Cronologicamente, o primeiro modo de representação foi o expositivo, que tinha como premissa mostrar o mundo de uma forma explicativa e até didática. O uso de uma voz over6 é um fundamento do modo de representação expositivo e este modo tornou-se uma opção clássica, típica de uma narrativa que não quer chamar a atenção para os seus procedimentos, para a sua linguagem, e sim para o conteúdo. Modo fundador da expressão documental, o modo expositivo tem um caráter centralizador do conhecimento exposto e busca apontar, de cima para baixo, quais os caminhos argumentativos válidos para a compreensão de um fato ou situação apresentados.
Assim como na ficção, as características dos documentários do estilo
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Tais elementos estão sendo considerados como os descreve Marcel Martin no livro A Linguagem Cinematográfica (MARTIN, 2003).
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A voz que não está presente no universo do filme, a voz que não está na diegese do filme, seja em um documentário ou um filme ficcional.
Clássico, da voz expositiva, estão relacionadas ao padrão do romance burguês do século XIX e de sua lógica de informação simples e plena, sem contradições. Para a ficção clássica é fundamental o modelo de construção narrativa e as características de linguagem que remetam ao naturalismo e à transparência (XAVIER, 1984). Sobre a ficção clássica hollywoodiana, mas cabendo um paralelo com o documentário clássico, no sentido de tornar a construção fílmica invisível, David Bordwell afirma: “A ‘invisibilidade’ do estilo clássico hollywoodiano resulta não apenas de dispositivos estilísticos altamente codificados, mas também de suas funções codificadas no contexto do filme.” (BORDWELL, 2005, p. 293)
Quando John Grierson começou a refletir sobre o filme Moana (Robert Flaherty, 1926) era esse arcabouço teórico, mesmo que ainda no período do cinema mudo, que o norteava. Manuela Penafria, ao falar sobre o documentarismo clássico diz que:
Este documentário é o concebido por Grierson e pelos seus seguidores, ou seja, pela sua escola. A característica essencial deste tipo de filme é a utilização de um texto apresentado através da voz em off de um narrador. Este, apesar de estar ausente da imagem, torna-se presente pela sua voz onipotente. Compete à locução fornecer uma explicação para as imagens que se vêem no ecrã. Essas imagens são a evidência irrefutável da argumentação aduzida pela voz do narrador, mesmo quando se usa a reconstrução, a qual é permitida desde que sincera e justificável. (1999, p.59)
Penafria enfatiza que este tipo de documentário, assim como a ficção clássica, utiliza uma técnica específica, a da voz em off7 para transmitir uma história; a construção espacial e temporal, citadas por Bordwell, também estão implícitas pelo caráter onipresente do narrador; e, se na ficção há um número de dispositivos técnicos específicos organizados em um paradigma estável, no documentário clássico estes são ainda mais restritos pela necessidade da formulação baseada em uma narração em voz over, ou de legendas que façam o papel da narração em voz over, algo comum principalmente no período anterior ao surgimento do som sincrônico no cinema. Essa voz over tornou-se também muito comum nos documentários televisivos, onde, por falta de indexação, torna- se ainda mais imperativa.
7 Vale ressaltar que o que a autora Manuela Penafria está chamando de “voz em off” é,
mais comumente, conhecido como voz over, ou seja, a voz que não está presente no universo do filme, a voz que não está na diegese do filme.
O comentário over é, portanto, um veredicto e, como tal, não pode ser contestado. Por estar fora de campo, num espaço e num tempo que ninguém pode localizar (e, portanto, ninguém pode criticar), o comentário over se impõe como uma autoridade incontestável sobre os espectadores, de tal forma que o seu arbítrio, mascarado no anonimato do “serviço público” da televisão, soa como um juízo que nos supera e nos esmaga.” (MACHADO; VÉLEZ, 2005:26)
O estilo clássico do documentário, e seu modo expositivo de representar, tem ainda a característica predominante de ter trabalhado, em seu período áureo – da década de 1930 a década de 1950 – com um olhar para o exótico, na busca de ambientes e histórias que fossem atrativos justamente por suas diferenças com o modo de vida dos países que produziam os filmes. Este conceito de exótico tinha como ponto central opositor a sociedade ocidental norte-americana e eurocêntrica.
Assim, quando Robert Flaherty expôs suas ideias sobre os esquimós em Nanook do Norte (Robert Flaherty, 1922), filme que “é o resultado de dez anos de contatos do explorador norte-americano” (DA-RIN, 2004:45), ou quando procura mostrar a vida tradicional moradores das Ilhas Aran (DA-RIN, 2004:52) em Man of Aran (Robert Flaherty, 1934), estava procurando expor, de forma didática, como é exótica a vida das pessoas que não seguem o mesmo modo de vida dele e de seu público. Claro, essa não é característica apenas dos filmes de Flaherty, mas de toda a Escola Britânica do documentarismo clássico, coordenada por John Grierson, assim como dos filmes patrocinados pela política do New Deal nos Estados Unidos, e mesmo filmes como Rituais e Festas Bororo (Major Luiz Thomaz Reis, 1917), ou ainda os inúmeros documentários feitos pelo INCE (Instituto Nacional de Cinema Educativo) no Brasil. Todos eles trabalham na perspectiva de um realizador centralizado que mostra o exótico em outros povos, outros lugares, ou outras culturas.
Este modo agrupa fragmentos do mundo histórico numa estrutura mais retórica ou argumentativa do que estética ou poética. O modo expositivo dirige-se ao espectador diretamente, com legendas ou vozes que propõem uma perspectiva, expõem um argumento ou recontam a história. Os filmes desse modo adotam o comentário com voz de Deus (o orador é ouvido, mas jamais visto), (...), ou utilizam o comentário com voz da autoridade (o orador é ouvido e também visto).... (Nichols, 2005: 142)
A perspectiva ética desse tipo de documentário é a de que o realizador, ou os produtores, conhecem a realidade a ser representada no filme e, portanto, vão
organizar o discurso para que sejam bem compreendidos nas informações que vão passar e nas interpretações que têm sobre determinado tema ou assunto. Tal perspectiva acaba por enfatizar o uso de informações verbais, normalmente através da voz over, que organiza as informações, e estas, por sua vez, são corroboradas por imagens ou ilustrações sobre o tema tratado.
Esse modo de representação foi muito questionado por outros que vieram posteriormente, como os modos observativo e reflexivo, justamente por sua postura ética. As críticas eram para a opção pela voz over e seu aspecto centralizador e didático, que funcionaria como uma voz de Deus (NICHOLS, 2005b:48) diante dos espectadores. E, ainda, criticava-se o caráter predominantemente ilustrativo das imagens, que deixariam de ser um fundamento da narrativa audiovisual para agir apenas como um elemento de confirmação. Ambas, voz over e imagens ilustrativas, tornariam os documentários excessivamente didáticos e com um poder de direcionamento muito grande em suas asserções sobre o mundo.
O documentário expositivo é o modo ideal para transmitir informações ou mobilizar apoio dentro de uma estrutura preexistente ao filme. Nesse caso, o filme aumenta nossa reserva de conhecimento, mas não desafia ou subverte as categorias que organizam esse conhecimento. O bom senso constitui a base perfeita para esse tipo de representação do mundo, já que está, como a retórica, menos sujeito à lógica do que à crença. (NICHOLS, 2005: 144-145)
Fernão Pessoa Ramos diz que o modo expositivo tem “a ética da missão educativa” (RAMOS, 2005, p. 168).