Esta tese teve por objetivo estudar o protestantismo histórico brasileiro e, mais especificamente, as mulheres da Igreja Metodista, buscando preencher a relativa falta de reflexão e visibilidade das mulheres nesta história.
Na trajetória percorrida, procedemos ao rastreamento da historiografia do protestantismo histórico e verificamos que a participação das mulheres na gênese e no desenvolvimento do protestantismo no Brasil é bem mais significativa do que a historiografia do protestantismo deixa transparecer, com a sua concentração em alguns ícones sempre lembrados, quando se refere a mulheres neste contexto. Especialmente no que tange a Igreja Metodista, há de se ressaltar a atuação das mulheres na fundação das primeiras escolas, a atuação na área social, na luta contra as doenças da sua época, em que vidas eram precocemente ceifadas devido à precariedade na área da saúde. Também na área eclesial, ao participar das primeiras conferências encontramos as mulheres não somente como assistentes, mas participantes ativas por meio dos relatórios apresentados de suas atividades, e também de propostas para o desenvolvimento do trabalho. Inicialmente vislumbramos a presença de mulheres estrangeiras, mas no decorrer dos anos, especialmente até 1930, as mulheres brasileiras aos poucos foram se inserindo neste contexto.
Ao perseguir os rastros nos deparamos com as visitadoras, às chamadas “Mulheres da Bíblia”, que exerceram do mesmo modo a função de colportagem, trabalho árduo de casa em casa, mulheres que dedicaram aproximadamente trinta anos
de sua vida no desenvolvimento deste serviço. Nesta trajetória, elas também colaboraram no processo de alfabetização e, conseqüentemente, abriram novos caminhos para a propagação de comunidades metodistas. Ainda neste período, demonstramos a atuação das missionárias, sendo algumas destas esposas de missionários. Além de seguir os rastros das primeiras pregadoras.
Depois de visibilizarmos as mulheres até 1930, prosseguimos a trajetória até 1970/71, quando ocorre na Igreja Metodista o ingresso das mulheres ao presbiterato, ou seja, a ordenação feminina ao pastorado, com o desafio de verificar se é plausível a hipótese de silenciamento e ocultamento da mulher metodista durante este período.
Em relação à atuação das mulheres metodistas, tanto brasileiras quanto estrangeiras, no âmbito educacional, destacamos as educadoras e diretoras de colégios e escolas paroquiais, mulheres que colocaram os educandários que estavam sob a sua direção a serviço da comunidade, além de colaborar com orfanatos, leprosários e povos indígenas. Outrossim, mantinham escolas noturnas para alfabetização de adultos, sendo estas aulas ministradas pelas alunas e professoras dos respectivos educandários. Dessa atuação educacional pontuamos ainda as breves inserções na educação brasileira com a criação de educandários que aos poucos encerraram as suas atividades devido à expansão do ensino público. É importante ressaltar que essas mulheres receberam títulos de cidadã por serviços de relevância prestados à cidade em que atuaram como educadoras, e algumas receberam honrarias do governo brasileiro, como a “Ordem do Cruzeiro do Sul” a mais alta condecoração nacional, e a “Ordem Nacional do Mérito”.
Durante o período em evidência, as mulheres desbravaram novas frentes de trabalho na área social, dinamizando o processo de alfabetização, criando novos orfanatos, acolhendo assim as crianças de rua, criando creches, possibilitando melhores condições de inserção das mulheres ao mercado de trabalho. Do mesmo modo, promoveram ações contra o alcoolismo, a lepra, a tuberculose e o câncer, e ainda junto com aos povos indígenas. No que tange à lepra, destacamos a atuação de Eunice Weaver, que recebeu da sociedade o reconhecimento pelo trabalho desenvolvido em relação às pessoas portadoras de hanseníase, o que também repercutiu no âmbito internacional.
No que se refere à atuação de mulheres nos meios de comunicação, as encontramos como produtoras de mensagens midiáticas, especialmente por meio da
Revista Voz Missionária, mas também evidenciamos a sua atuação em programas radiofônicos religiosos desde 1931, e nos programas de televisão desde 1960.
A historiografia também se preocupa com a descoberta de outras histórias, recuperando experiências de setores da sociedade, em sua maioria setores emergentes. Esta preocupação nos possibilitou desvelar novas faces, especialmente na trajetória do trabalho feminino. Apresentamos assim histórias de mulheres metodistas, atuando como: costureiras, lavadeiras, tecelãs, catadora de papel e outras.
Quanto à atuação missionária, demonstramos o trabalho desenvolvido pelas esposas de pastores e as associações por elas constituídas. Evidenciamos ainda a atuação das missionárias estrangeiras e brasileiras, e destacamos o protagonismo das mulheres no que encaminhamento de missionárias brasileiras ao exterior. Na expansão do protestantismo em terras brasileiras, visibilizamos a atuação das missionárias no nordeste brasileiro, procurando em meio às situações do cotidiano inserir-se naquela realidade. Quanto às diaconisas, apresentamos a sua trajetória histórica iniciada na década de quarenta. Sendo que em 1946 foi criada a Ordem das Diaconisas. Em 1955 foram ordenadas as primeiras mulheres para este ministério: Maria Onofre Gonçalves e Anaildes Ferreira. Destacamos especialmente a atuação das diaconisas no desenvolvimento do serviço social e educacional, com algumas inserções nas comunidades locais.
Quanto à produção bibliográfica de mulheres metodistas, elas respondiam às demandas da Igreja, o que nem sempre contribui para a sua visibilidade. Assim, na escassa produção bibliográfica de mulheres predominam temas que poderíamos chamar de masculinos, ligados à igreja enquanto instituição ou que privilegiam o protagonismo dos homens na história da igreja. Como exceção à regra, destaca-se Ottília de Oliveira Chaves, mulher de fascinante trajetória que nos legou um texto autobiográfico, contando a sua própria história.
Na vivência eclesiástica, as mulheres respondiam às demandas da Igreja nas sociedades locais, e isso com muita criatividade. Elas também realizavam congressos e participavam destes em nível regional, nacional, latino-americano e mundial
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Portanto, a atuação da mulher metodista pôde ser evidenciada nas mais diversas áreas de ação. No entanto, seu ocultamento e sua invisibilidade, principalmente no período de 1930 a 1970, ocorre em relação ao exercício do poder eclesiástico.