• No results found

KAPITTEL 4 METODE

4.8. Min rolle som insider og hvordan jeg har håndtert dette

Beatriz Viégas-Faria nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 1956. É professora da Universidade Federal de Pelotas. É formada em Letras-Tradutor/Intérprete na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e especialista em Linguística Aplicada ao ensino de inglês na mesma instituição. Fez mestrado em Linguística Aplicada na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), onde também fez doutorado com período sanduíche na Inglaterra (University of Warwick)74.

Na pós-graduação, Viégas-Faria se dedicou ao estudo da tradução de implicaturas (os significados implícitos, as entrelinhas, os subentendidos) nos diálogos das peças de Shakespeare Romeu e Julieta (mestrado) e Sonho de uma noite de verão (doutorado), ambos trabalhos direcionados à aplicação de teorias linguísticas a questões de tradução literária.

O trabalho inicial de Viégas-Faria com tradução inclui experiência com tradução e versão de textos científicos e técnicos, mas seu objetivo sempre foi trabalhar com a tradução literária. Depois de ter alguns de seus contos publicados, traduziu o romance The fountainhead/A nascente (1993), de Ayn Rand, e, desde então, a tradução de ficção é a sua atividade de preferência. Segundo a tradutora (VIÉGAS-FARIA, 2008a, p. 4)75,

textos ficcionais são o meu interesse maior, porque a ficção e o uso artístico e estético da linguagem me fascinam desde a infância. A tradução literária, para mim, une trabalho e prazer, me dá a chance de exercitar minha seriedade profissional em cima de algo estimulante, que por vezes beira o euforizante. Admiro quem faz uso original da linguagem (seja em prosa, poesia, teatro, cinema) para contar uma história também original. Admiro, nos autores que traduzo, o cuidado artesanal que encontro na montagem de seus textos; e é esse mesmo cuidado artesanal que me leva a montar minhas traduções de ficção. Tenho especial preferência por diálogos. Argumentações cheias de amor e/ou ódio me encantam.

O estudo contínuo de teorias linguísticas e semânticas e de semiótica do teatro coincidiu com o trabalho de tradução dramática, sobretudo da dramaturgia shakespeariana, dessa tradutora. Viégas-Faria (2008a, p. 4) relata que, em um processo de sinergia, a tradução das peças enriquece o seu trabalho acadêmico e o seu trabalho de pesquisa contribui para uma

74 Currículo Lattes disponível em: <http://lattes.cnpq.br/1780670647812562>. Acesso em: 21 fev. 2017. 75 Em entrevista para o portal Escolha seu Shakespeare, disponível em: <www.dbd.puc-

crescente melhoria de suas traduções. Viégas-Faria traduziu cerca de 20 peças de Shakespeare publicadas pela editora L&PM desde 1998.

Sobre traduzir Shakespeare, Viégas-Faria (2008b) enfatiza que uma das mais importantes dificuldades enfrentadas é o deslocamento temporal, o fato de que os textos de partida e traduzido estão a séculos de distância um do outro: “todo texto que entra para o cânone (passa a ser considerado um clássico da literatura) é texto que resiste ao tempo, por seus muitos méritos. Entretanto, esse “resistir ao tempo” não é indolor”, haja vista o longo histórico de edição, censura e (mais atualmente) restauração que têm passado os textos do autor.

Para a tradutora, outra dificuldade de tradução dos textos shakesperianos e teatrais, em geral, é a tradução de diálogos, “uma das mais difíceis empreitadas intelectuais” que se pode acarretar, considerando-se especialmente que cada personagem é composto de um modo distinto e único. Segundo Viégas-Faria (2008b),

tradicional e convencionalmente, diz-se que a tradução da poesia é a mais difícil de todas. Contudo, eis a grande conclusão de meus estudos de doutoramento (sobre tradução teatral): traduzir diálogos é infinitamente mais difícil. Isso porque o diálogo ficcional é um texto escrito para ser falado. Não é a transcrição de uma conversa, pois seus objetivos incluem o efeito estético sobre o leitor/espectador. É um texto escrito com marcas de oralidade. Não sendo um monólogo, é um texto que envolve dois ou mais falantes – as personagens. Cada personagem tem seu próprio jeito de falar, seu idioleto (do contrário, elas não seriam verossímeis). O tradutor não pode homogeneizar as falas, pois isso seria assassinar o texto.

É inegável a força cultural do trabalho dramático de William Shakespeare, atestada pela presença constante de suas peças nos palcos teatrais do mundo inteiro e pelo crescente número de reescrituras de sua obra (adaptações de suas peças para outras mídias, traduções, etc.). Segundo Marcia Martins (2008, p. 1), as múltiplas traduções do teatro shakespeariano têm um papel fundamental no sucesso e na perpetuação do autor, “já que, sem essas traduções, Shakespeare não teria conseguido ocupar por tanto tempo um lugar tão central no cânone ocidental – até pelo fato de escrever em uma língua que só se tornou hegemônica em meados do século XX”.

Viégas-Faria tem um papel relevante na perpetuação de Shakespeare no Brasil. Muitas de suas traduções de trabalhos dramáticos do autor foram levadas aos palcos brasileiros, além de terem sido publicadas no formato acessível da editora L&PM.

Viégas-Faria recebeu duas vezes por seus méritos tradutórios o Prêmio Açorianos de Literatura da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre. Em 2000, com a tradução de Otelo; e, em 2007, com a tradução de Trabalhos de amor perdidos. Tem um livro autoral de poesia publicado, Pampa pernambucano (2001), pelo qual também recebeu o Prêmio Açorianos por revelação em poesia.

A contribuição de Brutus Pedreira a serviço das artes foi vasta e significativa. Há uma premissa bastante difundida pelos profissionais do palco de que se aprende teatro verdadeiramente na prática. Esse foi certamente o caso de Pedreira, que iniciou na área como amador e pouco depois seu nome já estava consolidado no meio, especialmente como tradutor teatral.

De modo semelhante a Pedreira, Vadim Nikitin é um profissional do teatro. Além de tradutor de peças, é ator e diretor. Aliada a sua prática teatral, há a sua formação em literatura que, por certo, influencia de modo positivo a sua prática tradutória. Ambos esses tradutores nasceram fora do Brasil e suas vivências de línguas, no âmbito familiar e institucional, também, sem dúvidas, influenciam suas traduções.

Os estudos linguísticos e literários de Beatriz Viégas-Faria sempre estiveram direcionados ao campo da tradução teatral. Tem experiência como tradutora de uma das maiores editoras do país e sua ocupação principal é lecionar e estudar tradução. Recebeu prêmios por suas traduções e por sua escrita autoral e tem um profundo conhecimento de como funciona a literatura.

Como ressaltado por Anthony Pym (1998), tradutores exercem a relevante função de agentes que transferem entre línguas não apenas textos, mas repertórios culturais. Esse é certamente o caso da prática tradutória de Pedreira, Nikitin e Viégas-Faria, três tradutores que deixaram importantes marcas nos sistemas culturais brasileiros.