Apesar da clara diferença entre emissores e receptores nos paradigmas comunicativos anteriores, o fato de haver uma intrínseca passividade do receptor nos processos comunicativos é ainda discutível. . Teóricos da comunicação, em alguma medida, sempre questionaram até que ponto o receptor era de fato totalmente passivo, afinal, no mínimo, o receptor interpreta subjetivamente a mensagem, como destaca Levy (1999, p.79), “Mesmo sentado na frente de uma
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televisão sem controle remoto, o destinatário decodifica, interpreta, participa, mobiliza seu sistema nervoso de muitas maneiras, e sempre de forma diferente do seu vizinho”. O que queremos destacar, entretanto, é que a crise radical e
irreversível da passividade se dá apenas com a emergência da cultura digital, justamente por sua estrutura tecnológica.
Para Santaella, tal crise tem seu embrião anteriormente à emergência do digital, época denominada pela autora como cultura das mídias, marcada por uma série de inovações midiáticas, cuja característica principal é a personalização do uso e da relação com o meio:
[...] novas sementes começaram a brotar no campo das mídias com o surgimento de equipamentos e dispositivos que possibilitaram o aparecimento de uma cultura do disponível e do transitório: fotocopiadoras, videocassetes, juntamente com a expansiva indústria de filmes em vídeo para serem alugados nas videolocadoras, tudo isso culminando no surgimento da TV a cabo.( SANTAELLA,2003, p.15)
Santaella considera a cultura das mídias como intermediária entre a cultura de massas e a digital. A cibercultura teve sua emergência preparada, seu terreno fertilizado – de acordo com Santaella – a partir de processos de produção, distribuição e consumo comunicacionais gerados a partir de experimentações e de desejos de consumo diferenciado, individualizado, em oposição ao consumo típico da cultura de massas, começando a quebrar a tradicional relação entre emissor e receptor:
São esses processos comunicativos que considero como constitutivos de uma cultura das mídias. Foram eles que nos arrancaram da inércia da recepção de mensagens impostas de fora e nos treinaram para a busca da informação e do entretenimento que desejamos encontrar. (SANTAELLA, 2003, p. 16)
O que Santaella alerta é que os primeiros anúncios da crise da passividade nos processos comunicacionais se dão na emergência dessa cultura das mídias, cujas tecnologias que a constituem abrem a possibilidade do emissor escolher a programação, mesmo que de forma ainda limitada, significando uma abertura da
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relação entre o meio e o receptor, enfraquecendo a influência do emissor. Essa análise de Santaella é comum a de P. Levy:
(...) como os satélites e o cabo dão acesso a centenas de canais diferentes, conectados a um videocassete permitem a criação de uma videoteca e definem um dispositivo televisual evidentemente mais interativo que aquele da emissora única sem videocassete. (LEVY, 1999, p.79)
O Walkman, o Videocassete e a TV a cabo, são ícones dessa cultura de passagem. Com o videocassete, por exemplo, o papel de espectador parcialmente passivo dá vez para aquele de agente manipulador: o emissor manipula diretamente o meio. Nessa cultura intermediária não há mais uma audiência de massa homogênea que recebe a mesma mensagem de limitados emissores. No entanto, mesmo com a diversificação das mensagens e expressões da mídia, a interatividade, que é forjada a partir dessa dinâmica, não implica no fim da comunicação analógica, isto é, não transformou a lógica unidirecional das mensagens. Trata-se ainda de uma comunicação de mão única que não expressa à altura a era das redes digitais.
A crise completa da passividade se dá de fato com a comunicação digital, até porque já não mais sentido possui nem mesmo a velha dicotomia entre receptor e emissor. O internauta, além de poder emitir mensagens de todo gênero, interage e manipula circuitos informativos construindo trajetos singulares, conforme analisado por Santaella:
[...] o emissor não emite mais mensagens, mas constrói um sistema com rotas de navegação e conexões. A mensagem passa a ser um programa interativo que se define pela maneira como é consultado, de modo que a mensagem se modifica na medida em que atende às solicitações daquele que manipula o programa. Essas manipulações se processam por meio de uma tela interativa ou interface que é lugar e meio para o diálogo. Por intermédio de instrumentos materiais (tela, mouse, teclado) e imateriais (linguagem de comando), o receptor torna-se em usuário e organiza sua navegação como quiser em um campo de possibilidades cujas proporções são suficientemente grandes para dar a impressão de infinitude (SANTAELLA, 2004, p. 163).
