segurança. A aplicação de um programa pré-estabelecido nem sempre é a melhor maneira de atender à demanda dos jogadores. (RYNGAERT, 2009, p.78)

Do mesmo modo, podemos considerar as fundamentações de Spolin, ao sereferir sobre as relações de aprovação e desaprovação no grupo. A autora enfatiza a necessidade de “estar livre”, de ser parte do mundo que nos rodeia, do contato direto com o ambiente que nos circunda.

Muito poucos de nós são capazes de estabelecer esse contato direto com a realidade. Nosso mais simples movimento em relação ao ambiente é interrompido pela necessidade de comentário ou interpretação favorável por uma autoridade estabelecida […] Numa cultura onde a aprovação/desaprovação tornou-se o regular predominante dos esforços e da posição, e frequentemente o substituto do amor, nossas liberdades pessoais são dissipadas. (SPOLIN, 1982, p.6).

Sob tal perspectiva, os jogos que trabalharam a integração do grupo possibilitaram exercitar as funções de jogador-ator e jogador-espectador, diretamente envolvidos com o problema cênico. O trabalho coletivo agencia relacionamento intenso dos participantes, que poderá ser dúbio no início dos jogos, pois, ao mesmo tempo que o aluno se sente seguro no grupo, de outra feita, sente-se ameaçado. Nesse sentido, os esforços foram direcionados para a seleção de jogos e situações de improviso que pudessem atender às especificidades do grupo. Destarte, os jogos de integração foram priorizados e adaptados nesta fase, buscando fundamentalmente o compartilhamento dos jogadores na área de jogo47:“O jogo é um recurso contra condutas rotineiras, ideias preconcebidas, respostas prontas para situações novas ou medos antigos” (RYNGAERT, 2009, p.60).