A melhor prova de que a história é e deve ser uma ciência é o fato de precisar de técnicas, de métodos, e de ser ensinada. Lucien Febvre, restringindo, disse: "Qualifico a história de estudo cientificamente orientado e não de ciência" [1941]. Os teóricos mais ortodoxos da história positivista, Langlois e Seignobos, exprimiram numa fórmula notável que constitui a profissão de fé fundamental do historiador, que é a base da ciência histórica: "Sem documentos não há história" [1898, ed. 1902, p. 2].
No entanto, a dificuldade começa aqui. Se o documento é mais fácil de definir e referenciar que o fato, histórico que nunca é dado tal e qual, mas construído, não são menores os problemas que se põem ao historiador.
Em primeiro lugar, só passa a ser documento na seqüência de uma investigação e de uma escolha – em geral, a investigação não é um assunto do próprio historiador mas de auxiliares que constituem reservas de documentos onde o historiador escolherá a sua documentação: arquivos, investigações arqueológicas, museus, bibliotecas, etc. As perdas, a escolha dos compiladores de documentos, a qualidade da documentação são condições objetivas, mas limitativas do ofício de historiador. Mais delicados são os problemas que se põem ao próprio historiador a partir desta documentação.
Antes. de mais nada, deve decidir-se sobre aquilo que ele irá considerar como documento e o que ele irá rejeitar. Durante muito tempo os historiadores pensaram que os verdadeiros documentos históricos eram os que esclareciam a parte da história dos homens, digna de ser conservada, transmitida e estudada: a história dos grandes acontecimentos (vida dos grandes homens, acontecimentos militares e diplomáticos, batalhas e tratados), a história política e institucional. A idéia de que o nascimento da história estava ligado ao aparecimento da escrita levava a privilegiar o documento escrito. Ninguém mais que Fustel de Coulanges privilegiou o texto como documento histórico. No primeiro capítulo da Monarchie franque, escreveu: "Leis, cartas, fórmulas, crônicas e histórias, todas estas categorias de documentos precisam ser lidas, sem omitir uma única... [O historiador] não tem outra ambição que analisar bem os fatos e compreendê-los com exatidão. Não pode procurá-los na imaginação ou na lógica; procura-os e atinge-os através da observação minuciosa dos textos, como o químico encontra os seus, em experiências minuciosamente conduzidas. A sua única habilidade consiste em tirar dos documentos tudo o que eles contêm e nada acrescentar ao que neles não esteja contido. O melhor historiador é o que se mantém mais perto dos textos, que os interpreta com mais correção, que só escreve e pensa segundo eles" [1888, pp. 29, 30, 33].
Mas em 1862, numa lição na Universidade de Estrasburgo, o próprio Fustel declarara: "Quando os monumentos escritos faltam à história, ela deve pedir às línguas mortas os seus segredos e, através das suas formas e palavras, adivinhar os pensamentos dos homens que as falaram. A história deve prescrutar as fábulas, os mitos, os sonhos da imaginação, todas essas velhas falsidades sob as quais ela deve descobrir alguma coisa de muito real, as crenças humanas. Onde o homem passou e deixou alguma marca da sua vida e inteligência, aí está a história" [1862, p. 245; cf. também Herrick, 1954].
Toda a renovação da história hoje em curso fez-se contra as idéias de Fustel em 1888. Não voltaremos a falar da necessidade de imaginação em história.
Quero todavia referir aqui o caráter multiforme da documentação histórica. Replicando, em 1949, a Fustel de Coulanges, Lucien Febvre afirmava: "A história fez-se, sem dúvida, com documentos escritos. Quando há. Mas pode e deve fazer-se sem documentos escritos, se não existirem... Faz-se com tudo o que a engenhosidade do historiador permite utilizar para fabricar o seu mel, quando faltam as flores habituais: com palavras, sinais, paisagens e telhas; com formas de campo e com más ervas; com eclipses da lua e arreios; com peritagens de pedras, feitas por geólogos e análises de espadas de metal, feitas por químicos. Em suma, com tudo o que, sendo próprio do homem, dele depende, lhe serve, o exprime, torna significante a sua presença, atividade, gostos e maneiras de ser" [1949, p. 4281. Marc Bloch tinha também declarado: "A diversidade dos testemunhos históricos é quase infinita. Tudo o que o homem diz
ou escreve, tudo o que fabrica, tudo o que toca pode e deve informar-nos sobre ele" [1941-42, p. 63].
