É chegado o momento de fazer e tentar avaliar as contribuições dos historiadores dos Annales durante três gerações, discutindo duas questões em particular. Qual a originalidade e qual o valor de sua nova história?
Como vimos, a revolta de Febvre e Bloch contra o domínio da história dos acontecimentos políticos foi apenas uma de uma série de rebeliões semelhantes (ver acima, p. 17). Seu principal objetivo, a construção de uma nova espécie de história, foi compartilhado por muitos pesquisadores durante um longo período. A tradição francesa, de Michelet e Fustel de Coulanges ao Année Sociologique, Vidal de la Blache e Henri
129 Compare a passagem sobre a auto-confirmação do caráter da crença no oráculo do veneno
(p.194) com a de Bloch sobre o toque real (no texto, p.28). Evans-Pritchard que estudou história medieval antes de ser antropólogo tinha provavelmente lido Bloch.
Berr, é bastante conhecida. De outro lado, as tradições alternativas são geralmente subestimadas. Se um clarividente, em 1920, previsse que um novo estilo de história em breve se desenvolveria em algum lugar na Europa, a localização óbvia para que isso acontecesse seria a Alemanha, não a França; a Alemanha de Friedrich Ratzel, Karl Lamprecht e Max Weber.
Virtualmente todas as inovações associadas a Febvre, Bloch, Braudel e Labrousse têm precendentes ou paralelos, dos métodos comparativo e regressivo à preocupação com a colaboração interdisciplinar, com métodos quantitativos, com mudanças na longa duração. Nos anos 30, por exemplo, Ernest Labrousse e o historiador alemão Walter Abel estavam trabalhando independentemente na história quantitativa dos ciclos agrícolas, tendências e crises (Abel, 1935)130. Na década de 50, o ressurgimento da história regional na França tem um paralelo no ressurgimento da história local na Inglaterra, vinculada à escola de W.G. Hoskins, um discípulo de Tawney, cujos livros incluem um estudo da construção da paisagem inglesa e uma história socioeconômica, na longa duração, quase novecentos anos, de uma vila de Leicestershire, Wigston Magna (Hoskins, 1955,1957). O entusiasmo dos historiadores franceses pelos métodos quantitativos, seu abandono em favor da micro-história e da antropologia, seguiam em paralelo a movimentos existentes nos Estados Unidos e em outras partes do mundo.
Se as inovações individuais relacionadas aos Annales têm precedentes e paralelos, sua combinação, não. Também é verdade que os movimentos paralelos de reforma e renovação da história foram em grande parte insucessos, de Karl Lamprecht, na Alemanha, à “nova história” de J.H. Robinson, nos EUA. As contribuições de Bloch, Febvre, Braudel e seus seguidores foram mais longe do que as de qualquer outro pesquisador ou grupo de pesquisadores na concretização desses objetivos comuns e em liderarem um movimento que se difundiu mais extensamente e por mais tempo do que o de seus competidores. É bem possível que o historiador do futuro tenha condições de oferecer explicações desse sucesso em termos de estrutura e conjuntura, valorizando, por exemplo, o fato de sucessivos governos franceses financiarem a pesquisa histórica, ou a eliminação da competição intelectual alemã, durante as duas guerras mundiais131. Difícil é desprezar as contribuições individuais de Bloch, Febvre e Braudel.
Embora este livro seja dedicado a algumas novas tendências historiográficas, não gostaria de pressupor que a inovação é desejável por si mesma. Concordo, com toda a sinceridade, com uma crítica recentemente publicada que afirma que “a nova história não é necessariamente admirável simplesmente por ser nova, nem a velha desprezível, por ser velha” (Himmelfarb, 1987, p. 101). É tempo, pois, de considerar, em conclusão, o valor, o custo, e o significado das contribuições coletivas dos Annales.
Fazer isso e como que redigir um obituário. De fato, a imagem não é totalmente inadequada. Embora a École des Hautes Études ainda permaneça e possua historiadores de qualidade, que se identificam com a tradição dos Annales, não seria demasiado dizer-se que o movimento efetivamente acabou. De um lado, encontramos membros do
130 Esse estudo foi descoberto pelos historiadores somente após a guerra.
131 Explicações estruturo-conjunturais são oferecidas por Coutau-Bégarie,1983 e Wallerstein,
grupo dos Annales redescobrindo a política e mesmo o acontecimento. De outro, vemos tantos pesquisadores de fora inspirados pelo movimento-ou indo na mesma direção por razões próprias-que termos como “escola” e mesmo paradigma estão perdendo o sentido. O movimento está se dissolvendo, em parte, como resultado de seu sucesso.
