2. Definisjoner av sentrale variabler og metodiske anvendelser
2.2. Metodiske anvendelser
No capitulo anterior abordamos a noção de experiências pré-predicativas em Harry Pross. Para este último capítulo, gostaríamos retomar a noção de experiência do filósofo pragmatista John Dewey – que utilizamos no capítulo II. Mesmo seguindo caminhos absolutamente particulares, Dewey e Pross partem de uma base comum: a filosofia de Kant. Apesar das críticas vigorosas que Dewey apresentou ao pensamento de Immanuel Kant, a base de sua crença na dimensão relacional da experiência está na filosofia kantiana.
Kant escreveu, no ano de 1784, um artigo no jornal alemão Berlinische Monatsschrift em que coloca em questão a Aufklärung (a ilustração)1. Naquele artigo, o filosofo alemão provocava o leitor sobre a autonomia dos sujeitos ou o modo como transferimos para os outros a condição de decisão e nos tornamos subjugados. O que Kant invocava era a condição de ser autônomo como definidora da modernidade. Para o filósofo, era preciso abandonar a condição de seguidores de alguém ou algo externo como exemplos para determinar nosso caminho. Era necessário ao homem aprender a caminhar com as próprias pernas. O homem deve buscar a autonomia e não a heteronomia. A heteronomia, conceito criado por Kant, é o conjunto de lei que o sujeito recebe e que o colocam sob o domínio de alguém ou de uma coletividade. Tão logo nascemos, ingressamos nesse conjunto de leis. Depende de cada sujeito movimentar-se para abandonar a heteronomia e buscar a autonomia, um modo próprio de pensar. Porém, este modo próprio de pensar não significa, para Kant, um abandono da lei. O homem racional equilibra a liberdade de pensamento e a obediência a lei. Harry Pross é um herdeiro do pensamento da Ilustração. Suas noções de vertical e horizontal estão fincadas nas concepções kantianas: autonomia e heteronomia para Kant, autodeterminação e heterodeterminação para Pross.
O sujeito do conhecimento, segundo Kant, só alcançaria o objeto do conhecimento observando-o nos contornos de sua realidade. Todavia, era necessário compreender que o conhecimento só seria possível a partir da junção dos dois pontos de vista: da experiência e seus enlaces; do pensamento racional projetado sobre a experiência.
Márcio Gonçalves ressalta que Kant vai além de Hume ao considerar que o âmago do conhecimento encontra-se na razão. Este gesto coloca o sujeito como condição inicial ao processo de conhecimento. A formação moral e intelectual de Kant forjou as noções de seu idealismo transcendental: haverá sempre um conjunto de juízos necessários e universais que independem de nossa experiência com o mundo para estabelecer seu valor de verdade. Eles se aplicam sobre a experiência do mundo para interpretá-la, mas são independentes dela. Se por um lado há os juízos analíticos, dados a priori, há por outro os juízos sintéticos, originados na experiência existente entre o sujeito e o mundo, ampliadores do conhecimento do sujeito. A condição a priori, este juízo analítico, está fincada no sujeito.
É no sujeito, em função do sujeito e de sua estruturação em Sensibilidade, Entendimento e Razão que a verdade, a ética e a estética (no duplo sentido de experiência e reflexão sobre o belo e o sublime) podem existir. Assim como o sujeito “põe” o espaço e o tempo onde experienciamos o mundo (os a priori da sensibilidade), “põe”, de um modo mais geral, as verdades que produz. (GONÇALVES, 2004: 03-04)
A noção de alma proposta por Hume será a organizadora a priori das experiências para Kant. Para ele, a alma determina a ordem de nossas experiências, modela o universo, põe em ordem juízos que são ao mesmo tempo sintéticos e analíticos. Assim, a alma será a responsável pela determinação dos seus objetos de saber. A organização dos saberes limita o conhecimento humano ao descrito e analisado sob as categorias do conhecimento científico. Kant nos alerta que só conhecemos o racionalizado, o apreendido no subjetivo, o fenômeno e não o mundo ou as coisas.