Voltarei a falar da grande extensão da documentação histórica contemporânea, em especial da multiplicação da documentação audiovisual, o recurso ao documento iconográfico em sentido próprio ou figurado, etc. Mas é útil insistir em dois aspectos particulares desta dimensão da investigação documental.
O primeiro diz respeito à arqueologia. O meu problema não é saber se ela é uma ciência auxiliar da história ou uma ciência independente. Apenas faço notar como o seu desenvolvimento renovou a história. Mal deu os seus primeiros passos, no século XVIII, ganhou logo para a história o vasto território da Pré-história e da Proto-história e renovou a história antiga. Intimamente ligada à história de arte e às técnicas, ela é uma peça-chave do alargamento da cultura histórica que se exprime na Enciclopédie. "É na França que os "antiquários" dedicam, pela primeira vez, ao documento arqueológico, objeto de arte, utensílio ou vestígio de construção, um interesse tão vivo como objetivo e desinteressado", diz P. M. Duval que destaca o papel de Peiresc, conselheiro no parlamento de Aix. Mas são os Ingleses que fundam a primeira sociedade científica, onde a arqueologia ocupa um lugar essencial, a Society of Antiquaries de Londres (1707). E é na Itália que começam as primeiras escavações, relativas à descoberta arqueológica do passado em Herculano (1738) e Pompéia (1748). Um francês e um alemão publicam as duas obras mais importantes do século XVIII sobre a introdução do documento arqueológico em história:. Winckelmann, com a
História de arte antiga (Geschichte der Kunst des Alterturns, 1764) e o conde de Caylus, com o Recueil dantiquités égyptiennes, étrusques, grecques, romaines et gauloises (1752- 67). Na França, o Museu dos monumentos franceses,
de que Alexandre Lenoir foi o primeiro conservador, em 1769, despertou o gosto pela arqueologia e contribuiu para ultrapassar a -visão negativa da Idade Média. Faço notar que a arqueologia foi um dos setores da ciência histórica que mais evoluiu nos últimos decênios: evolução do interesse do seu objeto e do monumento pelo local global, urbano ou rural, depois pela paisagem, arqueologia rural e industrial, métodos quantitativos, etc. [cf. Schnapp, 1980; Finley, 1971]. A arqueologia evoluiu também em direção à constituição de uma história da cultura material que é primeiro "a história dos grandes números e da maioria dos homens" [Pesez, 1978, p. 130; ver também o artigo "Cultura material", no volume XVI da Enciclopédia Einaudi], e que deu origem a uma obra-prima da historiografia contemporânea:
Civilisation matérielle et capitalisme, de Fernand Braudel [1967].
Faço também notar que a reflexão histórica se aplica hoje à ausência de documentos, aos silêncios da história. Michel de Certeau analisou com sutileza os "desvios" do historiador para as "zonas silenciosas" das quais dá como exemplo "a feitiçaria, a loucura, a festa, a literatura popular, o mundo esquecido do camponês, a Occitânia, etc." [1974, p. 27]. Falar dos silêncios da historiografia tradicional não basta; penso que é preciso ir mais longe: questionar a documentação histórica sobre as lacunas, interrogar-se sobre os esquecimentos, os hiatos, os espaços brancos da história. Devemos fazer o inventário dos arquivos do silêncio, e fazer a história a partir dos documentos e das ausências de documentos.
A história tornou-se científica ao fazer a crítica dos documentos a que se chama "fontes". Paul Veyne disse [1971] que a história devia ser "uma luta contra a ótica imposta pelas fontes", que "os verdadeiros problemas de epistemologia histórica são problemas de crítica", e que o centro de toda a reflexão sobre o conhecimento histórico deveria ser o seguinte: "O conhecimento histórico é o que dele fizeram as fontes" (p. 265-66). Veyne acrescenta aliás a esta constatação a nota que "não se pode improvisar historiadores... é preciso saber que questões devem ser levantadas, que problemáticas estão ultrapassadas; não se escreve história política, social ou religiosa com as opiniões respeitáveis, realistas ou avançadas que temos, em privado, sobre este assunto" [ibid.].