O movimento pode não ter sido “tudo para todos”, pois foi seguramente interpretado de várias maneiras. Os historiadores tradicionais tenderam a interpretar seus objetivos como a total substituição de uma espécie de história por outra, relegando a história política e, especialmente, a história dos acontecimentos políticos ao ferro- velho. Estou longe de acreditar que essa tenha sido a intenção de Febvre ou Bloch. Inovadores são freqüentemente abrasados pela crença de que o que ainda não foi tentado merece ser tentado, antes do que pela determinação de impô-lo a todos. De qualquer maneira, a história política pode defender-se em sua época. Depois, a situação modificou-se. Braudel sempre se proclamou um pluralista e gostava de afirmar que a história tem “mil faces”, mas foi sob seu domínio que os fundos de pesquisa foram dirigidos para a nova história em prejuízo da velha. Foi o momento dos historiadores políticos serem marginalizados.
Se observarmos os Annales de uma perspectiva global, contudo, é melhor avaliá-lo como um paradigma (ou, talvez, um grupo de paradigmas), mais do que o paradigma da ciência histórica. Talvez seja útil examinar os usos e as limitações desse paradigma em diversas áreas da história, geográfica, cronológica e tematicamente definidas. A contribuição dos Annales pode ter sido profunda, mas foi também profundamente desigual.
Como vimos anteriormente, à França foi consagrada a maior parte de sua atenção. No rastro de Braudel, um número substancial de estudos foi realizado sobre o mundo mediterrânico, especialmente sobre a Espanha e a Itália (Aymard, Bennassar, Chaunu, Delille, Delumeau, Georgelin, Klapisch, Lapeyre...). A contribuição do grupo à história das Américas espanhola e portuguesa foi também bastante significativa. Poucos escreveram sobre outras partes do mundo. O interesse de Bloch pela história inglesa não foi acompanhado por seus sucessores.
Da mesma maneira que se concentraram sobre a França, os historiadores dos
Annales voltaram sua atenção sobre um período, o chamado “início da idade moderna”, de 1500 a 1800, mais especificamente o “antigo regime” na França, que vai de mais ou menos 1600 a 1789. Sua contribuição para os estudos medievais foi também notável. Como já vimos, alguns historiadores da antiguidade foram companheiros de viagem dos
Annales.
Por outro lado, o grupo dos Annales deu pouca atenção ao que ocorreu no mundo depois de 1789. Charles Morazé, Maurice Agulhon e Marc Ferro fizeram o possível para preencher a lacuna, mas ela permanece ainda bastante grande. A abordagem diferenciada da história pelo grupo, especialmente a falta de importância atribuída aos indivíduos e aos eventos, está seguramente vinculada ao fato de concentrarem seus estudos nos período medieval e no início da era moderna. Braudel não teve dificuldades em desprezar Felipe II, teria mais problemas em fazer o mesmo com Napoleão, Bismarck ou Stálin.
Para um grupo que navega sob a bandeira da “história tota”, é de alguma maneira paradoxal examinar suas contribuições à luz do que é convencionalmente classificado como história econômica, social, política e cultural. Uma das conquistas do grupo foi subverter as categorias tradicionais e oferecer algumas novas, da “história rural” de Bloch, nos anos 30, e a “civilização material”, da década de 60, à história sociocultural dos dias de hoje. Da mesma forma, é inegável a contribuição oferecida por Labrousse e seus seguidores à história econômica. Como também é difícil negar que a política foi subestimada, por um certo tempo, nos anos 50 e 60, e ao menos por alguns membros do grupo.
Um outro caminho para se avaliar o movimento dos Annales é analisar suas idéias predominantes. De acordo com um estereótipo comum ao grupo, eles estavam preocupados com a história das estruturas na longa duração, utilizavam métodos quantitativos, diziam-se científicos e negavam a liberdade humana. Mesmo como descrição das obras de Braudel e Labrousse, esta visão é muito simplista, e ainda menos adequada como caracterização de um movimento, que atravessou diversas fases e incluiu um bom número de fortes personalidades intelectuais. Pode ser útil para analisar as tensões intelectuais no interior do movimento. Essas tensões podem ter sido criativas; se foram ou não, é um caso ainda em aberto.
