A análise dos anteriores paradigmas comunicativos aponta para um processo contínuo a cada transformação. Trata-se de um processo de aumento da velocidade da informação, a um número cada vez maior de pessoas e a um custo cada vez menor. Evidente que o advento do digital incrementa esse processo, porém é necessário levar em consideração que da oralidade às mídias elétricas e eletrônicas houve a preservação de um modelo comunicativo clássico, qual seja: a da separação clara entre um emissor e um receptor, o que caracteriza esses paradigmas comunicativos como analógicos.
O que podemos apontar como evidente nesse processo histórico é que houve um contínuo aumento no número de emissores. Por exemplo com a introdução da tipografia que levou a quebra do monopólio da emissão da Igreja católica, ou mesmo com o advento das mídias de massa e a multiplicação dos pontos de vista apontada por Gianni Vattimo. Há, portanto, um processo de multiplicação dos emissores, mas não um processo de quebra dessa dicotomia. Assim, a comunicação nunca deixou de ser um processo hierárquico, e, portanto, analógico, no qual havia um centro emissor e uma periferia receptora.
Nas redes não há centro nem periferia. Ao contrário, há um emaranhado de pontos que, de modo não linear e caótico, se inter-cruzam numa estrutura rizomática3, afinal, as estruturas arborescentes em sua constituição centrada e hierárquica são
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uma boa representação da comunicação analógica, mas atualmente não oferecem uma representação capaz de satisfazer essa nova realidade. O conceito de rizoma é contraposto ao de raiz e árvore, que sempre fixa um ponto, uma ordem, um centro seguro e referencial, e caminhos que se referem sempre à raiz que lhes dá sentido. O rizoma não possui uma forma definida, nem um centro e muito menos uma raiz que lhe dá sentido. O rizoma gera diversos nós e é composto por uma rede descentralizada que se reproduz continuamente. Não havendo uma estrutura no rizoma, o processo torna-se fluido e permanentemente provisório:
Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo. A árvore é filiação, mas o rizoma é aliança, unicamente aliança. A árvore impõe o verbo ―ser‖, mas o rizoma tem como tecido a conjunção‖e...e...e (DELEUZE;GUATTARI,1995, p.37)
A revolução digital inaugura uma comunicação tecnológica que funciona segundo o regime do rizoma. Ao impor esse modelo rizomático, o digital de modo inédito, rompe com a dicotomia entre emissor e receptor:
Pela primeira vez na história da humanidade, a comunicação se torna um processo de fluxo em que as velhas distinções entre emissor, meio e receptor se confundem e se trocam até estabelecer outras formas e outras dinâmicas de interação, impossíveis de serem representadas segundo os modelos dos paradigmas comunicativos tradicionais [...] (DI FELICE, 2008, p.23)
Esse rompimento entre emissor e receptor e a emergência da comunicação rizomática pode ser entendido na própria gênese da revolução digital. Dentre as diversas inovações tecnológicas que culminaram nessa revolução é possível situar o advento da Internet4, surgida durante a Guerra Fria, como seu elemento chave. A internet significou uma transformação qualitativa e quantitativa na comunicação, sendo o pilar principal da chamada comunicação digital.
A própria gênese da internet revela as qualidades do novo modelo comunicacional: surgida a partir de uma estratégia militar nos EUA como um projeto da Agência de Projetos de Pesquisa Avançada do Departamento de Defesa norte-americano
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(ARPA) em 1969, tinha como intuito descentralizar dados através de vários computadores interligados. Em plena guerra fria, os militares pretendiam construir um modelo comunicacional sem um centro emissor nem pequenos centros, isto é, um modelo descentralizado, por meio do qual a informação se deslocasse sem um ponto central de referência, afinal, nos modelos comunicativos tradicionais uma possível destruição do centro ou centros provocaria um colapso nas comunicações militares. Assim, foi criada essa arquitetura informativa precursora da internet, a qual não era constituída de centros e sim de nós, o que dificultava extremamente um ataque fulminante nas comunicações.
O surgimento da internet está ligado a esse fluxo de integração entre plataformas de comunicação e de informática. O desenvolvimento dessa arquitetura foi sendo alterado a partir das apropriações dos usuários e extrapolou os objetivos militares, levando a transformações revolucionárias no modelo comunicativo. A internet é conseqüência de uma fusão singular entre a estratégia militar, grande cooperação científica, iniciativa tecnológica e inovação contracultural (espírito libertário/anarquista). Esse processo de formação e difusão foi marcante para moldar sua estrutura, arquitetura, cultura e padrões de comunicação.