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As redes digitais são marcadas por esse caráter extremamente interativo. Nas redes só há comunicação quando abandonamos posturas características da comunicação de massa como a passividade, por exemplo, e interagimos com as interfaces comunicativas:
Diante de nossos computadores ligados em redes, podemos nos comunicar somente se passamos a interagir com as nossas interfaces (mouse, teclados e redes em geral), em um diálogo constante, no qual é excluído qualquer tipo de passividade, ligado à forma comunicativa do espetáculo e a qualquer forma de nítida distinção entre o produtor e o receptor da mensagem. (DI FELICE, 2008, p.23)
No limite, a quebra da hierarquia entre um centro emissor e uma periferia receptora tem um elemento constituitor a mais, qual seja, a interatividade das redes. A emergência desse novo ciclo cultural conduz a um novo espaço social sensório e cognitivo que proporciona formas diferentes de interação baseadas num fluxo de informação caótico, sem centro nem periferia:
Junto ao crescimento das taxas de transmissão, a tendência à interconexão provoca uma mutação na física da comunicação: passamos das noções de canal e rede a uma sensação de espaço envolvente. Os veículos de informação não estariam mais no espaço, mas, por meio de uma espécie de reviravolta topológica, todo o espaço se tornaria um canal interativo. A cibercultura aponta para uma civilização da telepresença generalizada. Para além de uma física da comunicação, a interconexão constitui a humanidade em um contínuo de sem fronteiras, cava um meio informacional oceânico, mergulha os seres e as coisas no mesmo banho de comunicação interativa. A interconexão tece um universal por contato (LEVY,1999, p.127)
A cibercultura acontece somente com a interatividade. A tecnologia mais do que estimular a participação e a interatividade, a impõe, é de sua estrutura tecnológica:
As redes informativas apresentam-se, portanto, como tecnologicamente interativas, no sentido de que nestas o acontecimento de um processo comunicativo está completamente dependente de uma interação dialógica e multidirecional entre sujeitos, circuitos, avatares e entidades transorgânicas (DI FELICE, 2008, p.16)
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E mesmo o tipo de interatividade é de outra natureza, não se trata de uma interatividade com indivíduos somente, como ocorria na cultura oral, ou com livros como na cultura da impressão. É uma interação com interfaces, ou seja, com “o conjunto de programas e aparelhos materiais que permitem a comunicação entre um sistema informático e seus usuários humanos” (LÉVY, 1997, p. 176). As interfaces
digitais são essas zonas de contato entre humanos, máquinas e circuitos. É uma experiência tão híbrida que nos faz concluir que não se trata propriamente de uma interação com as tecnologias: estamos imersos nela.
Trata-se ainda de uma imersão numa ecologia de convergência de mídias, isto é, uma ecologia midiática interativa na qual a integração entre várias formas de comunicação, escrita, oral e audiovisual é marca importante. O ambiente da internet permite que múltiplos espaços, textos, imagens sejam manipulados ao mesmo tempo: ―Esse novo meio tem a vocação de colocar em sinergia e interfacear todos
os dispositivos de criação de informação, de gravação, de comunicação e de simulação‖ (LEVY,1999, p.93).
Ícone desse ambiente interativo e convergente é o hipertexto. Levy (1996) destaca que o hipertexto é composto por nós conectados por links formando uma rede de informações pela qual o usuário navega de modo rápido e intuitivo. No limite, o hipertexto é um texto móvel que integra escrita, oralidade e audiovisual na comunicação humana, misturando funções de leitura e de escrita, além de permitir novos tipos de leitura coletiva: muitos emissores conectando nós e construindo um caminho singular e interativo, entre muitos possíveis. Não é mais o navegador que segue as instruções de leitura e se desloca fisicamente no hipertexto. Trata-se de um texto móvel que apresenta sua faceta, gira, dobra-se e desdobra-se à vontade do usuário.
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