Os historiadores, sobretudo do século XVII ao XIX, aperfeiçoaram uma crítica de documentos que hoje está adquirida, continua a ser necessária, mas é insuficiente [cf. Salmon, 1969, ed. 1976, pp. 85-140]. Tradicionalmente, distingue-se entre uma crítica interna ou de autenticidade e uma crítica externa ou de credibilidade.
A crítica externa visa essencialmente encontrar o original e determinar se o documento examinado é verdadeiro ou falso. É uma atuação fundamental e exige sempre duas observações complementares.
A primeira é que um documento "falso" também é um documento histórico e que pode ser um testemunho precioso da época em que foi forjado e do período durante o qual foi considerado autêntico e, como tal, utilizado.
A segunda é que um documento, nomeadamente um texto, pode sofrer, ao longo das épocas, manipulações aparentemente científicas que de fato obliteraram o original. Foi brilhantemente demonstrado que a carta de Epicuro e Heródoto conservada nas Vidas, Dogmas e Apotegmas de Filósofos Ilustres, de Diógenes Laércio, foi alterada por uma tradição secular que encheu a letra do texto de notas e correções que, voluntária ou involuntariamente, o sufocaram e deformaram com "uma leitura incompreensível, indiferente ou parcial" [Bollack e outros, 1971].
A crítica interna deve interpretar o significado dos documentos, avaliar a competência do seu autor, determinar a sua sinceridade, medir a exatidão do documento, controlá-lo através de outros testemunhos. Também aqui, e principalmente aqui, este programa é insuficiente.
Quer se trate de documentos conscientes ou inconscientes (traços deixados pelos homens sem a mínima intenção de legar um testemunho à posteridade), as condições de produção do documento devem ser minuciosamente estudadas. As estruturas do poder de uma sociedade compreendem o poder das categorias sociais e dos grupos dominantes ao deixarem, voluntariamente ou não, testemunhos suscetíveis de orientar a história num ou noutro sentido; o poder sobre a memória futura, o poder de perpetuação deve ser reconhecido e desmontado pelo historiador. Nenhum documento é inocente. Deve ser analisado. Todo o documento é um monumento que deve ser desestruturado, desmontado. O historiador não deve ser apenas capaz de discernir o que é "falso", avaliar a credibilidade do documento, mas também saber desmistificá-lo. Os documentos só passam a ser fontes históricas depois de estarem sujeitos a tratamentos destinados a transformar a sua função de mentira em confissão de verdade [cf. o artigo "Documento/monumento", neste volume da Enciclopédia; e Immerwahr, 1960]. 1 Jean Bazin, ao analisar a produção de um conto histórico – a história do aparecimento do célebre rei de Segú (Mali), no início do século XIX, feita por um literato muçulmano apaixonado pela história de Segú, em 1970 –, adverte que "na medida em que não se considera a si próprio ficção, um conto histórico é sempre uma armadilha: poderíamos acreditar com facilidade que o seu objeto lhe dá um sentido, que não ultrapassa aquilo que conta", enquanto que na realidade "a lição da história oculta outra, política ou ética, que, digamos assim, está por fazer" [Bazin, 1979, p. 446]. É necessário, com a ajuda de uma sociologia da produção narrativa, estudar as "condições de historização". Por um lado, deve conhecer-se o estatuto dos "fazedores" de história (esta observação é válida para os vários tipos de produção de documentos e para os próprios historiadores nos diversos tipos de sociedade) e, por outro, reconhecer os sinais do poder, pois "este gênero de conto derivaria de uma metafísica do poder". Quanto ao primeiro ponto, Jean Bazin nota que "entre o soberano e os seus súditos, os especialistas do conto ocupam uma espécie de posição intermediária de ilusória neutralidade: eles são constantemente solicitados a fabricar a imagem que os seus súditos têm do soberano, tal como a que este tem daqueles" [ibid., p. 456]. Jean Bazin aproxima, assim, a sua análise da efetuada por Louis Marin apoiada no Projet de
l'histoire de Louis XIV, com o qual Pellisson-Fontanier se esforçava por obter o cargo de historiador oficial. "O rei
precisa do historiador pois o poder político só pode atingir a plenitude, o absoluto, com um certo uso da força que é o ponto de aplicação da força do poder narrativo" [Marin, 1979, p. 26; cf. Marin, 1978].