A concepção descentralizada inicial acompanhou todo o desenvolvimento da internet, transformou o processamento e o armazenamento de dados em um sistema compartilhado e interativo e rompeu com a velha dicotomia entre emissor e receptor. No limite, é o fim da unidirecionalidade na comunicação, como destaca Di Felice ( 2008, p.45): “Mais que um fluxo unidirecional(teatro, livro, cinema, rádio e TV), a comunicação em rede apresenta-se como um conjunto de teias nas quais é impossível reconstruir uma única fonte de emissão, um único sentido e uma única direção”.
Estabelecido o digital, não é mais possível realizar a distinção identitária tradicional entre emissor e receptor. Tal impossibilidade se explica porque nas redes digitais os internautas podem ser produtores, compositores e difusores de seus próprios produtos e mensagens. Na rede cada um é potencialmente emissor e receptor e todos que tem acesso a tecnologia gozam de mesmo poder comunicativo:
Mudanças profundas foram provocadas pela extensão e desenvolvimento das hiper-redes multimídia de comunicação
89 interpessoal. Cada um pode tornar-se produtor, criador, compositor, montador, apresentador, difusor de seus próprios conteúdos. (SANTAELLA,2003, p.82)
A sociedade em rede não tem uma estrutura central, é alimentada por uma rede descentralizada de micro-raízes que se reproduzem continuamente rompendo com a velha dicotomia, aquela de um centro emissor e de uma periferia receptora e “... com isso, a sociedade de distribuição piramidal começou a sofrer a concorrência de uma sociedade reticular de integração em tempo real...”. (Santaella, 2003, p.82).
A lógica do digital é outra, sua lógica é a superação das dicotomias emissor/receptor, meio/mensagem, sujeito/mídia – marcas dos fluxos comunicativos de massa – e é marcada pelo advento de sistemas em rede de comunicação ―de todos para todos‖. Em nível comunicativo, a passagem das tecnologias analógicas para as digitais comporta a alteração do processo de repasse das informações, alterando a direção dos fluxos comunicativos e, sobretudo, a posição e a identidade dos sujeitos que interagem, afinal de contas todos nós tecnologicamente temos o mesmo potencial, o mesmo poder de fogo comunicativo, de tal sorte que as interações sociais, inclusive de caráter religioso, encontram nos dispositivos digitais e na lógica da rede novos suportes que as viabilizam e modificam constantemente. A comunicação digital se caracteriza por esse processo de fluxo informativo sem centro e periferia que, de certa forma, substitui as hierarquias socialmente e até religiosamente consolidadas por formas colaborativas de construção de conteúdo e conhecimento em rede.
Também fruto dessas novas dinâmicas informativas sem centro e sem periferia encontra-se a inauguração de novas dinâmicas espaciais, não mais ligadas à topografias e geografias, mas sim, como definido por Castells, ligadas a fluxos:
O espaço de fluxos é a organização material das práticas sociais de tempo compartilhado que funcionam por meio de fluxos. Por fluxos, entendo as seqüência intencionais, repetitivas e programáveis de intercâmbio e interação entre posições fisicamente desarticuladas, mantidas por atores sociais nas estruturas econômica, política e simbólica da sociedade. (CASTELLS, 2000, p.501)
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Aliás, as dinâmicas espaciais, sem centro e sem periferia, além de claramente serem marcadas por esses fluxos informativos, colocam em questão a crise do espaço geográfico, a crise do território e, portanto, a emergência da desterritorialização. São cada vez mais intensas as interações sociais – inclusive religiosas – que envolvem atores que não dividem o mesmo espaço geográfico. São elementos importantes a se destacar em relação aos impactos das tecnologias digitais, como ressalta Di Felice:
As interações dinâmicas entre sujeito e território mediadas por softwares e interfaces digitais criam interações que remetem a uma experiência atópica do espaço e da forma de habitar: ‗a atopia não é um novo tipo de espaço nem um território simulacro – mais que isso: poderia ser definida como uma pós-territorialidade, no sentido que supera as formas físicas do espaço, substituindo-as por uma forma informativa, digital e transorgânica [...] cujos elementos constitutivos são as tecnologias informativas digitais e as redes sociais, composta da fusão dos coletivos inteligentes e das formas híbridas dos dinamismos das linguagens transorgânicas (DI FELICE,2008a, p.70).
Trata-se de uma nova forma de habitar que Di Felice (2009) define como atópica, uma nova prática habitativa que elimina a relação dicotômica entre o sujeito e o território e que nos convida a constantes descolamentos por diversos ecossistemas informativos. Entre sujeitos e circuitos informativos há notadamente uma relação simbiótica e interativa.