O trabalho de Kant, para Dewey, ao mesmo tempo em que buscou uma interligação entre a experiência e a razão, não conseguiu libertar-se totalmente da crença em conceitos fixos. Estes conceitos, os chamados a priori, seriam os responsáveis por organizar na mente a experiência e nos ofertar o conhecimento dos objetos. Como c o n s e q ü ê n c i a d i s t o , h á u m a d e s v a l o r i z a ç ã o d e a l g u n s t i p o s d e e x p e r i ê n c i a s , especialmente as consideradas mais caóticas. A crítica de Dewey segue no sentido de q u e a f i l o s o f i a d e K a n t f o i r e s p o n s á v e l p o r f a z e r v a l e r u m a o r d e m d i r e t a e n t r e racionalização e subordinação dos indivíduos aos princípios fixos – como a lei e os
valores morais. Os conceitos a priori eram introduzidos de fora e verticalmente na experiência. Os elementos da experiência primária – experiências presentes anteriormente ao ingresso do indivíduo no grupo social, nos tomam de assalto e nos fazem crer em sua e x i s t ê n c i a s e m g r a n d e s q u e s t i o n a m e n t o s . I s t o t a m b é m n o s l e v a a a c r e d i t a r s e m questionamentos em muitos dos comportamentos sociais, morais, políticos, religiosos. Para Dewey, o exame do duplo laço que amarra o que experienciamos e como o experienciamos nos revela que cremos e antecipamos aquilo que socialmente nos é imposto a crer. Esta imposição estrutura-se sobre as regras da convivência em comum, a educação, as leis, as tradições, as organizações e determinações sociais. As autoridades modelam coisas, nos fazem acreditar nas coisas não pelo que elas são, mas pelo o que elas se tornaram. O filósofo afirma que o valor atribuído aos objetos é conseqüência da interconexão social e dos costumes, condicionadores efetivos de nossa experiência sobre eles.
Sempre tendemos mais ao objeto experienciado que ao ato de experimentar. Esta afirmação projeta o experienciado como algo dotado de uma totalidade absorvente. A totalidade produz em nós a impressão de que a coisa, o fenômeno ou o comportamento sempre esteve ali, como se fosse da ordem da natureza. Para Dewey, a força motriz que faz os homens mudarem esta percepção encontra energia na vaidade, no direito de posse, no risco ao prestígio e ao poder. Somente quando alguns destes aspectos são abalados é que o indivíduo tende a separar o que lhe é peculiar e o que é peculiar ao grupo. Estes aspectos mostram as condições de controle e de elaboração da eterna sujeição do homem. Um mundo entregue somente ao destino não se presta a ser controlado. Se por um lado o reconhecimento de alguns fenômenos como típicos às ações humanas possibilitou a efetivação de medidas de controle, por outro estabeleceu mecanismos de resistência capazes de alterar aquilo que falsamente foi atribuído como da ordem da natureza e, portanto, imutável. A concepção do sujeito como centro da experiência e o desenvolvimento do subjetivismo possibilitaram a formação de agentes capazes de transformação a partir de experimentações e da socialização daquilo que foi cognizado pela experiência. (DEWEY, 1980: 12-13)
A experiência contém a vida e a história dos homens, é o modo como vivemos, suportamos a vida, conhecemos, nos organizamos, produzimos cultura. A experiência determina o que comemos, o que não gostamos, os nossos desejos e medos. Para Dewey, ela unifica sujeito e objeto, coisa e pensamento. É significativo que “vida” e “história” possuam a mesma plenitude de sentido indiviso. Vida denota uma função, uma atividade compreensiva, em que
organismos e ambiência acham-se incluídos. Somente em conseqüência da análise reflexiva resolve-se em condições externas - ar respirado, alimento consumido, terreno percorrido - e as estruturas internas - pulmões respirando, estômago digerindo, pernas caminhando. A extensão de “história” é amplamente conhecida: as proezas realizadas; as tragédias sofridas; também o comentário humano, o registro, a interpretação que inevitavelmente se seguem. Objetivamente, a história compreende rios, montanhas, campos e florestas, leis e instituições; subjetivamente, inclui propósitos e planos, os desejos e emoções, através dos quais aquelas coisas são administradas e transformadas. (DEWEY, 1980: 10)
Dewey ressaltou as qualidades ulteriores existentes no material da experiência ordinária. Para observamos a existência dos indivíduos, o filósofo aponta a urgência em si considerar os diversos fenômenos da vida social, da estética, do místico, dentre outros.
Raramente se afirma que a experiência estética e moral revela características das coisas reais tão verdadeiramente quanto o faz a experiência intelectual, e que a poesia pode ter, tanto quanto a ciência, importância metafísica; e quando tal afirmação é feita, provavelmente tem alguma significação mística ou esotérica, em vez de tomada em honesto sentido comum.
