Grotberg (2005) constatou que a resiliência pode ser medida e é parte integrante da saúde mental e da qualidade de vida. Mais do que uma característica ou traço de personalidade, trata-se de pensar em termos de processo resiliente, pois é dinâmico, aprendido, e pode ocorrer com mais intensidade em determinadas situações.
O processo resiliente é, segundo Infante (2005), um dos três componentes essenciais do conceito de resiliência, a saber: 1) noção de adversidade, trauma, risco ou ameaça ao desenvolvimento humano; 2) adaptação positiva ou superação da adversidade; 3) processo dinâmico entre os mecanismos emocionais, cognitivos e socioculturais.
O primeiro componente, fator de risco ou adversidade introduz algum tipo de dificuldade que poderá gerar sofrimento ao indivíduo implicando danos subjetivos e
objetivos ao seu funcionamento normal: “Os fatores de risco são dinâmicos, se transformam ao longo do tempo e em diferentes circunstâncias, bem como variam para cada indivíduo” (ARAÚJO, 2007, p. 87).
O termo adversidade – também usado como sinônimo de risco –, segundo Infante (2005, p. 26) “pode designar uma constelação de muitos fatores de risco (como viver na pobreza) ou uma situação de vida específica (a morte de um familiar)”. Outra definição para o termo, é sugerida por Araújo (2007), que considera vários aspectos interagindo no seu mecanismo:
Uma condição adversa é uma relação entre o indivíduo e o ambiente, que ameaça a satisfação das necessidades básicas e a aquisição das competências para desenvolver papéis sociais de valor. O bem-estar e o crescimento são decorrentes de um processo de desenvolvimento, onde existiu um entendimento e um atendimento às necessidades básicas de nutrição, proteção, segurança valorização e amor, desde idades muito precoces, favorecendo a possibilidade de aproveitar os recursos do ambiente, para treinar as competências necessárias em cada fase da vida (ARAÚJO, 2007, p. 88).
Há a tendência de confundir os conceitos “fator de proteção” com “fator de resiliência”, como alertou Araújo (2007). Fator de proteção, segundo Grotberg (2005), é o elemento que neutraliza o fator de risco, evitando que o indivíduo sofra as conseqüências da situação adversa. Quando o fator de proteção atua, não há a exposição da pessoa à dificuldade, pois a esta não chega a atingi-la. Enquanto o fator de proteção neutraliza o risco, o fator de resiliência ocorre na deflagração da situação de risco, quando os fatores de proteção foram insuficientes e a situação se tornou uma adversidade. Assim, os fatores de resiliência são desenvolvidos e atuam para fazer com que o indivíduo supere e aprenda com a experiência de crise. A resiliência implica em capacidade de confronto e se distancia da idéia de invulnerabilidade, pois pressupõe a interação com a adversidade e sua transformação. Implica, também, na capacidade de resistir à destruição e de reagir positivamente (GROTBERG, 2005).
A adaptação positiva ocorre quando:
o indivíduo alcançou expectativas sociais associadas a uma etapa de desenvolvimento, ou quando não houve sinais de desajuste. Em ambos os casos se a adaptação positiva ocorre,
apesar da exposição à adversidade, considera-se uma adaptação resiliente” (INFANTE, 2005, p. 27).
Melillo, Estamatti e Cuestas (2005) resumiram as características do sujeito resiliente encontradas em diferentes definições do conceito:
“habilidade, adaptabilidade, baixa suscetibilidade, enfrentamento efetivo, capacidade, resistência à destruição, condutas vitais positivas, temperamento especial e habilidades cognitivas, todas desenvolvidas durante situações adversas, estressantes, etc, que lhe permitem atravessá-las e superá-las” (MELILLO e cols. 2005, p. 61).
Além disso, os autores destacam que é na interação dos processos sociais e intrapsíquicos que a resiliência é produzida.
Os fatores resilientes foram descritos por Grotberg (2005) através de quatro categorias que descrevem o reconhecimento e a utilização de recursos pelo sujeito resiliente: eu tenho (o apoio) das pessoas: em que confio, que me amam, põem limites, ensinam, ajudam; eu sou (força intrapsíquica): amado, feliz quando realizo e sou afetuoso e respeitoso comigo e outros; eu estou (força intrapsíquica): disposto a me responsabilizar e ser otimista; eu posso (habilidades interpessoais e de resolução de conflitos): falar sobre angústias, resolver problemas, controlar-me, buscar ajuda.
