A realidade dos meios de comunicação digitais nos alerta para a emergência, cada vez mais proeminente, da virtualização, que é uma das principais essências das atuais transformações tecnológicas. A virtualização em si não é neutra e muito menos boa ou má. Trata-se antes de um aspecto importante da comunicação digital com conseqüências importantes no campo religioso.
Vale lembrar que se o digital potencializa a virtualização da sociedade, a virtualização em si é um processo tão antigo quanto o homem. Lévy (1999), a esse respeito, articula o conceito de virtualização a partir da perspectiva de que ela sempre fez parte da construção histórica do homem. Por exemplo, o texto, que desde suas origens já é um objeto virtual independente de seu suporte físico. O que o digital introduz, como alerta Perniola (2009), é a exigência de uma reflexão profunda sobre a noção de virtual, justamente devido ao aprofundamento radical desse processo.
Rejeitamos aquela comum interpretação do conceito de virtual que o considera algo que se contrapõe ao real, isto é, uma simulação, uma reprodução comunicativa da realidade, algo que não existe, algo que lembra o real. Essa corrente interpretativa do virtual, ao denominar o ambiente em rede como ambiente virtual, não só o contrapõe com uma suposta realidade, como atribui um valor inferior e muitas vezes negativo a tal ambiente.
A célebre interpretação de J. Baudrillard (2005) representa bem esse modelo teórico de interpretação do virtual. Baudrillard usa a metáfora do simulacro se referindo sobretudo as mídias comunicativas. Esse simulacro substitui o real de tal sorte que o real (original) é substituído pela representação, pela cópia. Trocamos as imagens pelo real. O simulacro, como sentenciava J. Baudrillard, não nos remete a real nenhum, a multiplicação das imagens leva a uma imagem que não faz referência a qualquer real. Perdemos a relação de identidade entre original e cópia, ou seja, é a total negação do real, a total alienação. É como que se o corpo, o trabalho e a cultura perdessem suas funções originais. Tudo perde o referencial:
96 O sistema social produz somente seres mentalmente clonados [...] Já é quase impossível distinguir o comportamento propriamente humano de sua projeção na tela, de seu duplo em imagem e de suas próteses informáticas [...] E a realidade virtual no seu conjunto não é uma imensa clonagem técnica do mundo dito real?‖ (BAUDRILLARD, 2005, p. 156, 157).
A virtualidade para Baudrillard, significa a aparência do mundo, a sombra da caverna, a separação do mundo exterior, uma película de vidro que simula a realidade. Baudrillard representa toda uma corrente crítica do virtual, que, como destaca Perniola (2005, p.47), interpreta o virtual “...como um enésimo engano, como uma evasão, que se subtrai ao peso, às responsabilidades e os perigos do presente, projetando-nos num mundo fluido e desencarnado”.
Rejeitando essa perspectiva, preferimos entender o virtual não como a negação do real e sim como um conceito mais próximo ao desenvolvido por autores como Pierre Levy e principalmente ao desenvolvido pelo filosofo italiano Mario Perniola.
Lévy (1999) entende o virtual como real e rejeita a posição que identifica o virtual como falso, isto é, virtual para Lévy não é de modo algum um desaparecimento no ilusório, nem uma desmaterialização. Lévy entende que é melhor aproximar o virtual a uma dessubstanciação, não contrapondo o virtual com o real e sim com o atual. Esse segundo modelo teórico entende o virtual como uma ampliação do original: O virtual é superior ao original, é um real elevado a potência.
Para o autor, “... é virtual aquilo que existe em potência e não em ato...” (LÉVY,
1999, p.47). É nesse sentido que Lévy diferencia o atual do virtual, que não é uma contraposição, é sim um deslocamento, uma mutação de identidade.O que existe é uma diferença de temporalidade e não de essência. A cópia não é uma negação. A
virtualização indica um processo de transformação e, portanto, uma dinâmica, uma fluidez e um movimento.
Se o virtual é potência – tal qual uma semente é potencialmente uma árvore – encontra-se dessa forma antes da concretização efetiva ou formal. Diferentemente do senso comum o virtual não se opõe ao real, mas sim ao atual. O atual e o virtual são dois momentos da realidade, e, portanto, “É virtual toda entidade
97
desterritorializada, capaz de gerar diversas manifestações concretas em diferentes momentos e locais determinados, sem contudo estar ela mesma presa a um lugar ou tempo em particular”(LÉVY,1999, p.47).
É dessa forma que o virtual se torna algo em aberto, existindo sem estar presente, podendo suas atualizações assumirem inúmeras formas, nunca sendo totalmente determinadas. A informação digital tem essa característica, afinal ganha a forma determinada pela interação com o usuário, muitas vezes, uma forma única e inédita,
Um mundo virtual – considerado como um conjunto de códigos digitais – é um potencial de imagens, enquanto uma determinada cena, durante uma imersão no mundo virtual, atualiza esse potencial em um contexto particular de uso (LÉVY, 1999, p.49).
Entendemos que a interpretação de Levy é fértil trazendo elementos importantes para entender a nova realidade midiática e sua relação com a virtualização. Contudo, trata-se ainda de uma interpretação dualista, no sentido de contrapor dois elementos a partir de uma diferença temporal: o atual e o virtual.