(...) Os fenômenos da vida social são tão relevantes para o problema da relação entre o individual e o universal quanto os da lógica; a existência, na organização política, de fronteiras e barreiras, da centralização, do intercâmbio através de fronteiras, de expansão e de absorção, tornar-se-á exatamente tão importante para as teorias metafísicas do discreto e contínuo quanto o que decorre da análise química. A existência da ignorância tanto quanto da sabedoria, do erro e até da insanidade, tanto quanto da verdade, será tomada em consideração. (DEWEY, 1980: 16-17)
Percebemos que as revistas organizam esteticamente alguns dos muitos discursos da vida homossexual. As narrativas nelas existentes guardam dimensões subjetivas da história ordinária de seu público. O relato de experiências homossexuais ou a descrição de um dos mundos homossexuais possível põe no campo relacional a luta pela transformação. Os veículos fazem perguntas aos jogos de poder. Quando os questionam, ingressam nos jogos para reivindicarem sua possibilidade de construir verdades sobre seu público.
A descrição da experiência não é literatura de fatos. Ela representa a abertura de possibilidades para sujeitos que estão distantes de local onde ocorreram as experiências narradas. Pross afirma que os media sincronizam a sociedade. Sem dúvida. Porém, esta sincronização pode servir as minorias. Em nosso exercício de observação, tivemos uma atenção especial com a seção “cartas” na revista Zero. Dentre os números analisados, por mais de uma vez, pessoas do interior da Espanha destacavam a importância dos debates propostos pela revista para quem vive distante de Madrid ou Barcelona. Um leitor chamado Héctor, na
edição 91, narrou o martírio que sofre por ser gay em uma pequena cidade espanhola de seis mil habitantes. Na carta, o leitor chamava a atenção que as humilhações por ele sofridas iam do espaço escolar aos insultos na rua. “Se mi quitan las ganas de salir de casa y si lo hago voy siempre por las calles laterales a la principal esquivando a la gente”. O quadro das experiências descrito não envolve apenas o glamour da vida gay endinheirada dos grandes centros urbanos. Na edição de número 96 da revista Zero, um leitor disse que, nas bancas do bairro onde vivia, a revista era colocada ao lado de revistas gays com conteúdo pornográfico. Ao longo da carta, a leitora afirmou que a revista se destinava a diversos públicos dentro do segmento. Para concluir sua carta, o leitor que assinava como Sergio disse: “Vamos, que propongo que para que lleguemos a la normalización total coloqueis stands junto a las barras de pan, em los super, y que seáis algún dia suplemento de cualquier Super Pop, que de ahí salimos muchas y muchos.” A proposta do leitor está investida de um desejo de visibilidade dos leitores e da revista como um grupo comum na experiência cotidiana. Em outras palavras, a carta pedia o reconhecimento dos homossexuais como agentes de uma vida banal, ordinária, sujeitos que pagam seus impostos, trabalham, se divertem e têm seus meios para se comunicar. A apreensão destes meios não ocorre sem embates. Os padrões de beleza corporal impostos pela publicidade e reproduzidos em sua maioria pelas revistas são regularmente questionados. A vida cotidiana tenciona o corpo, o atrita a aspereza do tempo, do trabalho, da instabilidade orgânica. No mundo dos textos verbo-visuais da publicidade o tempo é congelado e o desejo preso por vetores verticais. Disse o leitor Pablo Jesús Sesma na seção Carta, edição de número 84, da revista Zero:
El canon de la publicidad ha esculpido com su devastadora labor “zapa” en las mentes de los jóvenes. Ser joven significa belleza y fortaleza, en cambio, la vejez fealdad y poco funcional para el sexo. Predomínio de la falocracia, el tamaño enorme es poder y belleza. La voluptuosidad del culo pone a hervir las venas. La fuerza del choque de la belleza neutraliza los verdaderos sentimientos de los demás y hacen invisibles a los que están fuera de los cânones. Los modelitos forman el panel social de la masa idolátrica, no por amor sino por la obsesión del sexo por el sexo como um fetiche insustituible a los sentimientos y emociones de los demás. El verdadero AMOR es arrinconado por la publicidad confundiéndolo com la “paganización” del diós “afrodito”.
A carta foi publicada dentro de um box vermelho, sob o título Imperio de la belleza, ao final da seção. O interessante é que esta edição incluía o especial Zero de Moda. Em todos os editoriais de moda da edição especial imperam o modelo de corpo padronizado pela propaganda. O texto do leitor tem um papel considerável na edição. A publicação da carta em destaque atinge dois códigos: por um lado significa a contemplação da preocupação manifesta
pelo leitor e que expressa o descontentamento de vários outros leitores; por outro lado, demonstra a impossibilidade da revista – dentro do seu conceito editorial – desvencilhar-se do império da beleza determinado pela a propaganda. Esta combinação de códigos constrói uma mensagem que caracteriza o discurso da revista.