O conflito entre liberdade e determinismo, ou entre estrutura social e ação humana, sempre dividiu os historiadores do grupo. O que distinguia Bloch e Febvre dos marxistas de seu tempo era precisamente o fato de que não combinavam seu entusiasmo pela história social e econômica com crença de que as forças sociais e econômicas tudo determinavam. Febvre era um voluntarista extremo, Bloch, um mais moderado. Na segunda geração, por outro lado, houve um deslisamento em direção ao determinismo, geográfico, no caso de Braudel, econômico, no de Labrousse. Ambos foram acusados de tirar o povo da história e concentrar sua atenção nas estruturas geográficas e nas tendências econômicas. Na terceira geração, no meio de historiadores preocupados com temas tão diversos quanto estratégias matrimoniais ou hábitos de leitura, houve uma volta ao voluntarismo. Os historiadores de mentalidades não mais assumem (como Braudel o fez) que os indivíduos são prisioneiros de sua visão de mundo, mas concentram sua atenção na “resistência” às pressões sociais (Vovelle, 1982).
A tensão entre a sociologia durkheiminiana e a geografia humana de Vidal de la Blache é tão antiga que pode ser considerada como parte integrante da estrutura dos
Annales. A tradição durkheiminiana incentivou a generalização e a comparação, enquanto a perspectiva vidaliana concentrou-se no que era único para uma região particular. Os fundadores tentaram mesclar as duas perspectivas, mas suas ênfases eram diferentes. Bloch estava mais próximo de Durkheim; Febvre, apesar de sua preocupação com a história-problema, de Vidal. Na fase intermediária do movimento, foi Vidal quem prevaleceu, como as monografias publicadas nos anos 60 e 70 confirmam. Braudel não negligenciou nem a comparação nem a sociologia, contudo estava mais próximo de Vidal do que de Durkheim. Uma razão da atração da antropologia social para os historiadores da terceira geração talvez tenha sido o fato de que essa ciência (que caminha sobre as duas vias, em direção ao geral e ao particular), talvez auxilie os historiadores a encontrarem seu equilíbrio.
Resumindo. Quanto ao que se refere à primeira geração, vale a pena se lembrar o juízo de Braudel: “Individualmente, nem Bloch nem Febvre foi o maior historiador francês do período, mas juntos o eram” (Braudel, 1968a, p. 93). Na segunda geração, é difícil pensar em um historiador da metade do século da mesma categoria de Braudel. Ainda hoje, uma parte significativa do que de mais interessante se faz em trabalhos históricos, é ainda realizada em Paris.
Olhando o movimento como um todo, percebemos uma grande quantidade de livros notáveis aos quais é difícil negar o título de obras primas: Les Rois
Thaumaturges, Societé Féodale, Le probléme de l’incroyance, Le Méditerranée, Les
paysans de Languedoc, Civilisation et Capitalisme. Devemos lembrar também as equipes de pesquisa que foram capazes de levar adiante empreendimentos que demandariam muito tempo a um único indivíduo para levar qualquer deles a bom termo. A longa vida do movimento permitiu que os historiadores se apoiassem, através de suas obras, mutuamente (ou também reagissem contra). Nomear apenas as mais importantes contribuições da história dos Annales significa escrever uma lista por si só impressionante: história-problema, história comparativa, história psicológica, geo- história da longa duração, história serial, antropologia histórica.
Da minha perspectiva, a mais importante contribuição do grupo dos Annales , incluindo-se as três gerações, foi expandir o campo da história por diversas áreas. O grupo ampliou o território da história, abrangendo áreas inesperadas do comportamento humano e a grupos sociais negligenciados pelos historiadores tradicionais. Essas extensões do território histórico estão vinculadas à descoberta de novas fontes e ao desenvolvimento de novos métodos para explorá-las. Estão também associadas à colaboração com outras ciências, ligadas ao estudo da humanidade, da geografia à lingüística, da economia à psicologia. Essa colaboração interdisciplinar manteve-se por mais de sessenta anos, um fenômeno sem precedentes na história das ciências sociais.
É por essas razões que o título deste livro se refere à “Revolução Francesa da historiografia”, e que seu prefácio se inicia com estas palavras: “Da produção intelectual, no campo da historiografia, no século XX, uma importante parcela do que existe de mais inovador, notável e significativo, origina-se da França”.