• No results found

Abductive reasoning and actual evidence assessment

In document Rational Antitrust Analysis (sider 196-200)

5.3 Actual evidence assessment in antitrust

5.3.2 Abductive reasoning and actual evidence assessment

A Banda de Ipanema foi uma das três iniciativas carnavalescas de resistência no Rio de Janeiro entre 1964 e 1984 que destaco nesse trabalho. As outras duas seriam o bloco Charme da Simpatia, de 1975, e o Clube do Samba, de 1979, e podemos considerar os três precursores daquilo que mais tarde viria a ser a retomada do Carnaval de rua.

São manifestações carnavalescas importantes, mas ainda não num sentido de um movimento. Os três blocos acontecem de forma isolada, sem vinculação uns com os outros, e com uma distância temporal entre eles. Junta-se a isso o fato de que os três não compartilham as mesmas características, como os blocos que surgem a partir de 1985, que têm um perfil semelhante. A Banda de Ipanema, como o nome diz, era banda, com músicos profissionais, instrumentos de sopro, músicas de repertório variado; o Charme da Simpatia, praticamente um bloco de sujo, anárquico, não territorializado, sem grupo musical, sem estrutura formalizada, sem local e data de desfile; e o Clube do Samba, o mais próximo do modelo dos atuais blocos de rua, mas que durante muitos anos, por diversas razões, decidiu impor restrições de acesso aos foliões com uso de cordas para delimitar áreas reservadas.

Esses três blocos são apresentados a seguir de forma breve, pois serão abordados novamente nos capítulos seguintes das agremiações com as quais tiveram uma maior ligação.

78

3.2.1 Banda de Ipanema

A Banda de Ipanema foi criada no ano seguinte ao golpe militar por um grupo de amigos, artistas, intelectuais, músicos e jornalistas, em um difícil momento do país. Entre seus fundadores estavam os irmãos Albino e Claudio Pinheiro, o publicitário e artista plástico Ferdy Carneiro, os jornalistas Darwin Brandão49 e Sergio Cabral, o fotógrafo Paulo Góes, o poeta Ferreira Gullar, o ator Hugo Bidê, o cineasta Paulo César Sarraceni, o boêmio ipanemense Roniquito e o jornalista e cartunista Ziraldo.

Figura 26: Banda de Ipanema - Hermínio Bello de Carvalho, Jaguar, Ziraldo e Sérgio Cabral

Fonte: Sampaio, 2016. Foto de Sandra de Souza. Herminio Bello de Carvalho (de chapéu preto), Jaguar, Ziraldo e Sergio Cabral, no desfile de 1990.

Os amigos eram frequentadores dos bares de Ipanema, boêmios, haviam conhecido juntos, em uma viagem à cidade minera de Ubá, uma tradição carnavalesca que se chamava “Phylarmônica Em Boca Dura”,que desfilava espontaneamente nas ruas locais. Claudio Pinheiro, presidente da Banda de Ipanema desde a morte do irmão Albino (era o famoso “general da Banda”), conta que a Phylarmônica “desfilava pelas ruas da cidade, com seus integrantes cada um tocando, se assim se poderia dizer, um instrumento musical. O som resultante, nulo em harmonia, era forte o suficiente para [...] tornar-se hilariante. Um desfile contagiante para todos” (FERREIRA, 2004, p.366).

49 Pai de Henrique e Dodô Brandão, que participarão da fundação do Simpatia é Quase Amor em

1984.

79

Figura 27: Albino Pinheiro na Banda de Ipanema.

Fonte: Site da Banda de Ipanema.

Inspirados no sucesso daquela brincadeira em Ubá, reuniram cerca de trinta amigos, pegaram instrumentos e partiram para a Praça General Osório, em Ipanema. Desde o início a Banda foi um sucesso, e logo precisou contratar músicos profissionais porque reunia um público cada vez maior. A Banda de Ipanema ficou famosa de imediato, e contou com a adesão de pessoas importantes como a atriz Leila Diniz, que se tornou rainha da agremiação. Desde o começo, haveria em torno da Banda um grupo de importantes intelectuais, como os jornalistas do Pasquim50, Ziraldo, Jaguar,

Millôr e outros mais, o que lhe conferiria bastante popularidade. Ferreira (2004) chama a atenção para a importância da Banda:

A Banda de Ipanema lançou uma moda que tomaria conta do país. A partir de então, a turma mais intelectual passava a se interessar pela festa carnavalesca mais espontânea, numa espécie de resposta à oficialização da folia. Resultado: em pouco tempo várias bandas surgiram no Rio de Janeiro, e no Brasil, numa espécie de onda que carregaria multidões. (FERREIRA, 2004, p.366. grifo do autor).

Vinte anos depois, a Banda de Ipanema influenciará um bloco novo criado em Ipanema, o Simpatia é Quase Amor, como veremos no capítulo 3, que trata do bloco amarelo e lilás.

50 Jornal alternativo criado em 1969, que seria um veículo importante de disseminação da

contracultura nos anos da ditadura.

80

Figura 28: Leila Diniz na Banda de Ipanema

Fonte: Guimarães, 2016. Autor desconhecido.

3.2.2 Charme da Simpatia

Outro precursor desse período foi um bloco chamado “Charme da Simpatia”51, criado em 1975, mas que não durou muito tempo. O Charme havia surgido do movimento de poesia marginal52 Nuvem Cigana, e muito da sua identidade influenciou o Suvaco do Cristo onze anos depois. A historiadora Lucia Lippi Oliveira (2002) escreve que os anos 1970 haviam sido marcados pela diversidade e fragmentação de tendências estéticas e culturais, e é nesse período que a poesia marginal ou da

51 Documentário disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=20YVjIwIJcE>. Acesso em: 4 jun.

2016.