A atualização dos métodos que fazem da história um ofício e uma ciência foi longa e contínua. No Ocidente, conheceu paragens, atrasos e acelerações, por vezes recuos; não avançou em todos os seus aspectos no mesmo ritmo, nem sempre deu o mesmo conteúdo às palavras pelas quais procurava definir os seus objetivos, mesmo o que é aparentemente mais "objetivo", o da verdade. Seguirei as grandes linhas do seu desenvolvimento, do duplo ponto de vista das concepções e dos métodos e, por outro lado, dos instrumentos de trabalho. Os momentos essenciais parecem- me ser o período greco-romano do século V ao I a.C., que inventa o "discurso histórico", o conceito de testemunho, a lógica da história, e funda a história na verdade; o século IV, em que o Cristianismo ilumina a idéia de acaso cego, dá um sentido à história, difunde um conceito de tempo e uma periodização da história; o Renascimento começa por esboçar uma crítica dos documentos, fundada na filosofia e acaba na concepção de uma história perfeita, o século
XVII, com os Bolandistas e os Beneditinos de S. Mauro, lança as bases da erudição moderna; o século XVIII cria as primeiras instituições consagradas à história e alarga o campo das curiosidades históricas; o século XIX afina os métodos de erudição, constitui as bases da documentação histórica e vê a história em tudo; o século XX, a partir dos anos trinta, conhece ao mesmo tempo uma crise e uma moda da história, uma renovação e um alargamento considerável do território do historiador, uma revolução documental. A última parte deste trabalho será consagrada a esta fase recente da ciência histórica. Seria aliás errado pensar que as longas fases de tempo, em que a história não deu saltos qualitativos, não conheceram o ofício de historiador, como Bernard Guenée o demonstrou brilhantemente em relação à Idade Média [1980; 1977].
Com Heródoto, o que conta na narração histórica não é a importância do testemunho. Para ele, o testemunho por excelência é o testemunho pessoal, aquele em que o historiador pode dizer: vi e ouvi. Isto é especialmente verdade, na parte da sua investigação dedicada aos bárbaros cujo país percorreu durante as suas viagens [cf. Hartog, 1980]. E também o é quanto à narração das guerras medas, acontecimento da geração que o precedeu, cujo testemunho recolhe diretamente, por ouvir dizer. Esta primazia dada ao testemunho oral e vivido manter-se-á em história, esbater-se-á mais ou menos quando a crítica dos documentos escritos, pertencentes a um passado longínquo, passar a um primeiro plano, mas conhecerá importantes ressurgências. Assim, no século XIII, os membros de novas ordens mendicantes, Dominicanos e Franciscanos, privilegiam, no seu desejo de aderir à nova sociedade, o testemunho oral pessoal, contemporâneo ou muito recente, preferindo inserir nos seus sermões exempla cuja matéria pertence mais à sua experiência (audivi) que à sua ciência libresca (legimus). As Memórias tornaram-se pouco a pouco elementos paralelos à história, mais do que história propriamente dita, pois que a complacência dos autores perante si mesmos, a procura de efeitos literários, o gosto pela pura narração desviam-nos da história e transformam-se num material – relativamente suspeito – da história: "Agrupar historiadores e memorialistas só é concebível numa perspectiva puramente literária", notaram Jean Ehrard e Guy Palmade [1964, p. 7], que retiraram o gênero memorialístico do seu excelente estudo e recolha de textos sobre a História. O testemunho tende a reentrar no domínio da história mas levanta problemas ao historiador com o desenvolvimento dos media, a evolução do jornalismo, o nascimento da "história imediata", o "regresso do acontecimento" [cf. Lacouture, 1978; Nora, 1974].
