• No results found

3.1 Rytmikk

3.1.7 Kyuchek

A introdução e difusão dos meios elétricos e eletrônicos na metade do século XIX e por todo século XX, representou uma grande reconfiguração na ecologia das mídias e traz consigo um ciclo cultural que lhe é próprio. No limite, representou a passagem da cultura tipográfica para a cultura das mídias eletrônicas.

O contexto do advento dessas novas mídias foi o de uma grande virada tecnológica da revolução industrial, em pleno curso, e, conseqüentemente, se materializou no desenvolvimento de uma série de inovações – como o telégrafo, telefone, cinema, fonógrafo, fotografia, rádio e televisão – e significou um ciclo cultural que percebeu uma aceleração fenomenal na circulação de informações e no qual, enfim, se alcançou a instantaneidade da transmissão da mensagem.

As diferenças entre a cultura tipográfica e a elétrica e eletrônica são gritantes. Gilbert Seldes (1969 apud BALDINI, 1991, p.78) coloca que, enquanto a comunicação tipográfica exigia habilidade para leitura, o que determinava que o conteúdo fosse captado em pequenas doses, lentamente difundido e individualmente experimentado, processos relativamente baratos para os produtores, mas caros aos consumidores, a comunicação eletrônica das mídias de massa, por seu turno, não exige nenhuma educação, pode ser experimentada em companhia, pode ser captada em doses abundantes, tem um difusão rápida e, apesar de ter um custo altíssimo de produção, é extremamente conveniente ao consumidor.

Assim, percebe-se que a influência da mídia eletrônica foi fundamental no mundo ocidental, transformou o tempo e as características do entretenimento. Como lembra Baldini (1995), enquanto o mundo tipográfico era pautado pela lógica, pela história, pela objetividade, pela disciplina; o mundo da televisão, por outro lado, é impregnado de fantasia, intimidade, simultaneidade, gratificação imediata, sedução, estimulação sensorial da realidade e da rápida resposta emotiva, afinal, como lembra De Kerckhove(2009), a televisão, por exemplo, fala primeiro ao corpo e não a mente, como a tipografia.

72

Esse conjunto de transformações é interpretado pela corrente teórica influenciada por Walter Ong e Mcluhan como o reingresso da cultura numa nova fase oral, denominada por Ong como a oralidade secundária. Nessa nova oralidade o equilíbrio sensório do homem volta-se novamente ao senso auditivo, ou melhor, o divórcio entre palavra e imagem, provocado pela cultura tipográfica, é revertido, o equilíbrio sensório inclui novamente visão e som, imagem e música. É necessário observar que se trata de uma oralidade muito similar à primária, mas também muito diversa:

Ao mesmo tempo, com o telefone, o rádio, a televisão e diferentes tipos de registro sonoro, a tecnologia eletrônica levou-nos à era da oralidade secundária. Essa nova oralidade tem semelhanças notáveis com a antiga em sua mística participatória, em seu favorecimento de um sentido comunal, em sua concentração no momento presente e até mesmo em seu uso de formulas. Mas ela constitui fundamentalmente uma oralidade mais deliberada e autoconsciente, baseada permanentemente no uso da escrita e da impressão, que são essenciais para a manufatura e a operação do equipamento, assim como para seu uso. (ONG,1998,p.155)

Pode-se considerar a aldeia global como a metáfora síntese da revolução da tecnologia eletrônica aplicada à comunicação. Como escreve Ong(1998,p.55), “...a oralidade secundária dá sentido a grupos incomensuravelmente mais amplos do que os da cultura primária – a aldeia global de Mcluhan”. Essa amplitude da

ressignificada oralidade é, em parte, resultado da radicalidade da mensagem da luz elétrica, que causou uma mudança ao acabar com a sequencialidade dos processos, tornando-os simultâneos:

A mensagem da luz elétrica é como a mensagem da energia elétrica na industria: totalmente radical, difusa e descentralizada. Embora desligadas de seus usos, tanto a luz como a energia elétrica eliminam os fatores de tempo e espaço da associação humana, exatamente como o fazem o rádio, o telégrafo, o telefone e a televisão, criando a participação em profundidade. (MCLUHAN,2007,p.23)

A eletricidade e todo esse aparato de inovações tecnológicas que a acompanhou, deu origem ao advento dos “mass media”, isto é, o mundo e a sociedade das

73

número de mensagens, simultaneamente, a um grande número de pessoas, em locais demasiadamente distantes um do outro, se valendo de instrumentos que vão desde a rádio, até a televisão por satélite. Dessa forma, como destaca Abruzzese (2006,p.64):

O advento das linguagens audiovisuais marcava a possibilidade renovada para a civilização de massa simular a dimensão primária do habitar, da comunicação oral cit et nunc, do entretenimento face a face, do espetáculo ao vivo.

As conseqüências dessa nova cultura forjada a partir das transformações midiáticas, ou se preferirmos, dessa nova condição oral, são significativas: o surgimento de novos aparatos tecnológicos de registro e reprodução e das linguagens audiovisuais colocará em crise a centralidade do homem na cultura, exatamente contra a tendência tipográfica que o havia destacado.

Assim, por exemplo, se viver a história como um curso unitário dos eventos era uma experiência típica da idade de Gutenberg, tal experiência se torna problemática na cultura dos meios eletrônicos. Como lembra Vattimo (2007,p.XVI), para quem a história da cultura eletrônica é:

[...] a história da época em que tudo, mediante o uso dos novos meios de comunicação, principalmente a televisão, tende a nivelar-se no plano da contemporaneidade e da simultaneidade, produzindo também, assim, uma des-historicização da experiência.

Com a criação da televisão e sua difusão no pós-guerra, juntamente com as inovações anteriores como cinema e a rádio, ou seja, com a introdução de novos meios de armazenamento, gravação e transmissão das informações, a ecologia das mídias sofreu uma radical transformação de tal sorte que foi forjada uma nova galáxia da comunicação, que significou a crise do modelo ecológico da mídia baseado na tipografia: “O que a TV representou, antes de tudo, foi o fim da Galáxia de Guteberg, ou seja, de um sistema de comunicação essencialmente dominado pela mente tipográfica e pela ordem do alfabeto fonético.” (Castells, 2005, p.417)

Com essa nova galáxia da comunicação, como lembra Flusser (2008, p.15), ―O

74

enquanto plano, cena, contexto – como era na pré-história...”. Flusser nesse ponto

concorda com Abruzzese (2005) e Ong (1998) ao entender o momento das mídias eletrônicas como portador de características comuns às da oralidade primária, mas não como situações equivalentes: “... não se trata de retorno a situação pré- alfabética mas o avanço rumo a situação nova, pós-histórica, sucessora da história e da escrita” (Flusser,2008,p.25).