52Segundo Heloisa Buarque de Hollanda: “O que hoje é conhecido como poesia marginal pode ser

definido como um acontecimento cultural que, por volta de 1972-1973, teve um impacto significativo no ambiente de medo e no vazio cultural, promovidos pela censura e pela violência da repressão militar que dominava o país naquela época, conseguindo reunir, em torno da poesia, um grande público jovem, até então ligado mais à música, ao cinema, shows e cartoons. Historicamente, os primeiros sinais editoriais da poesia marginal foram os folhetos mimeografados Travessa Bertalha de Charles Peixoto e Muito Prazer de Chacal, ambos de 1971. Duas outras publicações também marcaram as fronteiras desse novo território literário. São elas: Me Segura qu’eu vou dar um troço de Waly Salomão (1972) e a edição póstuma de Últimos Dias de Paupéria, de Torquato Neto, (1972). Em 1973, a poesia marginal já aparece como categoria poética nos encontros Expoesia I, na PUC RJ e Expoesia II em Curitiba. No ano seguinte, o evento PoemAção, três dias de mostras e debates, no MAM RJ, com grande afluência de público, comprovou a presença literária dos marginais na cena poética da época”. A poesia marginal também ficou conhecida pela expressão Geração Mimeógrafo. (HOLLANDA, [2016?]).

81

“geração mimeógrafo” se desenvolve. É o mesmo tempo em que a prosa de ficção passa a falar da alienação das metrópoles, quando surge a imprensa alternativa – com jornais como Movimento, Opinião e Pasquim. Oliveira afirma que, em geral, as manifestações estéticas que não se identificavam com o status quo passaram a receber então a denominação de “marginais”.

Novo, popular e marginal são assim conceitos que nos ajudam a entender o campo cultural e a diversidade e riqueza de suas manifestações no Brasil dos anos 50, 60 e 70 da segunda metade do século XX. Até então, o samba e o carnaval tinham sido exemplos da construção de uma cultura popular nacional. Especialmente a partir dos anos 1970, contudo, consolidou-se uma “cultura popular internacional”, voltada para as grandes massas e veiculada pela TV. Foi nesse período que outras expressões artísticas como o Rock Brasil, o funk e o axé music começaram a fazer sucesso. (OLIVEIRA, 2002, p. 364).

Faziam parte do Nuvem Cigana e do Charme da Simpatia os poetas Bernardo Vilhena, Claudio Lobato e Chacal, entre outros. A Nuvem Cigana era “uma rapaziada, um time de pelada, um bloco de Carnaval”, como descreve Claudio Lobato, autor do documentário “As Incríveis Artimanhas da Nuvem Cigana”, em uma entrevista para a Folha de São Paulo (ANGIOLILLO, 2014):

[Era] Uma irmandade que comungava uma força vital no prazer, na batalha pela sobrevivência e na resistência contra a contrariedade. [...] A carnavalização surge como uma espécie de defesa, de blindagem contra a truculência oficial. Como [naquela época] uma reunião de mais de cinco era vista como subversiva, jogava-se “pelada”. Era subversivo se manifestar nas ruas, botar um bloco na rua. Hoje a truculência aparece manipulada, encobrindo o que precisa ser manifesto. (ANGIOLILLO, 2014).

82

Figura 29: Charme da Simpatia - desfile – 1976.

Fonte: Acervo pessoal

3.2.3 Clube do Samba

O Clube do Samba, bloco que saiu pela primeira vez em 1979, teve origem em uma roda de samba criada no quintal da casa do cantor e compositor João Nogueira, no Méier, na Zona Norte do Rio. A roda do Clube do Samba, surgira quatro anos do bloco, e tinha virado uma importante instituição de resistência cultural, ponto de encontro de músicos e de intelectuais.

Criar em 1975 um lugar onde os sambistas e músicos de todas as vertentes pudessem se encontrar para cantar, dançar, discutir sobre vários assuntos era uma ideia no mínimo ousada. Mas o Clube do Samba foi muito mais do que isso. Surgido em meio à ditadura militar, mais do que um ponto de encontro, o clube abrigou ideias, fortaleceu a classe artística e tornou-se um dos mais belos quilombos de resistência cultural num momento crucial da nossa história. (PIMENTEL, 2002, p. 52.)

O Clube do Samba teve importante papel na cena cultural carioca do período e influenciou o Bloco do Barbas, que nasce do bar homônimo fundado em Botafogo, na década seguinte. Os mesmos sambistas, músicos, jornalistas e intelectuais que participam das rodas do Clube do Samba, como também dos desfiles do bloco na Avenida Rio Branco, vão fazer parte do bar e bloco do Barbas, quatro anos depois.

Figura SEQ Figura \* ARABIC 6 - João Nogueira com o cantor Peri Ribeiro e outros integrantes do Clube do Samba - Foto: Acervo do bloco.

Figura SEQ Figura \* ARABIC 7 - João Nogueira com o cantor Peri Ribeiro e outros integrantes da diretoria do Clube do Samba

Figura SEQ Figura \* ARABIC 5 - Elizeth Cardoso e João Nogueira - desfile do Clube do Samba - 1980 - Av. Rio Branco – Foto Paulo Moreira – Agência O Globo

83

Figura 30: João Nogueira com Peri Ribeiro e outros integrantes do Clube do Samba

Fonte: Acervo Ângela Nogueira/Clube do Samba

Figura 31: Elizeth Cardoso e João Nogueira - desfile do Clube do Samba – 1980

Fonte: Paulo Moreira – Agência O Globo

In document Rational Antitrust Analysis (sider 196-200)