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FYLKESPLAN AKERSHUS 2004-2009

In document Stedskvalitet i Oslo og Akershus (sider 26-29)

Os funcionários da empresa The São Paulo Tramway, Light and Power Company Limited, instalada no município de São Paulo no início do século XX, já manifestavam sua indignação diante de suas condições de trabalho. Segundo Santos (2009), de forma geral, os operários estavam agrupados e confinados nas fábricas sob o olhar dos patrões tendo seus movimentos cadenciados pelo ritmo da linha de montagem e das máquinas. Os motorneiros e condutores trabalhavam ao ar livre, podendo desfrutar do ar das ruas e enxergar o movimento das ruas. Estes podiam exercer certo controle sobre o tempo de sua “linha de embarque e desembarque”, já que a velocidade do bonde dependia de suas próprias mãos. Contudo, as atividades nas garagens iniciavam bem antes do amanhecer com a chamada do encarregado às 3h50 da manhã. A distribuição dos bondes era hierarquizada e dividida por bairros como Higienópolis, Campos Elíseos, Perdizes, onde eram destinados os veículos de melhor aparência, que deveriam ser guiados por motorneiros e condutores mais experientes, que eram orientados a zelar

67 pelo asseio do corpo, “decência do uniforme” e nos cuidados com o toalete. Nas linhas do Oriente, Santo Amaro, Brás, Mooca destinavam-se os condutores comuns e em trechos como a da linha Tamandaré, eram escalados aqueles funcionários cujos inspetores julgavam precisar de correção.

Desde o século XIX, já existiam certas práticas estigmatizantes que desqualificavam cocheiros e carroceiros, comparando-os a bêbados, gatunos, vadios, desordeiros, ou seja, as principais adjetivações usadas pela polícia a respeito de condutas consideradas “desviantes”. Estas práticas estigmatizantes pareciam se estender também aos condutores dos bondes da Light and Power, e tornavam a relação dos condutores com os próprios usuários deveras conflituosa. Além disso, operavam ainda certas intervenções de poderes públicos que, através de leis e decretos buscavam disciplinar as funções dos trabalhadores do ramo de transporte. (SANTOS, 2009).

Diante de tais adversidades, em 1910, um manifesto distribuído pela Sociedade União Defensora dos Empregadores da Light and Power (União) é publicado no jornal O Estado de São Paulo, enfatizando a insatisfação e a indignação dos trabalhadores da empresa Light. O manifesto referia-se a uma “disciplina” insuportável retratada como escravidão; e à conduta da Companhia entendida como possessiva, caracterizada pela busca pelo controle dos operários a todo instante e em todo lugar. Ressaltava-se ainda a imposição de condições humilhantes de trabalho e de cumprimento de horários considerados impossíveis, fatores destacados como principais causadores dos desastres ocorridos nas linhas dos bondes. (SANTOS, 2009).

O motivo da fundação e das medidas da União estava ligado às intervenções da superintendência da Light no sentido de afastar qualquer possibilidade de transformar a Sociedade Beneficente dos Empregados da Light (SBEL), fundada no ano de 1903, em uma entidade conduzida pelos próprios associados; assim como o acúmulo de descontentamentos com as normas da empresa e o interesse por conquistar novos direitos. Ainda em 1910, contando com 600 associados, a União organizou uma greve após tomar ciência de que a readmissão de dois funcionários havia sido colocada fora de questão pela administração da Light. Através de um comunicado, a União convocou os condutores e motorneiros da Light a não se apresentarem ao trabalho no próximo dia 19, antes de receber autorização da União, que seria feita através de um boletim assim que a

68 empresa concedesse os pedidos requeridos. O comunicado encorajava a lutarem pela dignidade e pelos interesses comuns de todos os envolvidos. (SANTOS, 2009).

A busca pelo êxito de propósitos comuns no caso dos funcionários da Light culminou no abandono da associação que restringia suas ações a interesses e propósitos da administração da empresa, suprimindo os interesses comuns dos trabalhadores, e a aderência, por parte dos funcionários, a outra associação que se pretendia ser conduzida pelos próprios associados, atendendo aos interesses comuns de todos os envolvidos. O esforço pelos propósitos comuns se tornava imprescindível para que os propósitos individuais não fossem suprimidos, acuados, imobilizados na relação entre os funcionários da Light. Na greve pretendida pela União, foi preciso que cada motorneiro e cada condutor operassem certo esforço pelo êxito dos propósitos comuns, quando deixaram de se apresentar aos seus postos de trabalho, ainda que tal proposição não estivesse de acordo com seus propósitos e interesses individuais neste primeiro momento.

Durante década de 1920, associações e organizações de trabalhadores foram fortemente acuadas por leis de deportações, interdições de entidades sindicais, proibições de manifestações públicas, fechamento de jornais e a criação de órgãos estatais como a Delegacia Estatal de Ordem Política e Social de São Paulo (DEOPS/SP). Entretanto, em 1927, o Comitê Operário de Organização Sindical (COOS) agregou lideranças de diferentes credos políticos a fim de retomar as atividades das suas entidades de trabalhadores. Os funcionários têxteis fundaram a União dos Operários em Fábricas de Tecido e elegeram uma comissão provisória para elaborar os estatutos desta nova entidade; em assembleia, lideranças da construção civil fundaram sua organização sindical para representá-los, assim como os trabalhadores da Cia. Telefônica, os choferes e os metalúrgicos. Paulatinamente, cada categoria, respaldada pelo COOS, realizava assembleias, elegia uma comissão provisória com atribuição de elaborar os estatutos, convocavam uma segunda assembleia para aprovação dos estatutos e elegiam uma comissão executiva. Concomitantemente, greves passaram a eclodir em diversas localidades de São Paulo, em fábricas, indústrias e empresas de diversos segmentos. (SANTOS, 2009).

69 Manifestando certas positividades também presentes na publicação de Monteiro Lobato (1962) no início do século, as relações entre os trabalhadores retratadas por Santos (2009) pareciam envolver os indivíduos em processos individualizantes, separando condutas, trabalhos e cargos em adequados e inadequados, convenientes e inconvenientes, encurralando certos indivíduos a identidades e estigmas, como o caboclo, retratado por Lobato (1964) e os funcionários da Light retratados por Santos (2009). Essas positividades se constituíam como condições a partir das quais os indivíduos puderam pensar a si próprios e aos outros, avaliar a si próprios e aos outros, governar a si próprios e aos outros, provocando fragmentações e desligamentos nas relações entre si. Assim, o conjunto de discursos e relações que se referiam àqueles considerados preguiçosos e maliciosos como o caboclo, gatunos e vadios, como os motorneiros da Light, sujeitos inconvenientes, indesejáveis, que precisavam de correção e adequação, corroboravam as rígidas regras que se destinavam aos funcionários das diversas indústrias, fábricas e empresas de São Paulo, às múltiplas interdições às suas organizações, associações e entidades representativas, assim como o adjetivo da “praga da terra” atribuído ao caboclo de Lobato (1964).

As crescentes manifestações das associações contribuíram para que se constituíssem relações de resistência às exigências das linhas de montagem, da conduta, do ritmo de trabalho e do volume de produtividade. Entretanto, quais os efeitos de tais atividades associativas? Estaria a busca pela conectividade reduzida à resistência à disciplina imposta pelos sistemas e normas do mercado no Brasil do século XX? Teria o mercado recuado ou restringido suas estratégias para o aumento de produtividade no tempo de trabalho?

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