Arnaldo Momigliano [1972, ed. 1975, pp. 13-15] sublinhou que os "grandes" historiadores da Antiguidade greco-romana trataram, exclusivamente ou de preferência, do passado recente. Depois de Heródoto, Tucídides escreveu a história da Guerra do Peloponeso, acontecimento contemporâneo; Xenofonte tratou a hegemonia de Esparta e de Tebas, de que foi testemunha; Políbio dedicou a parte essencial das suas Histórias ao período que vai da segunda guerra púnica à sua época. Salústio e Lívio fizeram o mesmo; Tácito examinou o século anterior ao seu e Ammiano Marcellino interessou-se sobretudo pela segunda metade do século IV. A partir do século V a.C., os historiadores antigos conseguiram recolher uma boa documentação sobre o passado, o que não os impediu de se interessarem preferencialmente pelos acontecimentos contemporâneos ou recentes.
A prioridade dada aos testemunhos vividos ou recolhidos diretamente não impediu os historiadores antigos de se deterem na crítica destes testemunhos. Assim, Tucídides diz: "Quanto à narração dos acontecimentos da guerra, pensei não dever escrevê-los confiando em informações de qualquer um nem nas minhas impressões pessoais; falo apenas por testemunhos oculares ou depois de uma crítica, tão apurada e completa quanto possível das minhas informações. Isso não se faz sem dificuldades, pois em cada acontecimento, os testemunhos divergem segundo as simpatias e a memória de cada um. A minha história terá menos encantos que o mito; mas quem quiser pôr a claro a história do passado e reconhecer no futuro as semelhanças e analogias da condição humana, basta-me que a considere útil. Esta história é uma conquista definitiva e não uma obra aparatosa para um auditório de momento" [A Guerra do
Peloponeso, I, p. 22].
Com Políbio, o objetivo do historiador ultrapassa uma lógica da história. É constituído pela investigação das causas. Preocupado com o método, Políbio consagra todo o livro XII das Histórias a procurar definir o trabalho do
historiador, através da crítica de Timeu. Tinha definido previamente o seu objetivo. Em vez de uma história monográfica, escrever uma história geral, sintética e comparativa: "Ninguém, pelo menos que eu saiba, tentou verificar a estrutura geral e total dos fatos passados... Só partindo da ligação e da comparação dos fatos entre si, das suas semelhanças e diferenças, podemos então, após o seu exame, tirar proveito e ter prazer com a história" [I, 4]. E, acima de tudo, a afirmação essencial: "Quando se escreve ou lê história, deve dar-se menos importância à narração dos fatos em si, que ao que precedeu, acompanhou e se seguiu aos acontecimentos; porque, se se tirar à história o porquê, o como, a finalidade da existência de um ato, ou a sua lógica, o que resta não é mais que espetáculo e não pode tornar-se objeto de estudo; distrai por momentos, mas não tem aplicação nenhuma no futuro... Afirmo que os elementos mais necessários à história são as conseqüências, as circunstâncias que rodeiam os fatos, e principalmente, as suas causas" [ibid., III, 31-32]. Dito isto, não devemos esquecer-nos que Políbio coloca no primeiro plano da causalidade histórica a noção de Fortuna, que o seu principal critério para avaliar um testemunho ou um destino é de ordem moral e que os discursos ocupam um grande espaço na sua obra [cf. Pédech, 1964].
Os historiadores antigos basearam a história na verdade. "E próprio da história começar por contar a história com verdade", assegura Políbio. E Cícero dá definições que continuam válidas durante a Idade Média e o Renascimento. Principalmente esta: "Nam quis nescit primam esse historiae legem, ne quid falsi dicere audeat? Deinde ne quid veri non audeat?" 'Quem ignora que a primeira lei da história é não dizer nada falso? E a segunda, ousar dizer toda a verdade?' [De oratore, II, 15, 62]. E na célebre apóstrofe em que reclama, para o orador, o privilégio de ser o melhor intérprete da história, o que assegura a imortalidade e onde lança a definição da história "mestra da vida" (magistra vitae), esquecemo-nos muitas vezes que, neste texto em geral não citado na íntegra, Cícero chama à história "luz da verdade" ("Historia vero testis temporum, lux veritatis, vita memoriae, magistra vitae, nuntia vetustatis, qua voce alia nisi oratoris immortalitati commendatur?" [ibid., 9, 36]).
Embora Momigliano tenha insistido com razão no gosto dos historiadores antigos pela história nova, é um exagero a afirmação de Collingwood [1932] que "o seu método estava de tal modo ligado à tradição oral, que apenas tinham conseguido escrever a história da geração imediatamente precedente". Tácito, por exemplo, no Diálogo dos