Uma interpretação que foge aos dualismos e de diferenças temporais é aquela desenvolvida no projeto filosófico de Mario Perniola. Virtual para Perniola não são aqueles sinônimos que geralmente são associados a essa noção como potencial, possível, prático, etc. (2009, p.104). Virtual é acima de tudo o ingresso numa diferente dimensão: “A virtualidade não é uma simulação, uma imitação, uma mimese de realidade, mas o ingresso em outra dimensão, por assim dizer, ontologicamente diferente.” (PERNIOLA, 2005, p.47). A dimensão da virtualidade é a
aquela da disponibilidade, não se tratando de uma diferença temporal entre dois termos: “Diferentemente do que ocorre com o potencial e com o possível, que precedem o atual e o real, aqui o virtual segue o ato, conserva-o e preserva-o numa espécie de memória externa ao sujeito, mas presente, efetiva, disponível” (PERNIOLA, 2009, p.106)
Colabora no entendimento desse conceito de virtual a articulação da discussão em torno do conceito de imagem que Perniola (2000) empreende. Essa articulação nos fornece subsídios férteis para pensar o virtual no sentido do ingresso numa outra dimensão.
98
Para o filósofo italiano, o problema teórico fundamental da imagem é sua relação com o original. No esforço de compreensão dessa relação, Perniola retoma a postura histórica em relação às imagens sagradas, ou melhor, a batalha em torno das imagens. Historicamente, a relação com as imagens no contexto religioso ocupou duas posições antagônicas: os iconófilos e os iconoclastas.
Para os iconófilos a imagem representa o real, pois ganha contorno de original estabelecendo uma relação de representação legítima e autorizada, ou pelo menos uma relação de ligação metafísica. No limite, trata-se não de algo de novo em relação ao original, mas o próprio original. Já os iconoclastas buscam a pureza do conceito de Deus e do ser, ou seja, do original. Portanto, a imagem é a instância falsa que simula uma relação de correspondência, de legitimação que não existe, “... é um mero espetáculo, uma encenação sem valor antológico algum...” (PERNIOLA,
2000, p.130).
Essa disputa entre iconófilos e iconoclastas foi motivo de divisão entre católicos e protestantes no início da idade moderna e, para Perniola, é uma discussão que renasce contemporaneamente em relação à imagem social: ―Os iconófilos
contemporâneos são os realistas e os hiper-realistas dos meios de comunicação; os iconoclastas são os hiperfuturistas da autenticidade e da verdade alternativa.”
(PERNIOLA, 2000, p. 130).
Perniola – por acreditar que ambas as posições convergem “na pretensão metafísica
de estabelecer uma relação entre a imagem e o original; quer seja a relação de identidade [...], quer seja de diferença.” (PERNIOLA, 2000, p.133) – propõe pensar a
imagem contemporânea a partir da noção de simulacro desenvolvida por São Roberto Bellarmino na Itália do século XVI. Trata-se de uma nova posição em relação à iconofilia e a iconoclastia e é essa a idéia que nos permite interpretar o próprio conceito de virtual. Para Bellarmino, o simulacro é uma imagem que não possui protótipo, rompendo com a relação direta entre imagem e original sem cair numa desvalorização das imagens, afinal a imagem ―... não depende diretamente do
protótipo, mas é dotada de uma autonomia própria (per se) e de uma especificidade própria (proprie)” (PERNIOLA, 2000, p. 135). Trata-se de uma nova relação que dá
99
imagens não mais depende da realidade e da dignidade do protótipo metafísico, e sim de sua dimensão intrínseca, concreta, histórica” (PERNIOLA, 2000, p.136).
Sobre essa relação do simulacro que não é idêntico a nenhum original e ele mesmo não possui originalidade autônoma própria, recorremos ao exemplo que o próprio Perniola utiliza ao retomar a história de Roma e o trabalho de um artista de nome Mamúrio, que é autor de uma operação que dissolve o próprio conceito de verdadeiro ou falso. A história da arte de Mamúrio está ligada à história de uma cidade da antiga Roma assolada pela peste que para se proteger desse mal recebe dos céus um escudo de bronze. Contudo, a ordem dos deuses era que fossem replicadas onze cópias para não se identificar aquela que de fato veio do céu. Mamúrio fez onze réplicas tão perfeitas que de fato ninguém conseguiu identificar o original. Assim,
[...] a arte de Mamúrio não é portanto, uma criação original, independente e autônoma, nem a imitação falsificadora do modelo divino, mas uma repetição tão exata que anula o protótipo ao mesmo tempo que o preserva. A sua arte não se opõe ao que é dado pelos deuses, pela natureza, nem aceita um papel subordinado ou dependentes; ela se põe ao lado de tudo o que é oferecido, multiplicando-o, deslocando-o, introduzindo-o num trânsito do mesmo para o mesmo (PERINOLA, 2000, p.222).
O conceito de simulacro de Bellarmino, juntamente com o exemplo da arte de Mamúrio são elementos importantes para entender o virtual, portanto, como outra realidade, uma realidade autônoma, afinal a “essa virtualidade é atribuída uma plenitude e uma completa autossuficiência” (PERNIOLA, 2009, p.109). Percebe-se
que o virtual não é apenas uma expansão do real como interpreta Levy.
O conceito de virtual para Perniola não é representação, é antes a disponibilidade de uma plenitude que reduz a precariedade do real, afinal, o virtual “... faz passar o homem do período da representação para o da disponibilidade: as coisas virtuais estão constantemente a nossa disposição. Tudo é oferecido e essa oferta constitui exatamente a sua virtualidade” (PERNIOLA, 2005, p.48).
100