O último componente, processo resiliente, segundo Grotberg (2005), não se trata apenas de responder adequadamente à adversidade, também envolve promoção de fatores resilientes, compromisso com o comportamento resiliente – identificação da adversidade e escolha da resposta adequada, avaliação dos resultados – aprendizado, estimativa do impacto sobre outros e reconhecimento de bem-estar.
Na revisão da literatura sobre resiliência, percebeu-se que os autores que se propuseram a pesquisar a resiliência em determinada população identificaram fatores resilientes específicos em consonância com os princípios básicos da resiliência, indicando que situações e contextos diferentes implicam em habilidades resilientes diferentes. Outros pesquisadores, citados a seguir, contribuíram para o alargamento da compreensão do conceito.
Exemplo da ampliação temática é oferecido por Job (2000, p. 188), que estudou a experiência de pessoas sobreviventes do holocausto e encontrou características de resiliência:
Tais experiências deram origem a uma perspicácia frente às adversidades, uma capacidade de sobrepujá-las como um milagroso renascimento quando a morte parecia ser inevitável [...] Portanto, foi possível reconhecer que os sobreviventes do Holocausto são resilientes.
A partir deste estudo, o autor definiu fatores resilientes baseados em características consideradas essenciais para a sobrevivência das pessoas naquele contexto:
1. Padrão disposicional (recursos pessoais): envolve os atributos físicos, tais como inteligência, saúde, aparência agradável e competência atlética, e atributos psicossociais (relacionados ao eu), por exemplo, auto-estima, autoconfiança, autonomia, auto-realização e humor.
2. Padrão relacional (papéis individuais nas relações): envolve aspectos intrínsecos, como habilidade de espelhar-se, identificar-se e confiar em outras pessoas de forma positiva, e aspectos extrínsecos: buscar relações, atividades e
hobbies positivos e múltiplos.
3. Padrão situacional: envolve habilidades de realizar avaliações cognitivas, solucionar problemas, julgar, agir, limitar objetivos, aprender com a prática, ser flexível, ter perseverança e auto-controle.
4. Padrão de crenças pessoais, filosóficas e religiosas: motivam e atribuem significado pessoal à existência.
Outra amostra da ampliação de temas a respeito de resiliência é encontrada com Sauaia (2003). Em seu estudo sobre crianças e violência, com as quais realizou trabalho corporal para despertar recursos; relatou a importância do trabalho para promover resiliência que tocou profundamente o sofrimento, “mas por outro lado, convidou a pensar no resgate da dignidade, da solidariedade, da compaixão, da esperança, da confiança, do humor e do respeito à vida” (p. 197).
A partir dessa pesquisa, a autora construiu duas categorias que abarcaram os fatores resilientes presentes nesse contexto:
1. Percepção de si: autonomia (autocontrole, auto-estima), senso de objetivo e futuro, habilidade cognitiva, percepção corporal.
2. Percepção do outro: competência social (empatia, buscar quem faz bem) e habilidade para resolver problemas.
Mais um exemplo é oferecido por Reivich e Shatté (2002). Tais pesquisadores desenvolveram sete categorias que identificam características resilientes necessárias para a superação das adversidades da vida em geral e, principalmente, da vida profissional:
1. Regulação das emoções: revela a capacidade de lidar com as emoções sem reprimir sua expressão e tampouco ser inundado por elas. Implica na tomada de consciência e na expressão adequada de sentimentos, o que leva à sua elaboração.
2. Controle dos impulsos: habilidade de tolerar a tensão interna gerada pelos sentimentos que buscam uma ação imediata, relaciona-se com a capacidade de regular emoções. Ao invés de exercer atos impulsivamente, a pessoa é capaz de avaliar qual deles tratrá maiores benefícios e, portanto, permite-se planejar. 3. Otimismo: estado mental de positividade que proporciona o sentimento de
esperança no futuro. Implica no reconhecimento da confiança nas próprias habilidades e que o resultado será positivo.
4. Análise causal: capacidade de identificar causas dos problemas e se responsabilizar, buscando a solução mais adequada. Somada ao otimismo, a análise causal é fortalecida.
5. Empatia: habilidade de captar os estados emocionais vivenciados por outrem. A pessoa empática, mais do que se colocar no lugar do outro, busca compreender a experiência como se fosse o outro, potencializando a comunicação em níveis subjetivos.
6. Auto-eficácia: sensação de eficiência diante de um desafio, resultante de sucessivas experiências de resolução de problemas.
7. Exposição: capacidade de auto-afirmação, na qual a expectativa de fracasso é
menor que a expectativa de sucesso. Para obter sucesso, é necessário aprender a se expôr adequadamente e a contar com os demais de forma positiva.