Nesta seção, é abordada a questão da (co)existência no mesmo sistema literário de múltiplas traduções de uma mesma obra. Se, como enfatizado por Berman (1995), há tantas posições tradutórias quanto tradutores, certamente cada tradutor produz um texto que lhe é particular, que é singular.
A respeito dessa questão, a tradutora Beatriz Viégas-Faria (2008b) destaca o caráter criativo e idiossincrático do ato da tradução, lembrando que,
como toda tradução de texto literário é também um texto criativo, não há duas traduções iguais de um mesmo texto – o que traz à tona justamente a riqueza poética do original (cada tradutor vai dar o seu tratamento às muitas dificuldades do texto, atendo-se mais ou menos à superfície textual, mais ou menos às entrelinhas, mais ou menos ao estudo da genética do texto). E cada tradutor tem sua “voz” no texto – seja num texto introdutório à tradução, seja em notas de rodapé, seja nas escolhas vocabulares ou de estruturas frasais.
Para Viégas-Faria (2011), “quanto maior a riqueza literária de um texto, quanto mais intrincada a sua tessitura, quanto mais lacunas o autor deixa a cargo do leitor, maior o número de traduções que esse texto comporta, justamente porque permite diferentes interpretações – isto é, diferentes leituras”.
Segundo Susan Bassnett (2011), a tradução é uma atividade que ocorre em dois estágios: o primeiro estágio envolve leitura atenta e o segundo, escrita astuciosa, sendo que, quando se lê uma tradução, o que de fato está materializada no texto é a leitura e a interpretação do texto de partida que são específicas de uma pessoa: vinte tradutores diferentes produzirão vinte traduções diferentes e cada uma será uma reescritura do texto de partida.
Para ilustrar esse caráter da tradução, Rainer Schulte (1999, p. 2) compara tradutores a musicistas: “dois pianistas nunca apresentarão a mesma partitura musical do mesmo modo; dois tradutores nunca chegarão a traduções exatamente iguais de um texto estrangeiro”30. Para Schulte, cada nova tradução de uma obra literária tem seu alicerce sob as
29 BERMAN, 1995, p. 75, “Il n'y a pas de traducteur sans position traductive. Mais il y a autant de positions traductives que de traducteurs.”
30 SCHULTE, 1999, p. 2, “No two pianists will ever give the same performance of a musical score; no two translators will ever come up with the exact same translation of a foreign text.”
outras traduções preexistentes, mesmo que seus tradutores não tenham consultado esses textos anteriores. Todo esse material torna-se parte do patrimônio literário e cultural do sistema de chegada e se relaciona de um modo ou outro. Sendo assim, é bastante relevante investigar a posição tradutória de cada tradutor e averiguar como cada tradução adicionou ao texto de partida camadas e dimensões novas e originais.
De acordo com Paul Bensimon (1990, p. ix), todas as traduções estão vinculadas a um contexto temporal e social, assim como todas as retraduções. Em ambos os casos, esses textos não podem ser vistos como separados da cultura, da ideologia e da literatura de uma dada sociedade, num determinado contexto histórico: “assim como a tradução, a retradução é tanto um ato individual quanto uma prática cultural”31.
Há uma gama de motivos que podem fazer com que um texto literário seja traduzido por uma segunda, terceira ou quarta vez. De fato, estudiosos e teóricos da tradução têm se perguntado se é possível formular uma teoria abrangente que possa abarcar o ato da retradução, já que estudos de caso têm demonstrado que as tentativas de se teorizar sobre esse processo não são tão aplicáveis quanto se presumia, sendo difícil atribuir a uma retradução um ou outro fator absoluto que a justifique (GÜRÇAĞLAR, 2009).
No entanto, Mary Louise Wardle (2008) destaca que se pode estabelecer, de modo geral, quatro principais categorias que representam diferentes motivações a se retraduzir um texto literário: 1) a primeira abrange retraduções que, de alguma forma, tentam atualizar a linguagem de uma tradução mais antiga, trazendo o texto de partida para mais perto do leitor contemporâneo; 2) a segunda categoria abarca retraduções que foram realizadas de acordo com práticas de tradução mais novas e contemporâneas; 3) a terceira se refere a retraduções baseadas em novas ideologias específicas ou em recentes interpretações do texto de partida que surgiram após a última tradução; 4) a quarta categoria na qual retraduções podem ser amplamente agrupadas é a de novas traduções ocasionadas pelas forças de mercado dentro da indústria editorial.
Essas categorias não são muito bem definidas e podem se intercalar. No entanto, para Wardle (2008), uma delas se sobressai: “apesar de, no geral, ser difícil saber, com certeza, porque certos textos são retraduzidos enquanto outros são simplesmente reeditados,
31 BENSIMON, 1990, p. ix, “Comme traduire, retraduire est à la fois un acte individuel et une pratique culturelle.”
há fortes indícios de que esse fenômeno é fortemente influenciado pelas forças do mercado”32,
indicando que “o ímpeto por trás da retradução parece ser quase inteiramente comercial”33.
Tem sido propagada a ideia de que, enquanto os textos de partida permanecem para sempre jovens, as traduções envelhecem, e essa seria a principal motivação por trás de retraduções. Porém, de acordo com Wardle (2008),
uma série de fatores contribuem para a iniciação de uma retradução e, embora esses fatores possam incluir a modernização da linguagem, eu diria que, agora, raramente essa é a única motivação. A concorrência severa num mercado limitado implica em restrições econômicas às políticas editoriais de grandes empresas e, no fim das contas, a necessidade de chamar a atenção do leitor para os produtos de uma empresa e não para os de outra representa uma influência esmagadora na escolha dos textos a serem traduzidos e retraduzidos34
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Ainda, segundo Wardle (2008), quando a obra retraduzida é um clássico, questões de mercado também são relevantes. Com esse tipo de obra, já se pode presumir que haverá interesse do público e a publicação desses materiais não é um investimento de muito risco para as editoras. Desse modo, há o ímpeto de traduzir e retraduzir todos os mais importantes clássicos de diferentes tradições literárias. No caso da literatura canônica de língua inglesa, todas as editoras querem Shakespeare, Daniel Defoe, Jane Austen e Charles Dickens em seus catálogos. Já que a maioria desses clássicos estão em domínio público, suas traduções são empreendidas de modo mais desimpedido. Por exemplo, Franciele Graebin (2016) explora o fato de que, em 2012, as obras da escritora Virginia Woolf entraram em domínio público, o que aparentemente incentivou, nesse mesmo ano, o surgimento no Brasil de três novas traduções da obra Mrs. Dalloway (1925) pelas editoras LP&M, Autêntica e Cosac Naify.
O conjunto da obra de Williams entrará em domínio público apenas em 2054, 70 anos após a morte do autor. Mesmo com a peça Streetcar ainda estando sujeita a direitos autorais, sua retradução parece ser um bom investimento, levando em conta o prestígio da obra que será demonstrado nos capítulos seguintes desta dissertação.
32 WARDLE, 2008, “Although on the whole it is difficult to know with any certainty why certain texts are retranslated while others simply appear in republication, there is strong evidence for believing that the phenomenon is heavily influenced by market forces.”
33 WARDLE, 2008, “the impetus behind retranslation would appear to be almost entirely commercial.”
34 WARDLE, 2008, “a number of factors contributes to the commissioning of a new version, and while these factors may include the modernisation of the language, I would argue that rarely is this now the sole motivation. Severe competition within a limited market implies economic constraints on the publishing policy of large companies and, ultimately, this need to draw the reader's attention to the products of one company rather than towards those of another represents an overwhelming influence on the choice of texts to be translated and retranslated.”