5.2 Rational evidence assessment
5.2.6 Minimizing costs
A gestão do então prefeito Pedro Ernesto teve um papel decisivo na organização e na formalização do Carnaval carioca. Em 1931, ano da inauguração do Cristo Redentor, a cidade do Rio tinha se voltado para o turismo internacional. E, no ano seguinte, muitas modificações seriam incorporadas à festa, e a prefeitura faria uma associação o Touring Club. Como parte da oficialização que o prefeito pretendia promover à folia, uma das mais importantes foi a criação da Comissão Executiva de Festejos, que passara a assumir a coordenação do Carnaval. A ideia era dar uma feição totalmente internacional ao grande evento e transformá-lo em uma atividade geradora de riqueza e renda para a cidade35.
Naquele mesmo ano, um programa oficial foi organizado e determinava o dia de desfile das diferentes atividades: havia o Dia dos Blocos, do Banho de Mar à Fantasia, do Corso de Automóveis, da Batalha de Flores e de Confetes. Essa última era realizada em Copacabana, pelos clubes Atlântico e Praia, e por um jornal semanário chamado Beira Mar36, um dos mais importantes da época, no bairro que
começava a ser o lugar de uma nova elite carioca.
[...] o “distante areal” chegava à década de 1920 sob os inabaláveis signos do luxo e da modernidade, ganhando um perfil de contornos já bastante singulares nos mapas subjetivos do habitante carioca. Cabe, portanto, resgatar os sentidos pelos quais Copacabana passou a ser pauta recorrente na imprensa e no imaginário dos moradores da capital para, a partir daí, compreender os caminhos da consolidação daquela incipiente [...] “aristocracia moderna” como segmento majoritariamente associado à vida naquele arrabalde. (O’DONNELL, 2013, p. 83, grifo nosso).
Ainda no ano de 1932, também seria criado um grande baile oficial para o Rio de Janeiro, que ocuparia a mais nobre sala de espetáculos da cidade, o Teatro Municipal, que passou a reunir a nata da sociedade carioca, em seus salões ricamente
35 Até hoje o Carnaval está na esfera da Secretaria do Turismo, controlado pela Riotur, que cuida da
organização, calendário e divulgação. Maior controle foi imposto aos blocos de rua a partir de 2009, com as normatizações criadas pelo prefeito Eduardo Paes (2005-08 e 2009-2012).
36 O Beira Mar começou a circular em 1922 e ao longo de seus 22 anos “buscou fazer jus ao
programa a que se propusera desde o seu primeiro número: lançar-se como órgão de defesa dos interesses dos moradores do bairro Copacabana, Ipanema e Leme. [...] Seu investimento declarado era, portanto, na articulação e divulgação da imagem de distinção e elegância com a qual aquela região já passava a ser referida nos maiores jornais da capital”. (O’DONNELL, 2013, p. 84-92).
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decorados. O Baile do Municipal37 acabaria por contribuir para o fim do corso, que pouco a pouco vinha ficando mais longe da elite, já que o baile reservava de novo um espaço de diversão dedicado a esse grupo social.
Figura 18 - Banhos de mar à fantasia, Copacabana, 1930.
Fonte: Revista Careta, Biblioteca Nacional
Ferreira (2004, p. 322) aponta que o alcance do projeto carnavalesco de Pedro Ernesto foi enorme, criando bases sólidas para o novo caminho a ser trilhado daí por diante pela festa. Havia vários agentes envolvidos, que davam a sustentação necessária para os diversos grupos, com diferentes investimentos. O Touring Club, filiado a organismos internacionais de turismo, a Rhodia38, empresa que patrocinava as comemorações, os hotéis, as empresas jornalísticas e figuras influentes da sociedade. Todos os tipos de diversão carnavalesca, inclusive os mais populares, eram contemplados com investimentos, e novos ranchos e blocos já nasciam dentro das regras.
Pode-se ter uma melhor compreensão de cada tipo de manifestação carnavalesca no século XX a partir do seguinte resumo:
37 Foi realizado de 1932 a 1975 e seria uma espécie de coroamento de uma longa linhagem de bailes
que começou na década de 1840, um século antes, por todo o Brasil. A festa, elegante e sofisticada, marcava uma aliança entre o poder público e a elite da capital brasileira, e indicava que a festa carnavalesca não pertencia somente ao povo.
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a) Sociedades: representavam o carnaval mais oficial, burguês, com desfiles compostos de vários carros alegóricos, temáticos e ricamente decorados, que vinham repletos de homens e mulheres fantasiados, organizados em alas. Essa estrutura de desfiles seria adotada depois pelas escolas de samba;
b) Cordões: eram vistos como depositários das expressões da cultura negra, seus desfiles incorporavam várias características dos antigos cucumbis, como instrumentos, ritmos, forma processional, fantasias e elementos alegóricos. Como estes, desfilavam ao som de batuques, com instrumentos de percussão. Muitas vezes a música cantada pelos componentes era o samba, mas na maioria das vezes algo mais próximo do maxixe. Eram tidos como as manifestações mais populares e das classes mais baixas;
c) Ranchos: o que se chamou de ranchos foi produto de diálogos culturais mediados pelas ruas, em que a presença das culturas negras também era muito forte, porém “suavizadas” pelos códigos da folia burguesa das grandes sociedades. Ritualmente, eram mais complexos que os cordões. Traziam uma maior organização e exigiam mais investimentos, já que desfilavam com enredos, geralmente temas “eruditos” e “educativos”, fantasias e alegorias, e grupos musicais que incluíam instrumentos de sopros e vozes femininas. A orquestra não é apenas de instrumentos de percussão, e incorpora cordas e metais, trocando assim o ritmo de suas músicas pela marcha-rancho;
d) Corsos: o ir e vir de automóveis cujos ocupantes lançam serpentinas e confetes uns nos outros. Eram os desfiles da elite, que saía fantasiada em carros ricamente ornamentados, em uma espécie de cortejo pelas ruas da cidade. e) Blocos: são uma espécie de simplificação informal e improvisada das
manifestações carnavalescas, apresentando-se com ou sem fantasias, em pequenos grupos de componentes, e sem nenhum enredo. Geralmente nascem de grupos de amigos, moradores de uma mesma rua ou de trabalho. Nos blocos, o número de foliões vai crescendo enquanto o bloco segue pelas ruas, os instrumentos vão surgindo e se juntando. Há blocos do tipo mais organizados até os totalmente desorganizados;
f) Blocos de sujo: é a versão mais informal e desorganizada, livre e democrática, dos blocos, caracterizados por grupos de pessoas que saem às ruas fantasiadas e que vão se juntando espontaneamente pelo caminho. Aderem a esses grupos instrumentistas, músicos e foliões que entram em saem da brincadeira.
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